O Garoto da Última Casa
7 Capítulo 6
Notas iniciais
CAPÍTULO 6 — PALAVRAS SÃO UM PROBLEMA
Cada passo que eu dava, acompanhada de William Hãnsel e de um silêncio mortal, eu me sentia — ainda mais — desconfortável.Só que em poucos minutos, chegou á um ponto que eu tinha que falar alguma coisa.Não conseguia mais me calar.
– Eu ia te pedir desculpa — falei o que me veio na cabeça, no entanto era verdade.
– Como? — ele não tinha entendido, o que era compreensível.
– Eu disse que ia te pedir desculpa hoje, na escola — enquanto dobrávamos em mais uma rua, eu já ia começando a ver casas e coisas conhecidas. — Só que você foi tão mal educado, que decide que não merecia meu pedido.
Ele deu um leve sorriso.
E, por mais assustador que possa parecer, eu queria que ele mantivesse aquele sorriso.
– Você me pegou em uma hora ruim.Acredite, não sou assim o tempo todo.
– Ás vezes, você dorme? — brinquei.
– É, ás vezes eu durmo.
Assim que acabamos de rir, percebi que já estávamos em nossa rua — só que no começo dela.
A verdade?A verdade é que julguei William Hãnsel.Eu inventei milhões de defeitos nele que, talvez, ele nem tivesse.Talvez ele fosse um William diferente.
– Posso te perguntar uma coisa? — eu disse
– Isso já é, tecnicamente, uma pergunta — observou — Mas estou de bom humor, então me pergunta outra, senhorita desastre.
Dei um leve sorriso quando o garoto de olhos azuis, do meu lado, mencionou o ''apelido'' que ele tinha me dado, mais cedo.
– Porque não tem nenhum amigo? — Eu sei, eu sei, sou a rainha das idiotas, mas acredite, eu precisava saber.
– Por que as pessoas não sabem o que é bom hoje em dia. — ironizou
– Não me parece que o problema seja as pessoas, senhor Hãnsel — comentei — Você, pelo que percebi e ouvi de outras pessoas, se mantém afastado, recluso — Sim, eu tinha observado o comportamento de William hoje.Na verdade, quase não tinha.Foram raras as vezes que ele apareceu em locais movimentados e nenhuma dessas vezes, tinha alguém com ele.Perguntei para Ashley sobre o assunto e ela me disse que ele não tinha amigos na escola, pelo menos.
– Ah, deixe me adivinhar — pediu — As pessoas que falaram isso para você foram seus novos amiguinhos.A Ashley, o Henry... — ele sabia que eu já tinha alguns amigos?A notícia naquela escola voava tanto assim?
Só quando ele parou de andar que percebi que já estávamos na frente da minha casa.
– Não precisei de muito para perceber que era verdade.Você se afasta...
– As pessoas se afastam.
– William você é engraçado, tenho certeza que inteligente,e também é bonito.Porque as pessoas se afastariam?
Me arrependi do que falei, assim que um sorrisinho malicioso nasceu em seus lábios.
– Acha que sou tudo isso mesmo?Em tão pouco tempo?
– William, esse não é o caso.
– Então, qual seria o caso, senhorita Miller?
– O jeito como você age.
– Meu jeito de agir?
– Como se ter amigos não fosse algo para você — era o que eu achava, ou seja, não tinha certeza de nada.No entanto, eu já estava falando, não é mesmo?Então já era. — Como se nada pudesse te atingir. — aumentei um pouco minha voz.
– Você nem me conhece.
– Conheço o suficiente — A verdade?Não, eu não o conheço o suficiente.
– Você só falou comigo uma vez, além dessa, é claro.
– Eu sei do que estou falando.
– Você não faz ideia do que está falando — ele também elevou a voz — Está mais perdida nesse seu mundinho perfeito do que imagina.Eles construíram uma barreira envolta de você,Alexis Miller.Só que para o seu azar, ela vai quebrar mais cedo ou mais tarde.Você não será mimadinha para sempre.
Aquilo me pegou de surpresa.Tudo bem que eu estava me intrometendo em um assunto que não me dizia respeito, todavia eu queria saber.Mas, agora, querer me atingir com palavras estúpidas e sem fundamento algum?Talvez seja por isso que as pessoas se afastam de William Hãnsel.Elas só querem se proteger de sua chuva de palavras idiotas.
– Qual seu problema? — perguntei depois de alguns segundos absorvendo todas aquelas palavras.
– Não sei, senhorita Miller — responde e eu aperto minha bolsa contra meu corpo — Mas o seu, talvez, seja a excessiva curiosidade sobre a vida dos outros.Quer um conselho?Cuide apenas da sua.
Ele sabia que eu era curiosa?Acho que isso era perceptível á qualquer pessoa, e em qualquer lugar.
– Você não sabe nada sobre mim. — informei
– Então, é só você que pode saber das coisas? — ele riu sem humor — Sei sobre você o suficiente. — Fiquei me perguntando se ele, realmente, sabia o suficiente sobre mim ou, como eu, apenas estava blefado.
– Eu estava enganada...
– E quando não está?
– Você não é julgado pelas pessoas de forma errada — ignorei seu último comentário — Você fala para ferir.Eu apenas estava perguntando...
– Coisas que não são, de forma alguma, da sua conta.
– Acho que já sei porque as pessoas se afastam de você, senhor Hãnsel. — me virei e fiquei de costas para ele — Tenha uma boa noite — ''Tenha uma boa noite'' foi o que disse por fora, o que eu queria dizer mesmo era ''Tenha muitos pesadelos, idiota''
Então caminhei a passos rápidos para minha casa.
Quando, finalmente, entrei, me senti aliviada.Colei minhas costas na porta.
As palavras de William ecoavam em minha cabeça, e o que eu mais queria era esquecê-las.Uma por uma.Era impressionante como as palavras ditas por ele, faziam um grande estrago em mim.Eu acreditava nelas.
Será mesmo que sempre vivi protegida do mundo?
E essa proteção iria acabar?Como?
Eu era mimadinha?
Ele tinha o poder de me fazer sorrir e, também me deixar com mais raiva do que qualquer um, entretanto acho que ele preferia a parte de me deixar com raiva.
– Já está aqui? — ouvi a voz de Olaf a minha frente.Forcei um sorriso, que possivelmente, saiu como uma careta.
– Achei o livro rápido — William tinha razão em uma coisa, eu mentia mal.Não era exatamente o que eu falava, era como eu falava.Só que Olaf caia, segundo meu ponto de vista, em minha teia de mentiras e eu torcia para que dessa vez não fosse diferente.
– E porque não me ligou?
– Encontrei um de meus amigos que conheci hoje, lembra? — ele concordou com a cabeça — E resolvemos voltar juntos, já que ele mora bem perto.
Senti ele hesitar e já estava começando a pensar em outra coisa apara lhe dizer, quando...
– Certo — E o ponto vai para... Alexis Miller — E o livro?
– Na minha bolsa — apontei para a mesma.
– Precisa de alguma coisa?
– Uma boa noite de sono — disse — Se não se importa, vou dormir.
– A vontade — ele riu e foi para a cozinha.Não sei o que tanto ele fazia nessa cozinha, já que nem sabia cozinhar, mas deixaria para perguntar amanhã.
Corri até meu quarto, tranquei a porta, fechei as cortinas e , finalmente, peguei o livro da minha bolsa.
Sentei em minha cama colocando o livro em minha frente e, por breves segundos, admirei aquela capa de couro com letras douradas em relevo e em destaque.
Assim que o abri, tive uma surpresa.
– Que droga é essa? — murmurei
O livro estava em branco.
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