O Grande Dia
6 capítulo VI - A Voz da Experiência...
Notas iniciais
Capítulo VI
POV Camus
Não demorou tanto até chegarmos em casa, passei todo o caminho concentrado apenas na estrada, tentando não pensar no que havia acontecido com Isaac para não brigar com o menino. Ele não tinha condições de encarar as consequências pelo que havia feito, não naquela hora, e honestamente eu precisava de conselhos do meu mestre naquele momento.
Eu estava acostumado a lidar com rebeldias normais, não algo naquele ponto. Ele tinha perdido completamente a noção dos limites e eu não tinha percebido e Milo estava escondendo de mim. Tinha algo muito errado nisso tudo, eu precisava me policiar melhor quanto às minhas crianças e Milo precisava aprender que certas coisas não podem ser acobertadas.
Eu precisava me controlar, precisava... Minha vontade era esganar Isaac com toda a minha força. Mas eu precisava me focar e não me exceder.
Chegamos em casa, Milo correu para arrumar o quarto e a cama para deixar Isaac confortável enquanto eu vagarosamente descia do carro e dava a volta para pegar Isaac no banco de trás. Quando abri a porta ao lado dele, ele me olhou amedrontado. Estava difícil acompanhar os sentimentos do menino, ele me afrontava com o olhar na maior parte do tempo, mas bastava eu chegar perto para ele recuar e agir como quem é atacado.
– Calma filho, calma...
Eu disse tirando o cinto com cuidado dele, tratando com todo o carinho que eu sentia no meu peito, apesar da minha vontade de estrangulá-lo. Era tão confortante para eu tê-lo em meus braços, aninhado, protegido e longe de encrencas. Só de pensar que por um fio tudo poderia ser diferente, que se a polícia não tivesse aparecido e levado o menino para o hospital, agora eu poderia estar em seu enterro.
Tentei afastar aqueles pensamentos, e tratar o menino com o carinho, apesar dele se esquivar das minhas demonstrações. Eu fora mais duro com Isaac do que com Hyoga nos treinos, talvez por Isaac sempre ser menos sentimental que meu loirinho. Sem contar que Isaac sempre sentiu-se preterido ao caçula, ciúmes, creio eu.
Eu o carreguei até a cama tranquilo, pensando sobre tudo que havia acontecido, o deitei confortável. Milo havia feito um trabalho maravilhoso na cama em tão pouco tempo, usando metade dos travesseiros da Grécia.
– Filho... Vai ficar tudo bem, você vai melhorar.
Ele me olhava confuso, aquele tratamento não era habitual. Ele não estava acostumado comigo o chamando de filho, não estava acostumado a receber carinho, mas eles precisavam disso e eu também precisava externar o que sentia de fato pelos meus meninos.
– Eu.. – Ele parou de falar, tentando achar palavras para se explicar. Vi o desespero em seus olhos buscando achar as palavras certas para me falar.
– Shhh... Agora não, vamos ter muito o que conversar sobre tudo isso, mas não nesse momento. Agora o que importa é você ficar bem, ficar forte. Você vai comer tudo que Milo preparar e não vai sair dessa cama por nada, me ouviu?
– Sim mestre.
– Se precisar de algo chame por mim, pelo Milo ou pelo Hyoga que ajudaremos. Não vamos te deixar sozinho, tudo bem?
– Tudo bem...
– Vamos te ajudar com banhos também, você está debilitado ainda e muito fraco. Mas as guloseimas de Milo vão te ajudar, tenho certeza.
Eu disse e ele sorriu amarelo. Milo chegou no quarto com comida, claro, era hora do menino começar a passar pela sessão de engorda do meu escorpiano. Eu já tinha passado por isso mais de uma vez e não era nada agradável, sorri nostálgico e me deparei com um Hyoga com cara de interrogação me olhando do corredor.
Levantei-me e o chamei para ir até seu quarto comigo. Sentei-me na cama o convidando a sentar comigo, fui prontamente atendido.
– O que aconteceu com Isaac?
– É uma longa história, Hyoga. Ainda não sei ao certo, estou esperando Shion para conversarmos. Mas o médico disse que ele está bem, precisa apenas de cuidados, queria te pedir para você ficar à disposição para auxiliá-lo, se possível.
Hyoga concordou com o rosto, mas estava triste e um pouco emburrado. Eu sabia bem o motivo.
– Precisamos conversar...
Ele me olhou daquele jeito contrariado, com o cenho franzido.
– Hyoga, você me liga no meio do dia para pedir para ir numa balada não sei onde, sei lá com quem e na véspera de uma prova. Você está...
– Todo mundo vai! Só eu que não!
– Deixe-me terminar?
– Tá, tá...
