O Grande Palco da Vida - Live
47 Uma carta inesperada.
Notas iniciais
Em Outubro, Regis se mudara com sua família para São João e no mesmo dia fora me visitar, alegando nunca mais ter feito qualquer apresentação artística. Continuava seu contrato com a gravadora por mais dois anos, mas era apenas pela venda de seu quarto disco, que por sinal ficara muito bonito, apesar de não ter nenhuma música de minha autoria, com exceção de “Homenagem”, que fora registrada, como combinado, em nome dele.
A partir desta data, apesar de morarmos um pouco distante; eu na Vila Brasil e ele no centro da cidade, nos encontrávamos sempre. Geralmente ele passava os finais de semana em minha casa. Mesmo que eu saísse para algum compromisso ou passear, ele entrava com uma chave que carregava consigo. Muitas vezes, até brincava com Orzila, que cuidava de minha casa.
— Agora a senhora tem que pedir pra Willian lhe pagar salário dobrado — dizia ele à mulher. — Tem que lavar mais cuecas!
— Estou mesmo precisando de um aumento no serviço — alegou ela. — Mas como você é rico, vou pedir este aumento pra você.
— O máximo que estou lhe dando mesmo é aumento de serviço, Orzila — riu o menino. — Aumento de dinheiro a senhora pede ao papai Willian!
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Em mil novecentos e oitenta e cinco, ele passou a frequentar uma escola de verdade, em busca do tempo perdido.
Em oitenta e seis, conheci e namorei àquela que viria a ser minha futura esposa. Ela tinha então a idade dele: quinze anos. Nascida em março de setenta e um. Treze anos mais jovem do que eu.
Apesar dele nunca mais ter voltado aos palcos, sempre que estava em minha casa, passava algum tempo tocando violão e às vezes até cantando sozinho, mas dava pra perceber nitidamente, que seu cantar não era assim tão feliz e até me sentia culpado por isso.
Uma tarde de Dezembro de oitenta e sete, já próximo de seus dezessete anos de vida, se sentindo triste, levando consigo seu fiel companheiro violão foi comigo dar um pequeno passeio, na vizinha cidade de Águas da Prata e enquanto eu fora beber a tradicional água do local, ele sentou-se em um gigantesco tronco, entre as centenas de árvores milenares e passou a tocar seu violão.
Apenas bebi um pouco de água e em menos de dois minutos voltei ao seu encontro. Ao longe, o vi tocando em tom baixo e então percebi seus olhos rasos d’água.
Aproximei-me, sentei-me a seu lado e perguntei:
— O que há, menino? Por que tanta tristeza?
— Eu sinto tanta saudade do tempo em que fui artista — disse-me ele, deixando as lágrimas molharem seu rosto.
— Você ainda é um artista. Apesar de não fazer mais shows, seu dom de artista ninguém irá lhe tirar nunca!
— Tenho saudades do tempo em que era conhecido! Do carinho das pessoas… dos shows lotados…
— Sei disso! Embora eu não seja artista, também sinto muita falta daquele tempo bom.
— Por que teve que ser assim?
— Foi por minha causa que você abandonou sua linda carreira.
— Foi mesmo! — concordou ele suspirando forte. — Por sua causa; mas não por sua culpa!
— Não adianta querer achar culpado. Pedi tanto pra você continuar sua carreira!
— Meu pai foi culpado! Tenho mágoa disso!
— Seu coração não tem lugar pra mágoas, Regis!
— Tudo por causa daquele maldito sequestro! Como posso perdoar aquelas pessoas? Que me bateu na cara… que destruiu minha carreira… — passou a chorar ainda mais.
— Está arrependido?
— Nunca! Tenho saudades! Mas faria a mesma coisa se voltasse àquele tempo!
— Regis Moura e Pedro Moura! — ironizei. — Dois durões! Nenhum dará o braço a torcer jamais! Mesmo que ambos saiam perdendo com isto!
— Realmente! De certa forma puxei a meu pai.
— Acho que você acabou por se formar nessa tal escola da vida.
— Engana você! Na escola da vida ninguém passa do primeiro ano! Não sou santo, mas tento ser justo.
