O Herdeiro

6 A primeira e última noitada


Teria sido um sonho se não tivesse consigo a prova da sua loucura.

Quando o tempo da lamparina se esgotou, Arturo tinha nas mãos o livro, que trouxe consigo, caindo no chão da lojinha de Dona Dilma. A senhora lhe disse para ficar com o livro, ir lendo, talvez aprendesse algo útil. E assim ele fez.

Os dias foram passando e Arturo voltou a sua rotina em São Paulo, ignorando Ipeiros em sua existência, mas todo dia ansioso para voltar da escola e ler aquelas páginas amareladas. Dizia para si mesmo que não se importava com Ipeiros, com Jasper ou com os unicórnios de seis patas, mesmo assim não conseguia deixar de ler e reler as páginas amareladas a custo de deixar de lado os deveres de casa da própria escola. E conforme os dias passavam e Jasper não retornava, ele aos poucos perdia as esperanças que um dia fosse ver Jasper novamente.

Não sabia bem o porquê, mas também não retornou para a loja de Dilma, sentia que devia esperar. Ele disse que evitaria uma guerra, e se não conseguiu? As vezes o pensamento lhe ocorria, mas Jasper era tão poderoso que, alegadamente, podia estar em dois luares ao mesmo tempo. Se ele não voltou é por opção. As vezes o pensamento lhe ocorria também.

Mas não foi só aquele livro que leu nos últimos dias. Alice com suas notas vermelhas clamava por ajuda, e ele não conseguia negar. Passou algumas tardes na casa dela ensinando química e física para Alice, às vezes história também e como quem não quer nada brincava com ela sobre seres místicos e como eles poderiam ter existido antigamente, tentava puxar um assunto que nunca ia para frente, parecia que só ele acreditava naquelas histórias e com razão.

Mesmo assim as aulas particulares surtiram um resultado inesperado, um saldo positivo que ele não previu, mas aceitou de bom grado.

— Então, essa semana eu vou fazer dezesseis anos. Meu pai alugou um buffet para a festa e ainda tem convites… se você quisesse vir…

Ela o havia convidado.

Arturo não sabia sequer o que falar. E por isso gaguejou antes de conseguir de fato dar uma resposta. Ele sabia que naquela semana era aniversário de Alice, acompanhava a data com bastante atenção desde que a conhecera, mas nunca foi convidado para uma de suas festas. Na verdade, nunca foi convidado para festa alguma naquela escola. A única vez que foi em uma festa, foi na junina organizada pela própria diretoria, e ainda conseguiu ser hostilizado pelos alunos mais velhos, desde então se excluíra para evitar humilhação, não era como se alguém sentisse sua falta ou ele a de alguém.

Mas desta vez foi diferente, não apenas ele conseguiu ser convidado para uma festa, era a única festa que realmente importava para Arturo. Meu momento. Ele pensava enquanto se arrumava. O relógio marcava quase 20 horas quando, de supetão, abriu a porta do quarto.

— Mãe, eu vou sair. — Gritou de lá de cima.

— O quê?

— A festa da Alice, lembra? Eu vou ir.

Tinha comentado com Fina, mas não que iria, apenas que fora convidado. Arturo debateu consigo mesmo se iria, a verdade é que nunca cogitou não ir, apenas se valeria a pena ir. Naquele dia sequer teve sua sessão de Ipeiros, não olhou para o livro de Jasper nenhuma única vez, estava ansioso demais com a festa.

Serafina então subiu até o quarto.

— To sentindo o cheiro do perfume lá da cozinha. — Ela disse olhando para o quarto, e então indo até a escrivaninha de Arturo. — Quando vai se livrar desse livro?

— É de um amigo. Já estou terminando! — Calçando o tênis Arturo disse para a mãe, que olhava o livro de couro, velho e cheio de desenhos estranhos que ele começava a entender, mas sabia que sua mãe não entenderia nada.

— Parece livro de macumba.

— É uma história de fantasia! — Ele respondeu indo até a mesa, pegou o livro e colocou dentro do guarda-roupa. — Não vai tentar limpar ele, é velho, vai acabar estragando e é caro demais!

— Não vou mexer nas suas quinquilharias. — Serafina rebateu olhando para o filho. — Tá bonito.

— Eu já vou indo.

— Tudo bem, qualquer coisa só mandar mensagem.

— Pode deixar! — Arturo abraçou a mãe e saiu escada abaixo, cruzando a porta da casa na noite fria. O vento era gelado embora não fizesse frio de verdade.

Caminhou até o buffet, não era longe dali. O bairro onde moravam felizmente tinha de tudo, o que tornava a vida bem cômoda para todo mundo. Quando chegou na frente do salão viu os enfeites, uma faixa havia sido pendurada na entrada com “Feliz 16 anos” em dourado em um fundo rosa. Balões flutuavam presos por cordinhas prateadas dos dois lados da porta que estava aberta e nas laterais da entrada havia dois jardins pequeninos, cercados.

