O Grande Dia
48 Histeria
Notas iniciais
Histeria
Milo andava de um lado para o outro gritando no telefone enquanto Camus permanecia sentado em sua poltrona com seus óculos de leitura e um semblante um pouco irritado por Milo não ficar sequer um segundo calado e deixa-lo ler ser jornal em paz.
— Mas eu já disse que eu quero as flores somente brancas. Bran-cas! Entendeu? Não quero aquela coisa horrenda amarela da amostra!
Camus mudava a folha do jornal, tentando ignorar a histeria do escorpiano. Pensava constantemente que não via a hora do casamento chegar, não porque queria se casar, mas sim para que essa irritação do noivo passasse de uma vez.
— As velas estavam tortas! Preste atenção! Anote! São quinze centímetros. Quin-ze! Entendeu?
Camus abaixou seu jornal e olhou com uma sobrancelha levantada ao noivo que estava agindo de maneira muito rude com a pobre atendente. Se fosse um de seus filhos, já teria levado um puxão de orelhas.
— Tá olhando o que?
Milo disse, afrontando o futuro marido, enquanto praticamente desligava o telefone na cara da atendente com quem conversava. Camus franziu o cenho demonstrando sua clara indignação com aquela atitude e logo em seguida levantou o jornal, cobrindo sua face.
Não tardou até Camus ter o jornal arrancado de sua mão e jogado ao chão por Milo que estava procurando confusão.
— Você não ajuda em nada!
— Não, em nada. Só estou PAGANDO essa palhaçada toda!
Milo cruzou os braços afrontando Camus que logo levantou-se encarando Milo. Fazia tempo que não entravam em embate, provavelmente pelo amadurecimento de sua relação e do exemplo que deviam dar aos filhos. Mas ao que parecia Milo havia se esquecido disso.
— Milo, milo...
Camus disse perigosamente enquanto encarava o noivo, mais baixo que ele, com o semblante duro e a testa franzida.
— O QUE QUE É? PORQUE VOCÊ PASSA A PORRA DO DIA TODO SENTADO AÍ LENDO ESSA MERDA ENQUANTO EU TENHO QUE LIGAR PARA TODO MUNDO E RESOLVER TUDO DO CASAMENTO?
Camus encarava Milo, apesar da postura dura e severa, ele estava relevando toda aquela atitude por entender que o noivo estava muito nervoso com a cerimônia que se aproximava. Além disso, o aquariano sabia muito bem que Milo estava traumatizado pelas últimas experiências que não deram certo.
— Milo, sente esse traseiro aí!
Camus empurrou Milo com firmeza, mas sem ser brusco, até que ele se sentasse na poltrona.
— Preste bem atenção em mim! Primeiro lembre-se que nós devemos nos respeitar! O que raios está acontecendo com você?
Milo fez uma careta enquanto cruzava os braços contrariado.
— Em primeiro lugar, eu não estou sentado aqui o dia todo. Eu cheguei do trabalho a exatos quarenta minutos e faz menos de dez minutos que sentei-me para ler o meu jornal. Número dois, eu mesmo já liguei e fechei contrato com o buffet, com a decoração, com o DJ e todo o necessário, PORÉM VOCÊ QUER MUDAR TUDO QUE EU JÁ COMBINEI MILO!
— Ah, mas...
— Não, não, não. Não tem “mas” Milo! Você está absolutamente agressivo e me ofendendo há dias! Chega! Componha-se! Temos que dar exemplo dentro dessa casa!
Foi quando Milo concordou internamente com Camus, ele estava fora de si. Mas ao invés de pedir desculpas, levantou com um sorriso irônico e uma certa safadeza no olhar.
— É mesmo... Acho que não me comportei direito Camyu...
Camus logo notou o sorriso lascivo do noivo e sua postura arrependida teatral, notadamente repleta de luxúria. Não tardou até Milo se aproximar mais de Camus, encostando seus lábios nos do noivo e se esfregando em seu corpo.
— Hum... O que que eu vou fazer com você hein?
Disse Camus agarrando os cabelos de Milo na base, logo acima da nuca, e os puxando com a força exata. Enquanto isso, com seu outro braço ele envolvia o aquariano num abraço ousado, fazendo com que seus corpos quase grudassem um ao outro.
O beijo foi ficando mais quente, o puxão de cabelo que Camus dava mais intenso e as provocações de Milo mais constantes. Era aquilo que Milo precisava, seu Camus irritado na cama.
Não demorou até Milo desabotoar o cinto do aquariano e abrir sua braguilha, logo depois recebeu uma ordem direta.
— Tire suas roupas.
Antes de obedecer, eles se beijaram mais uma vez, em desespero, amando-se. Quando estavam quase se deitando na cama a porta do quarto é aberta de maneira abrupta.
— Pai, eu...
Milo e Camus congelam, sem graça, olham para o lado se condenando por não terem trancado a porta. Isaak estava muito vermelho, sem graça por ter visto os pais nessa situação. Camus ficou mais sério, Milo logo se recompôs e foi ter com o garoto.
— Filho, o que você precisa?
— E-eu... Eu só... Me desculpe...
— Não tem problema. O que você quer? Como posso te ajudar meu pequeno?
Isaak mantinha o olhar em Camus que abotoava a calça e fechava o cinto enquanto se arrumava.
— Fale logo Isaak! – Foi a vez de Camus bradar.
