O Grande Dia
31 Capítulo XXX - Uma Brincadeira Inocente
Notas iniciais
POV Milo
Eu não entendi por que raios o chifrudo me levou com ele e não o Camus, estar perto dele me incomodava ainda mais do que ver Camus pra lá e pra cá ao lado do seu querido e amado mestrinho. Aff. Como Shion era super estimado nesse Santuário...
Uma risada me tirou dos meus pensamentos. Olhei para o lado e vi Shion, que dirigia muito rápido e sem tirar os olhos da estrada, se divertindo, provavelmente dos meus pensamentos.
— Mas que coisa... Isso é uma total invasão de privacidade!
— Milo, você está sentado ao meu lado e pensando meu nome. Como raios eu posso não ler esse tipo de pensamento? Não é que nem a audição que podemos simplesmente colocar uma música alta ou tapar os ouvidos.
Cruzei os braços me afundando no banco, aquela situação era horrível. Camus que devia estar aqui, aquele imbecil pela-saco do Shion. Nem papo eu tinha com aquele cara, nem música tinha no carro dele, nem meu celular eu tinha para me distrair.
— Milo, acho que você deveria estar mais preocupado com as três crianças que estamos visando resgatar, não?
— Mas será que nem pensar eu posso nesse carro? Eu estou preocupado, mas não posso fazer nada além de sentar aqui e esperar, já que você que está dirigindo.
— Milo, qual a razão dessa implicância comigo agora, hãm? Quando você era adolescente eu até entendo, mas agora somos todos adultos.
Eu revirei os olhos, como ele tinha coragem de dizer que somos todos adultos se há algumas horas tinha esfolado e Mu numa surra, como se fosse uma criança. Na mesma hora eu que pensei isso, Shion que estava até então com um semblante divertido acabou se fechando numa carranca contrariada.
— Milo, eu já te disse, mais de uma vez na verdade, que você não deve se meter na vida dos outros e, principalmente, não deve fazer fofocas da vida dos outros. O que aconteceu com Mu foi diferente e não diz respeito a você.
Bom, eu podia até não me meter, mas ele que não viesse bater em mim que ele ia provar do meu karatê. Eu mais uma vez vi Shion rindo.
— Milo, milo... Sempre irreverente. Sabe que os outros cavaleiros que tutoreavam vocês, na época novatos, não acreditavam em você.
— Como assim?
— Todos achavam você um mau elemento, um revoltado sem causa, perdido, que só causava confusão e não se dedicava aos treinos e ao estudo. Por mais de uma vez você foi ponto discutido na reunião geral dos dourados, foi proposto te mandar para outra cidade e te afastar do ensino de lutas para que não tivesse força caso viesse a se voltar para o outro lado.
Eu fiquei sem palavras, na verdade acho que fiquei sem até pensamentos. Como assim? Pensaram em me mandar para longe? Eu dava sim trabalho, mas...
— Eu não deixei nenhuma das vezes. Como tinha alguns amigos que confiavam em mim, apesar de eu não ser mestre geral naquela época, acabava tendo os votos dos meus amigos a meu favor. Dohko uma vez, apesar de votar sempre seguindo minha opinião nesse caso, me alertou que eu podia estar errado.
Mas até Dohko? Quer dizer que ninguém gostava de mim naquela merda.
— Não é que ninguém gostava de você, Milo. Você só não tinha a disciplina necessária para ser um cavaleiro de Atena. A situação era bem mais complicada naquela época, vivíamos em guerras e víamos a todo o tempo cavaleiros ótimos e obedientes se voltarem para as forças das trevas. Você era realmente uma preocupação, já que tinha grande habilidade de luta.
Olhei para as minhas mãos. As trevas nunca me interessaram, eu hein! Eu só queria farrear e me divertir, aquilo tudo no santuário as vezes era pesado demais...
— Eu sei, por isso sempre lutei por você. Apesar de não gostar do namorico de vocês à época, eu realmente achava que você fazia bem ao Camus lhe trazendo uma dose de diversão.
Ah, claro, o Camus... Eu era o macaco de circo dele...
— Mas, muito além de Camus, eu sempre acreditei no seu potencial, Milo.
— Co-como assim?
— Suas habilidades de luta eram impressionantes. Superavam em muito a maioria dos aspirantes a cavaleiros e você não treinava nem um décimo do que os demais faziam. Seus reflexos eram rápidos como o de um cavaleiro de ouro, e você era apenas uma criança. Sabendo que você era regido pela constelação de escorpião eu sabia que os reflexos eram tudo.
