O Garoto dos Olhos Castanhos
7 Capítulo VII - O acordo.
Notas iniciais
"Eu não posso ser assim,
vou decepcionar todos ao meu redor"
— Eu mesmo, 2016
Lucas estava em cima de mim, eu sentia o peso dele, mas, isso não me incomodava nem um pouco, era como se toda aquela sensação fazia eu ignorar tudo, os ruídos, o som da música e das pessoas lá em baixo de tudo. Era uma sensação incrível.
Os beijos dele me faziam esquecer de todos os problemas, me fazia sentir especial, algo que eu não sentia a muito tempo. Era como se ele fosse meu par perfeito, a pessoa que eu procurei por anos, eu me sentia bem com ele não importava o lugar, mas aqui, nesse quarto e nesta cama, eu me sentia muito mais especial.
As mãos dele começaram a entrar dentro de minha camisa, as minhas então estava nas costas deles a tempo, eu apertava, deslizava a mão para todas as partes. Eu estava muito bem.
— Quer tirar minha camisa? – Ele olha diretamente em meus olhos, eu o encaro com brutalidade.
Mordo meus lábios. Eu queria muito aquilo, queria tirar a blusa dele, a minha. Sentir nossos corpos se encostarem, pele a pele.
— Claro...
Então com um movimento lento, eu retiro a blusa dele e ele faz o mesmo comigo, novamente voltamos a nos beijar. Dessa vez era melhor, nossos corpos estavam juntos.
Estava tudo tão bom. Estava até a porta se abrir e um grito de espanto nos faz parar. Era Larissa, ela estava ali na porta, ela viu tudo.
— Então eu tinha razão! – Ela começa a rir, mas uma risada de deboche.
— Larissa! Entra e fecha essa porta. Você não vai contar pra ninguém.
Agora que me toquei de tudo que estava acontecendo. Eu tinha beijado ele, um menino, um homem! Eu estava quase sem roupas com ele, a gente estava... a que nojo, que ódio! E ela viu tudo! Larissa viu cada detalhe, como eu fui idiota. Como Lucas é idiota por me fazer passar isso.
— Ah, não vou? – Ela ri – Não se preocupe, não vou falar nada... Ainda.
Ela sai, dando risada como uma bruxa medieval e então bate a porta do quarto. O silêncio fica naquele lugar, até Lucas quebrar ele.
— Vamos continuar?
Não acredito que ele disse isso. Não acredito que ele pensa em continuar com essa merda depois de tudo isso! Como ele pode ser tão ignorante?
— Continuar?! – Eu estava gritando – Isso não era nem pra ter começado!!
— Rafa, calma! – Ele levanta e se aproxima.
— Fica longe de mim, você é idiota! Por que fez isso comigo?
Eu estava fervendo de raiva, queria chorar, queria chorar muito! Queria espancar alguém, ou me espancar mesmo!
— Tá tudo bem, você só precisa aceitar que isso aconteceu. Foi bom!
— Eu não sou uma BICHA igual você! Entendeu?!!!
Ele olhou bem nos meus olhos, percebi que aquilo feriu até os mais profundos sentimentos dele. Mas é verdade, se ele é eu não posso fazer nada, mas eu! Rafael, não sou!
Peguei minha blusa e coloquei, eu ia embora dali. Não aguento mais ver a cara dele na minha frente.
— Eu não quero nunca mais falar com você. Me entendeu? – Eu praticamente cuspia as palavras na cara dele.
— Rafa, por favor, não faça isso! Podemos conversar...
Mostrei apenas o dedo pra ele e sai batendo a porta com tudo. Assim que comecei a descer as escadas eu comecei a chorar, mas ainda era um choro leve. Assim que cheguei no andar inferior comecei a praticamente correr até a porta, não queria que ninguém me visse, não queria falar com ninguém, eu apenas queria minha casa! Queria me afogar na cama.
— Rafael? Tá tudo bem? – Guilherme apareceu – Você anda estranho ultimamente.
Ótimo, agora tenho que me explicar pra ele? Tem como piorar?
— É Gui, ele é muito estranho, aí se você visse o que eu vi... – Larissa começou a falar. Essa vagabunda.
— Cala a boca, Larissa! – Eu queria enfiar uma faca na testa enorme dela, arrancar cada fio de cabelo que ela tem.
— Ei cara, calma aí!
— Sai da minha frente, Guilherme! Vocês dois! Sumam da minha frente!
Fui empurrando os dois, derrubei as bebidas deles, quero que se foda. Quero que os dois caiam de cara merda! Aí que raiva, que ódio, que dia merda! E eu pensando que essa festa iria ajudar em alguma coisa, deixou apenas essa semana pior ainda.
Agora eu estava na rua, correndo o mais rápido possível até minha casa, eu não conseguia parar de pensar no que tinha acontecido, as cenas iam voltando em minha mente e isso ia me dando cada vez mais raiva. Como eu fui capaz de fazer aquilo? Não era eu, isso é fato, não era eu que estava fazendo aquilo, eu gosto de mulheres! Eu quero ter uma família! Com um homem eu não terei nada disso, terei uma vida cheia de nojo e coisas erradas. Isso não é certo, eu não farei mais aquilo, eu não quero mais ver Lucas na minha frente nem pintado de ouro! Que raiva, por que aquele maldito foi mudar pra cá? Por que não ficou na maldita cidade que estava!!??
