Notas iniciais
Queria dizer, que estou ferrada. Quando eu consigo achar uma solução para tentar resolver o problema com meu notebook, eu coloco vírus no da minha mãe, tentando baixar Orgulho e Preconceito. Então, espero que gostem.

CAPÍTULO 36 — CHEGOU A NOSSA HORA OU É IMPRESSÃO MINHA?

Dormir foi algo impossível.

Minha cabeça estava cheia de pensamentos sobre Olaf, William, Miranda presa com Sophie e minha vida como um todo.

Eu era a garota que queria ser psiquiatra quando criança e agora eu é que me achava louca.
William estava estranho, Olaf tinha que trabalhar e agora eu seria liberada do hospital. E por mais que eu quisesse que aquilo acontecesse logo, não me sentia satisfeita completamente.

– Senhorita Miller — o meu médico e também espião, disse minutos atrás — Sua saúde melhorou de uma forma inacreditável. Você esta em condições de ir para casa.

Eu sorria, enquanto ele saia do quarto.

Olaf me buscaria em minutos e eu ainda não sabia se estava feliz com isso ou preocupada. Minha vida voltaria com força total e algo em mim não acreditava que eu fosse forte o suficiente para aguentá-la. Só que parte de mim também acreditava. E eu tentava me segurar nessa parte. Era isso agora, Alexis Miller estava divida em várias partes sobre várias coisas.

–Alexis? — Olaf deu três batidinhas na porta, já aberta, e entrou. Eu havia mentido para William, eu não acreditava totalmente em Olaf, mas ainda sim, acreditava. Aquele sorriso, aquele doce sorriso que ele sempre mantinha nos lábios, não poderia ser mentira, eu não queria que fosse tampouco.

–Já está pronta para voltar a sua rotina?

–Minha rotina não é muito legal, mas acho que estou — disse, jogando minha bolsa com alguns de meus pertences, no ombro. Por fim, agarrei meu quadro, o quadro que antes havia sido da minha avó, e segui Olaf pelos corredores.

–Jade estava limpando a casa, desde que soube que você voltaria — ele me disse, com as mãos nos bolsos da calça social.

–Jade é sempre assim? — eu perguntei e ele me encarou confuso — Ela mal me conhece e é tão receptiva. É meio estranho até.

–Sim, ela sempre foi assim e sim, isso é a coisa mais estranha que eu já vi em uma pessoa.

Olhando melhor para Olaf, pude perceber que ele estava mais relaxado. Sua postura estava confiante, decisiva e ele usava roupas muito formais.

–Onde vai assim? — perguntei — Parece que vai ou para um casamento ou um enterro.

–Não é a mesma coisa? — ele dobrou em um corredor a direita e nós rimos — Vou falar com o prefeito. Ele insiste em dizer que estamos atrapalhando algumas de suas obras para a cidade. Eu e Jade estamos tentando resolver isso com calma, mas aquele homem come tofu e tem um cachorro chamado Rico.

–E o que isso tem a ver?

–Homens assim são loucos. Junta essa loucura com a da Jade e você terá uma bela discussão.

–Boa sorte para você — disse.

–Me acostumei vivendo com a Jade — deu de ombros — Ah, falando nisso — seu sorriso ficou tão largo que achei que estava rasgando seus lábios. Droga, o que houve dessa vez?

–O quê?

–Ontem eu estava muito feliz pela notícia de sua saída e tal — ele começou a contar — Fiz um jantar bacana e conversei de um jeito bem menos idiota, como sempre fazia, com a Jade.

–E?

–E meio que eu pedi ela em namoro.

–E?

–E meio que ela aceitou.

–E?

–E meio que estamos namorando.

Eu ri com satisfação.

–Parabéns, cara — eu disse — Achei que eu teria que pedir ela em namoro por você.

–Sabe que eu pensei nisso uma vez, mas achei que Jade não ia gostar.

