O Herdeiro
3 Minha benção
Notas iniciais
Aos poucos, o clima foi se transformando numa festa de boas vindas. Molly já tinha cumprimentado a todos e apresentado William como seu filho. É claro que ela via os olhares das pessoas de “Ah, por isso ela foi embora” ou “Deve ter arrumado algum irresponsável que a engravidou em Londres e fugiu para Nova York”.
Apesar de negar para si mesma, Molly sabia que todos esses pensamentos eram verdade. Tinha ido embora criar seu filho sozinha em Nova York. Naquela época, fora a única solução que ela tinha encontrado. Usou todas as suas economias e quando não dava mais para segurar as pontas lá, teve de voltar para Londres. Uma boa oportunidade tinha surgido e Molly não podia se dar ao luxo de recusar. Agora ela era a nova Diretora-Chefe do St. Bartholomew’s Hospital e ao contar essa novidade a Mary, viu que tinha tomado a decisão correta.
–Uau amiga, fico muito feliz por ser você. –Mary disse e seguida por um olhar de curiosidade, fez a pergunta que Molly temia desde que tinha chegado: — Então, quando vai me contar essa história toda do William? Posso não ser boa em deduzir muitas coisas, mas ele tem alguma semelhança com Sherlock.
Ao ouvir isso, Molly sentiu um choque súbito no corpo. Será que a verdade era tão óbvia assim? Nunca tinha conversado sobre isso com ninguém e agora precisava contar toda a história nos mínimos detalhes. Ela sentia que precisava disso.
Mas antes que pudesse dizer alguma coisa, percebeu que estava chorando. Algo que ela não se permitia fazer nos últimos 5 anos. Precisava ser forte e precisava estar forte por William. Ele era apenas uma criança que dependia dela. Ele era seu mundo na verdade. E enquanto lutava com suas emoções, observou o filho num canto mais afastado, brincando com Olivia. Sabia que o filho não era muito bom em fazer amizades, estava no sangue dele. Mas a presença de uma Watson sempre mexia com algum Holmes e Molly não pode segurar um sorriso ao pensar nisso.
William foi uma benção na vida dela apesar de tudo e o amava incondicionalmente. Ela sempre pensava nele assim e foi com essas palavras que começou a contar tudo para Mary:
– William foi a minha benção Mary. Ele me fez mudar muito, me fez amadurecer e é a coisa mais importante para mim agora.
***
Enquanto conversavam, as duas não perceberam que John as observava. Por que será que Molly tinha voltado? Não, a questão maior era porque ela tinha ido embora? Sherlock nunca tinha tocado no assunto. E quando Molly foi embora, abandonando Sherlock, ele tinha voltado a ser o mesmo detetive frio e calculista de quando John o conhecera. A única demonstração de afeto que demonstrava às vezes, era para com Olivia. Ela era doida por ele e John não entendia por que. E mesmo depois de 5 anos, Sherlock ainda parecia não ter mudado em quase nada. Prova disso era que ele nem tinha vindo a festa. Ele tinha perdido a maior surpresa de todas. E então John teve a idéia de mandar um SMS para Sherlock, o atualizando das coisas:
Molly não voltou sozinha. Você deveria ter vindo.
John
***
–Olá crianças, se divertindo? – John perguntou para sua filha Olivia e ao novo amigo recém chegado de Nova York.
–Sim papai, Will é muito divertido e fala engraçado. – Olivia disse, se referindo ao sotaque americano de Will e abrindo um sorriso de orelha a orelha. John ainda não acreditava o quanto a sua menininha tinha crescido.
–Will? – Ele perguntou levantando uma sobrancelha. –Pelo visto, vocês já estão bem amigos.
–Sim senhor. A companhia dela é muito agradável. –William enfim se manifestou, se esforçando para ser sociável e tentando demonstrar um sorriso.
John não pode deixar de rir ao notar a semelhança do garoto com seu grande amigo, Sherlock Holmes. Definitivamente, Molly tinha muito o que explicar.