Meus olhos estava começando a arder de tanto que eu chorava! Eu não conseguia mais parar, eu estava com raiva, confuso, irritado. Meus pensamentos não estava normais.
Cheguei em casa e fui direto pro meu quarto, minha mãe me perguntou alguma coisa que não entendi direito, apenas ignorei e subi pro meu quarto, fechei e tranquei a porta. Me joguei na cama e lá eu desabei. Chorei mais que o dobro que eu tinha chorado, era como se eu fosse uma criança que tinha caído e ralado o joelho.
Meu celular vibrava sem parar, eram todas mensagens do Lucas, ele não parava de mandar. Parece que ele não entendeu que não quero mais contato com ele. Simplesmente te desliguei o celular e tentei dormir. Amanhã será um dia melhor eu acho. Um dia bem melhor.
***
Quando acordei no outro dia demorou um pouco para a minha mente jogar todas aquelas memórias de volta à minha cabeça. Tudo parecia um sonho, como eu queria que fosse apenas um sonho. Que fosse apenas um pesadelo.
Levantei devagar e fui até meu banheiro, tirei minhas roupas e fui relaxar em um banho bem frio. Enquanto a água caia em meu corpo eu comecei a pensar nas coisas que eu falei pra Lucas... talvez eu tenha pegado um pouco pesado, talvez eu devesse me desculpar.
Mas ele também deveria, foi por culpa dele que tudo aquilo aconteceu. Ainda tem Larissa, aquela menina é um perigo, uma talarica de primeira, se ela quiser ela pode fofoca pra todo mundo, e a maioria irá acreditar.
Assim que sai do banho tive uma pequena surpresa, uma surpresa nada agradável. Minha mãe tinha vindo me avisar que eu tinha visita, visita de uma Larissa.
É claro!
É claro que ela viria falar comigo, que ela viria fazer alguma chantagem. Pedi pra que minha mãe chamasse ela pra vir até meu quarto, precisava conversar em particular, minha mãe não poderia ouvir nada do que iríamos falar. Imagina se ela escuta que eu estava me agarrando com outro menino?
Ela subiu, pedi pra que ela sentasse em minha cama, ela estava com aquele sorriso sínico, aquela cara de merda entalhada.
— Então, vamos logo ao ponto. O que você quer, Larissa?
— Calma, nervosinho. Não é assim que funciona.
— Eu sei que esta aqui por causa do que aconteceu ontem. Não precisa enrolar.
Ela soltou uma risadinha e então pegou o seu celular de sua pequena bolsa e me mostrou uma foto. Fiquei espantado, a foto era eu e Lucas nos beijando, como ela conseguiu isso?
— Como..
— A Rafael, você acha mesmo que eu fui a primeira que vi? Minha colega antes de eu subir, tinha ido primeiro junto de seu parceiro, ela abriu a porta bem devagar e viu vocês e acabou batendo a foto. Foi por isso que subi, subi pra te certeza do que essa foto me mostrava.
Fiquei em silêncio.
— Sabe, eu não vou contar nada. Prometi a minha amiga me mandar essa foto e fiz ela apagar a do celular dela.
O que? Ela vai me ajudar, então ela é afinal uma boa pessoa ? Isso está muito suspeito.
— Porém, você terá que fazer algumas coisas por mim. Será como se for um acordo. Você fará o que eu pedir e essa foto jamais correrá pelo Facebook ou qualquer outra rede social.
— Eu sabia que você não deixaria isso barato... o que vou ter que fazer?
Ela então pega de sua bolsa duas alianças prateadas e brilhantes. Fiquei pensando o que aquilo poderia significar e estava com medo do que viria em seguir.
— Você vai ter que ser o meu namorado. Vai ter que fazer coisas de namorados comigo...
Não acredito no que ela está me pedindo. Não acredito. Por que eu? Ela é uma das garotas mais desejadas da escola! Ela sempre conquistava todos com aqueles cabelos ruivos e olhos verdes, não tinha um menino que não gostasse dela! Exceto eu, claro.
— Você é louca? Eu não gosto se você!
— Ora, então você realmente gosta do Luís? Esse é o nome dele né?
— É Lucas!
— Então realmente gosta dele? – ela riu.
— Não. Eu não sou gay! Nunca fui.
— Então aceite o acordo, ou todo mundo vai pensar que é.
Ela esticou as alianças até mim, eu estava super nervoso. Esse pedido é uma loucura, namorar com ela seria um pesadelo, mas... a foto... ela poderia mostrar pra todo mundo, eu não quero ser taxado de gay! Prefiro sofrer com ela do que ser chamado disso. É...
— Tudo bem! Trato feito. Mas a foto, por favor não mostre a ninguém.
— Essa foto será guardada a sete chaves. Fique tranquilo.
Ela sorri e se aproxima de mim relando em meu rosto e por fim me beijou, foi o pior beijo da minha vida. Fiz a escolha certa? Será que... ser taxado de gay é uma coisa ruim? Talvez sim, não sei como seria a reação dos meus amigos, da minha família, eu perderia tudo... sim! Melhor não arriscar e descobrir pela pior maneira.
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