–Cala a boca — eu empurrei seus ombros e ele quase nem se moveu.

Quando passamos pela recepção do meu andar, Olaf segurou minha bolsa, enquanto eu fui falar com a recepcionista loira azeda, que atendia ali.

–Sou Alexandra Miller — eu disse a ela. Quando olhei em seu crachá, com uma foto que ela tirou tão cheia de maquiagem, percebi que seu nome era Barbara. — E eu vim aqui informar que já estou saindo com meu tio.

Ela deu uma olhadinha em Olaf por cima de meus ombros e focou seu olhar em mim. Parecia quase entediada.

–Eu percebi — disse com uma voz enjoada — Parabéns pelo casamento.

–Casamento? — perguntei, confusa. Quê?

–Se esqueceu de seu casamento? — ela me lançou um olhar cheio de provocação e eu nem sequer entendi.

–Que casamento? Eu tenho 16 anos, calma ai.

–Alexis! — Olaf me chamou e eu me virei em sua direção — Preciso ir, pode se apressar, por favor?

–Certo — disse a ele e me virei para a mulher — Diga ao Sr White...

–Ele se demitiu hoje — ela informou — Disse que o salário era péssimo ou algo assim.

Salário péssimo? Se demitiu?

Ah, não, querida. Ele era um espião e sua vítima acabou de se distanciar, isso sim.

–Certo — apenas disse e me afastei.

Olaf me levou até seu carro e depois andamos no veículo pela cidade para nossa casa. Quando passamos pela rua onde eu tinha perdido o Sr White, ou qualquer que seja o nome dele, de vista, lembranças horríveis apareceram em minha cabeça. As vozes, os pedidos, a escuridão.

Graças a Deus, a senhorita La Canters apareceu na rua e me convenceu a ir para sua casa. A sua casa era muito bem arrumada e organizada, parecia que ninguém morava ali de tão arrumada. Tudo em seu devido lugar, tudo em ordem.

Conversamos banalidades e coisas assim e fiquei agradecida por ela parar de perguntar sobre o porquê de eu estar ali e não no hospital. Ficaria mais fácil encará-la amanhã, na escola.

–Chegamos — Olaf disse parando em frente a uma casa totalmente familiar para mim — Agora, eu tenho que ir, porque a Jade já deve estar acabando com a raça daquele prefeitinho idiota. Até mais, Alexis.

–Até mais, Tio — eu disse saindo do carro. Antes que ele pudesse arrancar com o veículo novamente, eu gritei — Mande um beijo para sua namorada por mim!

Não consegui ver seu sorriso, mas sabia que ele estava lá.

...

Ficar jogada no sofá, sem nada para fazer, e até mais chato do que enfrentar um monte de Bruxas que querem matar você.

Os canais eram tediosos e meu cabelo estava começando a enrolar de tanto que eu ficava mexendo com o dedo. Certo, aquilo era uma droga.

Peguei meu celular e desisti de ligar para qualquer pessoa que pudesse querer ouvir minhas lamentações. Ninguém queria, na verdade, todo mundo tinha as suas. Seria até injusto jogar mais naquelas pobres pessoas.

Depois de comer tudo o que podia na cozinha, de tomar uma banho demorado e me jogar mais uma vez no sofá, percebi como eu talvez queria ver William.

Não por um motivo motivo meu, não, nada disso.

Eu só queria saber sobre seu modo estranho no outro dia. Apenas isso.

Meu celular me despertou de devaneios como aquele e eu o peguei. Parte de mim queria que fosse William e eu me xingei por isso. Que droga!

Para a minha sorte, era Henry.

–Hey — eu disse a ele — Como está?

–Oi, Alexis — sua voz vacilou e eu me perguntei porquê. Ele parecia querer soar feliz, só que parecia mais nervoso — Temos novidades.

–Que bom, eu não tenho nenhuma. Quais são as suas?

