Notas iniciais
Olá! Esse é o primeiro texto que escrevo por lazer em um bom tempo, e a primeira narrativa em muuito tempo, então aceito qualquer tipo de crítica construtiva para melhorar os capítulos seguintes! Tentarei postar um novo capítulo toda semana, mas a faculdade e o trabalho provavelmente vão me fazer furar esse compromisso às vezes, então já peço desculpas de antemão KKKKK Espero que gostem e boa leitura!

Acordo assustado após sentir meu cotovelo escorregar para fora do tampão da carteira. Sem dúvida estou muito feliz por estar finalmente vendo algum tipo de retorno financeiro na venda de minhas roupas, mas o grande número de pedidos e as obrigações da faculdade tomam quase que todo tempo que tenho no dia, inclusive nos fins de semana, o que me deixa extremamente cansado em praticamente todos os momentos. De qualquer forma, sequer cogito em abandonar uma dessas atividades, uma vez que qualquer coisa seria melhor do que voltar pra casa de minha família.

Aquele ninho de cobras sempre me manipulou e influenciou a fazer tudo o que eles queriam. Há um ano eu tinha a certeza absoluta de que esse ano estaria cursando uma faculdade de Medicina, bancado por eles e por sua rede de supermercados nojenta. Mal sabia eu que estaria aqui, bebendo café para não desmaiar de sono em uma aula de Psicologia depois de trabalhar a noite toda por ter fugido de casa e não ter nenhum tipo de dinheiro de terceiros para me sustentar.

Apesar de tudo isso, nunca me arrependi do que fiz. Hoje posso dizer que sou eu mesmo, e acho que é a maior conquista de minha vida até agora, e sinto que essa foi a porta de entrada para me tornar a pessoa que sempre quis ser.

A UFRIO é, sem dúvida, o lugar onde eu nasci para estar. Toda a estrutura do campus, as oportunidades, além dos colegas de curso são sem dúvida o primeiro lugar na vida onde me atrevo a chamar de casa, convivendo com o primeiro grupo de pessoas que me atrevo a chamar de família. A sala onde assistimos grande parte das aulas é um grande quadrado verde-água, com as carteiras enfileiradas ao fundo da sala, enquanto na frente há um enorme quadro branco e a mesa dos professores, o formato padrão que, na verdade, não precisava de qualquer tipo de detalhamento, mas que é sem dúvida o lugar mais especial da minha vida hoje, não por sua estrutura, mas pelas pessoas que vivem em conjunto comigo nele. Ali sou amado como nunca fui e amo como jamais imaginei ser capaz. No entanto, digo “amor” no sentido no que é descrito para mim, e não o que eu de fato acredito, uma vez que eu ainda não sei ao certo. Sinto que aquela sala é o único lugar onde me sinto e sou eu mesmo, e todos os componentes desse grupo estão me ajudando a, pouco a pouco, levar esse eu para o mundo.

O professor Billy (sim, ele é aqui do Rio e não, não faço ideia do por que seu nome é assim), um homem de uns 60 anos, grisalho e barrigudo, vai até a mesa do professor e começa a fazer a chamada. Enquanto ele fala os nomes das pessoas, só consigo prestar atenção em suas roupas: Billy usa camisa branca surrada com estampa de listras horizontais e os três primeiros botões abertos, revelando um peito extremamente peludo. Para piorar o conjunto, ele traja uma calça verde-musgo risca de giz com uma alpargata preta que mais parece um pedaço de couro torcido.

— Miguel Alvarez! – grita o professor enquanto aperta os olhos para enxergar as letras na tela do computador.

— Aqui, Billy! – respondo, rapidamente começando a guardar meus materiais para ir embora. Os pedidos não param de aumentar e preciso com urgência adiantar alguns deles. Pego minha pasta de ombro preta e começo a colocar meus materiais dentro da mesma. Puxo meu telefone de um bolso externo da pasta e conecto meus fones de ouvido ao mesmo, e fico selecionando uma das minhas playlists para ouvir no caminho para casa. Sempre levei a música como extremamente importante na minha vida, e sinto que ela tem o poder de nos fazer sentir tudo o que tentamos esconder de nós mesmos. Escolho então minha playlist de músicas para dançar, uma vez que preciso encontrar algum resquício de ânimo dentro de mim no meio de tanta exaustão para enfrentar esse fim de semana que, com certeza, não será nem um pouco fácil.

No entanto, antes de colocar meus fones de ouvido, ouço Billy anunciar um nome que eu nunca havia ouvido antes:

— Pedro Alves! – berra o professor, cuspindo uma enorme quantidade de baba na tela do computador.

— Presente, senhor – responde um garoto com aparência tímida no fundo da sala. Como eu não percebi a presença dele durante todo esse tempo? Não é possível, ele com certeza não estava aqui antes. Talvez seja um aluno daqueles que nunca vem nas aulas... Não, nunca ao menos ouvi o nome desse garoto. Ou talvez seja resultado de uma transferência, daquelas em que se faz uma prova para trocar de faculdade ou até mesmo de curso.

Pedro era um garoto um pouco mais alto que eu, por volta de 1.80m de altura, com um cabelo loiro sedoso e brilhante, digno de embalagem da Cor&Tom, além de olhos verdes que transparecem uma certa timidez, assim como sua voz, suave e meiga, porém receosa. Veste uma camiseta branca lisa e uma calça jeans bem larga, com um All Stars preto bastante surrado. Sinto algo estranho ao olhar para ele. Uma espécie de arrepio, apesar de suave e aquecedor, sobe das minhas pernas até o topo da minha cabeça, fazendo com que todos os músculos de meu corpo relaxem.

Deve ser tesão, ele realmente é muito gato.

