O Golpe
2 Seria a sorte enfim lhe sorrindo?
Notas iniciais
— Will... Will... Acorda, man!
Gary chamava pela décima vez o amigo, que dormia num sofá pequeno do quarto de hotel vagabundo, no qual os dois dividiam e chamavam de lar.
— Dá um tempo, Gary! ... Me deixa dormir, cara!
William colocou uma almofada sobre a cabeça, numa tentativa de que seu amigo não o perturbasse mais. Só que não adiantou nada, pois nem bem ele fez isso e Gary puxou o objeto e o atirou em cima da cama de solteiro em que ele dormia.
— Que porra de dormir nada, Will... Temos ''trampo'' hoje, fodido.
— Fodido é você. — retrucou Will com visível desagrado. Gary quando queria sabia ser chato como um resfriado.
— Você é que é o belo adormecido. Agora levanta logo. Temos uma mesa de pôquer com muita grana em jogo. — o sujeito revelou com empolgação. — Nós podemos sair muito bem nessa parada, man. Então levanta essa sua bunda branca daí para irmos, caralho.
Os dois amigos, noites sim e noites não batiam ''ponto'' em diferentes cassinos ou pequenas casas de jogatina da cidade em busca de pessoas cheias da grana apostando em mesas de pôquer, para jogar com elas e no jogo arrancar toda a grana delas.
Eles chegavam e se metiam a jogar com os caras e na grande maioria das vezes, ganhavam as partidas, porque trapaceavam sem que os outros percebessem e assim, conseguiam grana fácil para se sustentarem. Além disso, os dois ainda cometiam pequenos furtos e golpes para terem mais grana. Só que ultimamente para William aquilo já estava o cansando.
Ele queria sair dessa vida miserável. Ambicioso, Will ansiava dar um golpe que mudasse sua vida a ponto de lhe deixar rico de vez e dessa forma, ele não precisar mais ficar vivendo de golpes aqui e outros acolá.
— Estou cansado de ganhar apenas grana ''temporária'', sabia? ... Eu quero ficar rico Gary. Saí de vez dessa vida de bosta que temos.
Era um pé no saco àquela vida. Se não conseguissem aplicar um golpe na noite ou ganhar algo numa mesa de pôquer, não ganhavam grana e não tinham como pagar a espelunca de quarto que moravam e nem comprar comida.
— E você acha que eu não quero o mesmo, Will? Claro que quero! Mas como vamos enriquecer assim, instantaneamente, man?
— Precisamos dar um golpe dos grandes em alguém. — contou, sentando-se no sofá.
— Só que em quem?
Por aquelas bandas não tinha alguém rico a ponto de eles depenarem e deixá-los ricos para o resto da vida.
— Não faço idéia. Mas tenho certeza que vamos encontrar um otário bem rico pra depenar todinho.
— Ou otária!
Uma mulher rica solitária seria uma ótima vítima. Mas onde encontrar uma assim?
— Talvez uma otária fosse mais fácil mesmo de enrolarmos.
— Isso sem sombra de dúvidas, mas... Enquanto essa otária não aparece para nos tirar dessa pocilga, vamos cuidar de arranjar outros otários homens não tão ricos assim, mas que nos dão grana pouca, mas fácil.
Gary foi rumo ao pequeno banheiro que havia anexo ao quarto, com o intuito de escovar os dentes.
— Com que dinheiro, vamos apostar, esperto? Eu ''tô'' liso, vou logo avisando. Os últimos dólares que tinha, gastei mais cedo com uma puta gostosa que conheci lá pelas bandas do Golden River.
— Que milagre! William Benson, esbanjando dinheiro com prostitutas?
Do banheiro Gary comentou em meio a uma alta gargalhada que fez Will apenas revirar os olhos e mandar um "vai se fuder" ao amigo que riu mais ainda.
William não era muito de ficar gastando sua grana com esse tipo de mulheres, ao contrário de Gary que quase todas as noites esbanjava seu dinheiro com prostitutas. Cada noite ele ficava com uma diferente.
— Estava precisando de uma puta pra tirar o atraso é? — indagou Gary saindo do banheiro enxugando o rosto numa toalha velha.
A resposta de William foi lhe mostrar o dedo do meio.
— Cara não precisa negar. Somos homens e às vezes se resolver sozinho de baixo do chuveiro não basta. É preciso uma mulher pra te dar um prazer que você não consegue alcançar sozinho.
O que seu amigo acabou de dizer era uma batia verdade que Will nem ousou contestar.
— E diz aí, a puta era boa?
Gary quis saber se aproximando do amigo após jogar a toalha na cama.
— Boa? Ela era um espetáculo. — respondeu Will sem esconder o sorriso cínico. A mulher que ele pagou por seus serviços lhe deu um batia prazer. Ela era de tirar o chapéu!