–Miranda e Sophie foram libertadas em uma rua perto da floresta — ele repondeu e eu me sentei imediatamente no sofá, aliviada. A felicidade me cegou por alguns segundos, mas quando ela passou, eu percebi o quão estranho era aquilo — Nós já pegamos elas e todos estão aqui.

–Isso é ótimo — disse — Mas por que elas foram libertadas?

–Elas tem um aviso das Bruxas.

–Qual é?

–Elas estão vindo. Elas querem que a cidade seja destruida.

–Mas eu achei que elas queriam o fim dos Hãnsel.

–Ao que tudo indica, ainda querem, mas querem controlar a cidade, o que seria destruição total. Não sei como esperam fazer isso, mas sabem que não deixaremos. Elas esperam nos enfrentar.

–A Horda sabe disso?

–A Horda? — ele riu sem humor — Aquela... Horda, a quem os Bruxos devem respeito e gratidão, a quem nos chamamos de pais, nos abandonaram hoje pela manhã.

–O quê? Eles não fizeram...

–Eles apenas falaram em um bilhete que tudo que eles poderia fazer pelo William, fizerem, e por ele ser do jeito que é, não podem se arriscar mais. O problema é que essa droga de guerra não envolve apenas o Hãnsel, mas a cidade que eles juraram proteger.

–Da última vez que a uma Horda fugiu da cidade, a Maldição foi lançada.

–E agora, a cidade pode ter um novo centro de poder. — ele suspirou — Precisamos de você aqui e agora. Temos certeza que você é a Híbrida.

–Como vocês sabem?

–As Bruxas lançaram um feitiço em Sophie para tanto nos como a Horda acharem que ela era uma possível canditava a salvar a cidade. Ela nem é irmã de Patrick, é apenas uma orfã. Se lembra quando andou rapidamente, quase como uma louca, atrás dela, procurando a garota pela casa? Se lembra quando soube o nome dela sem nunca ter a visto?

As memórias estavam frescas em minha cabeça. Eu corria pela casa sabendo que precisava encontrar alguém, mas não sabia quem. Comentei isso com Henry uma vez, mas ele também achou estranho.

–Sim — confirmei.

–Quando Patrick morreu, ele lançou antes, um feitiço em você.

–Em mim?

–Ele queria ter certeza que você acharia Sophie. Aquilo que você sentiu foi o feitiço.

–Então, isso era um plano?

–Sim e nós caimos. — ele parou por alguns segundos — Sophie também estava enfeitiçada e nós achamos que ela pode não apresentar perigo. Estamos também de olho, de qualquer jeito.

–Nossa, quanta coisa aconteceu.

–Ainda tem mais — ele acrescentou — Percebeu que o Felipe anda muito sumido?

Sim, era verdade. Eu o tinha visto poucas vezes e de uns tempos para cá, ele havia desaparecido completamente e eu havia o esquecido completamamente.

–Onde ele está?

–Com as Bruxas — Henry parecia querer se controlar e eu senti tanto ódio como ele provavelmente sentia — Ele foi quem sequestrou Miranda e Sophie. William quer matá-lo de totas as formas possíveis. Enforcamento, afogamento, esfaqueamento, tudo que ele consegue pensar.

–Por que ele foi para o lado delas?

–Porque ele quer poder, é claro. A família dele sempre foi desse jeito. Ele esteve colhendo bastante informações nossas em sua breve estadia, o suficiente para deixar as Bruxas confiantes sobre nossa derrota e em vantagem.

–Ah, então foi por isso que ele deu em cima de mim. Ele queria conseguir informações por eu ser a Híbrida.

–Ele deu em cima de você?

–Quem deu em cima de quem, vermelhinho? — escutei William falar ao fundo e eu congelei. — Dá para falar, por favor? Quero um pouco de emoção na minha vida, já que ela está prestes a acabar por causa da droga de um espião — depois aumentou a voz — Eu vou empurrar aquele Felipe de um prédio, ah, se vou!