Coloco meus fones, coloco meu telefone novamente no bolso da pasta, coloco-a no ombro e sigo ouvindo Nave Espacial, do Liu com Samantha Machado. A voz dela realmente me leva para outro mundo, como se nada no mundo fosse pesado e toda a bagagem que hoje castiga minhas costas fosse agora o enfeite da maior festa que poderia ser feita. Saio da sala, vivendo cada batida e me sentindo em cada palavra da música. Sigo em rumo ao Xerox da UFRIO que, apesar de dentro da faculdade, levo por volta de uns quinze minutos para chegar até lá, e tudo fica mais demorado quando estou ouvindo música.

Sigo caminhando pelo campus, observando o verde e o concreto a meu redor. Os prédios de cores variadas, a grande quantidade de áreas com arbustos, flores, gramas e a calçada feita de tijolos contribuíam para tornar o ambiente extremamente confortante e convidativo. Apesar de toda pressão carregada pelo ambiente universitário, aqui é um ótimo lugar para se estar. Chego à barraca do xerox, entrego o pen drive que contém todos os trabalhos que preciso entregar na próxima semana para Fátima, a famosa “tiazinha do xerox”. Pego meu celular e abro o WhatsApp; percebo então que um novo contato foi adicionado ao grupo da sala. Clico para acessar suas informações pessoais, pensando de antemão em qual iria ser a primeira mensagem que enviaria para Pedro, até que as informações carregam e revelam uma foto da senhora Dolores, a professora de Psicologia da Aprendizagem, trajando um chapéu de palha gigantesco e um maiô laranja estampado com girassóis amarelos.

Estranhamente frustrado, recebo os papéis da tia do xerox, os guardo em minha pasta e volto a caminhar em direção ao portão principal da UFRIO. Coloco meus fones, e, dessa vez, decido deixar o aleatório decidir as músicas que ouvirei. Assim que pressiono o play, começo a ouvir os estalos de dedo do início de i’m so tired..., do Lauv, meu artista favorito. Presto atenção na letra da música e percebo como, para mim, não faz o menor sentido. Acho que estou disposto a encontrar, a ouvir, a ser o amor, porém estou quase certo de que não é o que busco no momento. A música acaba e começo a escutar o sintetizador de Sissy That Walk, da drag queen RuPaul. Decido então parar de pensar sobre isso e aproveitar a energia que aquela música me traz.

Continuo caminhando, balançando meu corpo conforme as batidas da música, e me sentindo em uma passarela de moda enquanto caminho pelo caminho e vejo o portão surgir no horizonte a algumas centenas de metros de distância. Sinto o vento bater em meu rosto e meus cabelos esvoaçando enquanto sinto meu coração apertar. Por que nunca dei uma chance ao amor? Deveria eu correr atrás dele, ou ele chegará naturalmente a mim um dia? Será que preciso dele? Acho que não... mas seria legal ter alguém por aqui...

— Com licença – diz uma voz enquanto puxa meus ombros para trás. Numa tentativa instintiva de me esquivar, sobressalto para trás num grito de pavor. Vejo um garoto alto retraindo seus braços e dando um passo para trás. Era Pedro, com seu rosto corado e olhar assustado – Me desculpa, me desculpa, me desculpa!

— Tá tudo bem, cara – digo para ele, me aproximando novamente – A música tá muito alta, por isso não te ouvi chegando. Enfim, prazer, meu nome é Miguel.

Estendi a mão direita, esperando que ele retribuísse. Assim que ele tocou sua mão grande e macia na minha, senti um impulso muito grande e estranho para retrair o braço, porém continuei o cumprimento.

— Prazer, meu nome é Pedro... fui transferido para sua sala nesse ano, mas como morava em São Paulo, demorei um pouco até me organizar para finalmente me mudar para cá e começar a estudar...

— Um pouco? – pergunto ironizando – Nós já estamos em Maio!

Nós dois rimos, mas percebo que ele mantém o olhar fixo em seus pés durante a conversa. Ergo então minha mão esquerda, coloco em seu ombro e digo:

— Ei, não precisa ficar com tanta vergonha – uso meu dedão para fazer um leve carinho em seu pescoço tenso – Aqui todos somos uma família, e tenho a certeza de que logo mais você se sentirá em casa, assim como todos nós!

O rosto de Pedro cora ainda mais, mas posso ver um sorisso aparecer em sua boca enquanto ergue sua cabeça e olha fixamente em meus olhos. Sinto uma sensação estranha em minha barriga, como se a mesma estivesse esquentando e esfriando ao mesmo tempo. Ele respira fundo e diz:

— Te chamei porque preciso ir para a secretaria entregar alguns documentos para terminar minha matrícula, mas não sei onde é... – os ombros e pescoço de Pedro progressivamente ficam mais relaxados, sinto sua pele macia sendo registrada por meus dedos, como um caminho de grama fofa que aquece e conforta os pés descalços de um agricultor após um longo dia de trabalho.

— Nossa, a secretaria fica praticamente do outro lado do campus – olho para cima, tentando me recordar dos momentos em que fui à secretaria – Caminhando, você chega lá em trinta minutos, no máximo.

— Muito obrigado, Miguel – diz Pedro, que aparentava estar feliz agora, talvez por finalmente ter encontrado uma resposta – Então estou indo. Até amanhã!

— Até... – me despeço e fico parado observando Pedro seguir seu caminho para a secretaria. O vento o atingia de lado, fazendo com que seu cabelo ficasse ainda mais bonito.

— Ei, Pedro! – grito sem pensar enquanto caminho rapidamente em sua direção – Quer que eu te leve lá?

"Estou tão cansado de canções de amor [...] Só quero ir para casa"

Lauv, Troye Sivan — i'm so tired...

Notas finais
Não se esqueçam de comentar, por favor!! Muito obrigado!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.