O Herói do Olimpo
23 Conheço uma segunda Rachel
Notas iniciais
Minhas pernas já não aguentavam mais. Annabeth não me perseguiu, mas me ameaçou de longe com sua faca de bronze celestial. Eu corria completamente sem direção. Ao ver que eu estava a uma distância segura, comecei a andar normalmente. Agora que percebi, eu não sabia o caminho de casa.
Voltei a andar totalmente sem rumo. Eu não tinha literalmente nada para fazer a não ser admirar a cidade de Londres. Até enfrentar um monstro seria mais legal, eu já estava começando a ficar entediado, mas eu não sabia se tinha monstros em Londres.
Logo eu entrei em um parque, avistei um banco e lá sentei. Comecei a observar crianças brincando com pássaros e brinquedos. Pelo menos a minha infância tinha sido normal. Me imaginei carregando um criança até ali, a deixando brincar enquanto eu observava do banco. Sorri com a ideia.
Fiquei tão perdido em meus devaneios, que não percebi que uma garota havia se sentado ao meu lado.
Ela era um tanto bonita. Olhos azuis, cabelo laranja – igual ao de Rachel -, lábios atraentes. Ela devia ter cerca de uns 17 anos. Usava uma roupa típica americana e, assim como eu, observava as crianças brincando.
Alguns minutos depois, a garota ao meu lado se levantou e começou a andar em direção à um cara. Fixei o meu olhar nele e percebi que era o mesmo cara com quem Annabeth havia saído. A garota e ele saíram do parque com uma extensa discussão.
Minha cabeça iria doer pelo resto do dia se eu não os seguisse, a minha curiosidade era grande demais. Me levantei e comecei a segui-los em direção à saída do parque.
A garota e o cara gesticulavam com as mãos frequentemente, e o rosto de ambos estavam vermelhos de irritação. Eles se aproximaram de um beco e lá entraram. Me esgueirei na parede e comecei a escutar a conversa dos dois.
– EU não quero mais, Robert! Acabou, você não está entendendo? Eu te vi com aquela garota! – Gritou a ruiva.
– Você é que não está entendendo! Você é minha e de mais ninguém! – Exclamou o garoto enquanto segurava a ruiva.
O rosto da menina já mostrava medo. Dava para ver claramente que o aperto do cara estava machucando ela. Suspirei e percebi que eu deveria intervir.
– Ei, cara! Solta ela. – Mandei assim que entrei dentro do beco.
Ele a soltou e começou a me encarar.
– Saia daqui, antes que eu te de uma surra. – Disse ele voltando a pegar a garota com força.
– Solta. Ela. Agora. – Falei entredentes.
Ele a soltou e correu até mim com o punho levantado. Esperei ele se aproximar e o dei uma rasteira. Me abaixei e peguei o braço direito dele.
– Você gosta de machucar as pessoas? Então, dessa vez, você sairá machucado. – Afirmei enquanto eu virava lentamente o braço esquerdo dele.
– AH! PARA! PARA! PARA! — Gritava ele.
Eu não estava me sentindo... bem? Não, eu estava tendo uma sensação diferente, era como se eu estivesse tendo prazer em machuca-lo. Eu não me sentia tão...eu.
A garota, que permanecia quieta até então, veio até o meu lado e me incentivou a para de machucar o cara. O soltei e uma sensação de alivio tomou conta de mim.
– Você está bem? – Indaguei para a ruiva.
– Sim, estou bem, mas e você? Seus olhos parecem ter mudado de cor.
Olhei para ela com uma expressão de dúvida. Parece que ela percebeu que eu não sabia do o que ela estava falando e acabou deixando para lá. Ela olhou para o cara no chão e soltou um suspiro.
– Ele nunca aprende... – Sussurrou ela. – Ah, como pude me esquecer? Eu sou Rose Green, e você?
– Percy, Percy Jackson, prazer. – Respondi esticando a mão para ela.
– Você está afim de tomar um sorvete, Percy?
– Mas é claro! Faz horas que não como!
Ela riu e começou a andar. A segui e cerca de minutos depois nós chegamos até a mesma sorveteria que Annabeth estava. Pedi para todos os deuses para que ela não estivesse mais ali.
Entramos, compramos nossos sorvetes, e nos sentamos frente a frente. Comecei a olhar freneticamente para todos os lados, suspirei assim que constatei que Annabeth não estava ali.
– Mas e então, você não é daqui, é? – Perguntou ela chamando a minha atenção.
