O Grande Livro Marrom
1 O General
Seus pais formavam um casal estranho para sua época. Uma mulher chinesa de cabelos curtos e um homem inglês ruivo-aloirado de cabelos longos. Ela usava óculos de aros redondos e dourados, e adorava vestir quimonos que tivessem as cores vermelha e branca combinadas de alguma forma; já ele tinha os olhos verdes, mantinha seus cabelos lisos sempre presos num simples rabo de cavalo, e nunca deixava de vestir roupas de cores escuras, em sua maioria pretas. O que tinham em comum era o fato de ambos serem magos poderosos. Ela, claro, dominava magia oriental, e usava um cajado para canalizar seu poder, enquanto ele, como europeu, dominava a arte da magia ocidental, e tinha como artefato uma varinha de madeira quase dourada. Seu sobrenome era Reed, e o dela Li.
Ambos adoravam viajar, e haviam se conhecido no meio de uma expedição, que cada um fazia sozinho. Depois de se encontrarem e perceberem que tinham muitas coisas em comum, decidiram continuar a viagem como dupla, e foi ao longo da jornada que se apaixonaram e perceberam que desejavam ter um ao outro como companhia dali em diante.
Foi dessa união que, alguns poucos anos depois, nasceu uma criança que teria uma grande e importante jornada na vida. O nome dado a ela foi Clow.
Demonstrou prematuramente aptidão para magia, o que não assustou seus pais. Adorava pregar peças neles, principalmente quando compravam doces e os deixavam escondidos, para que Clow não comesse tudo de uma vez.
Ao completar sete anos, o menino ganhou de presente o direito de escolher o objeto mágico que usaria dali em diante nas aulas de magia, pois já precisava aprender a canalizar seu poder. Como, já há algum tempo, demonstrava interesse pelo cajado da mãe, escolheu um igual para si, mas seus pais explicaram que nenhum mago possuía um objeto igual ao de outro, que o dele seria forjado a partir de sua própria magia, e por isso seria único. Então, com acompanhamento, o menino deu forma a seu objeto, e, no processo, acabou surpreendendo seus pais, que informaram a ele que, de acordo com a forma de seu cajado, que continha em uma das extremidades a figura do Sol ladeada pela da Lua, sua magia não era puramente oriental, tão pouco unicamente ocidental, mas uma mistura das duas. Disseram também que isso poderia fazer com que ele fosse um mago muito diferente dos demais, já que nunca haviam visto alguém com tal mistura de poderes, e que algum dia poderia até superá-los em ralação a capacidade mágica.
Toda primavera tinha um dia que seus pais o levavam para o quintal nos fundos de sua casa, e sentavam junto a ele embaixo da cerejeira que tinham plantado antes dele ter nascido. Ali faziam um lanche, conversavam e jogavam cartas enquanto observavam as flores, que eram as preferidas do menino, caírem a seu redor. Era sempre o dia do ano que Clow mais gostava. Nem em seu aniversário se sentia tão feliz.
Foi num desses dias, quando tinha nove anos, que Clow pegou um dos baralhos que seus pais usavam para jogar, enquanto eles estavam dentro de casa.
Aproveitando que os dois adultos haviam entrado para levar alguns utensílios de volta para a cozinha, o pequeno aprendiz de mago segurava em uma das mãos um pedaço de torta de morango, que já tinha provado um pedaço, e não percebera que havia deixado um pouco de creme na ponta de seu nariz, e usava a outra mão para mexer nas cartas, feitas de um raro papel grosso. Eram estampadas em tons de vermelho, que chegavam quase a ser marrom, o que chamou a atenção do menino, porque para ele isso representava a união exata das cores escuras que seu pai tanto adorava com o vermelho que sua mãe sempre vestia.
Ele parou e observou as imagens. Dava para notar que haviam sido desenhadas a pincel. Em seguida, enquanto comia mais pedaços da torta, leu seus respectivos ideogramas. Havia um general, dois sábios, dois elefantes, duas charretes, dois canhões, dois cavalos, e cinco soldados. O outro baralho, que Clow havia deixado dentro da embalagem, era idêntico. Pensando nisso, desviou o olhar das cartas por um instante, para tentar ler o nome do jogo. Ainda havia muitos ideogramas que não conhecia, e precisava muito da ajuda dos pais para ler, mas resolveu arriscar mesmo assim. Tam Cúc, Três Crisântemos, era o título que tinha grafado na capa que servia como proteção para as cartas, que, por sua vez, era como uma espécie de fichário, mas sem os anéis de metal que seguram as folhas, o que deixava o jogo, quando guardado, com a aparência de um livro de páginas grossas.
O menino então, como que mudando de humor repentinamente, ficou com a expressão apática. Colocou na boca o resto de torta que segurava, limpou a mão num guardanapo que sua mãe havia deixado, virou as cartas de modo que ficassem todas com o verso para cima, e as embaralhou. Em seguida, separou quatro pares de cartas, ainda sem ver o conteúdo de nenhuma, e as dispôs de forma a cada par formar um sinal de soma. Das cartas que sobraram, Clow pegou mais sete e as colocou lado a lado, logo abaixo dos quatro pares que já havia separado. A parte do baralho que ficou de fora, o menino devolveu para a embalagem protetora.
Lentamente, Clow virou o primeiro par de cartas cruzadas. Um sábio e um elefante.
Grandes responsabilidades o aguardam.
Uma voz em sua cabeça pareceu anunciar a frase. O aprendiz de mago ofegou de susto e olhou para os lados, desconfiando que alguém pregava uma peça nele, assim como gostava tanto de fazer com os outros. Mas não havia ninguém ali. Olhou para dentro de casa e vislumbrou seu pai através da janela da cozinha. Estava seguro. Seus pais não deixariam que nada acontecesse com ele. Encarou então as cartas, apreensivo. Respirou fundo e resolveu revelar o próximo par. O general e uma charrete.
Você será o único a ter capacidade de trilhar seu caminho, portanto não poderá depender de ninguém.
Foi o que a voz disse em seguida. Clow então teve certeza de que o que ouvia vinha de sua própria mente. Decidiu testar e dizer algo para as cartas. “Meu pai e minha mãe me guiarão e me protegerão”, pensou, e se concentrou na frase. De impulso, com cada uma de suas mãos, desvirou os dois pares restantes de cartas cruzadas. Ambas as duplas eram formadas por um soldado e um canhão. Da maneira como as cartas estavam dispostas, cada canhão apontava para o soldado com quem fazia par.
Seus pais não te acompanharão.
O medo dominou Clow. Sua respiração ficou mais forte e ele começou a tremer. Seu olhar se dirigiu para sua casa. Seu pai não estava mais na cozinha. O menino ficou vidrado, encarando a porta da casa que dava para o quintal. Em meio a pensamentos desesperados que gritavam que era mentira, que não conseguiria viver sem os pais, que queria chamar por eles, um se destacou: “Quem é você? Quem é você? Quem é voc…” ecoou pela sua cabeça, até que os outros pensamentos tivessem abaixado de volume a ponto de quase sumirem. Suas mãos se mexeram como que por vontade própria, enquanto Clow continuava com o olhar grudado na porta de casa. Ao perceber o movimento, o menino abaixou o olhar e se deparou com as cartas enfileiradas, que não estavam mais com o verso para cima. Seus desenhos revelados lhe passaram uma mensagem:
Eu sou seu poder.
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