O Guerreiro, A Feiticeira e o Dragão

A caminho da pequena cabana onde meu companheiro, Camus, mora, eu, Luna, estou quase chutando os baldes. Estava até agora na corte real, esperando-o pacientemente, só que a Rainha começou a reclamar da demora. Depois de um tempo pedindo desculpas, só me vejo saindo com a promessa de que o traria de volta. Tsk, o pior não é isso, e sim esses olhares. Não suporto quando ficam me olhando com esse ar superior! Quando souberem recitar UM feitiço sequer de qualquer feiticeiro, podem tentar me enfrentar! Finalmente chego a sua casa, e já abro, empurrando a porta com o meu cajado.

— SEU MONGO! DEIXOU-ME LÁ, PLANTADA, TE ESPERANDO! E justo hoje ela ia finalmente dizer onde o dragão está...!

– Hey, hey, calma! Eu estou arrumando minha armadura! Eu cresci de novo!

– Você tem mesmo certeza de que não quer que eu, sei lá, faça um feitiço para acabar com esse seu crescimento descomunal?

– Claro que não, oras! Cada vez estou ficando mais forte! Pelo que entendi, você só precisa da minha ajuda por causa da minha força, certo? – disse ele, apalpando um dos músculos, orgulhoso.

Realmente, eu estava usando-o, apenas porque não tenho força o suficiente para arrancar as asas do dragão. Mas por que Camus aceitou, sendo que sabe disso? Bem, acho que como aventureiro, ele gostou da proposta e simplesmente decidiu fazê-la. É... Deve ser apenas isso.

– Que seja, não me importo. Vamos? – ele continuou. Parece que percebeu que eu não iria respondê-lo.

Fomos cada um dentro de uma bolha, afinal chegaríamos mais rápido desse modo. A rainha nos esperava, dando graças por termos voltado.

– Segundo meus cavaleiros, o dragão se localiza ao norte de Tóquio, uma cidade japonesa. O problema é que ele está se dirigindo para cá, e avança três quilômetros ao dia. – o rei nos informou.

– Se você conseguir o que quer, vai cumprir o combinado, sim? – A rainha perguntou, preocupada.

– Claro, o melhor tipo de feitiço de barreira! Em troca de apenas uma coisa... – Eu dei uma pausa. Ah, como eu adoro fazer isso!

– De...? – Camus e os reis perguntaram, em coro.

– Paz. Os habitantes ficam me atordoando e fazendo caçadas para me capturar. No começo era engraçadinho, mas agora é um tédio!

– Eu ofereço qualquer coisa, só derrote o dragão antes dele chegar aqui!

– Claro. Vamos, Camus!

– H-hum, ok! Nós voltaremos com as asas e a cabeça do dragão, altezas!

Como ele pode ser tão idiota? Ele não é como eu, que “devo desculpas” a esse povo inútil! E isso é apenas uma máscara por que foi a única cidade que deixa um “demônio” como eu viver aqui. Se eu pudesse, matava todos.

Passaram-se cinco dias e finalmente encontramos o dragão. Ele podia ser nosso inimigo, mas, nossa! Era uma obra de arte! Confesso que fiquei com uma pitada de dó, por ter que matá-lo, claro, isso não era um obstáculo, afinal, já matei de filhotes de patos e coelhos até tigres e leões. Por que não mataria um réptil de asas?

– Bem, eu vou começar a preparar o feitiço para que você arranque as asas.

– Nós não temos que só matá-lo? Sem falar, como assim, “preparar o feitiço”? Não é só balançar a varinha?

– ISSO NÃO É UMA VARINHA!!!! EU JÁ DISSE QUINHENTAS VEZES! É UM CAJADO! C-A-J-A-D-O!

– Qual é a diferença?

Ia começar a falar, mas aí pensei: “espera, o que vai adiantar falar para um energúmeno como ele? É mais fácil um macaco entender do que ele”. Então decidi falar apenas:

– Ah, apenas respeite e me deixe um pouco feliz. Mudando de assunto, distraia-o para mim.

– O-ok!

Ele correu até lá como uma criança que vê dinheiro no chão. Ou um doce. Fechei meus olhos, para me concentrar melhor, e me desliguei desse mundo. Depois de ter concluído a meditação, apenas... Mais... Alguns... Segundos... E estava concluído! Abri os olhos e gritei:

– Se afaste das asas dele!!

– Ah...! Já acabou! – ele disse, parecendo aliviado... E suado.

– Alis, magna odio draco en anima pops – recitei, fazendo com que as asas amolecessem, para que Camus conseguisse arrancá-las.

– Devo puxar agora?

Assenti com a cabeça. Quando ele terminou de puxá-las para fora do dragão, agora adormecido (efeito do feitiço), eu terminei o feitiço. Só que alguém me interrompeu.

– O que vocês pensam que estão fazendo? – ele perguntou. Tinha cabelos brancos e as roupas estavam rasgadas.

– O que você acha, albino? – Camus respondeu, irritado.

– Eu sou o guardião desse dragão. E como guardião, não vou deixar vocês matem-no!