— Aonde você tira tanta filosofia? — perguntei rindo.
— Por aí! Livros… Pessoas… Lembra quando eu era bem pequeno e você me disse, leia muitos livros, além deles educar sua voz e dicção, lhe trará cultura e sabedoria.
— Éh! Meu filho por escolha. Também tenho muitas saudades e recordações de seu tempo de fama! Sei que era um mundo perigoso, principalmente pra você, que era só uma criança e já se via envolvido em um mundo de muita perdição.
— Perdição aonde, Willian? — reclamou ele. — Meu mundo era bonito e feliz!
— Sua inocência de criança não o deixava perceber, mas estávamos envolto por drogas, mulheradas e tantas outras coisas nocivas a você.
— Nunca me ofereceram drogas! E mesmo que o fizessem, eu era criança sim, mas esperto o bastante pra saber ignorar. Quanto a mulheres... Você sabe bem o que aconteceu... Antes da hora não lhe faz homem, lhe faz objeto.
— Menino! O que posso fazer por você?
— Você sempre fez muito. Tem uma música bonita que diz assim, estou judiado mas não derrotado, pois sou bem guiado pelas mãos Divinas. Assim sou eu!
— Por falar em música, nunca ouvi você cantando pessoalmente a minha homenagem.
Sem comentar, ele tocou e cantou, com a voz já mudada para a de adulto, em um tom bem mais grave do que quando gravou:
Meu grande amigo, eu recordo com saudade.
A nossa felicidade, como flor desabrochou.
Querido amigo, eu era uma criança.
Mas tinha tanta esperança de um dia ser cantor.
Meu velho amigo transformou a minha vida.
Criou-me e deu guarida, também foi meu professor.
Meu bom amigo fiquei rico você sabe,
Conhecido de verdade, tive um grande construtor.
Irmão e amigo, uma promessa eu fiz consigo,
Você estará comigo, na vida por onde eu for.
Mas sabe amigo o destino foi ingrato,
Desfez todo nosso trato, no mundo com desamor.
Mas meu amigo, apesar dessa maldade,
De toda esta crueldade, não tenha nenhum rancor.
Palavra amigo, eu trago com emoção,
No meu pobre coração, te quero com muito amor.
Pra sempre amigo, lhe dedico esta homenagem,
Pois sempre teve a coragem de ser meu anjo guiador.
Mas sabe amigo, um pedido eu faço a Deus,
Guie sempre os passos seus, Ele é nosso protetor.
Devido seu atraso escolar, Regis concluiu seu ensino médio, no ano de mil novecentos e noventa, já com dezenove anos de idade. Até essa idade, apesar de ser muito querido pelas colegas de escola, jamais namorou seriamente.
Em um sábado à noite, percebendo que ele não sairia de casa, devido alguns vídeos que ele trouxera de uma locadora, resolvi pressioná-lo:
— Não vai namorar não, menino!
— Com quem? — riu ele.
— Cadê a garota da semana passada?
— É só amiga, Willian!
— E quando você vai namorar sério?
— Tá me tocando?
— Não! Só quero que você viva!
— Calma! Deixe eu estudar primeiro, depois vou namorar de verdade.
— O amor não espera o estudo acabar!
— Ainda não apareceu a dona de meu coração!
— Coração difícil esse!
— Vê quem fala! — ironizou ele. — Eu só tenho dezenove anos! Você já tá com trinta e dois! Quando vai se casar?
— Calminha!
— Precisa parar de brincar de pai e providenciar seu filho de verdade!
— Não quer mais ser meu filho? — pensei um pouco. — Aliás... Apeguei-me tanto a você, que não parece ser apenas um faz de conta. Por que será?
— Quando você me conheceu, você já gostava de crianças de um jeito especial. Gostava ainda mais no caso de criança artista. Por quê?
Pensou um pouco e ele mesmo respondeu sua pergunta:
— Você desde criança sonhava em ser artista, mas nunca conseguiu aprender a tocar nada! Tentou gaita, cavaquinho, violão, viola... Não é verdade?
