O Grito

5 Escolhas difíceis


Notas iniciais
Capítulo V

Poderia ser uma história comum; a de um garoto que se apaixona por uma garota comprometida, e a conquista. Mas, não foi tão simples assim.
No início de 1940, Igor Stone, um jovem norueguês de ascendência judaica, convenceu os pais que a melhor opção seria juntar o que conseguissem e fugir enquanto podiam. A ocupação nazista em seu país já fazia suas vitimas e ele não queria que entrassem para as estatísticas.

Recém-formado em agronomia e cheio de sonhos, creu que na Inglaterra teriam uma melhor oportunidade de sobreviver, pois a RAF (Força Aérea Real) e a Real Marinha Britânica estavam conseguindo deter a invasão agressiva das forças alemãs. Foi lá que conheceu Kristen, moça católica que tinha acabado de perder os pais em um dos inúmeros bombardeios sobre Liverpool. Igor insistiu para que os pais acolhessem a vizinha, pois ela não tinha mais ninguém, a não ser o noivo, um dos soldados convocados pela força aérea britânica, que há meses não via ou conseguia notícias.
Apesar da resistência, as baixas eram inúmeras, e ainda que o Reino Unido estivesse conseguindo rechaçar a investida alemã, ficaram isolados do resto do mundo. A fome podia ser bem cruel naqueles dias. A maior parte de tudo que podiam produzir era confiscado para a resistência. O trabalho árduo, dias sombrios e noites insones tem o poder de unir ainda mais os desvalidos e a proximidade diária fez com que Igor e Kristen acabassem se apaixonando e casando-se alguns meses depois. Sem pompas nem circunstâncias, Kristen abriu mão de suas convicções religiosas, e uniu-se à Igor numa tarde fria em uma das poucas sinagogas que tinham permanecido de pé. No anular direito ela passou a ostentar um valioso anel de família. O restante das joias escondidas seria dado em troca de uma passagem segura para os Estados Unidos, mas teriam ainda que amargar vários dias pelo contato que os tiraria da área dos bombardeios. Justamente nesse período o noivo de Kristen reapareceu.

John MaCalister era um hábil piloto que por meses não via a hora de reencontrar seu grande amor. Convocado pela RAF, não imaginava passar tantos meses longe de suas terras, família e da mulher a quem prometera casamento assim que voltasse. Entretanto, ao retornar cego de um dos olhos, não havia restado mais nada. Suas terras, sua casa, sua família..., tudo havia desaparecido, inclusive sua noiva. Estava vazio, a não ser pela esperança de ainda encontrar alguém vivo. Infelizmente, toda sua família constava no relatório de baixas, menos o nome de Kristen. Com uma motivação para continuar vivendo, não houve um só dia em que não a procurasse. Mostrava o retrato dela a todos com quem cruzava, inclusive em hospitais, igrejas e sinagogas. Até que um dia...
— Sim, eu a reconheço. – disse um rabino. – Um tanto a contragosto, celebrei a união de um dos nossos com essa Goy (não judeu ou gentio).
— Casada...? “Minha Kristen?” Onde posso encontrá-los?
John estava transtornado. O misto de mágoa e ódio crescentes não passou despercebido ao rabino, que reteve a informação. Imagens dos dois juntos, das promessas e juras de amor não saíam de sua mente. Pensar que ela estava com outro, casada, tendo relações... o enlouquecia. “Eles não devem estar muito longe”.
Alguns dias se passaram com John perambulando pelas ruas, até que ele a viu em frente a uma casa simples com um homem alisando sua barriga.
— Kristen! – John gritou do outro lado da rua.
— Quem é ele aquele homem, querida? – Igor perguntou, e vendo o espanto da esposa, intuiu o pior.
John atravessou a distância em segundos, saltando a cerca e partindo para cima de Igor, que o repeliu com facilidade.
— Pare John! Por favor, posso explicar!
— Explicar o quê, sua meretriz. – Gritou ensandecido, desferindo um soco em Igor que perdeu o equilíbrio.
Kristen segurou John pela cintura, tentando evitar que este agredisse novamente seu marido ainda no chão. Mas ele a empurrou com violência, fazendo com batesse a cabeça na quina do corrimão da varanda e caísse desacordada. O pai de Igor, achando que estavam sendo atacados por saqueadores, correu em socorro do filho já dando um tiro para o alto. A briga foi interrompida de imediato. Igor foi acudir a esposa grávida, levando-a para dentro e a colocando no sofá. John não se afastou, pelo contrário, avançou também para dentro da residência, sem temer o cano da carabina apontado para sua nuca.
— O que foi que eu fiz? – John gemeu com as mãos na cabeça. – Eu não queria machucá-la! Kristen, fale comigo amor? – insistiu, pondo-se de joelhos ao lado dela.
— Saia daqui, seu miserável! Não vê o que fez? Ela está grávida!
— Você a roubou de mim! Aproveitou-se da fragilidade dela e a roubou de mim, seu desgraçado. — gritou, avançando sobre Igor, mas não o atacou.
— Foi você quem a abandonou! Onde estava quando ela também perdeu tudo? Apenas aceite que eu sou a família dela agora!
John, vendo que Kristen não acordava, levantou desolado. Tinha guardado o suficiente para casar e formar a tão sonhada família, entretanto, tudo tinha ficado nebuloso. O pai de Igor o expulsou sob a mira da arma e ele saiu da casa meio sem destino, até encontrar-se novamente na base aérea. Não podia se reengajar, estava reformado, mas também não tinha para onde voltar. Ficaria por ali até clarear as ideias e saber o que fazer.
Alguns dias se passaram depois do fatídico reencontro. A visão dos dois o assombrava, causando-lhe pesadelos e uma crescente revolta. Como não podia alimentar mais o amor dentro de si, decidiu que os dois também não ficariam juntos. Igor, tentou se colocar no lugar do outro e surpreendeu-se em pensar que não deixaria barato se fosse com ele, porém, preocupado com a segurança de sua família, prestou queixa contra John no quartel por má conduta.