– Hyoga, você tem prova final de química amanhã, apresentação da monografia de literatura que vale metade da sua nota. Você acha apropriado passar a madrugada fora e não dormir direito nas vésperas disso?
Ele olhou para os próprios pés.
– Mas todo mundo vai...
– Todo mundo quem?
– O Shun, o Shyriu, o Jabu, a Shunrei, o Ikki, o Isaac, o...
– Perai, perai. Quem disse que eu deixaria o Isaac ir?
– Ele sempre sai.
Eu revirei os olhos.
– Pois bem, ele não vai. Já Shun e Jabu não são da sua turma, portanto, não têm prova amanhã. Shunrey e Shiriu pelo que eu sei já fecharam as notas, e ainda assim duvido que Dohko os deixe ir para a Vila Olímpio no meio da semana.
– Mas...
– Não terminei! E ainda que todos fossem e todos fossem da sua classe, eu não vou permitir que você faça algo que acho inapropriado para o momento só porque “todo mundo vai”, eu só tenho de ver com você e não com os outros garotos.
Ele bufou e chutou o ar.
– Só queria me divertir...
– Mas eu não estou proibindo você de se divertir, só estou pontuando que suas provas terminam em duas semanas e que depois disso estará de férias. Então será momento de se divertir, e pode ter certeza que vou querer recompensá-lo se suas notas continuarem boas como são!
Ele ficou calado.
– Você acha que estou errado, Hyoga?
Ele estava relutante em responder, quando finalmente soltou.
– Não, não está... Mas que saco viu!
Eu ri, não consegui segurar.
– Olha essa boca! Mas agora, me explica que ideia é essa de gritar comigo pelo telefone? Você perdeu o juízo?
– É que pai...
– “É que” nada! Isso é um aviso – Eu disse com o dedo em riste próximo ao rosto do loiro – Da próxima vez que você gritar comigo vai se arrepender, entendeu? Eu não admito esse tipo de falta de respeito, eu converso com você, respondo suas perguntas, e você tem que aprender que não é não e que jamais vai vencer comigo no grito.
– Eu não posso fazer nada e Isaac pode fazer o que bem entende!
– Veja o estado que Isaac está agora, querido... Acha que ele está bem? Acha que tudo isso não trará consequências para ele? Acha que eu não descobri as mentiras que ele andava contando?
Hyoga ficou em silêncio.
– Não seja dedo-duro e não confunda as coisas, eu sou seu pai, sei o que é melhor para você... E te amo meu gêniozinho, só quero que você mantenha sua média alta entenda que primeiro vem as responsabilidades e depois a diversão.
Hyoga sorriu, eu afaguei seus cabelos.
– Estudou?
– Sim.
– Vou conversar com Shion, com Milo e acompanhar um pouco Isaac. Estude mais que eu retorno mais tarde para nós revisarmos a matéria juntos, o que acha?
– Ótimo!
Finalmente o menino tinha entendido meus motivos, que não eram nada absurdos. Balada em meio a provas finais era algo inaceitável, claro que ele podia sair assim que passasse de ano sem nenhuma recuperação ou aos finais de semana se não fosse época de provas, mas não naquela situação.
Eu não queria prende-lo ou privá-lo de nada, na verdade já tinha evoluído muito na educação e socialização de Hyoga que passou a frequentar a escola e sair com os amigos. Antes ele não tinha nada disso, eu realmente acertei em melhorar o convívio social dele.
Levantei-me, tinha muito o que resolver. Fui até Milo e pedi que fizesse algumas ligações com relação ao casamento e avisei que Shion já estava chegando para conversar conosco. Eu andava de um lado para o outro da sala, longe dos ouvidos curiosos de Hyoga e Isaac.
oOo
Logo meu mestre chegou, engoli seco e abri a porta. Como aquele homem era capaz de me passar segurança apenas com sua presença, era inacreditável.
– Mestre!
– Filho... – Ele acenou com a cabeça, sei que me olhava preocupado, e foi logo sentar no sofá. Milo permaneceu com Isaac.
– Mestre Shion, eu queria me desculpar... A forma como o tratei foi lamentável, e o senhor estava completamente certo, fui displicente e veja no que deu.
– Ah Camus, a culpa disso não é sua. Vocês me deixavam de cabelos em pé quando eram mais novos também e eu fazia o que podia, sempre que as coisas saíram do controle eu tinha que reagir, mas não eram minha culpa.
Eu fiquei em silêncio encarando as mãos, pela primeira vez me sentia impotente e até incompetente para uma determinada função. Será que eu conseguiria colocar Isaac na linha? Foi então que vi o olhar de Shion tornar-se de severo na mais pura compaixão por mim, sempre me esquecia de seus poderes mentais como lemuriano de saber o que eu estava pensando.