Muito bonita e gostosa, ela era cheia de curvas e fez coisas bem ousadas, que fizeram Will sentir muito prazer. A última vez que o golpista se sentiu tão satisfeito com uma mulher após ter feito sexo com ela, fora anos atrás quando tivera um rolo com uma das prostitutas que trabalhavam no bordel de Joel. Lois era o nome da mulher, ela conseguiu lhe levar ao delírio completo. Seu enrosco com ela não durou muito, já que Joel descobriu e a mandou trabalhar em outro bordel dos muitos que tinha. Não queria uma puta envolvida com seu filho.
— Valeu toda a grana que paguei pelo programa.
— Ah, seu bastardo infeliz!
Gary bateu com seu travesseiro na cabeça de Will, que tentou se esquivar do golpe, mas falhou inutilmente rindo.
— Me passa o telefone dessa máquina do prazer pra eu comprovar se realmente ela é isso mesmo.
— Sinto muito, mas não peguei isso. — comunicou, erguendo as mãos em rendição. — Se quiser encontrá-la é só passar perto do Golden. Ela é ruiva, a única do grupo e me disse que faz ponto por lá toda a noite.
— Pois dependendo da grana que faturarmos hoje, eu vou procurar essa ruiva. Você não se importa não é?
— Claro que não! Vai em frente!
Desde quando ia se importa. A mulher era uma puta. Foda-se!
— Opa, então eu vou mesmo.
— Agora voltando ao nosso assunto inicial, não me disse com que grana vamos apostar.
William começou a calçar seu coturno velho.
— Se lembra do relógio que peguei ''sem pedir'' a dois dias, daquele cara bêbado lá no Moullin Rouge?
Will assentiu em resposta.
— Pois bem, eu acabei de vendê-lo e consegui mil pratas nele.
— Sério?? — os olhos azuis de Will se arregalaram. — E eu que não dava nada por aquela merda!
— Pois é!
— Então se temos grana pra jogar, vamos nessa! — o sujeito se pôs de pé e apanhou seu casaco.
****
Alguns dias e semanas se passaram e no decorrer desse tempo, William acabou se metendo em uma confusão ao dar um golpe num cara que ele não fazia idéia de que fosse um gangster muito perigoso.
O gangster ao se dar conta do golpe que levara, resolveu acertar as contas com Will. Só que quando ele foi pensar em ir atrás de William, ele já havia sumido.
O golpista ao saber quem era o cara, saiu às presas da cidade em que vivia para ir rumo a qualquer outra longe dali. E para despistar ainda pintou os cabelos de loiro e colocou uma barba falsa.
Além disso, por segurança, ele e Gary acharam melhor se separarem momentaneamente para que não fossem pegos. Mas mesmo longe, mantinham contato via celular sempre.
Enquanto Will se refugiou por um tempo em San Francisco, Gary se encontrava na cidade vizinha a que o amigo/comparsa estava. Os dois sempre mantendo contanto um com outro. E esperando a poeira baixar para se encontrarem e voltarem a trilharem a vida bandida juntos outra vez.
Passaram-se três meses e como o gangster não achou nenhum sinal de Will, então desistiu de procurá-lo, mas o sujeito bandido jurou a seus comandados que se um dia ele voltasse a cruzar com aquele sujeito que lhe deu um golpe, o faria pagar por cada nota de dinheiro que lhe roubou.
****
Era uma madrugada fria. Um nevoeiro horrendo tornava a visibilidade na pista pouquíssima. William dirigia com cuidado o carro de terceira mão que conseguira comprar com uma grana que havia juntado. Ele seguia de San Francisco para Sacramento onde enfim se encontraria com Gary depois desses meses todos em que passou escondido do gangster que queria lhe pegar.
Os dois amigos e comparsas pretendiam ir juntos para Las Vegas, à cidade do pecado, a fim de tentarem a sorte grande e quem sabe, enfim enriquecer, num dos muitos cassinos daquela cidade.
Em determinado trecho de sua viagem em que ia curtindo o som de um clássico do Queen o qual tocava numa rádio qualquer, onde só tocavam clássicos do rock, Will sentiu o carro começar a perder velocidade. Imediatamente o homem desviou para o acostamento e não precisou de segundos para o carro ''morrer" de vez.
— Merda!
Socou o volante do carro.
— Era só o que me faltava! Esse maldito carro dá prego aqui e agora!
Ele saiu do carro batendo a porta com brutalidade e foi até a frente do veículo. Levantou o capô e... Fumaça, muita fumaça saiu dali. Era uma vez um motor!
Suspirou numa mistura de raiva com ódio. Agora entendia o porquê do cara que lhe vendeu aquela lata velha, fazer tanta questão que ele a lavasse e até fez um ''super desconto'' nela. Aquela porcaria estava a ponto de dar ''tchau'' como acabara de dar.
— Carro imprestável!
Tomado pela ira Will chutou o pára-choque e este acabou por se desprender, caindo no asfalto. Mais raiva deu no dono do veículo.
— Sua imundice! — outro chute, agora no pneu dianteiro direito. — Não podia ter dado prego em um lugar menos deserto, não?
