O Grito
1 A Vila
A vila. Um bairro originalmente construído para mineiros no ano de 1817. Local afastado, porém, muito atrativo, se fossem consideradas as edificações geometricamente dispostas em uma colina com vista deslumbrante para o oceano. As casas eram simples e bem construídas. Legado de um prefeito, filho da terra, cujo altruísmo lhe garantiu três mandados consecutivos.
Por décadas a localização se manteve privilegiada e de fácil acesso, contudo, por algum motivo, não havia o frescor de novos vizinhos. Por gerações ninguém mais foi morar lá ou conseguiu se mudar. Passados mais de dois séculos, os sobrenomes não se alteraram, apenas mesclaram com os dos vizinhos formando uma enorme família de descendentes.
Parecia uma grande armadilha com edificações. Ruas asfaltadas sobre as antigas pedras, hidrantes e pequenos comércios, denotavam que o progresso havia chegado, mesmo que a passos lentos. O curioso é que não se achavam crianças brincando nas ruas e praças. Muito menos os mais velhos cultivavam jardins ou cochilavam nas varandas. Era sombrio, e não porque o clima de Essex fosse nebulosamente frio e úmido na maior parte do ano.
A comunidade bretã mantinha resquícios sutis da esmaecida invasão viking. Quem observasse com mais cuidado, poderia ver traços étnicos da colonização do séc. XI, consequência de casamentos entre normandos e nativos ingleses que perpetuaram a linhagem consanguínea e algumas práticas dos invasores. Talvez a força desbravadora dos antepassados nórdicos os tenha ajudado a sobreviver durante a peste negra, suportar as privações no período da revolução industrial e durante as guerras. Na época, a fome era grande.
A centenária comunidade parecia que tinha sido atraída para aquele pedaço de chão. Oriundos de pontos equidistantes do país, estabeleceram-se numa espécie de bolha particular. Ninguém os incomodava.
Artefatos, imagens e demais objetos eclodiram do solo durante as construções. Muitos deles eram chamativos ou possuíam um apelo espiritual difícil de explicar e, por isso, não foram relatados ao governo local. Foram incorporados pelos mais antigos à uma primária e secreta cultura familiar, intensificada ao longo das décadas e repassadas aos descendentes. A vida difícil estimulou a prática do curandeirismo, entre outras evocações que mantinham a estranha comunidade longeva e, relativamente, autossuficiente. Os cristãos mais ortodoxos viviam incomodados, porém, por mais que os rumores de tais práticas fossem abomináveis, também causavam temor. O isolamento dos moradores da vila era benéfico para ambos.
Os homens de lá iam e vinham do trabalho sem parar em pubs ou participar de quaisquer tipo de confraternizações. As mulheres ficavam em casa, cuidando da educação dos filhos, filhas e de seus afazeres. Vez ou outra, algumas podiam ser vistas em postos de saúde, fato raro, mas observado com certa curiosidade e incômodo pelos mais entusiastas da saúde pública. As crianças, não constavam no senso e muito menos no cadastro da escola curricular, mas, ao longo dos anos, transitaram da completa indiferença para um crescente objeto de campanhas políticas.
Na virada do milênio, a expectativa de uma nova era mexeu com a cabeça de muitos. As profecias do calendário Maia, eclipses malfazejos e o Bug do milênio apavoraram os mais sugestionáveis, afetando a Bolsa de Valores e, consequentemente, grandes empresas. Jornalistas internacionais — de cunho mais sensacionalista -, insuflavam a venda de jornais procurando qualquer coisa estranha que garantisse seu lugar ao sol: um Pulitzer ou a capa na National Geografic seria um bom começo. Ressuscitaram questões sobre os pacatos Amish americanos, e a escusa comunidade de Chelmsford não foi ignorada. Com tanto fatalismo rondando o imaginário coletivo, curiosidades, por menores que fossem, apareciam da barra de pesquisas do Google.