***
– Filho precisamos ir. – Molly disse para William, enquanto ajudava Mary a arrumar algumas coisas depois da bagunça da festa. – Você amanhã tem aula e eu preciso começar no primeiro dia do meu novo emprego.
–Tudo bem mamãe. Tchau Olivia, tchau tia Mary e tchau tio John. – O pequeno logo se apressou em dizer. Mas em seguida, como que tivesse sido anestesiado por um flash, voltou e perguntou a John: — Você não é o John que tem aquele blog sobre o grande detetive Sherlock Holmes, é?
A menção a Sherlock Holmes fez todos pararem assustados. Ele não sabia que o próprio Sherlock Holmes era seu pai? Assim que John se apercebeu disso olhou para Molly, que o encarava implorando com os seus profundos olhos castanhos para que não dissesse nada. Ela deve ter escolhido banir Sherlock da vida deles, John pensou.
–Na verdade, sou eu sim. – Ele então respondeu ao garoto. – John Watson, fiel companheiro de Sherlock Holmes, um prazer conhecê-lo. – John então esticou a mão direita, como em cumprimento, fazendo uma brincadeira, mas não esperava a reação do menino. Assim que disse seu nome, William correu e o abraçou, dizendo:
–Eu sou seu maior fã! Leio o seu blog quase todos os dias! Não acredito que você não me contou mãe que esse era o John Watson. O Doutor John Watson. – William disse dirigindo essas últimas frases para Molly, que estava mais surpresa do que John naquele instante. Ela sabia que o filho era completamente viciado no blog de John, mas nunca tinha o visto tão feliz e alegre, muito menos tão espontâneo. Realmente, o ar de Londres não era saudável. –Por favor mãe, podemos ficar mais um pouco? Por favor, por favor! – William implorou.
Molly não sabia o que dizer. Apenas olhou para a cena: seu filho abraçando as pernas de John Watson, que era o máximo que a altura de William permitia, implorando para ficar e conversar. Era inacreditável.
–Me desculpe filho. Mas precisamos ir. Você vai acordar cedo amanhã, lembra? É seu primeiro dia na escola.
–Em que escola ele vai estudar? – John perguntou – Talvez eu possa ir buscá-lo amanhã, depois de pegar Olivia e podemos colocar um fim em todas as curiosidades desse meu grande fã. – John sugeriu, com um sorriso amistoso. Molly sabia o quanto isso seria importante para William, então com um suspiro típico de uma mãe vencida pela insistência do filho, disse:
–Tudo bem. Ele vai estudar na escola em frente ao St. Bartholomew’s Hospital. – Ela disse, imediatamente recebendo um abraço de gratidão de William.
–Obrigado mãe, muito obrigado! – Ele agradeceu com um sorriso enorme que Molly nunca tinha visto.
–Uau, você vai estudar na mesma escola que eu? – Olivia disse, sorrindo ao perceber que teria mais um amigo na escola. – Podemos lanchar juntos na hora do recreio Will, aí posso te apresentar o Mark, a Julia, Denise e a Agatha. Os meus mais melhores amigos.
–Não é “mais melhores” que se diz Olivia, é só “melhores amigos”. – John corrigiu. – Então perfeito. Amanhã no horário da saída, eu tomo conta desses dois.
Ao se despedirem, William mal podia agüentar de felicidade e ansiedade por conseguir passar um dia inteiro com seu grande ídolo. Torcia para que também pudesse conhecer Sherlock, aí ficaria feliz por completo. A única coisa que o preocupava era conhecer todos aqueles amigos de Olivia. Ele realmente tinha gostado da pequena Watson, mas não estava nem um pouco a fim de ser legal com outros alunos.
Para Molly aquele tinha sido um dia e tanto. Ela estava em Londres fazia apenas 24 horas e todos já conheciam William. Exceto Sherlock. Ela temia o dia em que isso teria de acontecer porque Sherlock nem sonhava que era pai. E agora Mary sabia de tudo o que tinha acontecido. Com certeza, até o fim da noite, John também iria saber. Mas agora ela não se importava. A vida iria correr bem em Londres, pois ela amava seu filho e faria de tudo para protegê-lo. Ele era sua benção. Somente sua.
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