O mar dançava feliz do lado de fora. Fazia um belo dia, assim como ontem, e anteontem, e antes de anteontem. Parecia que todos os dias na ilha do Mestre Kame eram iguais, contudo, ainda assim, eram agradáveis de uma maneira diferente. Mesmo com a rotina, parecia que Dezoito nunca sentia-se entediada. Era fato que, vez ou outra, encontravam-na sentada em uma cadeira de praia, olhando para o céu, de cara emburrada, resmungando coisas e reclamando da vida. Porém, Kuririn sabia, sempre soubera, que ela era feliz. Não era preciso dizer... Apenas o fato de que estavam juntos já era capaz de mostrar: Dezoito não queria outro tipo de vida; ela gostava de onde estava, de onde morava, de quem ela amava... Sim... Kuririn também sabia: Dezoito era capaz de amar tanto quanto uma humana comum, afinal, mesmo com suas partes robóticas, sua alma e seu coração ( o sentimento ) não puderam ser alterados ou jogados fora.

Olhando para a pequenina praia, através da janela da cozinha, Kuririn pôde enxergar um pedaço do cabelo loiro de sua esposa, que, sentada na areia, não aparecia por completo na moldura da janela. O vento do mar trazia consigo, além do cheiro do oceano, o som das vozes das pessoas que o guerreiro mais amava no mundo. Dezoito, em um de seus poucos momentos de extrema ternura, brincava com a filha na praia. Antes de entrar na cozinha, para preparar um suco de laranja, Kuririn observara, meio escondido em um canto, o quão bela era aquela cena: Dezoito e sua filha Marron, ainda de três anos de idade, brincando de castelinho de areia, enquanto as duas riam e se divertiam quando a frágil escultura caia aos seus pés.

Indo para fora segurando uma bandeja, onde haviam três copos cheios de suco e uma jarra, Kuririn sorriu. Ao aparecer, Dezoito levantara o rosto e olhara para ele, de maneira gentil e juvenil, para, logo em seguida, mandar-lhe um belo sorriso, cheio de ternura, gratidão e felicidade. Foi impossível evitar: Kuririn sentira seu coração bater com força exagerada, ao receber o gesto de amor de sua esposa. Era provável que, há cinco anos atrás, nenhum dos dois jamais pensara que, àquele dia, estariam juntos em uma ilha pequenina, com pessoas a quem pudessem chamar de “família”. Por um mero, porém longo segundo, ambos ficaram a se olhar, lançando ao ar palavras invisíveis, que mostravam o quanto eram felizes. Até que uma vozinha infantil, brincalhona e contente, invadiu o ouvido do casal, trazendo-os de volta ao mundo, que parara de rodar, ao tomarem um momento de suas vidas para admirar um ao outro.

_ Papai, papai ! Vem aqui ajudar a gente a fazer castelinho de areia. – Marron disse, conforme fechava os olhos por causa do imenso sorriso de orelha-a-orelha que se abria em seu rosto.

Tanto Dezoito quanto Kuririn olharam para ela, encantados com o tamanho do amor que sentiram percorrer por suas veias, ao ouvirem aquela voz meiga e eternamente inesquecível. Marron esticava os bracinhos, conforme levantava do colo da mãe e pedia para que o pai chegasse mais perto. Aproximando-se, Kuririn abaixou-se na areia e colocou a bandeja com as bebidas geladas ao seu lado. Marron pulou dos braços de Dezoito e foi para os braços do pai, gritando de felicidade.

Já com a filha em seu colo, pulando e gritando palavras de satisfação, Kuririn voltou a olhar a esposa. Dezoito já não o encarava, mantendo-se entretida com o copo de suco que Kuririn trouxera, contudo, o baixinho pôde perceber que o rosto dela encontrava-se levemente escarlate. Sem desviar o olhar, deliciou-se com aquilo: Dezoito, apesar do jeito rude e forte, conseguia, por vezes, transformar-se na pessoa mais meiga e tímida do mundo. Logo, Dezoito pareceu perceber o olhar contínuo de Kuririn sobre si, portanto levantou os olhos para ele, recebendo a confirmação do que pensara, ao dar de cara com a face dele toda voltada para ela. Antes levemente ruborizada, Dezoito ficou um pimentão, e franziu o cenho, tentando mostrar irritação. Mas não podia... Pois, quando Marron falou com ela, em palavras altas e excitadas, Dezoito percebeu que não poderia se enfurecer naquele dia; seria algo impossível.

_ Mamãe, mamãe, posso ir brincar nas ondas ?! – perguntou Marron, saltando do colo do pai e andando alguns passos em direção à praia, apontando o oceano com o dedinho.

Olhando para Kuririn, Dezoito descobriu em seus olhos as palavras que diziam “deixa”, portanto, encarando a filha, com um sorriso largo e divertido, disse:

_ Pode, mas não vá muito fundo nem se afaste da gente. Quero estar de olho em você.

