O Grande Dia
4 Capítulo IV – Dono do Meu Nariz
Notas iniciais
Capítulo IV – Dono do Meu Nariz
POV Isaac
Ah, eu que não ia ficar naquela sala esperando aquele cara com duas pintas na testa ficar descendo a lenha em mim para o meu Mestre. Na verdade, eu não queria mais ficar naquele santuário por nem ao menos um minuto, não aguentava mais aquela encenação de família bizarra que Camus e Milo estavam fazendo às minhas custas.
Hyoga sempre foi um cão adestrado, isso ninguém podia discutir, mas até então ele aceitar ser subjugado daquela maneira... Que cena bizarra foi aquela que eu vi dele apanhando como uma criança, e pior, quem meu mestre pensava que era para encostar um dedo em mim daquele jeito? Nós não somos filhos, somos cavaleiros, somos lutadores treinados para matar e morrer.
Meu único interesse nessa merda era ser o mais forte possível e conseguir a armadura de ouro custasse o que custasse... E essa babaquice de brincadeira de casinha de “papai e mamãe” que encenavam no meu alojamento não estava ajudando. Ter que viver naquele circo, com o Milo encenando a mamãe-palhaço e Camus o dono do picadeiro era demais!
Levantei-me bufando de raiva e saí andando, não era mais criança, se não me faziam treinar, eu iria era me divertir. Que nem aquela palhaçada de intercâmbio que meu mestre inventou, só serviu para eu tocar o puteiro. Peguei meu celular e liguei para o Ikki, um dos únicos que dava para ter certo diálogo naquele salão de cabelereiros feminino que virou o santuário.
– Ikki?
– Manda meu, beleza?
– Naquelas, não aguento mais essa merda de lugar. Quem esse Shion pensa que é?
– Somos dois. Onde você está? Tô indo praí, vamos dar um rolê.
Ikki não demorou muito a chegar, fiquei satisfeito em vê-lo, queria dar um volta e espairecer um pouco a mente daquela besteira toda que a vida nas casas zodiacais havia se tornado em tão pouco tempo. Ele era um cara legal, descolado, sem se prender àquelas regras ridículas que impunham a nós simplesmente por sermos adolescentes.
Para minha alegria, vi Ikki bolando um baseado, eu não costumava fumar muito por total falta de possibilidade, mas aquilo era exatamente o que eu precisava naquele momento. Acho que essa seria a terceira vez que eu fumaria, ou a quarta, não sei ao certo – mas claro que Ikki não precisava saber disso.
Dei uma tragada, aquele cheiro de erva invadiu minhas narinas de maneira profunda, tal qual a fumaça invadiu meus pulmões e o relaxamento foi quase imediato. Aquilo era incrível, eu precisava confessar que aquela sensação de relaxamento e liberdade era perfeita.
Aquele babaca do meu mestre achava que podia mandar em mim, não era? Pois bem, quem estava em cima da carne seca agora? Era eu! Eu que não seguiria regrinhas imbecis como o retardado do Hyoga, eu faria o que eu bem entendesse, eu...
De repente minha mente desligou daquilo tudo e eu deitei, apenas curtindo o momento e a lentidão que aquele cigarro de maconha trazia para mim. Respirei fundo, bem fundo, olhando o horizonte e me desconectando de tudo.
– Nossa moleque, tá loucaço hein?
Foi só o que ouvi Ikki dizer, com os olhos avermelhados. Queria apenas desligar do mundo, e estava conseguindo. A maconha em mim tinha um efeito que não tinha em Ikki, acho que era porque ele consumia mais que eu.
Vez ou outra me confessou que queria novamente a sensação que eu vivenciava, que aquilo sumia depois de um tempo de uso contínuo. Eu não respondia, não queria que ele soubesse que eu não fumava tanto. Mas eu já tinha percebido que Ikki ficava nervoso quando não fumava por muito tempo e que o efeito nele não era como em mim, o que me distanciava um pouco dessas substancias.
