Como posso começar...

Bem, meu nome é Clara de Oliveira, não me pergunte por que do meu nome, nem eu sei entender o motivo, só se o motivo do nome for por ser clara de pele, por que meu cabelo é quase um preto e meus olhos são castanhos, e nunca vou entender o porquê do oliveira, não temos arvores de oliva na nossa casa, nem meus pais trabalham com isso, mas se eu for ter que entender a cabeça dos meus pais, eu acho que o texto irá ficar enorme e desviará do assunto a que vim escrever.

Não é sempre e nem todo o garoto que você vê na sua frente, te chama atenção por mais bonito que seja, nem tudo nessa vida precisa ter lógica não é mesmo?

Enfim, estava eu com os meus 13 para 14 anos, com meu All star preto surrado de tanto usar, os meus cachos num rabo de cavalo alto, lembro até hoje os meus dentes batendo de tanto frio, vestia o meu agasalho, estava saindo de casa para pegar a rua principal para ir à escola e ele estava lá, descendo suas escadas, e não sei por que eu associei a pessoa a casa, por que sua casa era diferente do bairro, a casa era muito grande tinha uns três andares e parecia ficar em cima da garagem e por coincidência a casa era tão verde como os seus olhos, eram olhos tão claros que contrastavam com seus cabelos loiros e compridos, era engraçado como ele tinha aquela franja que tampava quase todo o olho e quando ele jogava de lado, os seus olhos e seu sorriso branco se destacavam.

Ele tinha três irmãos mais novos era o que parecia, parecia ser aquela família loira dos olhos claros mas o seu jeito de andar os seus tensos olhos eram os que conseguiam chamar mais a minha atenção dos outros, seus pais viviam brigando as vezes, mas como eu era muito nova eu não entendia direito o que estava acontecendo, só as vezes olhava seu jeito triste quando essas coisas aconteciam e a vontade de consolar era maior do que tentar entender o que acontecia.

Eu nunca tive a coragem de ir falar com ele, só éramos vizinhos de ruas, às vezes o observava sorrindo para mim, mas assim que percebia desviava os olhos e seguia a rua até ir para a escola.

Ele aparentava ser um pouco mais velho que eu, deveria ter seus 14 anos no máximo, não sabia o que ele fazia da vida ou onde ele estudava, eu simplesmente o observava, sempre me chamando atenção em seus traços, se eu fosse desenhista seria um prazer o desenhar todos os dias em alguma folha só para deixar registrado.

Eu nunca fui uma garota de muitos amigos, era aquela garota com o seu pequeno diário no canto da sala, observando o professor.

Logo que acabava de escrever sobre o que via, ou alguma história que ficava na minha cabeça eu tentava aos poucos num pequeno espaço de folha desenhar alguma coisa, meus desenhos nunca foram bons, mas conseguiam expressar o que estava querendo passar.

Quando passava em frente a sua casa estava seus irmãos menores, o médio devia ter seus 8 anos e tinha um pequeno que deveria ter seus 3 anos de idade, eu sempre desenhava no meu pequeno espaço de tempo quando não estavam olhando para mim, os detalhes do brinquedo, os seus fios lisos e loiros.

Não sei explicar como funciona a cabeça de uma criança ou o porquê ela faz o que faz, mas eu começava a olhar todas as manhãs aquele garoto que de uma forma ou de outra me chamava atenção, então em cada livro que lia ou cada filme ou desenho que assistia eu tentava na imaginação encaixá-lo de alguma forma.

Aquela semana, a professora de português tinha dado para agente ler como lição de casa a Bela e a Fera em livro sem figuras, que por sinal eu amei.

Então na minha imaginação eu comecei a mudar os personagens, tentava descrever as mudanças e desenhava, de alguma forma eu colocava suas características na história.

Os olhos verdes e misteriosos da fera, o sorriso da Bela, os cabelos loiros como por do sol.

Quando de repente, estava eu com o vestido verde escuro, enorme de época com os cabelos em transas, claro que na minha imaginação eu já era adulta, e eu o imaginava alto, bonito, musculoso, os cabelos grandes como os de época, em um rabo, com vestimentas elegantes correndo atrás de mm, entrando em um labirinto, nós dois riamos, conversávamos como se fossemos velhos amigos.

Eu estava literalmente dormindo acordada, na mesa quando o professor me chamou atenção para um exercício quando me dei conta, que não estava nas minhas imaginações, mas naquela sala de aula.

Como uma imaginação infantil pode nos mudar e nos transportar para outra dimensão. Faz-nos "dormir" nas aulas, fazer uma espécie de livro com o nosso diário.

No aula seguinte tinha uma garota com os cabelos rosa, nas pontas que era engraçadinho, nunca tive a vontade de mudar a cor dos meus cabelos, gostava da cor que ele tinha, mas mesmo assim, eu tentei imitar no meu desenho rabuscado seus cabelos de costas, tentava com os poucos lápis de cor que tinha, desenhar onde acabava a cor normal dos cabelos, e onde começava o rosa e as pequenas partes que estava começando a desbotar.

Quando eu estava voltando uma tarde para casa a pé, sozinha com minha mochila nas costas eu acabei passando pela sua casa.

E naquele dia ele estava na sua garagem com uns cinco amigos de escola, com certeza fazendo "trabalho de escola", estavam jogando um pouco de bola com musica, estavam quase todos sem camisa, menos ele, usava um boné muito engraçado vermelho com uma espécie de monstrinho no meio e a
sua camisa branca colava em alguns pontos de suor. Não sei o porquê mais cismei em ficar olhando, e um dos seus amigos moreno, tinha os olhos um pouco puxados e da cor mel não era feio, mas ele começou a me olhar também, achando que estava olhando para ele. Assim, que me percebi acelerei o passo e fui para casa, muito envergonhada, imaginando que naquela altura do dia todos os meus "segredos" tivessem sido revelados.

No meio da noite daquele dia, não sei por que mas me peguei pitando um os olhos de mel do seu amigo, desenhava mal longe de algum artista profissional, mas eu me interessava nos pequenos detalhes que ninguém dava atenção.

Durante umas boas semanas eu tentava cortar caminho para ir à escola, apesar de até pegar ruas até longas, não queria encará-lo novamente.