— Com certeza! Meus dedos eram duros e não acertava as notas musicais. Mas eu continuei tentando ser artista! Tentei teatro! Só abandonei por precisar mudar de Penápolis.
— Aí você me conheceu! Um menino que queria ser artista! Puxa! Ganhei meu primeiro fã! E eu retribui sua amizade. Você viu em mim o que sonhava pra você. Pra chegar onde você quer é simples, quando resolvemos mudar pra São Paulo e meu pai não pode ir, ele acabou concordando em lhe autorizar a ser meu tutor. Veja bem... Tutor! Você era muito novo ainda! Tinha o que? Minha idade! Meu pai lhe disse tutor e seu cérebro entendeu “adotou”! Você acreditou que tinha ganhado um filho e eu passei a ter dois pais! Quando meu pai resolveu proibi-lo de viajar comigo, não foi pelo sequestro; foi por ciúmes. Eu passava mais tempo contigo do que com ele, mamãe e Tony e isso o deixava trincando de... Ciúmes.
— E porque ele não viajava conosco? Seria tão simples acabar com esse ciuminho bobo!
— Ele achava que não seria útil na nossa equipe. Que ele mesmo não saberia fazer nada! Ele sempre foi muito inseguro.
— Será que ele não se achava útil, pra ser pelo menos motorista do ônibus?
— Até hoje ele tem esse ciuminho bobo! Às vezes ele reclama que eu venho passar o fim de semana por aqui. Então lhe dou um beijo no rosto e digo, “calma papai, o Willian não vai me roubar”.
Uma hora depois, estava de saída para jantar fora com minha futura esposa.
— Vai ficar preso em casa mesmo?! — cobrei-o. — Na frente da televisão?
— Não tenho nada importante pra fazer! — negou ele.
— Vamos jantar conosco!
— Obrigado! Não me dou bem como velas!
— A gente vai jantar juntos! Nós três. Depois te trago para casa e então saio com minha gata! A vida é especial pra que você a perca diante de uma tevê à noite toda!
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No ano de noventa e um, ele iniciou a faculdade de medicina na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Campinas, indo para sua casa apenas nos finais de semana. Sendo assim, para se portar como bom filho passava esses dias com os pais, passando em minha casa por apenas alguns minutos.
Dia primeiro de Maio de noventa e três, além de ser feriado era sábado, então recebi uma visita inesperada e ainda antes do almoço, depois que a tal visita foi embora, fui até a sua casa, onde fui recebido por sua mãe Odete, que me autorizou a encontrá-lo em seu quarto, onde estava organizando uma estante de livros.
— Vê se não é meu tutor quem veio me visitar! — sorriu ele. — A que devo tal honra de quem nunca vem?
— Tutor! Palavra feia! — brinquei. — Me chame de pai, que é bem mais gostoso!
— Bem mais gostoso não existe, papai Willian! — corrigiu-me ele.
— Menino estudado, sabe das coisas — brinquei.
Sentei-me em sua cama, enquanto ele continuava mexendo nos livros.
— Precisava falar um assunto esquisito com você.
Ele me olhou serio, depois concluiu:
— Precisava! Que bom que não precisa mais!
— Tem uma pessoa que me procurou e quer falar com você.
Ele mudou de fisionomia, continuou me olhando, com certo franzido na testa e negou:
— Não quero falar com ele, Willian!
— Como? Você sabe de quem estou falando?
— Paulo! Não quero vê-lo!
— Não é Paulo! É Luís Marcos.
Regis se entristeceu ainda mais e me cobrou:
— Por que você faz isto comigo? Pai castrador!
— Porque eu te conheço! E como fui procurado, não tenho como esconder de você.
— Ele não deveria estar em reclusão?
— Disse que como cumpriu mais de um terço da pena, foi beneficiado por algumas vantagens, como, bom comportamento, ter colaborado nas investigações, ter sido réu primário, ter endereço fixo, dias de trabalhos prestados... E outras vantagens que lhe deu o direito de cumprir o resto da pena em liberdade.
— Diga a ele pra pedir perdão a Deus.
— Ele já fez isso, mas disse precisar de seu perdão.
— Você é mau comigo, Willian! Sempre quis me construir um menino santo! Às vezes se esquece de que sou de carne e osso!
