O Grande Dia
35 Capítulo XXXIV - O Resgate Fracassado
Notas iniciais
Shaka e Mu não conversavam no caminho, mas ambos estavam felizes por ter companhia naquele momento tão difícil. Shun estava fora de si, eles já sabiam que ele precisava ser contido pelas atitudes dentro do Santuário. Porém, verem que ele não havia se preocupado se havia ou não machucado civis no posto de gasolina os fez chegar num conclusão: eles haviam falhado na educação de Shun.
Depois de anos de duro treinamento que deu a Shun poderes inimagináveis, uma certeza eles tinham: ele viveria para proteger a humanidade de todo mal. Naquele momento Mu e Shaka só temiam uma coisa: que os poderes incontidos de Shun se tornassem um mal real para a humanidade.
Não seria a primeira vez que eles veriam um cavaleiro sucumbindo e utilizando os poderes de maneira vergonhosa. Já era doloroso ver um cavaleiro qualquer fazendo isso, mas o próprio filho podendo causar tamanho mal era algo inconcebível para qualquer um dos dois.
O caminho até a rodoviária foi mais longo do que o coração dos dois cavaleiros podia aguentar, e nenhum deles demonstrou nenhum carinho para com o outro, o que os deixou ainda mais deprimidos com toda a situação.
Shaka dirigia em alta velocidade, estacionou ao chegar perto da rodoviária cantando pneus. Mu desceu com rapidez e logo avistou Ayaccos que estava lá com força policial. Shaka se apressou e logo questionou:
— Encontraram Shun?
— Shaka, se acalme...
— Como me acalmar? Encontraram o meu filho?
— Sim, Shaka.
— E onde ele está?!
Ayaccos naquele momento sentiu falta de seus amigos Camus e Shion que conseguiam ouvi-lo. Foi então que pediu para Mu e Shaka os acompanhar até a sala de controle da rodoviária onde ficavam todos os vigias com os monitores que transmitiam as imagens das câmeras.
— O que raios aconteceu?
— É melhor vocês verem por si mesmos.
Foi quando Ayaccos deu sinal para um funcionário acionar o vídeo. Shaka olhava atento com os braços cruzados, já Mu estava mais acuado, preocupado com o que Shun poderia ter feito. O suspense não durou muito quando viram Shun claramente nas imagens comprando passagem na bilheteria principal.
Shaka se atentou ao horário marcado nas imagens e comentou com Mu que já tinha se passado quase uma hora e o companheiro acenou concordando e dizendo que também já tinha visto.
Os dois cavaleiros ficaram assustados quando perceberam uma movimentação, algo havia ocorrido que juntou uma aglomeração e terminou com várias pessoas sendo lançadas com um forte feixe de luz. Era claro, Shun havia elevado seu cosmos e dado um golpe. A câmera pegava de longe, então não dava para saber o exato contexto do ocorrido, mas era nítido que Shun usava seus poderes em local não apropriado e sem ser visando proteger ninguém.
Mu engoliu em seco.
— Não me parece que ninguém se machucou, graças aos céus. Além disso, o que mais aconteceu? Sabemos qual seu destino?
— Infelizmente não, Mu. Mostramos a foto de Shun para todas as atendentes da bilheteria e a que o atendeu não se recorda do destino da passagem vendida.
— Então não temos o que fazer?
— Shaka, estamos com toda a equipe analisando todas as imagens das 389 câmeras da rodoviária. Alguma deve mostrar o destino de Shun, mas isso deve demorar um pouco.
— Shun é inteligente. Ele com certeza vai trocar de ônibus algumas vezes para não ser encontrado, se é isso que quer. Teria como enviar fotos de Shun para todos os terminais rodoviários e pontos de troca de ônibus? Creio que haja policiamento em todos.
— Sim, Mu, é uma ótima ideia. Vou fazer isso.
Shaka acenou positivamente, e acrescentou.
— Ayaccos?
— Sim, Shaka?
— Dê ordens para que nos passem as coordenadas dele, mas que não o tentem segurar. Ninguém deve afrontá-lo.
Ayaccos olhou sem entender Shaka. Mu entendeu, e explicou o que o companheiro não quis dizer.
— Shun está fora de si, pode facilmente machucar alguém, Ayaccos.
— Ok, Mu. Darei essas ordens.
Mu e Shaka decidiram voltar para casa, não podiam fazer nada lá além de aguardar as imagens que seriam enviadas por e-mail. Além disso, ambos sabiam que precisavam de ajuda para pensar e que estar perto da família seria bom.
