O Grande Alquimista

2 Uma Canção de Ninar de Natal


O Natal chegou afinal, numa noite de 24 de Dezembro, tenho a graciosa visita de minha irmã, que decidiu adiar a visita dela a Toragay para me acompanhar nessa data.

— Um brinde! — Propus — A todos os problemas que enfrentaremos agora que nós nos metemos em tudo que nossos pais nos mandaram evitar.

— Assim seja — Maggie respondeu e então entrou num tom triste — Sinto falta do papai e da mamãe nessas horas.

— Você mal vem visitar o seu irmão que está vivo — Brinquei — Ainda se preocupa com os mortos?

— Você sabe que não é assim — Ela soava cada vez mais triste — Temos muitos problemas, Anselm, eu tenho as minhas obrigações.

— Você não tem obrigação alguma — Eu insisti, futilmente.

— Eu tenho e você também — Ela me fitou — Existe um motivo para eu vir aqui.

E lá vamos nós.

— Estou chocado, pensei que você veio aqui por amor fraternal natalino.

— Pare de brincar! — Ela parecia furiosa — Odeio te pedir isso, mas ela deve estar envolvida com a Père Noël. Quero que você se infiltre na organização.

Eu não consegui controlar a gargalhada. Foi tão forte que Maggie se assustou.

— Eles não têm interesse algum em mim — Retruquei — Maggie, você devia parar de procurar tanto problema, você tem 16 anos, devia estar me contando sobre garotos, não organizações criminosas.

— Eu não tenho tempo para isso — Ela corou — E faça como quiser, eu vou embora, tenho mais trabalho a fazer. Ah, outra coisa, eles virão aqui hoje e a menos que uma mulher parecida com Meta Salmhofer te convide. Não aceite entrar para a organização, só ela interessa.

— Vai tão tarde? — Bem típico — Não quer ficar para receber os seus amiguinhos que provavelmente não virão?

— Eles virão — Ela riu — Adeus, irmão.

— Adeus, irmã.

Eu adoraria dizer que Maggie estava louca, mas nessa noite, três espíritos faceiros resolveram me visitar. Não demorou muito para que o primeiro surgisse, no frio da noite com seus cabelos roxos bagunçados.

— Bem-vindo ao Antiquário Geral — Cumprimentei — Como posso ajudar?

— Não vim comprar algo — Ele olhou em volta, vendo o conteúdo da loja — Você é Anselm, correto?

— Sim, sou eu — Não tenho certeza se foi algo inteligente confirmar — Você é?

— Sou Gatt Coulomb, prazer em te conhecer.

— Senhor Coulomb, o prazer é todo meu — Eu estava tentando me lembrar onde deixei o maldito alho-poró que serve para pedir ajuda — Como um simples vendedor como eu poderia lhe ajudar?

— Você já ouviu falar da Père Noël? — Ele me olhou rispidamente.

— Algumas vezes — Minha irmã estava ganhando mais credibilidade comigo.

— Você deve saber que ela é — Ele ajeitou uma adaga que carregava em sua cintura — uma organização que vive nas sombras e que não gostaria que alguém revelasse seus segredos, como a identidade de um membro, correto?

— Entendo o que quer dizer — Onde estava aquela maldita cebola estranha? — Ou pelo menos penso que entendo.

— Você entende — Ele terminou de ajeitar a adaga — Agora, você hipoteticamente se juntaria a essa organização, caso, hipoteticamente, um membro te oferecesse essa chance?

A próxima fala te deixará pensando “Você enlouqueceu?” provavelmente, talvez eu esteja, mas eu já não tinha como fugir, minha irmã estava certa, eu tenho que carregar o fardo dos Stets, a única coisa que eu tinha certeza era que minha irmã sabia sobre isso mais que eu, e que qualquer coisa que ela me recomendasse, era a melhor coisa a se fazer, uma conclusão bem triste.

Fiz algo que a deixaria orgulhosa.

— Isso dependeria, se algum membro importante, do tipo que tivesse alguma participação política e controlasse alguma cidade grande do meu país me oferecesse — Eu não acreditava no que dizia — Talvez eu aceitasse, um simples soldado, porém, não me convenceria que sou um membro tão importante.

Por um momento, Gatt parecia mais incrédulo que eu.

— Mas você deve entender que — Ele se recompôs — esse membro possivelmente estaria ocupado e teria que mandar “um simples soldado”.

— Lamento, mas eu não entendo — Eu duvido que em algum outro momento da minha vida demonstrei tanta coragem.

— Tudo bem então — Ele sorriu — Tenha um feliz natal.

— O mesmo a você, volte sempre.

Gatt Coulomb foi uma visita estranha, mas a próxima visita me surpreendeu ainda mais.

— Alguém acordado? — Uma voz feminina entrou pela porta entreaberta.

— Uma da madrugada. Eu já ia trancar a porta, o que você... — Parei a frase no meio.

— Olá, eu sou Hanne Lorre, como vai?

— Senhorita Hanne, isso é realmente surpreendentemente — Como minha irmã acertou até sobre Hanne Lorre? — Em que eu poderia lhe interessar?

— Eu estou atrás de uma reportagem sobre lojas em Aceid, desculpe-me chegar a essa hora — Ela falou — O senhor atenderia a uma entrevista?

— Claro que atenderia — Eu tenho quase certeza que suei nesse momento — Quais são suas dúvidas?

— Você revende ou fabrica seus produtos? — Ela começou.

— Quase sempre fabrico — Eu respondi.

— Você gosta de trabalhar aqui?

— Gosto.

— Última pergunta — Ela me encarou diretamente, colocando um colar que terminava em uma garrafinha na prateleira — Você recebe muitas visitas na noite de natal?

Eu não sou tão idiota quanto você pensa, eu notei o que ela queria dizer. Hanne notou que visitas estranhas eu recebi, ela queria saber o que acontecia.

— Às vezes, um ou outro senhor vem aqui com alguma oferta tentadora envolvendo algo em que pessoas simples não deviam se meter — Não que eu confiasse em Hanne Lorre, mas eu confiava em minha irmã e ela disse que Hanne Lorre era uma amiga — Ou uma bela repórter.

— Muito obrigada pela cooperação — Ela sorriu e uma suspeita começou a se formar na minha mente — Deixarei de te incomodar foi uma conversa esclarecedora.

— Uma moça tão jovem na rua a essa hora? É perigoso — Eu já sabia o que ela responderia.

— Não sou tão jovem quanto pareço — E mais uma vez, minha família se envolve com essa mulher, as tragédias do Reino do Mal não ensinaram nada?

Já estava quase amanhecendo quanto a última visita chegou, ela seria a mais surpreendentemente, mas eu não me surpreendia mais.

— Olá, você... — A mulher falou.

— Eu aceito, Julia.