Encostado nessa cerca do lado do beco entre o buffet e um prédio residencial estava Caiam junto de sua turma de valentões. Encarando aqueles que se aproximavam, Caiam mesmo tinha um cigarro nos dedos e a fumaça subia em fileiras brancas dançantes se desfazendo no ar.

Arturo baixou a cabeça e passou por Caiam sem fazer contato. Não gostava dele, nem Caiam de Arturo. A diferença é que Arturo era o alvo fácil, enquanto para ele Caiam era o inimigo temido, criava uma situação de presa e predador, perto de Caiam Arturo se sentia tão inferior que mesmo se pudesse ganhar em uma briga, seu complexo e inferioridade lhe faria perder antes mesmo de começar a brigar.

No salão havia um espaço para dançar e um bar, algo extremamente inútil na concepção de Arturo, pois não podiam servir nada alcoólico. Mais para o fundo tinha mesas e cadeiras e na lateral havia um palco com os instrumentos para uma banda que deveria chegar mais tarde, o palco tinha saída para a lateral do Salão, no beco onde Caiam e os outros fumavam. Arturo olhou para cima e pode ver balões presos em uma rede, esperando a hora dos parabéns para despencarem sobre todos ali embaixo. O salão já estava cheio de alunos, professores, tios, amigos e amigas, de Alice, mas ninguém que olhasse para ele e lhe desse oi. Nem mesmo Alice. Onde está você?

A música tocava baixinho, pop dos anos 2000, e algumas pessoas dançavam coreografias antigas, rindo e bebendo refrigerante. Arturo as ignorou desviando de seus corpos, caçou um canto para se amoitar enquanto esperava o grande momento. Ela vai me ver. Pensou procurando por Alice. Vamos dançar juntos. Imaginava-se como se fosse ele a princesa da noite. Só queria isso, ser por uma noite o foco da atenção.

Não foi o que aconteceu.

Alice chegou com o som de tambores e palmas, usando um vestido azul celeste ela foi paparicada pelas amigas, parou para tirar fotos, riu com os elogios, recebeu presentes. Arturo até tentou falar com ela, se levantou e foi até a multidão, mas toda vez que se aproximava uma nova onda de pessoas surgia, mais ferozes e determinados que ele, empurravam-no para trás, e assim ele não conseguia sequer dizer oi para Alice. Depois de uma hora de hesitação e frustração, decidiu que estava se fazendo de tolo. Ela precisa da sua ajuda pelas notas, não por você. Te convidou por dó, não porque te queria aqui.

Se levantou e cruzou o salão de dança, indo embora escutou a voz doce…

— Art, eu nem te vi… onde tá indo? — Ele se virou olhando para trás. Para Alice.

— Eu… não acho que devia ter vindo.

— Eu concordo! — Caiam disse entrando no salão junto de seus amigos. — Mas já que está aqui…

— Caiam, larga ele…

— A gente só tá conversando, bebê. — Caiam falou para Alice, então indo na direção de Arturo, faz ele recuar. Não era mais possível sair do salão, porque os amigos de Caiam faziam uma muralha na porta. — Não é isso que você quer? Que todo mundo seja amiguinho.

— Cara, eu to indo embora, nem falei com ela…

— Bom, significa que tu abriu o olho! — Caiam disse encostando Arturo no bar. Então apoiou o braço no balcão e sorriu para ele. — Mas aí eu me pergunto por que você veio aqui hoje?

— Eu o convidei, Caiam, deixa de bobagem. — Alice interrompeu Caiam e se colocou entre os dois. — Vem Art, vou pedir pro meu pai te levar pra casa.

— Eu não terminei…

— Eu sim! — Alice cortou a palavra no meio e olhou séria para Caiam.

— Não é porque é seu aniversário que vou deixar você me destratar, garota. Tá achando que isso é zona? Não sou suas amiguinha não…

— Não fala assim com ela.

— Art, deixa…

— É, Art. Não se intromete. — Então Caiam pegou Alice pelo pulso, a puxando para o lado, como se fosse virar de costas para ele.

— Você tá me machucando…

— Larga ela. — Arturo não saberia explicar, mas surgiu uma coragem que nunca soube que tinha. Pulou para cima de Caiam, e o fez soltar o pulso de Alice…

Na verdade Caiam soltou Alice para poder agarrar Arturo pelo colarinho da camisa.

— Eu vou quebrar…

Caiam começou a falar, mas então algo estourou nas suas calças.

O som foi como o de uma bombinha de pólvora e Caiam berrou de dor, recuando. Alice deu um pulo e gritou sem entender o que aconteceu, os convidados todos olharam para eles. O isqueiro havia explodido no seu bolso, o impacto foi tamanho que rasgou o jeans, Caiam precisou se apoiar no balcão, gemendo de dor por um segundo.

— Peguem ele! — Berrou com a careta de dor, com uma mão segurando a perna e com a outra apontando para Arturo.