Eu fiquei olhando para Shion, me questionando quando raios ele me observava tanto.
— Além de reflexos e rapidez, você tinha força. Você com a ponta do dedo indicador destruía rochas enormes, que outros estudantes, como Camus por exemplo, passavam o dia todo socando e a quebravam a custa de muito suor e sangue.
Continuei em silêncio. Aquilo era verdade, mas como raios ele sabia? Eu quebrava aquelas pedras por diversão, mas sempre longe dos olhos dos adultos que só queria arrancar mais e mais de mim.
— Você estava pronto nos quesitos força, reflexos e habilidades com a velocidade. Nesse aspecto, eu sabia que você estava destinado à guardar a casa de escorpião. Porém, como todos que o antecederam, você pecava pela falta de disciplina.
Eu sorri, aquilo era verdade, eu fui um garoto difícil.
— O medo geral era que você usasse suas habilidades para o mal. Mas eu não conseguia visualizar aquilo em você, em que pese seu gênio, não existia maldade. Você era só um moleque revoltado que queria mais diversão e menos obrigações. Por isso te segurei, mas fui responsabilizado pelos demais dourados.
— Como assim?
— Em que pese eu não ser o grande mestre à época, eu já era o responsável geral. A última palavra não era minha, porém minhas opiniões tinham grande peso e eu era o líder responsável por todos os aspirantes a cavaleiros...
— Sim, você era o nosso terror.
Shion riu mais uma vez.
— Sim, mas eu tinha uma obrigação especial para com você. Como eu te “protegi”, se você saísse da linha a culpa seria minha, e minha palavra, consequentemente, desacreditada. Além disso, por mais que você discorde, eu gostava de você.
— Mas então era por isso que pegava tanto no meu pé...
— Se quiser chamar assim, pode chamar. Só não te puxei para ficar na minha casa por dois motivos: 1) você não ia aceitar de forma nenhuma e 2) talvez você e Camus sob o mesmo teto naquela época acabariam se matando.
Eu ri, era verdade.
— Então decidi te tutorear de longe, sempre te deixando com amazonas que obedeciam meus comandos e, principalmente, me passavam qualquer deslize. Eu acabei te criando, ainda que de longe.
Eu olhei para as minhas mãos, não é que era verdade mesmo... Não podia acreditar que quem tinha me dado o voto de confiança naquele lugar foi exatamente o chifrudo. E qual era o motivo dele me contar aquilo agora?
— Queria que você soubesse que sim, eu sempre peguei no seu pé. Mas não é por te odiar, como você acha. É exatamente por acreditar em você...
Aquilo tinha sido lindo, antes que eu pudesse falar, o telefone do carro tocou e Shion prontamente atendeu. Já estávamos perto do lixão.
— Sr. Shion?
— Fale Minu.
— Não conseguimos contato com o motorista do caminhão, a empresa tentou diversas vezes e nós também, ele não está atendendo o telefone.
— Estamos quase lá, Minu. Creio que não teremos problemas, vez que estamos andando muito mais rápido que o caminhão. Vocês estão rastreando o GPS do veículo, não é? Quanto tempo ainda temos?
— Três minutos.
Foi quando vi Shion desligar o telefone e pisar fundo, absolutamente contrariado. Aquilo havia me tirado do chão também, para faltar três minutos para chegar ao local, o motorista deveria estar ultrapassando todos os limites de velocidade das vias principais.
Ao longe vimos uma fila de caminhões, o da frente estava de ré na frente de uma grande máquina e despejava o conteúdo da grande caçamba dentro dessa máquina barulhenta. Eu engoli a seco, em qual daqueles caminhões deveriam estar as crianças?
Shion jogou o carro com tudo no meio da fila, e enquanto eu olhava desesperado em todas as direções, ele fechou os olhos se concentrando. O tempo passava e os caminhões se revezavam despejando as caçambas. Eu escalei os caminhões para pular de caçamba em caçamba.
Então, em meio ao barulho ouvi o grito de Shion que não estava mais com os olhos fechados e sim arregalados.
— NÃO KIKI, ISSO NÃO É UMA BRINCADEIRA! ESSA MÁQUINA É PERIGOSA! É UM TRITURADOR DE LIXO! VOCÊS PODEM MORRER!
Foi quando vi, ao longe, na caçamba prestes a ser jogada na máquina a figura das três crianças pulando e brincando.
