O Garoto dos Olhos Castanhos
9 Capítulo IX - Halloween
Notas iniciais
Já fazem quase um mês que o Rafael não fala comigo, confesso que tem sido difícil, muito difícil pra ser sincero com vocês!
Eu tentei inúmeras vezes mandar mensagem pra ele, mas todas foram ignoradas, tentei ligar também, mas acabava na mesma situação que as mensagens. Então acabei decidindo que não iria mais correr atrás como estava fazendo, vou dar o espaço dele, quem sabe ele se toca.
Foi difícil engolir ele com Larissa. Eu via os dois juntos todos os dias no ponto dele, era nojento e desgastante, eu ainda não aceitava essa ideia de namoro, ainda mais entre os dois! Eu conheço o Rafael e seu que ele não seria capaz disso, como eu já disse e repito. Tem alguma coisa de estranho nisso.
Porém, mudando de assunto, falta apenas um dia para o Halloween, essa é uma data que eu gosto bastante! Na minha antiga cidade toda nossa rua ficava decorada, não era igual as maravilhas dos Estados Unidos mas era algo extremamente divertido, fiquei muito feliz quando vi que aqui nessa cidade as coisas também são assim. Meus vizinhos e toda a rua decoraram suas casas com algumas “assombrações”, eu é claro que também decorei a minha, ficou lindo, até mesmo dentro de casa eu decidi decorar.
Lá fora eu coloquei várias teias de aranha fake, coloquei algumas abóboras personalizadas no chão e espero de coração que ninguém roube, nas teias eu também consegui grudar umas aranhas falsas bizarras, ficou demais! Ah, e eu também joguei sangue falso pelo portão, no chão e na parede. Ficou show de bola!
Já dentro de casa, na sala em especial eu também coloquei várias teias de aranha falsa grudadas em todos os cantos da sala, as mesmas aranhas estavam nelas. Na estante eu coloquei alguns bichinhos do tema, como o Jack, umas bruxas, vampiros entre outras coisas. Deixei espalhados também algumas abóboras lanternas.
Meu quarto por fim era o mais decorado, eu coloquei teia de aranha, aranhas, abóboras, troquei a cortina por uma cortina branca e joguei muito sangue falso, coloquei várias miniaturas de fantasmas nos meus livros e estante. Estava tudo muito bonito, como eu disse eu amo o Halloween assim como todas as outras datas comemorativas.
E isso era bom, sabe? Me ajudou a aliviar a cabeça, me fez esquecer de tudo o que aconteceu anteriormente, me deixou mais calmo e tranquilo também. Não é legal sofrer e muito menos sofrer por alguém que você ama e esse alguém está cagando pra você, isso é uma das piores dor que o ser humano pode passar. Fazer tudo isso, me preocupar com a decoração, sair pra comprar os materiais e essas outras coisas me deixaram bastante distraído. Ocupar a cabeça com essas coisas foi a melhor coisa que eu fiz nesses “tempos difíceis”.
Além do mais, no dia do Halloween não terá aula na Etec, na verdade terá uma festa dedicada a essa data, eles nomearam de “Hallowetec”! Qualquer pessoa podia comparecer lá, teria barracas de comida e algumas brincadeiras, seria demais e claro deveria ir fantasiado se não, não seria Halloween não é mesmo?
Eu estava ansioso pra essa festa, já tinha até minha fantasia. Era um daqueles Kugurumi, o meu era de unicórnio branco com detalhes rosas e azuis. Era bastante bonito e eu com certeza iria com ele. Aposto que será um grande dia, sem estresse e confusão. Só espero não ver duas pessoas lá.
Meu último Halloween foi bastante difícil, não foi um mar de rosas e muito menos agradável. Tudo que tinha pra ser um dia maravilhoso acabou sendo quase que o pior dia da minha vida, na verdade eu acho que esse foi o pior dia da vida da minha mãe. Não gosto nem de lembrar.
Nesse Halloween passado minha mãe sofreu um acidente, ela estava grávida e faltava poucos meses e quem causou esse acidente e a fez perder minha irmãzinha foi meu pai, eu já não gostava dele devidas as coisas que ele fazia... Que eu prefiro não falar e nem mesmo lembrar, mas foi uma noite triste.
Eu estava com algumas amigas indo de casa em casa pedir doces, eu estava juntando bastante, já que minha mãe gostava muito de doces. Mas foi quando veio a notícia, a notícia de que o carro onde estava minha mãe e meu pai tinha capotado, eu não tive reação no momento e a primeira coisa foi ir ver minha mãe.
O médico disse que meu pai estava bêbado, totalmente sem consciência e isso tinha feito ele capotar o carro, a notícia de que minha mamãe perdeu o bebê veio logo em seguida, ela ficou arrasada e demorou tempo pra superar. Eu passei de odiar meu pai a querer a morte dele.