Em um novo acesso de raiva, Will pegou do meio fio uma pedra que tomava toda a palma de sua mão e indo até a frente da lata velha atirou aquilo no pára-brisa do carro, que imediatamente se partiu com o impacto da pedra.
— E agora o que eu faço?
Estava no meio do nada. Estrada deserta. Teria muita sorte se outro carro passasse ali àquela hora da madrugada com todo aquele nevoeiro que caía. E mais sorte ainda, se aceitassem lhe dar uma carona.
Frustrado e completamente irado, Will foi se sentar no meio fio. Se questionou quando sua vida ia mudar? Quando os ventos iam deixar de soprar contra para soprarem a favor?
Em quê momento sua vida enfim deixaria de ser tão miserável como era?
O golpista queria muito enriquecer e parar de ficar passando perrengues atrás de perrengues. Não viver de aplicar golpes e mais golpes para se sustentar, mas pelo que via isso ainda ia demorar para acontecer. Ou se é que ia acontecer algum dia mesmo.
Levantou-se do meio fio e sem razão alguma se virou para o barranco atrás de si e encarou o céu encoberto por nuvens cinzas.
— Ah, sorte quando você vai me contemplar e me tirar dessa vida azarada?
Ao desviar os olhos segundos depois do céu e olhar para baixo, na direção do barranco, Will notou lá no fundo dele que havia uma luz piscando fracamente. Aquilo chamou de imediato sua atenção.
— Aquilo me parece um pisca de carro!
Will voltou seus olhos para a pista e pode ver mais adiante marcas de freada brusca que levavam justamente para o barranco. Algum carro saíra da pista e caíra lá dentro! Pelo menos era aquilo que ele conseguia deduzir com as evidências que tinha ali.
Tomado por uma curiosidade, Will resolveu descer com cuidado o barranco para saber se tinha alguém vivo ou morto lá embaixo.
Alguns metros de descida e ele encontrou o corpo de uma mulher que estava de bruços e estirado no chão. Com o pé direito Will chutou de leve a perna da mulher, mas esta não se mexeu. Ele se abaixou perto do corpo e segurou em seu pulso e não encontrou pulsação alguma, o que lhe fez concluir que a mulher estava morta. Virou-a de peito para cima e pode vê que ela estava com um corte enorme e profundo na testa. Havia também vários estilhaços de vidros cravados em sua face e um enorme enterrado em seu pescoço.
— Argh! — ele fez uma careta.
Levantando-se Will viu mais adiante outro corpo. Decidiu ir até ele. Tratava-se de um homem. Ele se encontrava de peito para cima e assim como a mulher, estava com o rosto cravado de estilhaços do vidro e seu pescoço estava quebrado.
— Minha nossa!
Will exclamou, olhando para o homem com o pescoço torto e a cara toda ensangüentado.
Se afastou do homem e caminhou mais um pouco até o carro capotado e todo amassado. O acidente parece ter sido muito feio a julgar pelo estado do veículo e principalmente, dos corpos das vítimas.
Chegando no Dodge preto, Will com muita dificuldade conseguiu abrir a porta do carona e começou a procurar por algo que lhe valesse a pena. As vítimas estavam mortas mesmo, então não precisariam de pertences valiosos como dinheiros ou jóias. Mortos não necessitavam daquilo.
Num compartimento atrás da marcha, Will acabou por encontrar a carteira do homem morto, nela havia alguns dólares e documentos do dono do objeto.
— Charlie.
Ele leu o primeiro nome do homem escrito na carteira de motorista do mesmo.
— Acho que você não se importará de eu pegar seus dólares não é Charlie?
Sorrindo, ele lançou um olhar na direção do corpo do sujeito morto.
Procurando mais um pouco, Will encontrou algo que mudaria sua vida. Embaixo do banco do motorista, ele acabou achando uma pequena valise de couro. Dentro dela havia jóias, maços e maços de euros e o melhor de tudo... Várias apólices que juntas valiam milhões.
— Eu não tô acreditando!
Ele levou as duas mãos a boca e incrédulo olhava para aquele montante de coisas valiosas.
Seria a sorte enfim lhe sorrindo?
Com tudo aquilo ele estava feito na vida. Podia viver sem problema algum e ainda por cima, poderia fazer investimentos e montar um negócio para si. Não mais viveria de golpes. Acabariam-se os perrengues, falta de grana e hotéis de quinta categoria.
Mexendo mais naquela pasta a procura de mais coisas que valessem dinheiro, ele encontrou algo inesperado.
Uma foto!
Era a fotografia de uma jovem, que ele julgou ter vinte ou no máximo vinte e dois anos. Ela era bonita com seus cabelos castanhos na altura dos ombros, pele branca, olhos amendoados e um sorriso angelical. Na verdade, a garota parecia-se muito com a mulher morta. Quase como sua cópia, mas numa versão mais jovem.
William virou a foto e havia algo escrito ali:
''Para se lembrarem de mim durante essas duas semanas que ficarão fora da cidade.
Beijos da única e predileta filha de vocês... Sara Sidle!''
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