Guilbert, era um recém-formado jornalista americano. Trabalhava em uma revista de propaganda e marketing, emprego arranjado por meio dos amigos de seus pais. Nada como trabalhar entre os bons para desenvolver o faro. Acompanhando o desenrolar das notícias, boatos e mediante algumas investigações preliminares, achou que não custaria nada sair do cenário usual e explorar o velho e lendário Reino Unido. Tinha situação financeira confortável, mas ainda não passava de um inexpressivo aluno formado por Yale. Um furo de reportagem era tudo o que precisava para deslanchar. Se tudo corresse como pretendia, a notoriedade podia inseri-lo no rol dos famosos advindos da conceituada instituição. Já era chegada a hora de seu voo solo.
Dono de músculos torneados, olhos claros e cabelos loiros, achava que seus atributos físicos seriam facilitadores, especialmente naquela incursão. Contudo, sua jovialidade não denotava imaturidade. Sabia que o cenário mundial estava instável e que americanos nem sempre eram bem vistos em certos nichos culturais. Havia um ranço contra o Tio Sam. O escândalo de Clinton e a ascensão de Bush não eram propriamente bons cartões de visita. Seu melhor amigo, Cleber, certamente seria seu contato e porto seguro.
Cleber havia entrado em Yale pela porta dos fundos, como os filhotes da elite ociosa insistiam em lembra-lo a todo instante. Contudo, não fosse por ele, Guilbert seria apenas mais um no mar de riquinhos de famílias proeminentes. Cléber, ao contrário, destacava-se em tudo a que se propunha. Afrodescendente de 1,90m, tinha a habilidade nata de atrair pessoas. Esbanjava talento no basquete e era imbatível com as mulheres. Entretanto, foram suas aptidões como programador que lhe garantiram uma bolsa integral para cursar TI. Só um idiota não ia querer tê-lo como mentor e melhor amigo. Ainda assim, foi difícil convencê-lo de que essa era oportunidade de sua vida para sair da sombra dos pais e fazer algo por si mesmo.
Eram como unha e cutícula. Ainda estaria com óculos de aros grossos, suspensórios e um cardigã ridículo, não fosse por ele. Com ele aprendeu a ter estilo, frequentar festas sem pagar mico e abordar as garotas. A primeira transa e o primeiro cigarro de maconha foram consequências da vida universitária. Podia dizer, sem sustos, que sua vida era pautada por AC e DC (antes de Cléber e depois de Cléber). Tinha se tornado mais descolado e cada vez mais distanciado de uma vida sem graça e de futuro previsível. Queria escrever sua história, imprimir sua assinatura em coisas relevantes, tal como o amigo que o enchia de admiração. Mesmo depois de formados, malhavam juntos, bebiam juntos e mantinham contato constante. Cléber fornecia material com tendências para Guilbert e este propagava os apps da firma do amigo. Uma dobradinha exitosa, mas que ainda não gerava plena autonomia. Em um desses encontros Guilbert compartilhou da febre com o amigo.
— Cê tá maluco? Seus pais vão pirar! – risos.
— Tá na hora cara! Tenho que sair da sombra deles e meio que da sua também. Você tem uma família que te apoia, já está com a vida ganha, seu canto e tem a cama sempre quentinha com uma gata qualquer. Daqui a pouco estarei com trinta anos e ainda nem cubro minhas contas. Não consigo nem que aprovem uma namorada...
— Sei não cara. Você é o único peixinho dourado deles. Pode nadar, mas dentro do aquário. Eles vão te sabotar.
— Eles não tem que saber, e é aí que você entra.
A noite foi longa. Entre várias doses de wisky, Guilbert contou os pormenores do que havia apurado da comunidade e das lacunas que Cleber teria que preencher. Licença médica para o trabalho; um estágio fictício em outro estado; histórico da vila; roteiros; passaporte; reservas; e hackear a conta de seus pais para transferências de dinheiro não rastreáveis. Enfim, quase tudo.
— Você quer que eu seja preso? – risos alcoólicos – Isso pode levar um tempão, otário. Como vou suportar esse lugar úmido sem a sua cara feia?