–William, fica quieto — Henry mandou e se focou em nossa conversa — Tudo bem, tudo bem, precisamos que você venha para cá urgentemente.

–Certo, estou indo.

–Ei, ei — ele chamou, antes que eu desligasse o celular — Jessica está indo te buscar.

–Estou? — ela falou ao fundo, assim como William havia feito.

–Está? — falei.

–Sim, ela está — ele cofirmou para nós duas — Precisamos de você, Alexis. Eu preciso de você.

–E eu preciso de um balde, porque com essa vou vomitar — William gritou para Henry.

Henry suspirou contra o aparelho.

–Vem antes que eu mate ele, por favor — Henry me disse e desligou.

Sem esperar mais um segundo, eu corri para meu quarto e fui me arrumar. Escolhi qualquer roupa e a vesti em minutos. Prendi meu cabelo em um rabo-de-cavalo e corri atrás dos meus tênis. Eu quando eu calçava um lado, alguém buzinou em frente a casa. Pulando para fora de casa, eu coloquei o outro lado.

Quando entrei no carro, Jessica me avaliou rapidamente.

–O quê? — perguntei.

–Até que escolheu um roupa aceitável, considerando o tempo que dei para você se arrumar.

–Obrigada?

–De nada, então.

Enquanto, ela dobrava em algumas esquinas e pegava alguns atalhos para a biblioteca, eu procurei as melhores palavras para começar a entrar no assunto que queria conversar.

–Você tem um celular? — perguntei, nada sútil. Alexis, você merece um soco.

–Por quê? Quer me dar um? — ela me deu um olhadinha e depois se focou na rua em sua frente — É claro que tenho.

–O que você estava fazendo com o William no dia que atendeu o celular dele? — fui tão direta que até me assustei, então resolvi acrescentar — Não que seja da minha conta. Só curiosidade.

–Ah, claro — eu sabia que ela não tinha acreditado, mas nem me importei — Estavámos assistindo um filme no quarto dele. Eu estava perto e atendi quando ele pediu.

–Ele pediu?

–Sim — ela confirmou — Ele deu uma olhada no visor e me passou.

–Está me dizendo que quando ele viu que era eu, pediu para você atender?

–Não sei — ela respondeu — Pergunte a ele.

–Não — falei imadiatamente, enquanto olhava para a janela.

–Tudo bem, tudo bem — ela riu contra o volante, quando paramos em um sinal meio quebrado, bem perto da biblioteca. — Preciso contar isso para uma menina que não seja a Ashley. Ela é muito sem graça.

–O que é?

–William e eu nos beijamos — ela deu risinhos e gritinhos e eu quase nem acreditei que era mesmo Jessica ali.

–Vocês o quê? — perguntei alarmada — Quando?

–Ontem — ela respondeu, ainda sorrindo.

Mas isso era impossível, certo? William me beijou ontem, ele não poderia ser tão babaca assim.

–Tem certeza? — eu disse e ela me olhou confusa.

–Acho que sei quando alguém me beija, sabe — ela retrucou e cerrou seus olhos em minha direção — Brad, ultimamente, vem fazendo umas brincadeiras sobre você e William. Como são um casal fofo e coisas assim. São só brincadeiras, não?

Eu congelei.

São só brincadeiras?

Sim, devem ser.

Se William beijou Jessica, então sim, são apenas brincadeiras.

–É claro — confirmei. O sinal abriu e ela acelerou o carro.

Nada mais foi dito até a biblioteca e quase suspirei aliviada.

Sempre soube que William era um idiota, mas será que tanto? Pelo visto, sim.

Mesmo que boa parte de mim acreditasse em Jessica, a outra ainda se mantia firme dizendo que William não seria capaz.

