O Herdeiro

4 Apenas um cochilo da tarde


Notas iniciais
E acabou a 1° parte da história. Serão 7 partes no total. E a boa notícia é que já estão todas escritas!!! Vou tentar postar todos os dias e já deixar agendado os próximos. Boa leitura :)

Arturo saiu da escola depois do meio-dia. No portão da saída os alunos se juntavam nos seus grupinhos, um em cada canto. Ele, porém, não fazia parte de grupinho nenhum, deu tchau para as poucas pessoas com quem conversava e foi atravessar a rua enquanto esperava os carros darem a oportunidade.

— Oi. — Alice parou do seu lado.

— Oi. — Ele respondeu, olhando para ela e cruzando os braços.

— Você é bom em química né? — Ela perguntou com um meio-sorriso. — Poderia me ensinar algum dia desses, eu posso pagar. Tipo uma recuperação… preciso melhorar minhas notas.

— Não só para química né. — Arturo respondeu com uma expressão brincalhona, mas não foi o que Alice interpretou.

— Não sou burra também…

— Não quis dizer que é! — Ele emendou no mesmo instante. — Só que… Química é o menor dos problemas, eu posso te ajudar, mas se você não se esforçar não vai adiantar muito. No fim do semestre a prova quem faz não sou eu, entende?

— Mas os trabalhos e atividades poderiam ser? — Ela perguntou segurando no braço de Arturo, o sorriso malicioso no rosto, então se inclinou para frente e lhe deu um beijo na bochecha. — Pensa nisso. — Disse, deslizando os dedos acima no braço de Arturo até a ponta dos indicadores chegarem por baixo da camisa, nas axilas dele.

Arturo então ficou travado feito uma rocha. Alice o soltou e sorrindo foi embora para o grupo de meninas do qual fazia parte. Ele finalmente atravessou a rua, sem jeito, com a mochila na frente do corpo, tentando esconder a maturidade a flor da pele.

*****

Arturo foi até o ponto de ônibus, pela calçada como as pessoas sempre faziam. Mas chegando lá, enquanto esperava o ônibus, pensou em ir à lojinha da Dona Dida.

Teve que retornar, mas optou por cortar caminho por uma viela em um quarteirão, por onde os estudantes subiam até o ponto de ônibus, para poder fumar escondidos das viaturas escolares. Como era de esperar, ali estavam os fumantes e o cheiro de maconha e cigarros.

Foi na metade do caminho, passando rápido e sem encarar ninguém, que alguém encarou ele.

— Eae mané. — A voz era familiar. Arturo pensou em continuar andando, pensou em correr. Invés disto ele parou. — Tu mesmo otário, chega aí.

Virou-se olhando o grupinho de maloqueiros, e entre eles estava Caiam.

— Deixa eu te passar umas ideia, brother. — Caiam era o valentão da escola, cheio de marra, com mais músculos que cérebro, estava usando uma camiseta com os heróis na usina nuclear de Angra que ele havia transformado em regata, mas os cortes eram tortos. — A Alice não é pro teu bico de passarinho não.

— Tá bom. — Arturo respondeu sem querer caçar encrenca. Ele era sozinho ali, mas nem sempre fora assim. O seu melhor (e único) amigo havia sido transferido no ano anterior. O motivo era Caiam, a família de Jean não queria correr riscos e Caiam era um risco muito grande.

— Então dá próxima vez que ela vier atrás de você, fala pra ela vir pedir as coisas pra mim, eu sei do que ela precisa! — Caiam disse segurando o que tinha no meio das pernas, olhando para os amigos do grupinho. Todos pareceram gostar da brincadeira, riram alto.

— Só que não sabe. — Arturo disparou sem se conter ou pensar no que estava fazendo, apenar viu uma oportunidade. — Ela precisa de notas boas. E as suas são uma merda!

O grupinho fez um som de zombaria com Caiam, que enrubesceu. Com isso Arturo se virou e voltou a andar. Caiam não aceitou o desaforo. No mesmo instante partiu para cima de Arturo que, de costas, nada viu.

Levou uma rasteira e caiu batendo joelho, cotovelo e ombro no chão, rolou para longe do agressor que vinha se insinuando para cima dele como um pavão, braços abertos gritando “quem é que manda?” Arturo se levantou, pegou sua bolsa do lado e saiu correndo beco a fora na mesma direção que havia vindo, com os olhos mareados e prestes a chorar.

Não conseguiu ir para a loja de Dona Dida. Ao invés disto, foi para casa, frustrado com o ocorrido, enquanto o joelho sangrava manchando a calça e o cotovelo e ombro também. A dor só não incomodava mais que seu sentimento de impotência.

Quando entrou em casa sua mãe o viu e disparou as perguntas, as acusações, dizendo que iria atrás da família daquele menino, que eles iam “ver só” por que “ninguém mexe com meu filho”.

Arturo sabia pouco da sua mãe antes dele existir na vida dela, mas sabia que era uma mulher comum de São Paulo, que tinha tido um namorado e quase se casou. Foi quando perdeu o emprego e em seguida descobriu que não podia ter filhos. Assim Serafina se viu também perdendo o namorado que sonhava em consolidar família.

Não muito depois aquela mulher desolada encontrou um recém-nascido abandonado junto de lixeiras nos fundos de um restaurante onde ela estava trabalhando na limpeza. Decidiu criar como seu, chamou o recém-nascido de Arturo e quase um ano depois, graças à bondade do gerente do restaurante, Serafina conseguiu encontrar um teto para morar saindo das acomodações provisórias. O “pai” de Arturo viera depois, quando ele já tinha quatro anos. Daí em diante estiveram sempre bem, passando pelos apuros sempre juntos, um lutando pelo outro. E Serafina sempre lutando por Arturo, com unhas e dentes, para proteger o filho que nunca poderia ter e mesmo assim tivera.