Então o Halloween é um dia muito bom mas também com lembranças muito ruins, mas tenho esperança para que esse seja um ótimo dia das bruxas.
***
Finalmente dia 31! Estou totalmente arrumado para a festa, agora mesmo estou esperando o ônibus da Etec passar como sempre. Estou radiante e muito bonitinho, sério!
Assim que o ônibus chegou eu entrei e logo reparei todo mundo com algum tipo de fantasia, cada um com uma diferente e de um jeito peculiar. Tinha bruxas, fantasmas entre outros! Mas o legal é que eu era o único unicórnio, sou único!
Tinha me esquecido do Rafael até chegar no ponto dele. E ele estava lá com aquela vagabunda. Ele estava tão bonito, estava de bruxinho, um bruxinho todo charmoso e encantador. Ele estava com um sorriso enorme no rosto, acho que ele está levando numa boa tudo isso, acho que eu devia superar e aceitar que perdi ele. Perdi meu amor...
Ele entrou e Larissa logo em seguida, dessa vez teria que aturar ela no ônibus. Os dois sentaram no banco da frente, aposto que pra provocar. Pensei que era paranoia minha até escutar algumas coisas.
— Você viu que fantasia ele tá? É uma bicha mesmo.
Larissa falou isso, ela falou num tom que era pra ser baixo porém ela aumentou a voz para que eu escutasse. Fiquei quieto e apenas observando eles a minha frente.
— É...
Essa foi a resposta dele. O que eu estava esperando? Que ele fosse me defender e brigar com ela e falar que odeia ela de todas as formas? Ah. Sou muito iludido mesmo. Sou um poço de ilusão.
Tive que aturar ela falando o caminho todo. Pra que ficar provocando desse jeito? Ela espera que eu de a louca? Mas não vou dar, estou me mantendo firme e forte. Eu não entendo, ela já conseguiu o que queria, ela está com ele, está com a pessoa que eu gosto e mesmo assim precisa ficar me provocando desse jeito? Não poderia apenas me excluir da vida?
O ônibus parou e eu fiz questão de esperar os dois descerem primeiro pra depois eu descer. A escola estava linda! Totalmente decorada, com luzes vermelhas dando um grande destaque, as pessoas estavam com fantasias super criativas de todos os tipos. Estava tudo tão bonito! Estou super ansioso para as peculiaridades de lá de dentro.
Assim que fui andando reparei nas diversas coisas que tinham lá, em um canto tinha uma “salinha” pra tirar foto pelo pessoal de Fotografia, em outro tinha um “Cantinho Secreto”, era uma sala onde você podia pagar uma quantia de dinheiro e ficar trancado lá dentro por alguns minutos, fico imaginando as coisas que acontecem nessa sala.
Tinha também muitas barracas de doce, era doce para todos os lados e eles vinham em uma sacola em formato de abóbora, tinha alguns salgados mas era poucos. Tinha também uma barraca de maquiagem, acho que é gratuito, depois vou lá fazer alguma aranha no meu rosto ou algo do tipo!
Mais pro fundo da escola tinha várias cruzes e um momento de feno em baixo, isso simbolizava a queima das bruxas do passado. Bom, que de bruxas elas não tinham nada, era apenas mulheres inocentes com dons de cura natural entre outras coisas.
Estava tudo muito bem decorado. Mas eu não estava bem, digamos assim que eu estou tentando enganar minhas mágoas. Sentei em um banco e fiquei observando as pessoas, agora que eu reparei que vir pra cá seria ruim. Eu sou sozinho, não fiz amizades novas, apenas o Rafael e agora estou em uma festa super bacana mas sem ninguém pra eu compartilhar meus sentimentos, sensações.
Procurei Rafa com meus olhos e achei ele, lá estava meu garoto comprando doces pra outra pessoa, eu notei que ele não está feliz, não igual antes. Sabe? Antes ele era radiante, sorridente e muito animado, agora parece que ele só esta vivendo, entende? Só está deixando a vida seguir. Queria arrumar um jeito de falar com ele, em particular.
Olhei pra sala do cantinho secreto e imaginei que lá seria o lugar perfeito, mas eu teria que levar ele até lá... Ou talvez eu poça pedir pra alguém chamar ele, sem falar quem está lá. Isso!
Levantei rapidamente e fui até a pessoa que estava tomando conta do Cantinho.
— Oi! Tenho uma dúvida. Se eu entrar e pedir pra você chamar outra pessoa pra vir, sem falar meu nome você faria?
O rapaz me olhou bem e deu uma risadinha simpática.
— Muitos pedem isso. É só me mostrar quem você quer.