Um segundo depois, o casal assistia à sua filha brincando na água, jogando areia molhada pra cima e rindo com os peixes que podia enxergar. Era um momento memorável. Um dia simples, como todos os outros, mas inesquecível, também como todos os outros. Virando o rosto para a mulher que amava, Kuririn perdeu-se por alguns momentos observando sua face. Nunca vira mulher tão bela daquele jeito. Vez ou outra, perguntava-se, um pouco amargurado, por que merecera tão agradável companhia. Porém, logo em seguida afastava aquela dúvida, com medo de que percebesse de que tudo não se passava de sonho. Mas, ainda assim, pegava-se sempre dizendo, para si mesmo, como era um homem de sorte. Nunca tivera sorte com as mulheres; nunca fora galanteador como Yancha; forte como Goku; ou bonito como Vegeta. Kuririn, há alguns anos atrás, inclusive acostumara-se com a idéia de que jamais poderia ter uma família, pois nenhuma mulher jamais o quereria. Como estava enganado... E como sentia-se bem em saber disso !

Apesar de estar olhando para Marron no mar, Dezoito tinha plena consciência de estar sendo observada e admirada por Kuririn. Mesmo com a leve vergonha que sentia em seu peito, não tentou impedir o gesto do marido. Nunca pensara que, em toda a sua vida, fosse encontrar um homem que pudesse amá-la incondicionalmente, não importando-se com seu passado, com seu corpo andróide ou com seu gênio forte e difícil. Contudo, encontrara em Kuririn, um homem comum, todo o amor e aceitação de que precisava. Dezoito não tinha mais capacidade de sentir-se só. Descobrira que podia amar e que podia ser amada. Descobrira que, em seu ventre, era possível gerar vida, mesmo com as partes robóticas que existiam em seu corpo. Era fato que, vez ou outra, sentia imensa saudade de sua antiga vida, antes de ser pega e transformada em uma máquina para matar. Sentia falta do irmão, que sempre estivera ao seu lado, apesar das brigas, apesar dos acontecimentos. Contudo, sempre que olhava para o céu azul que ficava acima da ilha, olhava para as amizades que fizera, para o marido que encontrara e para a filha que gerara, Dezoito pensava que, talvez, fosse magnífico viver e que valia a pena tentar salvar aquelas pessoas e aquele mundo dos inimigos que pudessem aparecer.

De repente, a mulher sentiu que uma mão tocava na sua. Olhando para baixo, percebeu que Kuririn segurava-a com amor e carinho. Levantando os olhos para o baixinho, Dezoito deparou-se com seu rosto sorridente, com olhos que, vez ou outra, encaravam-na como se estivessem a olhar para uma peça de ouro, que não poderiam deixar escapar, ou jamais recuperariam de novo. Sorriu-lhe de volta, conforme sentia que seu corpo estremecia, somente por estar encarando o único ser que se importara com ela, quando todos não o fizeram.

Logo, porém, uma voz distante foi ouvida, chamando a atenção do casal. Ambos olharam para trás, percebendo que Mestre Kame aparecia na porta, de avental e luvas de cozinheiro.

_ Venham, pessoal. As panquecas do Mestre já estão prontas !

O velho voltou pra dentro da casa, desaparecendo na cozinha, conforme Kuririn e Dezoito se olhavam, não sabendo se riam ou se choravam por causa do Mestre. Não demorou para que se levantassem, batessem no corpo para tirarem a areia, e gritassem em direção ao mar, chamando por Marron. A menininha, ao ouvir seus pais dizerem que as panquecas estavam prontas, saiu correndo em direção a eles, com um sorriso maior do que já poderia ser. Dando uma das mãos para cada um, entrou na casa junto a eles. Ela não percebeu, mas Kuririn e Dezoito, ao mesmo tempo, olhavam para a pessoa que colocaram no mundo. Por vezes, não acreditavam no quão bela e perfeita a vida poderia ser: o mundo estava em paz; ambos tinham um ao outro; e tinham uma filha... uma pessoa a quem pudessem viver, uma pessoa a quem pudessem encontrar motivos para continuar... Kuririn tinha amigos, porém, eles tinham suas próprias famílias, e não existia espaço nelas para que Kuririn pudesse entrar. Já Dezoito... perdera o único parente: o irmão a quem, de certa forma, amava mais do que tudo. Mas, agora, o casal não se encontrava mais só. Poderiam vir tempestades, poderiam vir destruições, mas nada faria com que eles deixassem de se amar. O mundo era frágil, mas o amor não. E, olhando para sua família, Kuririn sabia que o amor que sentiam um pelo outro, mesmo que mostrados em poucas ocasiões, era demasiado grande e forte para ser extinto.

Às costas deles, o astro rei se punha, lentamente, trazendo a escuridão para a vida daqueles que jamais se perderiam nas trevas. Porque o coração deles era iluminado e feliz, mostrando que aquele era o caminho correto e a resposta para a felicidade. //

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