– Quod si casus tradidit caput draconis quareunt animan meam. – Recitei. Ele não havia entendido nada, como era de se esperar. Continuei: – Se eu matar o dragão, o que acontece com você? Você morre?

Sim... – Ele sussurra. Pensou que eu não ia ouvir, quando na verdade, até Camus conseguiu ouvir.

– Acabou de dizer sua fraqueza sabia? – Falando em Camus, ele vem em minha direção, com as asas. – Aqui – Jogou-as brutamente, de modo que só consegui pegar por sorte. Diminuí o tamanho e as coloquei num bolso, não ia ficar segurando.

–DEVOLVA-AS! ESSAS ASAS NÃO SÃO SUAS!!!

– Eu acho isso meio óbvio, sabe, eu não sou um dragão.

O albino avançou e nesse momento, a cabeça do dragão caiu, como se tivesse sido cortada. Segundos depois, o garoto recuou e começou a engasgar e segurar seu pescoço, como quem tenta tirar uma corda.

– Quer dar as honras? – perguntei, apontando para o tal.

– Com prazer! – Camus respondeu, empunhando sua espada.

Para ser franca, eu estava estranhando aquele dragão. A parte mais divertida é quando ele solta fogo, e isso não aconteceu em nenhum momento!

– Já está ótimo! Vamos, eu quero ir embora a cavalo!

– Cavalos?

– Sim, cavalos! Algum problema? – O que esse ser mongo tem contra cavalos? Se eu quero andar a cavalo, eu vou!

– É que eu não estou com uma proteção muito segura para isso... Espera! Onde diabos você viu cavalos?

Apontei para o lado de fora da gruta. Tinha um bando de cavalos selvagens, até tinha um rosa. Fiquei dó do cavalo por ter uma coloração tão feia, mas, tudo bem.

– Ah... Agora piorou! Além da minha falta de proteção, não tem pelego? Você quer me matar, não quer?

– Depende. Quantos anos você tem?

– Dezessete. O que isso tem haver?

– Droga... Mais três e eu poderia...

– Dezessete mais três dá... Vinte! Por que vinte?

– É uma regra que me impuseram. No começo eu matava qualquer um que me importunava. Desde bebês a anciões, depois que essa coisa virou oficial, apenas entre vinte e sessenta ou eu era presa.

– E por que não fugia com magia?

– Sabe esses tabus de que o local é a prova de magia? – Ele concordou. Continuei: – Tudo verdade. Fiquei lá por um mês. Quando fui solta, quase chorei para poder voltar. Aquele lugar era bem melhor do que a sociedade.

– Melhor até do que eu?

– Você nem pensava em nascer na época. Mas sim, você é incluso. Só que não posso negar que é legal te irritar.

– Hum. Espera... Ahhhh! VOCÊ SÓ QUER ANDAR A CAVALO PORQUE SABE QUE VAI ME MACHUCAR, NÃO É?

– Também.

Levantei-me e fui até o bando. Todos fugiram menos um, este, por sua vez, era negro com olhos avermelhados. Um perfeito cavalo-demônio. Perfeito até demais. Quando coloquei minha mão nele, começou a nevar, e esta era a prova de que ele era falso. Alguém devia ter pintado outro tipo de cavalo com olhos vermelhos. Existe mais um só que não me lembrava do nome.

– Uau... Então isso é neve... Incrível!

– Camus, você nunca viu neve?

– Nunca! No inverno a minha pressão cai... – ele havia desmaiado. Droga! Vou ter que ir sem o cavalo!

– Camus, Camus, CAMUS!

Ele não acordava de jeito nenhum.

Quando chegamos na cidade, fomos recebidos com uma festa. Como se eu estivesse com pique para fazer qualquer coisa do gênero. Peguei uma coxa do frango, peru ou seja lá o que era aquilo, deixei Camus naquele evento idiota e continuei o caminho até a Colina da Perdição, onde eu moro, isolada de tudo e de todos. Eu sei, o lugar tem um nome lindo, não? Como se isso adiantasse. Camus me seguiu me fazendo perguntas, enquanto eu não falava nada. A última pergunta foi:

– E por que você não me responde?

Olhei-o com uma cara de “some daqui ou te mato”. Também não ajudou. Ele continuou me seguindo. Suspirei e resolvi responder:

– Francamente? Não confio nas pessoas. Já me ferrei muito quando confiei e... Quando eu parei de acreditar até mesmo na bondade humana, minha vida melhorou muito. Quando a Rainha disse que daria qualquer coisa se eu matasse o dragão, eu fiquei “será mesmo? Será que ela não está brincando comigo?”. Mas como eu precisava do sangue do dragão, acabei me rendendo. Isso não significa que eu confie nela.

– Você usa uma máscara fria e seca. Mas eu sei que no fundo você é muito boa!

– Se eu tivesse que escolher entre o sangue do dragão e a sua vida, eu escolheria o sangue.

– Por que você diz isso? Você não é assim!