Fiquei feliz, procurei Rafa novamente e apontei quando o achei, o rapaz abriu a porta e falou pra eu esperar lá dentro que logo meu “Boy Magia” como diz ele estaria ali dentro.
A sala estava totalmente escura, não dava pra ver absolutamente nada, isso seria bom assim ele entraria e não sairia correndo logo de cara.
Fui para o canto direito da sala e esperei, fiquei ali por uns minutos até a porta abrir e ele entrar, logo a porta de fechou e eu escutei trancando. Era assim que funcionava, paguei por 10 minutos lá dentro!
— Quem tá aí? – Perguntou ele, a... que saudade daquela voz.
— Eu... Sou eu, Rafa.
Escutei um suspiro enorme, muito grande mesmo. Ele deve estar me odiando.
— Por favor, apenas vem cá. Senta perto de mim e vamos conversar.
Escutei apenas os passos dele e logo percebi que ele se sentou perto de mim, demorou pra ele me achar, já que estava escuro.
— O que você quer agora? Pensei que tinha deixado claro...
— Você deixou, mas é que eu não entendo... você não precisa se afastar de mim! Podemos ser amigos pelo menos.
Doeu pra mim falar isso, mas eu preferia pelo menos ter ele como amigo já que não posso o ter da forma que eu realmente quero. Falar isso foi muito difícil.
— Não posso ser amigo de gays.
— Por que? Eu não sou um monstro! Você gostava de mim, como amigo! A gente era super juntos.
Isso é verdade. Antes daquele beijo, antes daquela menina aparecer era tudo perfeito, a gente era bastante unidos e felizes!
— É... Mas...
Ele estava sem palavras, ele ficou quieto e eu também. Não queria ficar pressionando também. Peguei meu celular, liguei a lanterna e deixei no meio da gente. Olhei pra ele e ele olhou pra mim.
— Podemos superar isso...
— Você não entende!
— Me faça entender!
Ele olhou pra mim e balançou negativamente a cabeça. Ele jamais faria eu entender, ele é complicado.
Olhei pra ele e fui me aproximando, eu tentaria dar mais um beijo nele, pelo menos o último. Não sei no que eu estou pensando, isso pode arruinar tudo, pode acabar com tudo que eu já não tenho. Mas eu fui me aproximando, foi indo e ele não recuou. Olhei no fundo dos olhos deles e ele me encarou.
— Você continua lindo, Rafa... – Meus lábios estavam quase tocaram os deles.
— NÃO!
Rafael me empurra com tudo, segura perto do meu pescoço e eu caio de costa com tudo no chão. Ele me olha furiosamente, ele estava em cima de mim.
— Rafa... – Minha voz estava trêmula.
— Eu já te disse! Eu não quero, eu não quero isso!
— Você não precisa fazer...
Ele cuspiu na minha cara.
— Tenho nojo de você!
Ele cuspiu na minha cara.
— Você não é ninguém pra mim, ok? Eu te odeio, menino!
Ele... cuspiu...
— Eu vou embora daqui! Abre essa porta! – Ele já estava batendo na porta e logo ela abriu e ele saiu.
Eu estava no chão ainda, meu rosto estava molhado, eu não acredito que aquilo aconteceu. Ele... Como ele pode fazer isso?
Minhas lágrimas não aguentaram e começaram a sair todas. O moço que tomava conta entrou. Ele sentou do meu lado, estava falando alguma coisa mas eu não escutava mais nada. Como ele pode fazer isso comigo? Esse ato foi tão brutal, eu preferia levar um soco na cara, as palavras deles machucaram muito mais que qualquer dor física que eu já tive. Por que eu não tenho sorte nisso? Por que...
Levantei ignorando o moço e fui andando até a saída da sala e depois até a saída da Etec. Eu estava totalmente acabado, sentia toda dor sentimental possível, e aquela cena rodava na minha cabeça toda hora. Como eu fui tolo, tolo de pensar que esse Halloween seria bom... ou melhor dizendo, que algo da minha vida fosse bom.
Limpei meu rosto, isso eu já estava na rua. Olhei pra minha mão, eu estava tremendo, talvez de nervoso, tristeza ou raiva? Sim eu estava com raiva dele, até agora eu estava normal, eu estava bem, eu estava indo atrás, agora eu quero que ele suma de tudo. Eu não mereço ficar sofrendo assim por alguém que cuspiu literalmente em mim.
Olhei pra lua, grande e brilhante. E pra ela eu fiz uma promessa. Não irei mais me rebaixar, não irei mais correr atrás dele, a partir de hoje vou seguir em frente, vou conhecer pessoas novas e ele? Quero que ele se foda...
A gente poderia ser tão feliz juntos... Poderia, poderia muito.
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