Quando paramos em frente a biblioteca, Jessica e eu nos apressamos por todo o caminho. Demorou apenas alguns segundos até finalmente adentrarmos a sala de jantar, onde todos estavam reunidos.

Enquanto eu absorvia cada detalhe do comôdo, desde os candelabros nas mesas até as cadeiras muito bem talhadas, meu olhar se cruzou, involuntariamente, com o de William. Seus olhos azuis pareciam dizer ''Hey, que bom que chegou'', mas sua postura queria gritar ''Que droga, Miller! Estou aqui a um tempão, você demorou''. Eu gostava do olhar de William. Era como seu pudesse ter a chance de conhecê-lo melhor, a chance de saber quem ele realmente é. Desviei o olhar rapidamente e o foquei em Henry, que sorria para mim. Eu sorri de volta.

William não era o que eu acreditava que ele fosse, porque eu não o conhecia.

Todos estavam ali, fazendo parte daquela cena constrangedora, menos Sophie e Miranda, que deveriam estar descansando.

–Ashley — disse para garota que se sentava ereta na cabeceira, me avaliando — Estou aqui e quero ajudar.

–Gabriel — ela chamou. O garoto de cabelos loiros a olhou, obediente. Ela era uma boa líder, eu tinha certeza — Diga no que você pensou.

–Alexis, você precisa começar a tentar ler o Livro imediatamente. Achamos que podemos virar o jogo com isso — ele falou — Há coisas magníficas naquele Livro que só você ler. William nos falou que você pode falar com a Horda dos Sete. É verdade?

Eu me calei por alguns segundos. Eu nunca disse que William não deveria revelar meus sonhos para outras pessoas, certo? Então, por que eu me sentia traída?

–Sim, é verdade — respondi.

–Precisamos também da ajuda deles — ele falou, enquanto anotava algo em um papel em sua frente. Ajeitando os óculos, ele continuou — Precisamos da carta que sua avó mencionou, Alexis. Você pode procurar? Seria de grande ajuda.

–Vou procurar sim, Gabriel.

–Muito bem, então, — Ashley se levantou de sua cadeira e veio em minha direção — Estamos reunidos á horas aqui. Pegarei o Livro e vocês terão alguns minutos para um descanso rápido. Mas é rápido — ela parou ao meu lado e os encarou — Não temos tempo a perder — então ela segurou em meus ombros e se virou para mim — Sente-se, por favor.

Foi o que fiz.

Com calma me sentei ao lado de Henry, enquanto William me observava. O bom era que ele e Jessica estavam tão longe de mim, que eu poderia apenas ignora-los.

–Ashley está tão séria — comentei com Henry, que apenas acenou concordando — Quer dizer, sei que ela é assim, mas sei lá, parece que hoje está muito mais.

–Ela é a que está mais sofrendo pela fuga da Horda — ele contou — Ela achava que os pais poderiam salvar essa cidade. Acho que todos nós, na verdade.

–Henry — Brad chamou, recebendo a atenção do garoto ao meu lado — Você não ia pegar água? Pode ir, por favor, estou com sede.

Henry revirou os olhos e murmurou um ''Isso que dá ser gentil'', saindo logo em seguida para pegar água.

–Quer bolinhos, William? — ouvi Jessica falar, mas me mantive focada em observar Gabriel, que estava em minha frente, escrevendo e escrevendo. Não ouvi a resposta de William, mas quando Jessica praticamente saiu pulando de felicidade da sala, percebi que era positiva.

–O que está fazendo? — perguntei, depois de alguns segundos, para Gabriel. Ele levantou seu olhar em minha direção e me encarou por cima dos óculos.

–Anagramas — respondeu — Eu gosto de descobrir palavras que estejam escondidas.

–Minha mãe sempre fazia isso — falei a ele e ganhei sua atenção — Vinha em uma coluna no jornal. Ela me dizia que era o melhor jeito de passar o tempo.

–Você fazia?