– Entenda que um dia você vai se desiludir dessa imagem minha de boa pessoa que criou em sua cabeça e vai se ferir emocional e psicologicamente. Estou apenas tentando fazer isso antes que seja tarde.

Depois que eu disse isso, Camus ficou extremamente quieto. Por um tempo achei normal, devia ter perdido todos os seus argumentos, mas teve uma hora que comecei a ficar preocupada. Quando olhei para trás, vi que ele estava segurando choro.

Você não é assim... – ele disse, com a voz cheia de amargura. Ainda insistia nesse argumento? Teimoso...

– Eu não sou uma feiticeira qualquer. Sou um demônio que se apaixonou pela magia e por um mundo diferente do atual. Entenda que eu mantenho meu controle por meio de plantas medicinais e uma dieta com pouca carne vermelha. Mas se eu perder o controle, eu consigo devorar a cidade inteira em poucas horas. E você está incluído nesse grupo, Camus.

– Mas é apenas se isso acontecer! E-eu quero... Estar... Perto de você!

– ENTENDA QUE EU SOU UMA VELHA DE MAIS DE QUATROCENTOS MIL ANOS COM APARÊNCIA DE QUINZE! VAI TER UM DIA EM QUE EU VOU MORRER! E TAMBÉM ENTENDA QUE EU SOU UM DEMÔNIO! DE-MÔ-NI-O! E DEPOIS QUE VOCÊ ME DISSE ISSO SÓ DESEJO QUE MINHA MORTE CHEGUE AINDA MAIS RÁPIDO! – dei uma pausa, para me acalmar. Continuei: – Sem falar que... Você merece coisa melhor.

Admito que peguei pesado agora, mas... Ele precisa cair na real antes que seja tarde. Olho mais uma vez para Camus, só que agora, com raiva e ódio. Me viro e volto a seguir meu caminho, pensando em como eu poderia ter sido feliz se eu tivesse andado a cavalo. E decidi ir a um campo onde tinha alguns pôneis, na direção oposta.

Quando finalmente chego em casa e abro a porta, vejo uma família zangada. Tinha uma velha gorda aparentando ser a mãe, que estava com uma frigideira; um velho que além de gordo era bigodudo, com uma vassoura de varrer folhas; e uma garota com cara de alemã, com uma faca na mão. A alemã falou:

– Você feriu os sentimentos de meu irmão, então irá sofrer!

– E quem é seu irmão?

Os velhos abriram um espaço entre eles e tinha uma coisa toda encolhida no chão. Fui até ele e cutuquei, queria saber quem era.

– Camus? – olhei para os velhos e a alemã, olhei de novo para ele e continuei:

– Que família, hein!

– Eu sou adotado.

– Oh, que milagre! Uma família que não tem medo de elfos!

– Está zombando da nossa cara, bruxa? – aquela velha me disse, com o mesmo ar superior de todo o resto da população.

– Bruxa é tua vó! Peguem essa coisa molenga aqui e saiam da minha casa agora! Eu não devia ter cortado a cabeça do dragão! Muito pelo contrário! Devia ter transportado ele pra cá para que ele matasse todos vocês!

– Oras, sua mal-criada! Isso é jeito de você falar com alguém mais velho?

– Os que eram mais velhos que eu já morreram fazem milênios! E os que eram pra ser também!

– Argh! Venha, Camus, você merece coisa melhor!

– Será que não dá pra entender que eu o magoei dizendo isso?

A velha me olhou espantada. Depois olhou para o elfo e perguntou:

– Camus... I-isso é verdade?

Ele concordou com a cabeça, se encolhendo novamente. Ela me encarou, confusa. É, parece que ninguém acha que eu tenho sequer sentimentos.

– Podem levar, não estou interessada!

– Você é um demônio, Luna Scarlet! Um demônio!

– Apenas vá embora!

Ela o tirou a força de minha casa e saíram. Esperei eles sumirem da vista da janela e fui tomar um banho, para depois dormir. No dia seguinte teria que sair em busca de ingredientes para a barreira.

Fui acordada aos gritos, pela Rainha. Ela parecia realmente nervosa, mas eu não entendia o que ela dizia. Até que ela apontou para a janela, onde tinha um monstro vermelho num local que parecia o centro da cidade. Me levantei correndo, coloquei uma capa e fui correndo até lá. O monstro havia encurralado uma pessoa, e, quando olhei quem era, ela me percebeu, ou melhor, ele me percebeu. Era Camus. Ele gritou:

– Você veio me ver morrer! Estou feliz... E triste por isso!

Nesse momento, minha consciência pesou. Camus tinha uma família enquanto eu... Joguei meu cajado no monstro, o que fez com que ele se irritasse e virasse para mim. Ele me atacou, acertando em minhas vísceras, o único ponto letal de um ser imortal como eu. As últimas palavras que ouvi foram Camus gritando pelo meu nome.

Aí você me pergunta de onde estou contando essa história, se eu estou morta. Pois eu digo, estou em um lugar quente e assustador, onde ninguém gostaria de estar.

Notas finais
Gostaram? Talvez eu conte uma outra história, com esses mesmos personagens.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!