– Não, não. Sou dos Estados Unidos, mas eu também acho que você seja, não tem sotaque, usa roupas como as de lá.
– Bem notado, Percy. Sim, eu também sou de lá, Los Angeles para ser mais precisa. Mas e você, é de onde exatamente?
– Nova York. – Disse logo em seguida suspirando. – Eu já fui em Los Angeles, não tive muito tempo para poder curtir por lá, mas me parece ser uma cidade legal.
– É sim...
– Mas e então, o que você faz nessa cidade? – Perguntei para ela.
– Ah, eu estou no meio de um programa de intercâmbio. Estou estudando na... – Ela não terminou a frase, pois um grito estridente a fez parar.
– PERCY JACKSON! VENHA ATÉ AQUI AGORA! – Exclamou uma certa filha de Atena.
Engoli em seco e olhei para Rose. Ela tinha um expressão totalmente de dúvida estampada no rosto. Me abaixei na cadeira e esperei para que Annabeth fosse embora. Mas isso não aconteceu.
– Agora é que eu morro... – Sussurrei
A filha de Atena esmurrou a porta e entrou, pouco ligando para a atenção que estava chamando.
– É melhor você não se esconder, filhote de peixe!
Rose olhou para debaixo da mesa e arqueou uma sobrancelha.
– Depois eu te conto. – Sussurrei para que somente ela ouvisse.
Me levantei com cautela. Mas isso não foi o suficiente, assim que me levantei Annabeth me viu e correu até mim com sua adaga de bronze celestial na mão.
Ela me prensou na parede e colocou a adaga sobre o meu pescoço.
– O que você...? – Annabeth foi interrompida por um grito de Rose.
– Ah! Socorro! Ela está com uma faca!
Eu e Annabeth a olhamos de olhos arregalados. Todos os clientes da sorveteria olharam para ela como se ela fosse louca.
– Calma, garota, isso é só uma colher. – Disse um dos funcionários.
Eu e Annabeth nos encaramos. Parece que tínhamos achado outra mortal com visão através da névoa, pois deuses não frequentavam Londres, eles não podiam.
Me soltei de Annabeth e chamei Rose para o lado de fora. Relutante ela aceitou e Annabeth e eu fomo até lá fora.
– O que fazemos agora, Annabeth? – Indaguei enquanto andávamos até lá fora.
– Acho que melhor não falarmos nada por enquanto, não sei se tem monstros aqui em Londres, não acho que a visão sobre a névoa dela tenha sido posto à prova. Provavelmente essa é a primeira vez que ela vê algo de estranho.
Rose olhou pelo canto do olho para nós dois. Comecei a pensar se as ruivas tinham essa habilidade de ver sobre a névoa. Ri internamente da ideia.
Paramos em frente a sorveteria. Rose colocou os dois braços cruzados diante ao peito, e começou a bater freneticamente o pé no chão, em claro sinal de irritação.
– Por que você anda com uma faca? Quem é você? Por que ameaçou Percy daquela maneira? – Soltou Rose tudo de uma vez só.
Eu e Annabeth suspiramos simultaneamente. Nos entreolhamos e voltamos a fixar o olhar na ruiva indignada na nossa frente.
– Você é a inteligente. – Sussurrei no ouvido de Annabeth. – Você que vai conseguir criar uma boa desculpa.
Ela assentiu milimetricamente com a cabeça e começou a contar uma história, dizendo que a faca era de brinquedo e blá, blá, blá.
Depois de diversas explicações sobre a adaga de Annabeth, eu e a filha de Atena acabamos conseguindo enrolar Rose o suficiente para que ela ficasse entediada e quisesse sair de lá.
Enquanto voltávamos para casa, fiquei pensando se Annabeth ainda queria me matar. Talvez, se eu explicasse a história do cara para ela, ela não tentaria me matar, talvez só me machucasse um pouquinho.
Annabeth e eu trocávamos olhares constantes, penetrantes o suficiente para que cada um corasse e virasse o rosto. Fiquei pensando na oportunidade que eu tinha, Annabeth não tinha mais namorado, o caminho estava completamente livre. Mas as coisas não são tão fáceis quando se trata dessa filha de Atena. Demorei cerca de 5 anos para ver o quanto gosto dela, e finalmente, me declarar, mas agora... As coisas seriam bem estranha, nós mal nos falávamos.