Logo ouviram a voz de Camus que chegava na sala de monitoramento e foi atualizado por Ayaccos. O aquariano deu várias ideias que Ayaccos gostou e que se apressou a dar ordens para colocar em prática, pois Camus sugeriu que fossem espalhadas fotos pelo Estado todo e que Shun fosse fichado como procurado, pois assim qualquer hotel teria que avisar a polícia caso o recebesse.
Os três caminharam juntos até o estacionamento, e os dois ouviram a história que Camus contou sobre Milo e Shion terem conseguido salvar Kiki e se machucado no processo.
— Mas isso é inacreditável. Kiki poderia ter morrido! Todos poderiam ter morrido... Eu...
Camus e Mu observavam Shaka em seu rompante de raiva, que acabou dando um murro num muro. Mu ficou com os olhos marejados e achou melhor não dizer nada. Camus colocou a mão no ombro do virginiano.
— Shaka, se acalme, eu já estive onde você está. Te dou a minha palavra que ficará tudo bem. Só precisa dar tempo ao tempo. As coisas vão se acertar, vocês são ótimos pais, é que crianças fazem isso mesmo, nos testam o tempo todo...
Shaka se controlava para não chorar, estava desesperado com o sumiço de Shun e destruído pela quase morte de seu caçula.
— Hyoga também machucou pessoas, Isaac tentou fugir e destruiu meu casamento. Esse é o lado sombrio da paternidade. Mas no final, tudo vale a pena. Somos uma família, vamos nos ajudar. Vai dar tudo certo.
Camus abraçou os ombros dos dois cavaleiros e foi levando eles até o carro. Ao chegarem perto dos carros, Camus perguntou a Shaka se se incomodava com Mu indo no carro dele para conversarem.
Shaka não se opôs, e tanto ele quanto Mu ficaram aliviados com o convite de Camus, já que não estavam bem e ninguém conseguia dar o primeiro passo para iniciar uma conversa.
Camus foi dirigindo, enquanto conversava com Mu.
— Mu, nosso mestre não está nada bem com essa situação toda.
— Eu também não, Camus. Honestamente, estou bem chateado com absolutamente tudo. E não pense que estou muito feliz com ele não. Ok, ok, eu entendi o ponto que ele tocou e aceitei a lição. Mas precisava me bater? Olha a minha idade! Com certeza já devo ser motivo de piada entre todos.
— É... Shion nunca se importou com o que os outros pensam.
— Eu estava errado, não nego. Ah, se eu pudesse voltar no tempo, não teria acontecido nada disso, definitivamente. Shun estaria seguro agora, sem sombra de dúvidas. E talvez Kiki não tivesse entrado em tamanho perigo...
— Não adianta nada se culpar agora, Mu.
Mu pensou consigo mesmo sobre essa culpa que sentia. Não, não adiantava nada se sentir daquela maneira, mas era impossível se esquivar da auto-crítica. Ele só queria voltar ao tempo e ter deixado Shion cuidar da situação quando Shun bateu em Hyoga e Ikki. Com certeza agora o filho não estaria desaparecido e Kiki não teria aproveitado o momento de distração de todos para aprontar.
O caminho ao lado de Camus foi muito bom. Eles não eram melhores amigos, tinham muitos assuntos mal resolvidos, mas se amavam como irmãos. E nesses momentos de dor, ninguém melhor do que um irmão para estar ao lado.
Não demorou muito até chegarem ao Santuário e irem até a casa de Shion.
— Mestre – Disse Mu entrando com a cabeça baixa.
— Oi filho – Shion abraçou Mu com carinho, já sabia através de Minu o que havia acontecido – Nós vamos dar um jeito, vamos encontra-lo.
Mu se deixou ser abraçado, enquanto tinha os olhos cheios d´água e um aperto na garganta mais forte do que podia aguentar. Ao mesmo tempo, Shaka entrava na sala e se sentava no sofá.
— Onde está Kiki, mestre Shion?
— No quarto junto com Milo, creio que ambos estão dormindo.
Foi quando todos se sentaram, Shion ao lado de Mu, seguidos por Camus e Shaka que tomaram as poltronas.
— Eu dei ordens gerais para toda a força tática grega, a foto de Shun está como a de principal procurado.
— Mestre, eu falei com Minu, estão transmitindo as imagens para todos os motoristas de ônibus e Ayaccos mandou sinal de procurado para todos hotéis e pensões. Creio que é uma questão de tempo... – Camus disse.
