O Garoto dos Olhos Castanhos
3 Capítulo III - O Convite.
Notas iniciais
Eu já estava terminando a segunda semana de aula na escola técnica e na próxima segunda já começaria as aulas do ensino médio novamente…. Confesso que não estou preparado pra estudar de manhã e a noite ao mesmo tempo, tenho certeza que isso vai me desgastar bastante. Por sorte é o último ano.
Mas hoje não é dia de ficar desanimado, afinal é sexta feira não é mesmo?
Na quarta uma amiga minha do terceiro me convidou pra festa que ela tinha planejado, o caso é que os pais dela prometeram que se ela conseguisse notas boas em português e matemática eles deixariam ela fazer uma festa do modo e do jeito que ela quisesse, creio que eles duvidavam que ela iria conseguir pra fazer um acordo desses, mas o fato é que ela conseguiu e agora planeja uma festa na casa dela no próximo sábado à noite, além disso ela mandou eu chamar alguém de fora pra ir na — de acordo com ela é a melhor e mais incrível — festa que ela iria fazer.
Bom eu aceitei mesmo não gostando muito de festas, mas eu queria usar isso como uma comemoração digna de que passei em segundo lugar sabe? Além de que essa talvez seria a última festa que eu conseguiria ir devido a correria que vai ser nos próximos meses.
Fiquei pensando em quem convidar pra ir junto comigo, o Guilherme nem precisaria ser convidado, essa garota tem uma queda enorme por ele e provavelmente ele foi o primeiro a ser chamado por ela, demorou pra eu pensar, mas logo eu lembrei do Lucas, ele é novo na cidade e provavelmente ela não o conhece ainda então vai ser ele mesmo que vou chamar.
Me arrumei em meu quarto mesmo e desci pra ir conversar com minha mãe, avisar que vou na casa do Lucas, mas antes eu tinha algo pra perguntar a ela. Era sobre meu pai e o assunto é que ele não para em casa, queria saber a opinião dela sobre isso, se ela não de incomoda ou se ela simplesmente não liga...
— Mãe? — Sentei ao lado dela. — Vou na casa de um amigo e de lá vou pra escola, mas antes queria perguntar uma coisa.
— Sim, filho?
— Você não sente falta do pai? Ele só fica em casa pra dormir praticamente. Eu mesmo não consigo ter uma conversa de dois minutos com ele.
— A meu filho… seu pai está bem ocupado…
É sempre essa resposta que recebo. Já disse para ela que sinto falta da presença dele em casa, depois que ele começou esse serviço ele nunca mais parou e por mais que o salário dele seja maravilhoso, o dinheiro nunca vai substituir meu pai. Pode até substituir pra minha mãe, mas pra mim não...
Depois daquela resposta eu levantei, peguei minha bolsa e fui em direção a casa de Lucas, eu estava bem pensativo ainda. Será que minha mãe ainda ama meu pai? Será que ele está feliz com esse serviço?
As vezes eu penso demais… E isso acaba machucando.
Eu lembro quando minha casa era bem agitada e unida, todo final de semana tinha um churrasquinho, os vizinhos as vezes reclamavam da falação na madrugada, as risadas em conjunto. Mas agora tudo está tão quieto, tão… tão vazio. Não sei como explicar, mas sinto que minha família está bem quebrada. Isso também não tira o fato de que parte da minha família está brigada, a parte do meu pai… foi muita confusão que a briga acabou separando os lados, meu pai mesmo não fala com minha avó já faz meses e consequentemente nem eu e nem minha mãe falamos pra evitar novos conflitos e piorar ainda mais a situação.
A casa do Lucas não era tão longe da minha, era perto de uma praça — passando alguns quarteirões — ou como todos falam é a praça do beijo. Bom ela tem esse nome por que quando anoitece alguns casais se reúnem aqui para trocar alguns beijos, de acordo com minha mãe aqui foi o local do primeiro beijo dela com meu pai, é parece que essa praça é bastante famosa. Meu primeiro beijo não foi aqui infelizmente, mas já tive alguns aqui nessa praça, as árvores com flores rosas deixam o ambiente mais romântico. É muito bonito.
Olhei para meu celular novamente pra checar a rua e o número, bom a rua eu estava certo agora o número é uma coisa que eu não sei ver direito. Sabe eu não entendo as numerações das casas, já tenho dezessete anos e não consigo entender isso, tem números que não estão em ordem e a… sei lá viu, talvez eu que seja mongo demais pra isso.
Depois de longas procuras eu achei a casa dele, por fora só dava pra ver o portão marrom e a parede branca e do lado tinha a campainha. Era simples como toda a casa atualmente por fora, prezando a segurança e não a beleza. Toquei a campainha e depois de alguns segundos uma voz feminina — creio eu da mãe dele — falou:
— Quem é?
— É o Rafael, sou amigo do Lucas.
— Aaaah querido, um momento. — A voz dela assim que ouviu quem era mudou para um tom mais alegre, parece que ele já tinha falado de mim para ela.
Não demorou muito até ela aparecer e abrir o portão, era uma mulher muito bonita e muito parecida com Lucas, ela tinha longos cabelos castanhos lisos e bem cuidados, os olhos eram o mesmo castanho que o dele, aqueles olhos fascinantes…
— Ele me falou muito de você! — Disse ela abrindo um sorriso enorme. — Venha entre, entre! Ele está no banho, mas logo vai sair.
— Ah, não quer que eu espere ele aqui? — Estava um pouco tímido.
— De forma alguma, querido! Venha entre logo, pode esperar ele no quarto dele, vamos eu te mostro! — Ela disse me puxando delicamente pelo braço.