— Sei que você driblaria até o FBI. Vai cara, faz isso por mim, irmão.
— To muito bêbado pra responder. Me dá uma semana?
Nenhum dos dois estava em condições de dirigir. Seus hálitos poderiam deixar qualquer um embriagado. Chamaram um taxi e Cléber foi o primeiro a ser deixado em seu apartamento.
Apesar da quantidade de álcool ingerido, um deles não conseguiu dormir.
Cléber havia notado há semanas que o amigo estava ansioso, mas deu espaço para que contasse o motivo quando estivesse pronto. Ficou deitado fitando o teto, até que a claridade invadisse o quarto. Uma angústia apertava seu coração, mas não era pelo desafio proposto, e sim pela distância que teria que suportar. Estava exausto. A máscara que se obrigou a carregar por tanto tempo ficava cada vez mais pesada. Entretanto, era compensado pela proximidade. A intimidade construída era tudo que tinha e isso corria riscos. Ele podia correr riscos, Guilbert não. Conhecia-o melhor que ele mesmo e, exatamente por isso, sabia que não podia abrir seu coração. Seria um choque para ele.
Enquanto Guilbert vivia em uma ala azul da mansão dos pais, algo que o fazia lembrar que realmente parecia um peixinho dourado, Cléber habitava um loft, não muito longe, bem no centro de Arlington. Uma oferta de ocasião o possibilitou arrematar uma antiga instalação dos bombeiros. Levou um tempo e muitas horas de trabalho até conseguir o suficiente para deixar o lugar semelhante a um centro de pesquisas da NASA. Lá concentrava sua moradia, empresa e vários equipamentos que conferiam um cenário de filme futurista. Guilbert tinha feito parte do processo. Não teria conseguido um quinto dos equipamentos sem que ele tivesse investido boa parte de sua poupança. Pensando em todos os prós e contras, devia muito à ele. Ainda assim, depois de uma semana pesquisando a história da vila em Essex, um mau pressentimento não lhe dava sossego. Após três toques, Guilbert atendeu.
— E aí cara? Você não falha, heim! Já estava pensando em te ligar.
— Então irmão, a gente precisa conversar.
— Pelo seu tom de voz, tem coisa errada. Me dá uma hora que apareço aí.
Cléber nem teve tempo de dizer que preferia ir à seu encontro. Olhou ao redor e percebeu que o mergulho por dias na internet havia deixado local em total lástima. Jogou as roupas dentro do armário, ajeitou as almofadas sobre o sofá, recolheu copos e caixas de pizza e deu descarga no banheiro. Depois da louça lavada, o lixo no lixo e um aromatizante de ambientes, parecia mais habitável. Foi o tempo exato para que uma campainha desviasse seu olhar para a grande tela embutida na parede. Do outro lado, o rosto que lhe tirou o sono por dias mostrava o dedo do meio.
— Abre aí Mané!
— Abre você, palhaço. Perdeu as chaves de novo?
Constantemente Gilbert perdia as chaves. Tinha um problema crônico em roer as unhas e, por isso, não conseguia enfiá-las no elo do chaveiro. Cleber sempre deixava uma debaixo do capacho, caso as brigas constantes com seus pais o impedissem de permanecer na mesma atmosfera da mansão.
— E então, desembucha – disse o amigo abrindo a geladeira e pegando uma long neck.
— É melhor você se sentar.
As duas horas que se seguiram foram gastas tentando demover Guilbert de sua obsessão e sugerindo outros meios de alcançar o sonhado Pulitzer.
— Sem jeito.
— Então eu vou com você.
— Comeu merda? – disse Guilbert exasperado. – Quem vai me dar suporte? Não tem como você levar essa tralha toda nas costas e, sem isso tudo – falou ampliando os braços – você não tem acesso à Força, Obi-Wan.
Guilbert podia ser infantil às vezes, o que aos olhos de Cléber, o deixava ainda mais fofo. Contudo, o assunto lhe causava calafrios.
