O Herói do Olimpo
35 Outra dimensão
Notas iniciais
Acordei com a mente bagunçada. O primeiro pensamento a vir foi: aonde eu estava? Ergui minha cabeça e olhei para todos os lados. Eu estava na enfermaria do acampamento, mas algo estava de diferente nela. Dei de ombros e me levantei, sentindo algumas dores no corpo.
Não havia ninguém além de mim naquele lugar. Peguei Contracorrente que estava na cabeceira da cama e andei até a porta. Abri uma pequena fresta e olhei para o acampamento. Já era noite, por volta da hora do jantar. Não havia nada de anormal, até então.
Abri completamente a porta e saí da enfermaria. Alguns campistas olhavam para mim mas logo já voltavam a fazer suas atividades. Procurei algum sinal de Annabeth, mas nada achei.
Eu tinha uma missão a fazer, não poderia ficar aqui. Olhei para a Casa Grande e comecei a me dirigir até lá.
Enquanto eu caminhava, comecei a pensar: algo estava errado. Quíron estava preocupado demais com o tempo, não queria que chegássemos atrasados, e ter me trazido de volta ao acampamento... Não parece ser a melhor opção.
Comecei a examinar o acampamento. Algo com certeza estava errado. Era para ter muito mais campistas por aqui. Talvez estivessem jantando. Mas o pavilhão estava apagado.
Não voltei a me preocupar com o número de campistas. Eu precisava falar com Quíron, ele me responderia o porquê deu estar no acampamento, sendo que eu tinha uma missão a fazer.
Cheguei a Casa Grande, mas não a adentrei. Me escorei na parede e comecei a ouvir vozes.
Identifiquei duas vozes. A de Annabeth e a de Quíron.
Bom, pelo menos eu sabia que Annabeth estava ali dentro.
Quando eu iria entrar, uma mão me puxou pelo braço. Me prensou na parede e com sua outra mão fechou minha boca.
Annabeth estava ali, segurando-me.
Mas, espera! Ela não estava dentro da Casa Grande?
– Silêncio! – Ela sussurrou. Soltou minha boca e me puxou em direção à enfermaria.
Enquanto corríamos, pensei: acho que a queda na pilastra havia feito o meu cérebro pirar.
Adentramos a enfermaria e nos sentamos atrás da última cama.
– Mas você não estava dentro da casa? – Indaguei, totalmente confuso.
– Bem, eu não, mas, sim! Quer dizer... É difícil de explicar, Percy! – Ela exclamou em um sussurro. Suspirou e voltou a falar. – Nós estamos em outra dimensão, aquela voz é de uma outra Annabeth.
Eu não tinha nada a falar. Simplesmente não sabia o que dizer. Com treino mental ou sem treino, eu sempre serei meio lerdo. Não há o que fazer.
– Certo... – Comecei. – Qual é o plano?
– Não podemos nos mostrar para os outros Percy e Annabeth. Primeiro precisamos falar com Quíron, ele saberá o que fazer.
A porta se abriu antes que ela dissesse qualquer coisa a mais. Eu e Annabeth nos abaixamos mais ainda, não deixando visível qualquer parte do corpo.
– Coloque-a aqui! – A voz do Sr.D exclamou, urgente.
– Eu estou bem... Só meio confusa. – Essa foi a voz de Thalia.
Eu e Annabeth nos encaramos. Aquela situação nos era familiar.
– Não! Você não está bem! – Uma voz mais jovem de Annabeth exclamou. – Você acabou de voltar a vida, Thalia! Precisa descansar!
Engoli em seco.
– Annabeth, eu te vejo do lado de fora. Vamos, Grover. – Uma voz masculina disse.
Annabeth — a que estava ao meu lado — olhou para mim e assentiu, como se soubesse o que eu estava pensando.
Aquela voz era minha!
– Tudo bem, eu também vou. – A voz de Annabeth confirmou.
– Vamos deixá-la descansar, depois voltamos até aqui e vemos como você está. – Quíron falou.
– Certo, obrigada. – Thalia agradeceu.
E então ouviu-se a porta bater.
Olhei para a Annabeth que estava ao meu lado. Ela também estava muito confusa diante à nossa situação. Eu esperava ir somente para outra dimensão, não esperava que essa dimensão fosse também em outro tempo.
Isso é muito confuso, admito.
Esperamos cerca de 5 minutos e levantamos a cabeça. Olhamos para algumas camas a frente e encontramos Thalia dormindo tranquilamente.
