O Guardião e a Raposa
19 Estranhas sensações...
Notas iniciais
Eu estava em um completo estado de desespero, minha mente estava vazia, mas ao mesmo tempo não queria aceitar aquelas palavras...
– “Como assim ele não existe mais? Ele tem que estar aqui! Ele...Nós prometemos!” – Todos os momentos que passei com Meriu passaram em minha mente e começaram a parecer papel queimado enquanto minha mente se apagava de vez.
– Yuki! – Aquela voz, trouxe calma e tranquilidade ao meu coração, mas ao mesmo tempo o deixou agitado.
As últimas cenas a se passarem pelos meus olhos são as de um rosto em desespero, embasado, porém estava mais que claro quem era...
– “A—me...”
...........
Ame
Estou em uma sala simples, é um cômodo do térreo do palácio, é como um quarto de empregado, mas serviu na hora do desespero...Yuki está deitada na cama de solteiro disponível na parede leste do quarto, eu estou de frente a janela olhando para fora, o dia se escurece cada vez mais.
Já se passaram várias horas desde que Yuki desmaiou no pátio de trás do palácio, desde aquilo, minha mente não para de funcionar, é como se estivesse coletando dados antigos pra uma investigação, mas eu não tenho certeza de nada que consigo me lembrar.
– Ame...querido... – A voz de minha tia vem de trás de mim e começa a me acamar. – Não precisa se preocupar...uma hora ou outra ela vai acordar, é só uma desnutrição comum. – Eu forço um leve sorriso para tentar acalmá-la.
– Eu sei disso tia...é que... – Suspiro. – Eu queria que o primeiro dia que estivéssemos juntos na capital fosse mais tranquilo que isso. – Ela começa a rir.
– Querer um dia tranquilo...aqui? – Diz entre os risos. – Meu sobrinho...você tem que entender que a vida aqui não é como o lugar onde você morou esses anos todos.
– Eu entendo tia...só...imaginei que alguma coisa pudesse ter mudado. – Digo, desapontado com a situação atual da capital.
– Seu pai teimoso como é...não vai mudar nada tão cedo e você sabe disso porque é igualzinho a ele nesse sentido. – Ela consegue me roubar algumas risadas.
– A senhora não mudou nada mesmo. – Agora que parei para pensar, ela realmente não mudou nada.
Os cabelos castanho-avermelhados presos em um coque, mas com alguns cachos caídos para fora chamam atenção ao rosto um mínimo envelhecido pelo tempo, mas que ainda guarda a beleza de uma mulher adulta. Sempre usando vestidos longos com mangas compridas e gola alta, alguma renda por cima da saia ou no corpete como hoje.
– Não diga isso...o tempo já tomou conta de mim...em alguns anos será a minha vez de fazer companhia a sua---
– H-Humm... – Os gemidos da Yuki me despertaram, assim como ela havia acabado de acordar.
– Yuki! – Me aproximei e sentei na borda da cama enquanto ela se sentava ainda parecendo fraca.
– Ame...o que foi que...! – Ela abraçou o estômago.
– Você desmaiou...ficou muito tempo sem comer e isso te deixou muito fraca. Aqui. – Minha tia me entregou um copo com um pouco de água e eu passei pra Yuki, ela estava tremendo de mais.
Levou pelo menos duas horas até que ela estivesse boa o suficiente pra se levantar sem ficar tonta e cair de novo. Minha tia convenceu o meu pai de adiar a audição com ele para amanhã.
No momento, estou caminhando com Yuki até os quartos designados para nós, ela está bem cabisbaixa, mas não é pela fraqueza, e sim pelo que aquele sujeito disse pra ela antes que ela desmaiasse.
Eu sei que ela quer perguntar, mas a insuficiência de coragem deve estar impedindo isso de acontecer, se bem que nem eu me lembro direito desse nome, apesar de já tê-lo ouvido antes.