– Terei que repetir que a culpa disso não é sua, Camus?! Ora, você é um dos cavaleiros mais gabaritados desse santuário, o estimo da mesma maneira que estimo Mu.
Abri os olhos, pisquei duas vezes, senão fosse meu quase completo desespero, aquele seria um dos pontos auges da minha vida. Shion estava mesmo me colocando no mesmo patamar que Mu? Mu? Seu preferido?
– Me desculpe ter sido tão ríspido com o senhor, Mestre.
– Ah, isso sim foi culpa sua. Que não se repita.
Ele foi seco, direto, tal qual eu era com os meninos. Respirei derrotado, mas de certa forma aliviado.
– O que vamos fazer agora?
– Boa pergunta, Ikki é discípulo de uma amazona de prata que mal fica no santuário. Não sei como isso passou despercebido por Saga – Shion passou as mãos pela sobrancelha, ele se irritava muito com Saga e sua displicência em alguns aspectos do santuário, eu sabia bem disso – O caso de Ikki é grave, ele precisa de reabilitação e um pulso firme.
Continuei olhando-o em silêncio, eu não podia pegar Ikki para criar, não naquele momento.
– Internarei Ikki numa clínica, ele não está absolutamente comprometido com relação a drogas, na verdade acho que tivemos a sorte de pegá-lo bem no início de tudo isso e o estrago não foi tão grande. Depois disso, queria que ele ficasse como seu discípulo ou de Shaka.
– Mestre, com todo o respeito... – Pigarreei limpando a garganta, não sabia como falar. – Qualquer um de nós irá obedece-lo, mas aqui já tenho Milo que me dá trabalho demais, Isaac que tem se mostrado bem complexo e Hyoga que preciso manter na rédea curta.
– Eu sei.
– Mu e Shaka têm Shun e Kiki, e ambos sabemos que Kiki vale por uma infinidade de crianças endiabradas.
– Eu sei também – Disse Shion resignado. – Estou pensando ainda, Afrodite está fora de questão por ser, digamos, egocêntrico demais. Aldebaran não tem pulso para Ikki. Shura também não tem perfil. Fico entre Aiolia e Máscara.
– E o Saga?
Shion cruzou os braços e fez uma careta me ignorando, aquela briga entre os dois chegava a ser cômica as vezes.
– Mas o Máscara não sei se será uma boa influência... E principalmente, se terá a paciência necessária...
Eu ri, aquilo era verdade.
– E Aiolia não sei se tem pulso para Ikki.
Eu coloquei uma das mãos no queixo, ele estava certo, ninguém parecia indicado além de mim e Shaka. Ah não ser...
– Nem pense nisso!
– Ai, mas será que dá para o senhor parar de ler meus pensamentos?
– Eu já estou na minha fase “avô”, Camus. Vocês já me deram trabalho demais no passado, preciso descansar. Sem contar que tenho todo esse trabalho burocrático para fazer, sem falar em vigiar tudo que acontece por aqui.
Não me contentei com a resposta.
– De qualquer maneira, temos algumas semanas para decidir o futuro de Ikki, ele estará internado a fim de fazer uma limpeza geral. Não era de todo necessário, mas não quero saber de ninguém bebendo ou fumando, que hábitos! Um cavaleiro precisa ser saudável!
– Isso nos faz voltar ao Isaac.
– Sim, Camus, o que está pensando em fazer?
– Honestamente Mestre? Eu não sei. Se eles tiram nota baixa, saem escondidos, cabulam aula, umas palmadas podem resolver. Agora, se drogar?
– Ele não estava se drogando, estava testando sua autoridade. Antes do intercâmbio você mantinha as coisas aqui em rédea curta que eu sei, mas sem dar espaço nenhum. Algumas vezes eu te critiquei por isso.
Revirei os olhos, era verdade.
– E não revire os olhos para mim! Milo trouxe algo muito bom para essa casa: vida! Ele trouxe o fim de uma era puramente militar e permitiu que todos abrissem seus sentimentos.
Não era possível, Shion estava elogiando Milo?
– Mas Isaac ainda não se adaptou a essa nova forma de se relacionar. Ainda mais com toda a raiva que ele tem de achar que é preterido a Hyoga e os complexos que você já conhece.
Eu fiquei sem silêncio, pensando.
– Talvez ele só quer exatamente o que você dá a Hyoga, a disciplina e o carinho.
Respirei fundo, acho que Shion estava certo e talvez eu estivesse super-estimando o que havia acontecido, talvez tudo que Isaac precisasse era de uma boa surra.
Quando vi, Shion me olhava com ternura.
– Vamos tomar um refrigerante. Você precisa descansar, deixe Milo paparicar os meninos um pouco.
E saímos, preciso confessar que eu sai muito feliz por saber que podia contar com alguém tão experiente quanto meu mestre.
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