— Senta aí e escuta, porra! – Cléber mudou o tom. – Nunca disse o que você podia ou não podia fazer, muito pelo contrário, mas não vou te incentivar a cruzar o oceano para um lugar sinistro e sem a cobertura dos seus pais. E se te acontece alguma coisa? E se me acontece alguma coisa? Já pensou? Você ia estar na merda!
Cléber nunca tinha encostado o amigo na parede daquele jeito. Era o cara das tretas. Aquele que o colocava nas paradas e, a contragosto, colocado também a primeira mulher em suas mãos. A situação fez com que o jornalista afrouxasse a gravata e prestasse total atenção.
— OK. O que é que está realmente te perturbando? Nunca te vi assim. — ouviu novamente tudo com a máxima atenção.
Aquela talvez fosse a primeira e a única oportunidade que Cléber teria para expor o que sentia, mas sabia que teria que abrir mão disso caso não quisesse jogá-lo de vez aos leões. Era o único amigo real que ele tinha, apesar dele falar que, vez ou outra, saía com “os amigos” da empresa. Não corria o menor risco de ser substituído por aqueles hipsters pseudo eruditos.
— Cara, sabe que te amo. – Aff – Você é mais que da família pra mim, e se te digo que sinto cheiro de merda no ar, é porque tem merda no ar! Todo o resto que me pediu eu faria com os dois pés nas costas pela dark internet. Ninguém te acharia, e te daria total cobertura, mas o que li e ouvi dos meus parças na deep web foi estarrecedor. Nem o povo de lá chega perto daquela gente. Quem chega, some.
Guilbert confiava no amigo mais que em si mesmo, mas já havia incubado o desejo de ir para a Inglaterra como um vírus, o que o fez olhar para o amigo de anos como se o visse pela primeira vez.
— Você está é com inveja! Quer que eu viva pro resto dos meus dias à sua sombra? Vai me prender à você por mais quanto tempo? Me liberta, cara!
— Heim? – Cléber o olhava incrédulo. – Você não pode estar falando sério? Esse não é você!
Guilbert cuspiu todo o ressentimento que havia e que não havia dentro de si. Estava frustrado e deprimido. Sentia-se um derrotado, depois da briga tensa com o pai na noite anterior.
— Parece que quer ser minha mulher, me controlando e me dizendo o quê fazer. Ou me ajuda ou nossa amizade acaba por aqui.
Cléber não sabia como metabolizar uma coisa que nem ele sabia como lidar. As palavras do amigo o feriram tão profundamente, que ele pediu para que saísse.
— Cai fora daqui, Guilbert. – falou com voz entrecortada. — Você provou que é realmente um peixinho mimado, que não sabe ouvir um não. Só volte quando tiver um ótimo pedido de desculpas que me convença a não te dar um chute nessa bunda branca.
A porta bateu com tanta força, que o deslocamento de ar derrubou a preciosa tela de Yoda da parede. Não se viram por um mês.
Cléber estava de coração partido e visivelmente havia perdido peso. Sua mãe, que frequentemente levava coisas gostosas para ele, tinha percebido seu abatimento. Ela sabia de tudo, mesmo que ele nunca tivesse lhe dito uma só palavra. Não comentava nada por causa do marido, homem ríspido e fechado que havia perdido um filho para as drogas. Saber da orientação de seu caçula, talvez fosse uma pá de cal sobre suas convicções protestantes.
— Guilbert ligou?
— Não. mãe. — exalou.
— Então liga pra ele, ué! Parem logo com essa besteira. Alguém tem que ser o adulto da relação – falou enquanto guardava alguns potes de comida na geladeira e retirava outros intocados da semana anterior. – caso ele mude de ideia ou venha a precisar de você, como vai ajudá-lo nesse estado?
Cléber olhou para ela meio desconfiado, mas algo em suas palavras acendeu uma lâmpada sobre cabeça dele. Levantou como se uma mola o tivesse impulsionado e começou a digitar freneticamente no computador.
— Aquele filho da puta...
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