— Deixa isso pra lá mãe. — Pediu para ela depois de tomar banho, vendo que ela estava realmente brava, pronta para ir à escola no dia seguinte, causar o maior escândalo. E me distanciar de vez de Alice. — Não foi nada, não vai mais acontecer.

— Se acontecer…

— Não vai! — Pontuando o assunto, Arturo se virou e subiu as escadas, correndo, para seu quarto.

Fechou a porta e puxou a coberta do guarda-roupa. Só então percebeu que estava quente demais para cobertas. Jogou-a no chão. Pela janela ainda entrava luz do sol. Era de tarde quando Arturo se jogou na cama e enfiou a cabeça no travesseiro, suprimindo seu berro de raiva enquanto pensava em tudo que podia ter feito, e como teria fracassado de qualquer jeito.

Queria ter acertado nem que fosse um soco. Mas tudo que eu fiz foi correr.

Continuou deitado por vários minutos, remoendo sua raiva, até dormir.

*****

Acordou de um sonho inquieto, se virou na cama e sentiu algo grande frio e quadrado entre as canelas. Quando abriu os olhos viu folhas no travesseiro e então o susto.

— MÃEEEEE! — Berrou a plenos pulmões quando se deparou com seu quarto destruído. Fomos roubados?

Tudo estava jogado, todas as roupas fora do guarda-roupa, que estava no chão, caído, a escrivaninha lavada com água de sua garrafa e no teto havia manchas de tinta dos potes de tempera-guache agora vazios espalhados pelo quarto. Tudo havia sido reduzido a caos, suas folhas, as lições, o RPG de mesa que planejava, os mapas, tudo destruído, rasgado, molhado. A gaveta do criado mudo estava na sua cama, e o criado mudo estava desmantelado.

Passos apressados, sua mãe subia a escada correndo ao ouvir seu berro. Para seu alívio, porque pensou que haviam invadido e ele não percebera, temeu por um instante pela segurança de sua família, mas sua mãe estava viva, então tudo estava bem… tão bem quanto poderia estar naquela circunstância.

Arturo levou as mãos à cabeça, chocado. Como iria explicar aquilo? Foi quando a porta estralou, sua mãe puxou a maçaneta do lado de fora, mas as dobradiças estavam soltas e toda a porta despencou como se estivesse apenas encaixada.

Mas antes de cair no chão à porta parou, sua mãe parou, o próprio tempo parou.

— Ora, ora, ora, quem diria. — Uma voz desconhecida encheu o quarto.

Arturo olhou ao redor e lá estava, sentado em cima do guarda-roupa caído um homem que ele nunca havia visto vestido como ele nunca viu alguém se vestir. Usava um saiote de lã trançada e as pernas eram cobertas por uma calça que parecia couro curtido. No peitoral placas de metal sobrepostas faziam algo como uma armadura e havia um símbolo que para ele era desconhecido.

— Quem é você? O que fez…

— Vou chutar que por já ter entrado na outra dimensão começou a criar ilusões sobre o que é aquele mundo e como você se encaixa nisso tudo. Deixou de ir falar com Darttis e acabou tendo problemas, raiva… Isso despertou essa força que não sabe controlar, mas agora sabe que possuí, então sabe que não é inútil, apenas despreparado. Você deve estar se perguntando sobre o quarto… não fui eu. Você fez isso, enquanto dormia. — O homem se levantou, os dedos balançaram enquanto a mobília, a água, a tinta, tudo voltava ao lugar, sua mãe recuava uns passos e a porta voltava a se fechar, os pinos das dobradiças voltavam a se rosquear. — Meu nome é Jasper Keulav.

— O que…

— O tempo não parou para todos, fora da casa o relógio ainda está rodando. Se eu continuar essa distorção sua família e até mesmo você, podem ficar loucos, distorção é uma arte perigosa, assim como essa raiva que você sentiu. Preciso ir, mas me encontre na loja da Senhora Darttis onde você encostou em algo curioso, temos assuntos a tratar, Arturo.

— Eu…

Então o quarto estava refeito, o relógio voltou a contar.

A porta se abriu novamente.

— O que foi? — Sua mãe invadiu o quarto, tinha uma faca na mão e uma cenoura na outra.

Arturo olhou para os lados, para trás, para a janela…

— Eu… Não foi nada. — Olhando ao seu redor, percebeu que não faria sentido a verdade, não mais porque aparentemente nunca havia acontecido. — Pesadelo. — Se levantou depressa sentindo o hálito ruim na boca e calçou os chinelos. Ainda usava a roupa com a qual havia chegado.

— O que vai fazer? — Serafina perguntou olhando e indo atrás de Arturo conforme o menino saia do quarto rumo às escadas.

— Ir atrás de algo…

— Arturo…

— Eu já volto. Não se preocupa, eu… lembrei de algo que deixei para trás.

Um interrompeu o outro, Serafina, porém, não seguiu ele depois que Arturo cruzou a porta da casa. Era começo de noite, e o alaranjado dava lugar para ondulações azul-marinho e pontos brilhantes das estrelas a despontar. Mas o que raios aconteceu? Deixando tudo para trás, Arturo começou sua caminhada para a loja de Dona Dida. Sem saber que, de fato, deixava tudo para trás.