–Até tentei uma vez — disse, rindo — Mas eu meio que excluia letras para formar a palavra que eu queria, ou seja, eu perdia.

–Sei como é — ele disse e continuou fazendo os anagramas.

–Ah, então, quer dizer que você fazia anagramas? — não precisei olhar para a cadeira ao meu lado, onde outrora Henry estava sentado, para saber quem havia falado isso.

–Na verdade, William, era a minha mãe — eu não o encarei e acho que ele entendeu minha reação. Puxou a cadeira para mais perto da mesa, desconfotável.

–Como foi a saída do hospital?

– Legal — disse sem ânimo.

–Posso imaginar — retrucou. -O Sr White se despediu?

–Não, se demitiu logo depois de dizer que eu poderia ser liberada.

–Imaginei isso.

–Você é sempre tão esperto, não é? — disse deixando minha fúria aparecer, um pouco, mas logo me foquei em Gabriel mais uma vez. Me foquei em seus cabelos loiros e em seu olhar atento ao papel.

–O que foi, Miller? — William me perguntou — Está assim por causa do que eu fiz depois do beijo? Olha, eu tive que sair...

–Me poupe de suas desculpas ensaiadas — eu lhe lancei um olhar de desdém puro e ele apenas levantou uma de suas sobrancelhas. Cara, ele deveria ser proíbido de fazer algo como aquilo — Eu não quero ouvir.

–Não é uma desculpa ensaiada, por que seria?

–Porque é assim que você é — disse para que só ele ouvisse — Eu não sei direito quem é você, William, e acho que é assim. Totalmente ensaiado.

– O que está dizendo?

–No mesmo dia em que me beijou, você também beijou a Jessica — sua postura não mudou, mas seu maxilar enrijeceu — Ou é mentira?

A parte que ainda acreditava nele estava em uma guilhotina, esperando o veredito. A lâmina baixaria e cortaria sua cabeça para fora ou ela sobreviveria? Tudo dependia de William.

–Não, não é mentira — ele confirmou.

A lâmina, em meu peito, desceu e cortou a cabeça da única parte de mim que queria acreditar em William Hãnsel, queria acreditar que ele gostava um pouco de mim. Mas, pelo visto, ela agora jazia no chão, morta, assim como minhas esperanças.

–Foi o que pensei — murmurei.

–Miller.... — ele tentou falar mais alguma coisa, mas foi interrompido por Henry, que nem tinha notado entrar.

–William, esse lugar é meu — ele falou, com uma bandeja em mãos, cheia de copos de água.

–Ah, não vi seu nome — ele falou, porém se levantou no mesmo instante — Mas sou um cara legal, pode se sentar, vermelhinho.

Henry não pode rebater, porque Ashley entrou na sala com o Livro em mão, então ele apenas se sentou, colocando a bandeja na mesa. A loira que de vez enquanto me fazia querer chorar por ser tão linda de um jeito que eu jamais conseguiria sonhar em ser, colocou o Livro em minha frente, me lançando um olhar firme.

–Está pronta? — ela perguntou.

Não, eu não estava.

Todos os olhares se voltaram para mim e eu percebi que se falasse algo assim seria tudo o que ninguém precisava ouvir naquela hora.

–Sim, estou — disse.

–Ótimo — ela falou — Começaremos então agora, a primeira parte de nosso plano surpresa para salvar essa cidade. Eu conto com você, Alexis, nós contamos, na verdade, e a cidade inteira conta também. Por isso, não nos decepcione, por favor.

Parte de mim queria gritar a ela que eu iria decepcionar, porque era tudo que eu sabia fazer, mas uma outra parte de mim, puxada por algo que eu não sabia dizer o que era — esperança? fé? força? — acreditava que eu poderia sair vitoriosa dessa.

Eu resolvi acreditar nessa parte e abri o Livro em minha frente, focada, esperando apenas fazer o que fui destinada a fazer.

Salvar uma cidade da destruição.