Duas noites depois, durante a madrugada, John espalhava gasolina em torno da humilde residência enquanto todos dormiam. Estendeu um rastro de gasolina até o outro lado da rua, de onde intencionava atear fogo e vê-los todos queimar.
Os saques às residências tinham se intensificado, e um patrulhamento mais ostensivo havia sido deslocado para cobrir a região.

As labaredas chamaram a atenção da patrulha que fazia a ronda a tempo de salvarem as vítimas da casa e prenderem o capitão que gargalhava insano do outro lado da rua ao lado de um galão.
— John, o que pretendia com isso, seu louco? Matar a todos? – Gritou Igor de dentro da ambulância.
— Não vou descansar um dia sequer até vê-lo apodrecer. Vou tirar tudo de você. Pode apostar sua vida nisso — rosnou John, ao ser algemado.
Meses se passaram depois daquele dia. Não tinha sobrado muito a que a família judia pudesse se apegar. Kristen havia perdido o bebê. Enquanto John passava pela corte marcial, Igor seguiu com os seus para os Estados Unidos. Uma outra guerra os aguardava.
Algumas joias haviam sobrado e estabeleceram-se no interior do novo país. Os Estados Unidos haviam se mantido oficialmente neutros no início das hostilidades. O presidente Roosevelt mantinha a promessa de fornecer apoio diplomático e financeiro à China e ao Reino Unido, fornecendo enormes quantidades de suprimentos e equipamentos aos Aliados. Igor viu finalmente a oportunidade de usar todo seu conhecimento em agronomia e iniciar um negócio no ramo alimentício, indo de encontro ao interesse daquele momento tão delicado do país. O ataque à Pearl harbor tinha deixado profundas cicatrizes no povo americano e a investida contra os japoneses foi quase que imediata. Roosevelt, Churchill, Stalin e Chiang Kai-shek decidiram se unir para derrotar a força opressora. O desemprego nos Estados Unidos despencou para menos de dois por cento. Os programas de ajuda econômica acabaram e o potencial industrial do país cresceu exponencialmente, com milhões de pessoas trabalhando nas fábricas ou indo servir nas forças armadas. Foi o momento exato que Igor encontrou para se lançar e se estabelecer nas décadas subsequentes, tornando-se um dos maiores industriais do ramo alimentício e atraindo a atenção de um antigo rival.

***

Notas finais
Continua...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.