— Shun é um cavaleiro de bronze. Se ele quiser se esconder, não sei se meros policiais conseguirão encontra-lo ou contê-lo.
— Você está certo Shaka. Creio que talvez devamos desfalcar nossa frente aqui e enviar cavaleiros nessa busca – Concordou Shion. – Alguma sugestão?
— Enviemos a frente de prata na busca e talvez dois ou três dourados...
Mu disse, em tom baixo e engolindo em seco. Sabia que aquilo era pedir demais, mas precisava saber que seu filho estava sendo bem procurado e que seria resgatado logo. Shion acompanhava os pensamentos do pupilo e sofria com a dor dele.
— Isso não é pedir demais, Mu. Vamos enviar a elite prateada e eu mesmo irei nessa busca.
— Eu também – Se prontificou Camus. – Meu casamento será adiado novamente, mas isso é mais importante do que tudo. Até mesmo Milo vai entender e, creio, ajudar na busca.
— Ótimo, já somos quatro com você e Shaka. Vamos resolver essa situação, só preciso que fiquem com a cabeça no lugar.
— Isso me leva a perguntar quem cuidará de Kiki. Aliás, isso me questiona o que fazer com Kiki agora. – Disse Shaka, num tom grave.
Ninguém disse nada, Shaka e Mu estavam em frangalhos, não tinham condições nenhuma de ter com Kiki. Camus os olhou tão preocupado para o irmão e cunhado que não tinha o que dizer.
Shaka e Camus notaram Shion e Mu se entreolhando, aquilo significava que estavam conversando através de pensamentos.
— Não vejo problemas Mu. Shaka, vocês quer que eu resolva as coisas aqui com Kiki?
— Eu agradeceria muito, preciso traçar planos de busca e conversar com as autoridades. Além disso, estou completamente sem cabeça para nada e tão nervoso que tenho medo de mim mesmo quando pegar o garoto.
— Ok. Vou ver se é melhor eu pegar o Kiki agora ou deixarmos para quando nós voltarmos com Shun. Vão tomar um banho e fazer uma mala. Vamos partir ao final do dia. Camus, só me questiono se vou deixar você sair nessa busca... Preciso de você assumindo minha função e, principalmente, cuidado dos seus filhos, de Kiki, de Ikki e Saori que ficarão sem supervisão.
— O que o senhor decidir, mestre.
— Pois bem.
Shion levantou-se. Shaka e Mu saíram juntos, pela primeira vez mais unidos e extremamente preocupados. Camus permaneceu.
— Milo está dormindo a essa hora?
— Camus, Milo se machucou no resgate. Além de cortes e hematomas, ele bateu a cabeça muito forte.
Camus se desesperou correndo para o quarto, mas foi contido por Shion.
— Eu já me certifiquei que está tudo bem, ele só precisa descansar.
O aquariano respirou fundo, mas entrou no quarto quando ouviu um barulho.
— Amor?
— Oi Camy...
— Olha o que essa peste aprontou – Disse fazendo piada e bagunçando o cabelo de Kiki que dormia com ele.
— Como você está se sentindo?
— Bem mal. Está doendo muito... Mas nada que não vá passar após algumas aspirinas.
Camus estava estarrecido com o estado de Milo. Ele tinha cortes e feridas por todo o corpo, além de hematomas escarlates. Mas o que mais incomodou o aquariano foi o fato de Milo ter perdido algumas madeixas de cabelo.
— Como raios isso foi acontecer?
Foi quando Kiki começou a chorar copiosamente.
— Foi minha culpa, tio Camus... E a Tekka e a Tessa nunca mais vão falar comigo, eu tenho certeza!
Shion se sentou perto do lemuriano.
— Elas vão falar sim. Não gostei nada dessa história de cavaleiros podando seu contato com os filhos... Não vou mais permitir esse tipo de coisa.
Kiki olhou curioso para Shion.
— Mas, Kiki, você precisa aprontar menos! Eu entendo os cavaleiros mandando os filhos não falarem com você! Eu me questiono se não faria o mesmo. Você apronta tanto que acaba sendo visto como uma má influência!
Kiki apenas abaixou o rosto.
— Você nunca tinha feito nada tão perigoso quanto fez hoje. Não dá para comparar usar telecinese para atirar coisas nas amazonas tomando banho com quase matar tanta gente.
— Eu não sabia...
— Eu sei Kiki, eu sei. Eu ainda vou pensar o que raios eu vou fazer com você. Como sabe, Shun está desaparecido...