Annabeth sinalizou ao meu lado para irmos até a porta em silêncio. Assenti com a cabeça e esperei ela ir na frente. Após ela chegar até a porta, fiz o mesmo caminho. Abrimos a porta devagarinho e saímos da enfermaria.
Ela olhou para todos os lados até parar seu olhar nos campos de morango. Começou a correr até lá, e eu somente a segui, não havia opções mesmo.
Entramos no local e nos abaixamos atrás de alguns morangos.
– Eu não esperava por isso. – Annabeth admitiu.
– Eu também não. – Concordei.
Ela suspirou e abraçou seus joelhos.
– E então, como vamos chegar até Quíron sem sermos vistos pelos outros Percy e Annabeth?
– Nós teremos de ser discretos. O jantar deve estar começando agora, então esperamos ele acabar, e o toque de recolher irá soar e, quando todos já estiverem em seus chalés, nós vamos até a Casa Grande e falamos com Quíron.
Assenti com a cabeça.
E o silêncio tomou conta de nós. Olhávamos algumas vezes um para o outro, para logo em seguida desviarmos os olhares. Um tempo depois a concha suou, fazendo os campistas saírem da fogueira e irem em direção aos seus chalés.
– Certo, somente me siga, não tente fazer nada, entendeu? – Annabeth perguntou.
– Tudo bem, tudo bem, não farei nada de errado! – Exclamei, levantando os dois braços em sinal de inocência.
Ela rolou os olhos e se levantou. Deu uma pequena espiada por cima dos arbustos e começou a andar em direção a Casa Grande. Me levantei e fiz o mesmo.
Os campistas ainda caminhavam em direção aos seus chalés, mas nenhum deles nos viu. Talvez seja por causa da escuridão, ou talvez não ligassem para isso.
Chegamos até a varanda da Casa Grande e Annabeth bateu na porta. Nenhuma resposta. Quíron e Sr.D provavelmente já estavam dormindo. Não conseguiríamos falar com eles hoje.
Annabeth bateu uma última vez na porta, bem forte.
– Droga! – Ela resmungou.
– Aonde vamos passar a noite? Não podemos ir para nossos chalés.
– Você tem razão. – Annabeth concordou. – Mas eu também não sei aonde vamos ficar.
Depois de ficarmos 1 minuto pensando aonde pudéssemos dormir, eu percebi que não havíamos escolha, teríamos de entrar na Casa Grande e acordar Quíron.
– Bem, acho que vamos ter de entrar. – Sugeri para Annabeth. – Se não me engano, Quíron não tranca as janelas, não é mesmo?
Annabeth assentiu com a cabeça. Fui até a janela e olhei, estava realmente aberta. A abri e olhei para Annabeth novamente.
– Damas primeiro. – Estiquei meu braço e fiz uma pequena reverência.
Ela passou por mim e deu um soco no meu peito.
– Ai! Isso doeu! – Exclamei. Mas ela não deu bola, entrou na Casa Grande e começou a examiná-la.
Dei de ombros e também entrei. A casa estava totalmente apagada. Annabeth retirou sua adaga de bronze celestial de sua cintura e acabou iluminando o local. Retirei Contracorrente do bolso e a destampei. O brilho instantaneamente apareceu.
A filha de Atena começou a subir as escadas. Fui logo atrás, olhando atentamente para cada item que encontrava. Havia diversas coisas estranhas, como por exemplo um quadro do Sr.D, muito mal feito.
Chegamos ao terceiro andar. Era ali que ficava os quartos, ou seja, ali era onde Quíron deveria estar dormindo tranquilamente. Annabeth deu uma pequena examinada no corredor, seguidamente desviando seu olhar para o teto. Não entendi muito bem porque ela olhou para cima, mas pensando um pouco eu entendi. Rachel ainda não era nosso oráculo nessa dimensão, quem estava no último andar era aquela velha múmia.
Ela balançou a cabeça e voltou seu foco até o corredor. Olhou para uma porta e começou a andar até lá, devagarinho. Aproximando notei a escrita na porta: Quíron.
Annabeth abriu uma pequena fresta da porta. Hesitou por alguns segundos antes de abri-la por completo. Entrou e parou em frente a cama onde Quíron dormia tranquilamente.
Ver um centauro deitado é muito estranho. Sério, não queriam ter essa experiência.
Pensei na melhor maneira de acordá-lo sem levar um coice. Não havia muitas opções. E parece que Annabeth estava com o mesmo pensamento que eu. Não poderíamos simplesmente balançá-lo. Teríamos de fazer um barulho bem distante de Quíron. Ou seja, isso provavelmente também acordaria o Sr.D, algo que eu queria evitar.