Apesar da má recordação em que eu lhe submetera, ele acabou concordando em encontrar Luís Marcos em minha casa, no início daquela noite.
Poucos minutos antes das sete horas, convidei Luís Marcos para entrar e aguardá-lo na sala de estar. Regis entrou na mesma sala alguns minutos depois. Entreolharam-se em silêncio.
— Me dão licença — pedi, tentando me retirar.
— Por favor! Fique!— pediu-me Regis, muito sério.
Sentei-me na poltrona do papai. Os dois permaneceram de pé. Luís Marcos cortou o silêncio:
— Regis, sei que não deveria ter me atrevido a este encontro; sei o quanto ele faz você se lembrar de péssimos momentos, mas por favor, eu tenho que lhe falar. Sei o quanto é difícil a um ser humano aceitar um apelo de perdão desses. Nem espero que você me perdoe. Já pedi perdão a Deus, centenas de vezes no presídio, mas sei que só serei perdoado por Ele, quando puder receber perdão de você. Não quero lhe pressionar, pois em seu lugar também não me perdoaria nunca. Sei que é muito o que lhe peço e te asseguro de uma coisa... recebendo seu perdão ou não, não vou te procurar mais, pois não é justo ficar te trazendo más recordações.
Regis permaneceu calado e de olhos baixos por alguns segundos, depois olhou firme a Luís Marcos e desabafou:
— Sofri muito enquanto estive trancado naquele inferno. Eu era apenas um menino, mas me sentia um traste, sem chance de fazer nada por mim mesmo. Era horrível saber que pessoas me dominavam, como este traste que sentia e podiam tudo sobre meu corpo e minha mente. Até hoje... Tenho pesadelos daqueles poucos dias que me pareceram séculos. Jamais me esquecerei do que Paulo me disse, quando reclamei que estava sendo traumatizado pelo resto da vida. Mas sabe de uma coisa, Luís Marcos — Regis começara a chorar. — Eu teria sofrido muito mais se você não estivesse lá; portanto, não tenho nada pra lhe perdoar. Deus com certeza já lhe perdoou, mas você tem algo mais difícil do que tudo isto. Agora você mesmo precisa se perdoar.
Luís Marcos suspirou aliviado:
— Você me perdoou?
— É você quem precisa se perdoar.
Regis às vezes agia de modo difícil.
— Mas quanto a você? Me perdoa?
— Já lhe disse Luís — suas lágrimas continuavam. — Você foi meu guardião naquele inferno!
— Mas eu cravei um punha...
— Chega! — gritou Regis, com mais lágrimas. — Não se repita o que traz mais dor! Perdoa a ti mesmo e tudo estarás bem! Mas lhe asseguro que não será fácil.
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Dia dezoito de Março de noventa e cinco, sábado de manhã, Regis chegou à minha casa e ao me cumprimentar, já deu para perceber que tinha um brilho diferente nos olhos. Estava mais feliz do que a tempo muito não via. Entrou e na sala de estar não me contive em perguntar:
— O que está havendo? Estou te achando diferente!
— Estou como sempre fui! Animado!
— Parece mais animado! Algum bicho te mordeu?
Então tirou um envelope do bolso, desdobrou duas folhas de papel e me entregou dizendo:
— É pra mim! Mas você eu autorizo ler!
(caso não consiga ler tem a tradução abaixo)

Anápolis, 12 de Março de 1995.
Querido amigo Regis ,
Fazem exatos dezesseis anos que a gente não se vê. Quero que saiba que nunca o esqueci. Só não sabia como encontrá-lo .
Acompanhei sua bonita vida de cantor e tive a esperança de um dia reencontrá-lo, numa das cidades de nossas andanças, mas nunca coincidiu. Contudo, acompanhei seu trauma pela tevê, devido maldito sequestro .
Menino, como você sofreu nessa vida; levando-o a abandonar seu bonito sonho logo depois. Aí sim não tive mesmo mais notícias suas. Agora, porém, através de um amigo, descobri seu endereço e resolvi lhe escrever .