O nome dela era Bárbara, na casa só moravam ela e o Lucas, incrível como era tudo bem arrumado e organizado e com um aroma perfumado. Na parte de arrumação era bem diferente de casa, minha mãe até tenta organizar tudo, mas sempre tem eu e bom, agora bem pouco, o pai pra bagunçar tudo.
Ela me levou até o quarto de Lucas, no processo tive que passar perto do banheiro onde eu escutei a água caindo do chuveiro. A casa dele não tinha dois andares como a minha, era bem simples, mas como eu disse, toda aquela organização deixava a casa com cara de rica.
Assim que entrei no quarto dele me deparei com um quarto totalmente diferente do meu, esse quarto era a cara da arrumação! Tudo era bem organizado, a cama estava arrumada sem nenhum amasso, sua estante era totalmente organizada e tinha muitos livros, seu guarda roupa era daqueles grudados na parede sabe? Era lindo e tinha um espelho enorme que dava pra ver você inteiro! Tinha também alguns pôsteres de Harry Potter e algumas cantoras que eu não conhecia muito bem.
Sabe… ficar num quarto desse me mostra o quanto eu sou desorganizado, isso me incomodou um pouco e uma pequena vontade de arrumar meu quarto surgiu no meu peito.
Sentei com cuidado na cama dele, fiquei com uma dor assim que percebi que já tinha desarrumado boa parte, como é possível? Eu só sentei!!
Logo escutei o chuveiro desligando, finalmente não aguentava mais ficar aqui nessa tensão esperando ele. Não me dou bem em ficar na casa dos outros sem a pessoa que eu fui visitar estar comigo… um pouco de paranoia, eu sei!
Porém algo me assustou, quando eu menos esperava Lucas apareceu na porta do quarto, porém ele estava apenas com a tolha tampando as partes de baixo. Senti meu rosto ficar quente na hora e provavelmente eu tinha ficado vermelho, não entendi o por que… afinal eu via o Guilherme quase sem roupa todos os dias praticamente e nunca senti o que senti naquele momento.
— Aí, meu deus! — Lucas falou assustado e paralisou.
— Desculpa, pensei que sabia que eu estava aqui… — Fechei os olhos, que atitude idiota.
Escutei apenas ele correndo do meu lado e logo depois escutei o mesmo movimento. Abri os olhos e vi que ele não estava mais ali, provavelmente pegou alguma roupa e voltou para o banheiro…
A imagem dele quase sem roupa na minha frente começou a rodar na minha cabeça, eu não conseguia parar de pensar naquilo até que percebi que algo crescia dentro das minhas roupas inferiores. Percebi na hora meus pensamentos e comecei a bloquear aquilo o mais rápido possível, por que estou pensando nessas coisas? Para com isso! Que merda! Eu sou homem!
— Me perdoa, não sabia que estava aqui…
Ele apareceu na porta, estava vestindo uma bermuda preta e uma blusa branca bem colada, suas pernas eram muito bonitas e estavam bem raspadas. Seus cabelos estavam todo molhados e seus olhos brilhavam muito.
— Tudo bem, relaxa! — Dou risada.
— Minha mãe nem pra avisar… — Ele sentou perto de mim.
— Acha, a culpa é minha por não avisar! Mas cara, vim aqui pra te fazer um convite.
— Um convite? — Ele sorriu para mim. — Qual?
— Então, tenho uma amiga do ensino médio e ela vai fazer uma festa, no sábado a noite, bom… ela me pediu pra convidar alguém de fora e pensei em você. O que acha?
— Não sei não… não conheço ninguém ainda praticamente.
— Vai cara, aceita! Vai ser bacana e divertido. E eu vou estar lá! — Disse soltando uma risada.
— Sábado? — Ele olhou para mim.
— Sim, no sábado a noite. No próximo ok?
— Hum… tudo bem! Mas vê se não me deixa lá sozinho pra ficar pegando as meninas.
— Relaxa, arrumo alguma pra você.
— Ah… Melhor não, só vou pra me divertir mesmo.
— Nossa, mas não vai querer beijar ninguém? É pra isso que serve festas!
— Não consigo beijar sem conhecer antes sabe…? — Ele mudou pra uma feição triste.
— A calma, desculpa! Relaxa, tudo no seu tempo né?
Nesse momento um silêncio horrível tomou conta do quarto, fiquei olhando pro chão como se aquilo fosse a maior atração do mundo. O silêncio só se quebrou quando ele levantou da cama e fui até sua estante.
— Já leu? — A capa era de um livro chamado Maze Runner.
— Nunca! É bom?
— É maravilhoso… quer emprestado? — Ele se aproximou e esticou o livro.
— Quero! Vou tentar ler de madrugada. — Peguei o livro e dei uma grande foleada.
— Tem mais três livros, quando terminar é só avisar que empresto os outros ok? — Ele bagunçou meu cabelo.
Foi nesse momento que algo estranho aconteceu, eu olhei pra ele e ele me olhou, ficamos nos encarando fixamente sem piscar, eu parecia estar em transe, hipnotizado pelos olhos dele, e tudo que eu pensava era em me aproximar mais dele…
O que? Esses pensamentos novamente, balancei a cabeça rapidamente.
— Vai para a escola hoje? — Levantei.
— Vou sim e você?
— Também…
— Vai comigo? — Ele olhou pra mim.
— Acho que sim…
Foi ai que o assunto novamente se perdeu, o silêncio tomou conta de todo o lugar e eu podia jurar que ouvia meu próprio coração batendo, ele mexia comigo, mexia de uma forma que eu não sei explicar e não sei agir sobre isso. Então eu novamente olhei para ele e meu mundo inteiro se perdeu.
O que está acontecendo comigo? O que são esses sentimentos?
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