O Herói da Profecia

2 Um Encontro Inesperado


Numa tarde ensolarada, uma figura encoberta com uma manta da cabeça aos tornozelos, caminha pelas ruas periféricas de Fairth, um chão de paralelepípedos sob seus pés. Suas passadas são leves e regulares, tomando cuidado para não pisar em nenhum buraco, e seu olhar não deixa passar nenhum detalhe das ruas. A paisagem à sua frente, é triste e deprimente: pessoas passando fome, mercadores no meio das ruas, crianças órfãs, e todo o tipo de crueldades.

As ruas estreitas eram completamente irregulares e cheias de buracos, as casas eram pobres, com paredes de madeira já apodrecidas pelo tempo e a falta de cuidado. Mas o que mais chamava a atenção era a quantidade de pessoas desabrigadas, no meio da rua. O ar dequele lugar era frio e sombrio.

A figura estranha continuava andando sem parar, até que se deparou com uma cena intrigante. Um homem alto e forte, na frente de um jovem, de cabelo marrom escuro, que está se levantando do chão com um certo esforço. Ao que parece foi empurrado de propósito. O homem tinha um ar de superioridade e gritava com raiva.

— Eu já disse que tem que pagar para andar por aqui, forasteiro! — E olhando para a figura de manto, que continuava parada apenas observando tudo, gritou com mais raiva ainda. — O quê você está olhando?! Vai ter que pagar também!

— Pare com isso! — Replicou a figura estranha com raiva.

Surpreso ao descobrir que a voz pertencia a uma mera garota, o homem não conseguiu conter uma grande gargalhada.

— E o que você vai fazer? Me impedir? — Ele disse ainda dando risadas.

Ela continuava parada, mas agora, com sua mão direita pousada sobre o único botão do manto. O homem olhou para ela, a expressão em seu rosto havia se tornado séria de novo, irritado com a insistência dela.

— Eu não recebo ordens de ninguém! Se quiser passar, pague!

— Pare, você não tem o direito de fazer isso! — A menina falava, mas com um tom firme.

— Já chega! — O homem se aproximou dela furioso.

— É uma ordem! — A menina gritou enquanto abria o botão do manto.

Ela arrancou o manto que a cobria, de uma só vez, revelando não uma simples garota, mas uma bela e fina jovem, vestindo um longo vestido azul real, muito fino e elegante cheio de detalhes em um dourado que refletia a luz do sol. Seus cabelos eram castanhos quase loiros, com uma mecha em trança presa para trás. E seus olhos, azul-claros da cor dos mares de Sinthyr. No momento em que o criminoso a reconheceu, seus olhos se arregalaram, e ele parou completamente imóvel. Ao redor deles, uma multidão começou a se formar para observar a cena, e a única coisa que se podia escutar, eram diversos murmúrios espantados, que exclamavam apenas uma coisa: "é a princesa!".

No meio da rua, o homem criminoso se jogou ao chão pedindo perdão, mas ela ignorou sua existência completamente. Tinha os olhos fixos no jovem, que já havia se levantado e olhava sério para ela, com um tom de receio no rosto.

— Princesa! — Uma voz chamou de longe, mas ela não se moveu.

Dois homens cobertos de armaduras contendo o brasão de Fairth desenhado, e de expressões preocupadas, desceram a rua correndo, ao encontro da princesa. Ela continuava parada, olhando fixamente para o jovem que rapidamente cobriu a cabeça com um capuz e saiu correndo dali para o lado oposto. Ao ver os guardas reais se aproximarem, o criminoso se levantou e saiu correndo com grande desespero.

— Princesa! O rei está preocupado à sua espera! — Disse um dos guardas.

Após perder o jovem de vista, ela finalmente se virou para os guardas que olhavam para ela esperando uma resposta. Eram dois homens altos, um deles tinha uma barba marrom avermelhada, e o outro ainda era apenas um jovem. Fizeram uma reverência, e então o guarda que tinha barba se dirigiu à princesa.

— O rei requisita sua presença, princesa Arya.

— Como sempre... — Ela deu um suspiro, irritada. — Obrigada Rich...

A princesa recolheu o manto do chão, e então seguiu caminhando com os guardas, que a escoltaram pelas ruas de Fairth até o castelo. À medida que eles chegavam mais perto do castelo, a cidade ia se transformando, as ruas eram menos acidentadas, as casas aparentavam ser muito melhores e crianças corriam brincando felizes pelas rua. O castelo tinha portões enormes e diversos guardas, alguns treinando no pátio, outros fazendo suas rondas pelo castelo e outros ainda, descansando um pouco mais longe. Embora fosse uma construção grande e bonita, tinha um ar triste. E Arya sabia bem o porquê. Desde a morte de sua mãe, aquele lugar nunca foi o mesmo.

Subindo as escadarias principais, ela foi logo entrando no castelo, passando por um grande corredor, até chegar na sala do trono. Uma sala bem espaçosa, com um trono majestoso no final, onde podia se ver o rei — um homem que já apresentava algumas marcas da idade, mas continuava com uma aparência implacável. Ele estava claramente impaciente, e ao ver a sua filha se aproximando, se levantou, olhando-a fixamente.

— Queria falar comigo?

— Você saiu escondida de novo! — Disse ele cerrando os punhos de raiva. — Sabe muito bem que não quero que saia sozinha!

— Eu não tenho outra opção, você me deixa trancada nesse castelo o tempo todo!

— Você não precisaria ficar trancada se deixasse os guardas irem com você!

— Isso é ridículo! Como posso fazer qualquer coisa com um exército atrás de mim?!?!

— Se é por isso... Então você não me deixa outra escolha...

O rei sentou-se novamente em seu trono, pensativo. A princesa parou e olhou confusa para ele, ainda brava, sem conseguir entender o que aquilo significava. "Do que ele está falando?" Ela continuou olhando para ele por alguns instantes.

— Então... — Ela começou, mas logo foi interrompida pela voz alta de seu pai.

— Será feito um torneio, e o campeão vai ser nomeado seu guarda costas, que te seguirá o tempo todo.

— Mas, o quê?!?! — Ela olhava para ele sem acreditar, completamente surpresa com o anúncio. — Isso é loucura! Eu não preciso de uma babá! Eu sei me cuidar sozinha.

— Já chega disso, Arya! Está decidido! Agora vá para o seu quarto!

Com um tom forte e decisivo o rei encerrou o encontro. A princesa deu um último olhar enfurecido para seu pai, então se virou e saiu da sala. Caminhou furiosamente pelos corredores e escadarias do castelo, até que finalmente chegou em seu quarto, onde fechou a porta, e se jogou na cama.

A lua já estava alta no céu, era possível vê-la da janela do quarto de Arya. Ela continuava deitada em sua cama desde que chegara ali. "O que ele está pensando?" Ela pensava enquanto se revirava na cama. "Não é justo! Não preciso de guardas para andar pela cidade! Eu até ajudei alguém hoje..." Arya parou deitada de lado, tentando a todo custo se lembrar do que acontecera mais cedo na cidade. Por mais que estivesse com sono, ela queria se lembrar daquele jovem.

— Estranho... Tenho a sensação que eu conheço ele... — Ela disse antes de se entregar ao cansaço.