— Eu sei... Eu acho que sei para onde ele pode ter ido.
Na mesma hora, Shion, Camus e Milo olharam atentos para o menino.
— Para onde Kiki? – Shion questionou.
— Bom, eu posso dizer com um baixo custo— Disse Kiki fazendo sinal com a mão de algo muito pequeno, juntando polegar e indicador e fechando um dos olhos sorrindo.
Shion cruzou os braços sério, levantando uma sobrancelha.
— Basta apenas me garantir a segurança da minha “buzanfa” que digo tudo que sei.
Os três adultos sentiram vontade de rir da impertinência do menino, mas se contiveram. Shion manteve a postura séria e começou a bater um dos pés no chão.
— Kiki, não brinque comigo... Apesar de termos a mesma origem, eu não tenho nada da tranquilidade de Mu.
— Não estou brincando, isso é uma negociação.
Shion revirou os olhos, Milo riu e Camus encarava perplexo;
— KIKI, EU NÃO ESTOU BRINCANDO. É melhor você falar logo o que sabe! E quando eu digo logo, quero dizer AGORA!
— Não ouvi o senhor concordar com minhas exigências.
Nessa hora até mesmo Camus segurou o riso com aquele projeto paraguaio de advogado que atuava da pior maneira possível em causa própria. Shion com certeza se divertia de alguma maneira.
— Kiki, você quer apanhar, não é?
— Mestre Shion, o senhor realmente não entendeu o que eu quero. Eu certamente não quero apanhar, essa é minha exigência.
Camus que estava muito preocupado com Shun, tomou a frente.
— Kiki, eu já tentei esse tipo de barganha no passado. Te garanto que não dá certo, o que vai acontecer é que você vai conseguir tirar o meu mestre do sério.
— Então tudo bem, sem acordo, sem informações.
Shion respirou fundo enquanto apertava os pontinhos de sua testa nervoso. Ele obviamente estava menos nervoso do que demonstrava. Camus, por sua vez, deu dois passos para trás vendo Shion tirar o cinto da bainha.
— KIKI...
— O senhor pode me bater, mas não vai tirar uma palavra da minha boca sobre o paradeiro do meu irmão!
Shion respirou fundo, soltou o sinto no chão e pegou Kiki pelo tronco e fez a mímica de quem daria um tapa bem forte, mas logo foi interrompido pela fala nervosa de Kiki.
— Ele foi para Kavala! Pra Kavala!
Shion parou antes de dar uma palmadas, como intencionava desde o princípio. Olhou logo para Camus e Milo.
— Mas o que raios ele foi fazer em Kavala?!
— Não tem nada de interessante lá, que eu saiba mestre – Disse Camus.
Milo começou a rir e foi medido pelos outros cavaleiros.
— Dá para ver o quão certinhos vocês sempre foram. Kavala é a Sodoma grega... Já estive lá algumas vezes...
— Kiki, o que mais você sabe sobre essa ida a Kavala?
Novamente Kiki sorriu e disse:
— Que tal negociarmos?
Dessa vez Shion não se segurou e deu um beliscão no traseiro do menino que deu um grito de dor exagerado. Camus vendo que Shion se segurava com Kiki, quase riu. Shion estava amolecendo com a idade.
— A próxima vez eu vou te pegar pela orelha e te dar umas palmadas para você aprender a deixar de bancar o espertinho. Seu irmão está desaparecido, por zeus! Pare de pensar apenas em si próprio!
— Mas eu sei que vocês vão me bater!
— Ninguém vai te bater agora a não ser que você comece a falar tudo que sabe!
Kiki revirou os olhos e sentou-se na cama emburrado e começou a falar enquanto sacudia as pernas.
— Bom, Shun tem esse amigo em Kavala, o nome dele é Rusk.
— Rusk?
— Sim. Eles fizeram amizade pela internet há algum tempo. Conversavam todos os dias sem parar, tanto por telefone quanto pelo facebook. Quando Hyoga e Shun brigaram, Shun começou a falar ainda mais com o Rusk.
Shion abriu os olhos.
— Camus, ordene que Minu levante as ligações de Shun para Kavala o mais rápido possível e mande ela mandar um técnico olhar o computador dele a fim de rastrear o IP do computador desse Rusk.
Camus apressou-se em ligar para Minu e dar as coordenadas de Shion.
Enquanto isso, Shion corria para a casa de áries, sua antiga casa, para falar com Mu.
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