— Tocaram a campainha aqui, com uma entrega enorme. Querem deixar oitenta caixas enormes de lembrancinhas aqui, mas não cabe. Será que dá para vocês resolverem com o entregador?
Camus franziu o cenho e Milo sorriu amarelo. O escorpiano correu até a entrada tentando resolver a entrega, enquanto Camus aproveitou para sair e beber um copo de agua mineral. No corredor, viu de soslaio Hyoga com uma aparência bastante deprimida.
Continuou o caminho, pegou uma água e, na volta, entrou no quarto do loiro.
— Oga?
— Oi mestre.
— Filho, o que você tem? – Perguntou Camus, desconfiado.
— E-eu... Ah, não é nada.
— Hum.... Bom, se quer não falar, não fale. O que está fazendo aí em sua escrivaninha?
— A lição de química.
Camus pegou a lição na mão, não sabia de nada para aquela semana. Ao analisar, percebeu que era a tarefa da semana anterior.
— Filho, isso aqui deveria ter sido entregue na semana passada!
— E-eu sei, pai. Me desculpe.
Hyoga disse, num suspiro profundo, mostrando chateação também. Camus andou até o seu lado e sentou-se.
— Filho, eu tento ao máximo respeitar a sua privacidade. Eu acho que seus namoros e desilusões são seu departamento, sendo que você divide SE quiser. Mas eu não posso manter essa postura se você começar a se prejudicar por causa dessas questões.
— Eu sei pai, eu apenas... Não ando com cabeça para nada.
— Será que eu posso te ajudar?
Hyoga ficou cabisbaixo.
— Filho, você e Shun já terminaram há algum tempo. Eu fui bastante compreensivo por todas essas semanas, mas eu preciso te fazer voltar à realidade. É inadmissível não entregar um trabalho no prazo por causa de algo que já está de certa forma resolvido.
Hyoga abriu a boca para falar, mas logo calou-se.
— É Ikki, não é?
Hyoga corou na hora.
— Pois bem filho, eu realmente não sou um bom conselheiro amoroso. Se quiser ajuda com isso, fale com Milo. Meu papel aqui é te avisar que não vou mais aceitar atrasos em suas tarefas por causa desses namoros. Entendeu?
— Sim, pai. É que é difícil...
— Eu sei que é, mas você terá que achar uma maneira aceitável de lidar com tudo isso filho. Você e Shun são primos. Você e Ikki são uma espécie de primos também. Todos moram muito próximos, não sei como vão se acertar. Mas não vou deixar você perder aulas, perder prazos de entrega de trabalho, perder oportunidades por causa desse triângulo que se criou.
Hyoga permaneceu calado.
Logo Milo passou a gritar com os entregadores, o que fez Camus passar a mão nervoso nos cabelos e ir até à sala para ajudar os pobres profissionais a encontrar algum lugar no santuário para deixar as caixas que não cabiam na sala sem antes passar a mão nos cabelos de Isaak.
— Filho, você precisa de ajuda com os deveres de casa?
— Não pai... Obrigado.
Camus caminhou até a porta, assustado com o tamanho da encomenda.
— Mas Milo, não tem um lugar no Santuário que comporte tudo isso!
— Ah ,você não é o responsável geral?
— Sou. Mas não sou o mestre do Santuário!
— Mas é filho dele! Use de suas prerrogativas!
Durante a discussão aparece Shion no meio das caixas e começa a questionar com indignação o filho e o genro.
— O que raios são todas essas caixas que começam no meio do pátio e estão atrapalhando toda a escadaria?!
Camus revirou os olhos e Milo cruzou os braços em afronta.
— São coisas para o meu casamento!
— Mas Milo, o casamento de vocês é daqui a uma semana. Onde vamos deixar todas essas coisas? Por qual razão não adiaram a entrega?
Milo respondeu com agressividade e ironia, enquanto Camus revirava os olhos insatisfeito com o próprio noivo. Não tardou até Shion conseguir, através do pagamento de uma quantia pela entrega, fazer com que levasse as caixas e retornassem com elas no dia previsto para o casamento.
— Se essas caixas não estiverem aqui no dia, Shion, eu juro que...
— VOCÊ VAI FAZER O QUE?
Shion engrossou a voz pela primeira vez, após dias aguentando desaforos de Milo. Camus arregalou os olhos enquanto via Milo posicionar-se de modo a discutir com o seu pai.
— Veja se consegue se controlar, Milo. Ninguém mais está suportando sua atitude, inclusive eu!
— Ah é, velhote?
— Sim, é. Se quiser saber o que acontece com quem me tira do sério, você pode conversar com Mu.
Camus ficou boquiaberto. Não podia acreditar que Shion chegou a ameaçar dar uma surra em Milo.
— Vocês dois não devem se esquecer nunca que o Grande Mestre desse Santuário ainda sou eu. Não vou admitir afrontas. Não vou admitir essas entregas em grande quantidade que atrapalham a mobilidade de todos aqui! Entenderam?
Camus prontamente respondeu.
— Sim, pai.
— Ah...
Antes que Milo continuasse o desaforo, Shion o cortou.
— Preste atenção aqui, seu moleque! Se eu quiser cancelo a concessão que fiz para dar o local da planície para o casamento.
— O QUE?
— Isso mesmo, Milo. Não mexa comigo!
Milo calou-se. Parte por saber que Shion não brincava em serviço e parte por saber que não encontraria outro local para o casamento num espaço de tempo tão curto.
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