Corre! Só conseguiu pensar nisso. Para onde? Ainda mexia os dedos sem acreditar que conseguiu. Saiu correndo para o palco, pulou para cima da banda e desviou do baterista, indo para a saída dos fundos. Seguiu a placa verde brilhante de “Saída”. Eu consegui, sozinho. Eu consegui!

No beco havia três bicicletas dos amigos de Caiam e a mobilete do próprio caiam.

Arturo pegou uma das bicicletas e saiu pedalando depressa. Sorria enquanto cruzava a rua e sentia a respiração acelerada. Eu consegui. Sozinho.

Então, na esquina quando fez a curva, ouviu o motor da mobilete. Atrás dele surgia Caiam, sua expressão era da mais pura fúria, o perseguindo e matando distância mais rápido que o que Arturo gostaria. Ele guinou a bicicleta e quase caiu, mas conseguiu fazer uma curva em cima da hora e entrar em uma viela que cortava o quarteirão. Vou sair perto da escola. Pensou. Quando olhou para trás ao ouvir a Mobilete, não percebeu um gato saindo dos sacos de lixo e então tudo aconteceu muito rápido.

Arturo perdeu o controle da bicicleta e caiu, o gato miou alto e pulando por cima da bicicleta e Arturo sumiu entrando em uma janela entreaberta. Arturo se ralou todo no chão de cimento grosso e Caiam parado na entrada da Viela olhava para ele como o diabo olhava para a cruz. De novo. Arturo podia não ser bom de briga, mas entendia bem de química.

Caiam acelerou a mobilete sem soltar o freio, queimando pneu, assustando Arturo, mas o garoto não pareceu exatamente assustado. Quando Caiam soltou o freio as duas rodas patinaram e a mobilete avançou para dentro da viela…

Arturo tinha o olhar fixo, não em Caiam, mas na mobilete. O mesmo truque das roupas. A mesma artimanha, expansão, contração… esticou o braço a palma da mão aberta. Quando Jasper lhe dera o livro, ele precisou em uma hora entender como fazer suas roupas voltarem ao normal, mas a verdade é que a magia não era sobre as roupas, mas sobre matéria… Qualquer matéria! Um isqueiro tem gás comprimido, até ficar líquido. Uma mobilete usa combustão com gasolina líquida até queimar e sobrar… O motor debaixo do quadro simplesmente enguiçou em um segundo, como se tivesse “morrido”, mas na verdade os tubos se sobrecarregaram com o carbono comprimido, e então outro estouro. O escapamento da mobilete não aguentou o excesso, o estouro jogou a mobilete sem rumo, e seu piloto despreparado ruiu da montaria para o chão.

Arturo lembrou do plasma nas veias, da energia, do poder.

Se levantou, mancando, e correu para longe dali antes que Caiam se levantasse também. As luzes na viela se acenderam, olhares curiosos nas janelas. Os amigos de Caiam surgiram com as outras bicicletas, um deles na garupa. Foram socorrer Caiam, mas ele só queria uma coisa, alcançar Arturo.

Na rua que saíram, ele ainda teve que correr por mais dois quarteirões, para encontrar-se com uma velhinha fazendo carinho em um gato na calçada.

— Dilma…

— Arturo. — Dilma Darttis levantou a cabeça e viu Arturo. Então olhou para além dele, para os perseguidores.

Arturo olhou para trás também, e viu Caiam e os demais correrem, não atrás dele, mas para longe dele, assustados, gritando coisas horríveis como se vissem algo monstruoso.

— O quê…

— Ele não me viu. Viu algo que não gosta. — Dilma respondeu prontamente se colocando de pé enquanto o gato desaparecia como fumaça. — Você aprende rápido.

— Eu… obrigado.

— Está tudo bem criança? Tem andado sumido.

— Jasper também sumiu. Eu pensei… talvez não fosse para eu voltar.

— Jasper é Misewl, ele tem muitas obrigações. — Dilma respondeu indo para a porta de sua lojinha. — Nem sempre pode aparecer para salvar o dia, não significa que não esteja de olho. Mesmo assim você está indo bem por conta própria.

— Eu sei, digo… entendo, mas como… Eu pensei que seria diferente. Se não fosse esses poderes…

— Você duvidaria da verdade que viu? — Dilma abriu a porta da sua lojinha e olhou para Arturo antes de entrar. — Os humanos são assim. Adoram chamar certezas difíceis demais para assimilar de ilusões. O rapaz vai se convencer que o que viu hoje foi uma ilusão, coisa da cabeça dele. Mas não era mentira, era?

— Não.

— Ele sabe que é real, mas com o tempo e seu dia a dia mundano, deixará de ser. Ipeiros é real para você, mas deixará de ser. Ou será seu lar? — Dona Dida disse com um sorriso carinhoso, então entrou na sua lojinha e fechou a porta atrás de si, deixando Arturo sozinho na penumbra da noite, com seus pensamentos, suas verdades, e suas ilusões.

No fim das contas, quem ele estava tentando enganar? A si mesmo ou ao mundo ao seu redor?