Não sei se ainda se lembra de mim. Não sei se ainda é solteiro, pois está com quase 24 anos. Se casou, só posso desejar que seja muito feliz. Eu ainda continuo solteira e pode acreditar, continuo sentindo muitas saudades suas. .
Continuo fazendo trapézio com meus irmãos, mas nosso número, nunca fiz e nem deixei que outros fizessem .
Depois de seus doze anos de idade, não sei mais de você, mas acredito que sua beleza física e principalmente de espírito, continua sendo igual a de quando éramos crianças. .
Fiz a foto que lhe mando, só para você. Não sou modelo, nem garota sexy. A intenção é que você me conheça atualmente e torço que goste. .
Por favor, me responda esta carta, mesmo que não goste mais de mim, ou que já esteja casado. E me mande uma foto atual sua, mesmo que seja 3X4. .
Gran Circus Real Americano, .
Rua Pereira Sampaio S/N .
Jd Santa Leonor .
Cep. 75380-000 Trindade – GO .
Nosso circo vai para este endereço dia 20 deste mês. .
Recordo com saudades nossos dias de aula e nosso romance inocente. Acho que nenhuma criança teve uma paixão como a nossa. Esse amor cresceu em mim e hoje relembro como se estivesse acontecendo agora. Naquela época, queríamos crescer, hoje eu gostaria de poder voltar a ser criança, só para reencontrá-lo. .
Aquele namoro, aqueles beijos escondidos. Embora beijos inocentes, era tão puro, suave e sincero. Hoje só me trás muita recordação. Nós que convidávamos tanta gente para nosso casamento, quando tivéssemos 20 anos. Muitos ainda me perguntam de você, mas eu não tinha notícias. Só o via cantando pela tevê e discos e então me apaixonei ainda mais. Criei um álbum com centenas de fotos suas, o qual até hoje carrego como recordação .
Nossos beijos e nosso amor não pode ter ficado no tempo. Eu ainda o quero como há 16 anos. Mas... Se você já é casado; já tem outra, por favor, me escreva pelo menos como amigo e aceite minha foto como a mais meiga lembrança que posso lhe enviar .
Meus pais, o palhaço Risadinha, meus irmãos e todos os demais do circo, lembram você e lhe mandam um forte abraço .
Um beijo, .
Sua .
Lucia. .
Terminando de ler aquela carta e vendo a bonita foto que a acompanhava, lhe perguntei:
— E aí? O primeiro amor renasceu?
— Lógico, Willian! Estou apaixonadérrimo! Vou correr atrás do prejuízo!
— Já respondeu a carta?
— Não vou responder! Vim aqui pra lhe convidar! No próximo final de semana iremos pra Trindade!
— Vai responder a carta ao vivo?
— Pessoalmente!
Ele estava realmente apaixonado. Nunca o tinha visto tão feliz em toda minha vida.
— Cadê o violão? — perguntou-me.
— No guarda-roupa!
Correu até o quarto, apanhou meu violão, sentou-se no sofá da sala e me disse:
— Esta você nunca ouviu! Eu quem fiz! Já faz tempo!
Vivo recordando a infância
Que passou pra sempre e não vai voltar
Na escola onde estudava
Você apareceu e me ensinou a amar
Era uma artista de circo
Sempre contente no trapézio a trabalhar
Eu era apenas um menino cantor
Em seu circo me chamou para cantar.
Fiquei famoso o bastante você sabe
Para o sucesso que viria mais além
E devagar você foi me ensinando
Lá nas alturas a fazer trapézio também
Nosso romance de criança foi tão belo
Era feliz ao chamar-te de meu bem
Os nossos beijos confessavam nosso amor
Igual no mundo sei que não tinha ninguém
Mas de repente o circo se foi para sempre
E eu fiquei triste sozinho a chorar
Vendo você me acenando tão tristonha
É uma pausa que só vivo a recordar
São treze anos que distante já se foram
Meu violão nunca pude abandonar.
Dos oito anos só me resta esta lembrança
E meu coração que não deixou de te amar.
— Bonita! — elogie-o. — Qual o título?
Ele pensou um pouco e um pouco sem jeito insinuou:
— Amor de crianças...
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