Fui acordado de meus devaneios por um arrepio na nuca. Segurei o braço de Annabeth e senti uma corrente elétrica percorrendo o meu corpo, mas eu somente dei de ombros, minha atenção estava focada em outra coisa.
Um homem olhava para mim do outro lado da rua. Ele usava um sobretudo preto e também um chapéu e um óculos, o tornando completamente irreconhecível.
– O que foi, Percy? O que você tanto olha? – Indagou Annabeth dirigindo o olhar até o ponto onde o homem estava, mas ele não estava mais lá.
– Não... não é nada. Vamos continuar.
Ela arqueou uma sobrancelha mas não disse nada. Percorremos mais alguns quarteirões e chegamos até o nosso prédio. Subimos o elevador em completo silêncio e abrimos a porta do apartamento. Um olhar foi trocado entre eu e a filha de Atena, logo depois cada um foi fazer o que queria.
Tentei ir até a sala de treinamento treinar um pouco, mas a figura do homem não saia da minha cabeça. Eu tentava ao máximo me esforçar, mas qualquer tentativa de foco no treino foi em vão.
Fui até o segundo andar da casa e liguei a TV. Ashley e Calipso vieram logo depois, ambas animadas e com pipocas na mão.
– Isso é muito bom! – Exclamou Calipso enquanto jogava uma pipoca na boca.
– Você explicou tudinho do mundo mortal para ela? – Perguntei dirigindo a Ashley.
– Sim, tudinho.
– Uau, você foi rápida. – Comentei enquanto ela colocava um filme no DVD.
Ela deu de ombros e se sentou junto a Calipso em outro sofá.
– Onde está Annabeth? – Indaguei a Ashley.
– Ela saiu, de novo.
Suspirei derrotado.
– Não se preocupe, dessa vez não foi para nenhum encontro. – Disse Ashley voltando o seu olhar a mim. – Ela foi fazer uma pesquisa para a missão, somente não me disse que pesquisa.
Suspirei aliviado.
Depois disso ela não disse nada, pois o filme começara. Calipso e Ashley assistiam com total interesse, mas a minha cabeça ainda vagava sobre aquele cara do sobretudo preto.
– Bem, eu vou até lá em baixo nada um pouco. – Avisei as meninas.
Parece que as duas não escutaram pois estavam focadas demais na televisão. Dei de ombros e fui até o meu quarto colocar um roupa para poder nadar.
Saí do quarto e fui até o elevador. Cheguei até o andar da piscina e corri até lá. Joguei minhas coisas – chinelos, toalhas, blusas, óculos – em uma mesa e pulei na piscina. Permiti me molhar e comecei a nadar livremente.
Minha diversão na piscina foi interrompida por Calipso e Ashley, ambas de roupas de banho, vindo até a piscina.
– O que é que vocês estão fazendo?
– Ora! Só porque você é filho de Poseidon que só você pode usar a piscina? Mas é claro que não! – Ashley exclamou. – Nós também queremos nadar um pouco, isso tem algum problema para você, Percy?
– Não, nenhum, é só que... Ah, deixa para lá. – Afirmei indo até o fundo da piscina.
Fiquei pensando em como Calipso se adaptou tão rápido ao mundo mortal. Eu pensei que ela ficaria mais fechada, mas parece que Ashley não tinha essa ideia. Isso foi até bom, Calipso ficou tempo demais naquela ilha, se apaixonando por causa de uma missão.
Se apaixonando... Sussurrou uma voz na minha cabeça.
Arquei uma sobrancelha para mim mesmo. A voz era feminina... Afrodite.
Como você não percebe, Percy? Calipso se apaixonou por você... O amor, ah o amor, você sabe quanto tempo dura um amor, Percy? Lhe garanto que não é pouco. Eu só vim lhe dizer isso porque sei que você não perceberia isso sozinho, mas que fique avisado, a próxima que se apaixonar por você, eu não irei lhe dizer, você terá de descobrir.
Espera ai, a próxima? Quer dizer que mais uma vai se apaixonar? Meus deuses...
Subi até a superfície da piscina e olhei para Ashley e Calipso.
– Ah, que bom que você subiu, estávamos mesmo precisando de sua ajuda. Será que você pode passar protetor na gente? – Perguntou Ashley.
– Claro.
Depois de um divertido dia na piscina – com direito a guerra d’água -, nós três subimos e nos deitamos, cada um em um sofá do segundo andar.
Acabou que todos nós acabamos caindo no sono. Mas, como um meio-sangue, tive de ter um sonho, ou melhor, pesadelo.
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