Depois e algum tempo ele se levantou e falou algo, demorei a entender, a vida andava em câmera lenta e eu não queria perder aquela sensação. Ele me puxou e me estendeu um copo, eu sequer olhei para aquilo e bebi, era vodka eu acho, ou algo muito forte.
Andamos até um lugar afastado, acho que para encontrar alguns amigos dele. A bebida misturada à maconha tornava tudo ainda mais confuso, o entendimento havia se esvaído um pouco e eu acho que não andava propriamente em linha reta naquele momento, o mundo cambaleava e eu acho que eu cambaleava com ele.
Respirei fundo quando vi que estávamos pegando o trem e saindo dos arredores do santuário, eu estava muito louco para andar por aí, mas Ikki estava comigo e acabei nem me preocupando. Descemos numa estação que dava numa região periférica, olhei em volta e o lugar era horrível.
Ikki me dava mais bebida, assim como bebia mais também. Até que finalmente consegui prestar atenção no que ele dizia.
– Queria muito experimentar pó.
– Hãm?
– Mas porra Issac, você está muito lesado! – Ikki começou a rir e eu não entendia direito o que ele dizia, acho que era efeito da mistura de substâncias no meu organismo – Pó! Eu sempre quis cheirar!
– Você quer dizer... – Titubeei, as palavras me faltavam e eu tentava fazer a cabeça funcionar – Você quer usar cocaína?
– Sim, ou outra coisa... Cansei de ficar só no banza, quero ou um doce, ou pó ou que seja um chá de cogumelo! Mas quero outras sensações!
Eu olhei para o chão, ligeiramente preocupado. Será que aquilo não podia ficar meio perigoso para Ikki? Eu já estava no auge, nunca havia ficado tão drogado ou bêbado em toda a minha vida.
– Vamos, já estamos chegando!
Entramos num local ermo e extremamente feio, era como uma favela. Entramos num barraco, pessoas de todos os tipos estavam lá, comprando pó com aparência horrível. Me questionei se minha aparência não era igual a deles, mas não devia, eu não era usuário de drogas, nem Ikki. O que raios estávamos fazendo naquele lugar?!
– Olha só, carne fresca... – Disse um gorducho barbudo com um palito de dentes na boca. – O que os mauricinhos querem aqui?
Mauricinhos? Ah, nós eramos os mais descolados do santuário, queria ver o que ele diria de Hyoga e o namoradinho dele! Tentei fazer uma postura mais máscula, a fim de impor respeito, pois músculos eu tinha.
Ele sorriu, olhando para trás, foi quando percebi que tinha dois “armários” de óculos escuros nos encarando atrás dele, cada um segurava uma arma enorme, eu diria que era uma metralhadora pequena, mas não entendo muito de armas.
Ikki jogou dinheiro na mesa e avisou o que queria, eu continuava bebendo a vodka nervoso, a garrafa estava acabando e eu já não enxergava muita coisa. Eu estava tonto, muito tonto, queria vomitar e sair daquele lugar.
Vi o gordão colocar uma fileira de pó branco na mesa para Ikki, parecia farinha, e outra para mim. Eu mal consegui dizer que não queria, só senti um drogado esbarrar em mim e me empurrar.
Por instinto, revidei um soco no sujeito que caiu. Depois disso só me lembro de levar um soco na cara e...
oOo
Estava tudo branco. Tudo branco.
Vi luzes fortes, estava deitado, acho que numa maca.
Sentia dor, muita dor.
– Ele está acordando...
– Qual é seu nome, garoto?
– Ele desmaiou novamente...
A luz sumiu, as vozes também.
oOo
Vi novamente pessoas com aventais brancos, o que estava acontecendo? Eu estava com muita dor. Onde estaria Ikki?
Não conseguia falar, novamente ficou tudo escuro.
As vozes sumiram.
oOo
Mais uma vez me vi deitado, eu tinha soro sendo injetado em minhas veias.
Não conseguia me mexer.
Ouvi o Mestre Camus falando... Mestre Camus? Onde eu estava afinal?
Queria falar com ele, mas novamente as luzes foram se apagando...
E as vozes, por sua vez, sumindo...
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