– Bem...acabou que eu ainda não me apresentei... –Minha tia começou a falar. – Meu nome é Ellyz, sou tia do Ame e irmã da mãe dele.
– Ah! E-Eu sou Yuki, bem...eu—
– Ora querida, não gaste tempo explicando, Ame já me contou tudo o que sabe sobre você. – Ela sorri e Yuki responde com um sorriso meio torto, não sei se ela gostou ou não de que ter contado algumas coisas sobre ela para minha tia.
– Ah...estamos quase chegando no quarto de vocês... – Ela se adianta um pouco e fica de frente a porta.
– Quarto...? – Estranhei esse final...achei que teria um quarto para cada um de nós.
– Pois aqui estamos... – Ela abriu a porta, é meu antigo quarto no palácio, um pouco da decoração mudou, mas foi até bom, assim não tenho que sumir com um monte de fotos e coisas antigas que com certeza seriam bem constrangedoras.
As paredes estão em um tom areia, o chão continua de porcelanato amarelo, no lado esquerdo tem a minha mesa de cartas e a porta do banheiro além do guarda roupas. Do lado esquerdo a mesma cama de coxas amarelas claras e com um pergolado em cima que segura a cortina quase transparente que cai sobre os lados da cama, além dos dois criados mudos com uma luminária cada uma.
– Meu quarto?! – Digo a mim mesmo.
– Esse é seu quarto? – Yuki parece um pouco espantada, talvez pra ela seja bem diferente do que esteja acostumada, até porque ela só tinha visto aquela casa simples onde estávamos até a pouco.
– É-É...a mudou um pouco desde a última vez que estive aqui. – Olho ao redor e deixo a maleta que estava com Yuki em cima da cama.
– É...bem diferente...de tudo que eu já vi... – Ela comenta, eu e minha tia começamos a rir um pouco.
– Bem...espero que você se sinta confortável aqui minha querida e---
– M-Mas e o meu quarto... – Yuki disse isso meio sem graça, eu sabia que isso iria dar confusão.
– Eu... – Ela começa a rir confusa. – Pensei que vocês dor---
– Tia! – A puxei para um canto e expliquei minha promessa com Yuki, ela achou bem estranho, até porque na família real, quando se decide casar, o casamento e feito o mais rápido possível, por isso é bom ter a completa certeza de que querem estar juntos...
– Ah...então temos um problema...mas não há outro quarto vago no momento...o seu pai está recebendo os governantes de todo o reino...acho que só em um mês ou dois pra conseguir arrumar isso com precisão. – Ela me disse isso com um pouco de “me perdoe” no tom antes mesmo de dizer. – Sinto muito...
– N-Não tudo bem...eu...acho que não vai ter problema... – Ela diz meio sem graça...
– Oh...bem...então vou deixar vocês dois e ir resolver uns assuntos com o Rei... – Ela se dirige a porta – Vejo vocês no jantar... – E sai do quarto, deixando nós dois ali...
O silêncio tomou conta de tudo, inclusive eu estava tenso e nervoso com aquilo...me pergunto se ela também estava.
– Acho melhor eu guardar as minhas coisas... – Ela começa a agir normalmente, pareceu até que eu estava me preocupando por nada.
– Ah...aqui! – Entreguei a bolsa pra ela, e ela congelou por um instante, no exato momento e que nossas mãos se tocaram, ela pareceu bem tensa depois disso...acho que pude ver o rosto dela meio vermelho...depois disso eu voltei a ficar nervoso.
– “Agora que eu parei pra pensar...” – Me lembrei que nunca tínhamos dado as mãos um para o outro sem algum motivo importante. – “Isso...é...diferente...”
Pude sentir uma sensação entranha ao pensar nisso, como se tudo dentro de mim tivesse congelado, mas ao mesmo tempo tivesse pegado fogo...mas o mais estranho não foi sentir isso...o mais estranho foi que...
“Eu já senti isso antes...”
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