Mas não havia opções. Annabeth bufou irritada e saiu do quarto. Saí logo em seguida. Descemos as escadas e nos abaixamos atrás de um sofá. Guardamos nossas armas e olhamos um para o outro.
– E então, algum plano? – Perguntei, tendo uma última esperança.
– Bom, o meu plano provavelmente é o mesmo que o seu.
Suspirei cansado.
– E então, iremos mesmo fazer isso? Não podemos, sei lá, esperar amanhecer? – Voltei a perguntar.
– É, talvez você tenha... – Annabeth ia dizendo, até que as luzes acenderam, fazendo-nos entrar em choque.
Começamos a ouvir o som de rodas. Instantaneamente pensei: Quíron havia acordado e estava em sua cadeira. E eu acertei. Lá estava o centauro em sua forma humana.
Eu e Annabeth nos levantamos e olhamos para ele. Ele nos viu mas não se assustou, somente franziu a testa.
– Quem são vocês? Nunca os vi por aqui... Eu acho. – Ele disse. – Seus rostos me são um pouco familiares.
– É, bem, isto é um pouco complicado... – Comecei, coçando a parte de trás da nuca.
– Então, Quíron, temos assuntos sérios a tratar. – Annabeth afirmou.
O centauro olhou para mim e arqueou uma sobrancelha. Balançou a cabeça e voltou-se a focar em Annabeth.
– Tudo bem, então, crianças. Sentem-se.
Nos sentamos como dito. Ele ajeitou seu pijama e se sentou à nossa frente.
Olhei para Annabeth e ela entendeu o recado. Eu não era bom com palavras, então era melhor que ela explicasse toda a nossa situação.
– Nós não somos daqui. — Ela começou. – Na verdade, não somos desta dimensão.
Quíron franziu a testa. Até para ele era difícil entender isto.
– Nós temos cerca de 4 anos a mais que vocês. Estamos em uma missão, em nossa dimensão precisamos de ajuda. E então os deuses nos mandaram até aqui para trazer essa ajuda. – Annabeth terminou.
– E qual seria essa ajuda? – Quíron perguntou.
– Um semideus, somente um semideus. Ele participaria da guerra e voltaria até aqui.
– E quem seria esse semideus? – O centauro voltou a perguntar, praticamente já tendo ideia da resposta.
Annabeth olhou para mim. Assenti e ela voltou-se para Quíron.
– Percy Jackson.
– Certo... – Quíron sussurrou. – Então, já se passaram 4 anos e vocês não concluíram a guerra?
– Ah, não, bem, contra Cronos já se foi. Nós vencemos. – Annabeth contou.
– Hm... Muito bem.
Quando Quíron iria dizer algo a mais, uma coruja entrou pela janela que havíamos deixado aberta. Ela carregava uma carta. A ave passou por cima de Annabeth e soltou a carta em seu colo. A filha de Atena franziu a testa mas logo pegou a carta e a abriu. Leu ela atentamente e se virou para mim.
– Droga, nós temos problemas. Parece que o portal que nos trouxe até aqui está com problemas. Teremos de ficar por aqui algum tempo.
– Mas nós não podemos ficar aqui, Annabeth! – Exclamei, fazendo Quíron entrar em choque.
– Espera! – Ele disse. – Você é Annabeth Chase? A filha de Atena? Mas, como isso é possível...?
– Já dissemos, somos de outra dimensão. – Respondi.
Ele se virou para mim e me examinou.
– Olhos verdes, cabelos pretos... Percy!
Sorri e assenti.
– Vocês disseram que o portal de vocês está quebrado. – Quíron disse, fazendo eu e Annabeth assentirmos. – Então acho que terão de ficar aqui algum tempo.
– Sim. – Concordei.
– Vocês podem ficar aqui na Casa Grande esta noite, assim que amanhecer darei a mensagem que vocês estão aqui. Depois disso, cada um irá para seu respectivo chalé.
Eu e Annabeth nos levantamos e começamos a subir as escadas, até que Quíron nos parou.
– Espera, acho que temos um problema.
– E qual seria? – Perguntei.
– Só tem um quarto vago.
Olhei para Annabeth. Ela estava se remoendo de raiva. Mas eu estava tranquilo. Para dizer a verdade, eu estava quase explodindo por dentro. Mas não demostrei esse sentimento.
– Tudo bem, isso não é problema. Não é, Annabeth? – Perguntei, segurando o riso.
Ela não respondeu, somente bufou e subiu as escadas. Olhei uma última vez para Quíron antes de ir atrás dela.
Isso seria um tanto divertido.
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