POV Kiki
Aquele santuário estava muito estranho e eu estava quase sem ver tanto o mestre Mu quanto o mestre Shaka. Shun estava maluquinho da silva, já que estava com a mania de quebrar tudo o tempo todo.
Sai de casa sem pedir pra ningupem, já que não tinha pra quem pedir, né? Queria achar alguém para brincar ou aprontar alguma coisa. O problema é que as crianças em geral já nem brincavam comigo, porque sempre acabavam metidas em confusão com os seus mestres.
Foi quando vi a Tekka e a Tassa, as gêmeas novatas que foram adotadas pela Marin e o Aioria. Cheguei logo sorrindo.
— Oiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiê.
— Oi menino!
— Oi menino!
Eu sorri, elas eram fofas. Se vestiam igual e era iguaizinhas. Era impressionante. Não acho que elas eram aspirantes a amazonas, já que se vestiam daquele jeito bem normal, era comum agora ver casais adotando crianças no santuário para terem uma vida longe das lutas.
— Prazer, eu sou o Kiki – Eu disse, estendendo a minha mão.
Eles se olharam.
— Tekka, você lembra o que a mamãe e o papai falaram né?
— É verdade Tessa.
Fiquei sem entender quando elas saíram andando, dando as costas para mim.
— Hey, hey, que foi?
— Mamãe e papai falaram que você é muito encrenqueiro e que não era para nós aprontarmos com você.
— Tekka, não é pra falar com ele.
— Calma meninas, calma. Eles falaram para vocês não aprontarem comigo. E brincar, eles deixam?
Elas se olharam.
— Bom, mamãe e papai não falaram nada sobre brincar, apenas aprontar.
— Então... Vamos brincar?
As duas sorriram e responderam um sonoro SIM ao mesmo tempo. Fiquei feliz e ao mesmo tempo estava pensando na maior travessura possível, que pudesse ensinar a tia Marin e o tio Aioria a não falarem assim de mim para as novatas.
Fomos todos juntos ao parquinho, queria brincar enquanto pensava em algo. Logo que nos cansamos, fomos brincar de esconde-esconde pelo santuário. Eu adorava essa brincadeira, ainda mais com as gêmeas, pois eu nunca sabia quem que eu tinha encontrado.
Achei uma fita no chão de cor azul e prendi no cabelo da Tekka, que era mais espivetada que nem eu, diferente da Tessa que era mais santinha.
— Pronto, agora eu sei quem é quem.
Elas sorriram.
Continuamos a brincar, até que vi o caminhão que tirava o lixo do santuário. Pensei que talvez aquele fosse o esconderijo perfeito e me escondi lá com a Tessa enquanto a Tekka procurava.
— Ela nunca vai nos achar aqui.
— É mesmo.
Eles ficaram no meio do lixo até que foram surpreendidos pela Tekka.
— Mas aqui não vale! Levei um tempão para achar vocês.
Nós dois rimos muito, até que Tekka começou a rir também. Íamos descer quando, de repente, sentimos o caminhão se mover fazendo um barulho muito engraçado.
— Mas o que é isso?
— Hey!
— Moço!
O motorista não nos ouvia, e nem nós ouvíamos direito uns aos outros sem gritar. Ficamos, então, sentados, rindo, aproveitando o passeio. Quando vi que saímos no Santuário fiquei um pouco preocupado, mas nada que não passasse rápido, afinal, o caminhão deveria voltar depois ao santuário.
No caminho fomos nos acostumando com a altura que devíamos falar e novamente nos comunicávamos. As meninas estavam adorando o passeio que nos jogava para lá e para cá na caçamba. Como o lixo amortecia as quedas, era muito divertido.
— Muito legal essa brincadeira, Kiki.
— É mesmo, Kiki.
— Vocês que são muito legais, meninas!
Continuamos correndo, pulando e fazendo guerra de lixo. O mais legal é que o motorista corria bastante na estrada, então tivemos que muitas vezes nos segurar para não sair do caminhão, o que não assustou as minhas corajosas novas amigas.
Até que paramos numa fila, tinham vários caminhões na nossa frente que despejavam as caçambas numa espécie de escorregador com uma máquina que girava. Aquilo era um parque de diversões com certeza!
— Vocês viram que legal!
— SIM!!! Vamos poder brincar lá?
— Sim, acho que é só esperar a nossa vez.
Ficamos em guerra de lixo, esperando a nossa vez de entrar naquele brinquedo gigante. Era muito legal. Muito legal. Demorou um pouco, mas nossa vez chegou, finalmente a caçamba estava virando e nós rindo muito.
— Obaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa vai virar!!!
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