O Garoto Feito de Sol e Terra
80 Capítulo 80 — Fumaça
Eduardo sentiu o coração disparar.
Estava de pé, a alguns metros de distância do prédio da Gravità Studios, observando a fachada imponente, tentando reunir coragem para dar o próximo passo.
Seus dedos estavam frios, o peito apertado. Ele não sabia o que esperava encontrar. Talvez Leo o expulsasse. Talvez não quisesse nem olhar para ele. Mas agora que tinha chegado tão longe, não podia recuar.
E então, viu.
A porta de vidro do prédio se abriu, e uma figura saiu para a calçada.
Eduardo segurou a respiração.
Era Leo.
Mas não o Leo que ele lembrava. Esse Leo era diferente.
Os cabelos estavam um pouco mais compridos, bagunçados de um jeito despreocupado. Ele usava uma jaqueta preta sobre uma camiseta cinza simples, um jeans escuro e um par de botas que denunciavam um estilo mais urbano. A postura dele era relaxada, mas ao mesmo tempo carregava algo que Eduardo não sabia explicar. Algo mais maduro, mais endurecido pelo tempo.
E então, Leo puxou um cigarro do bolso, acendeu com um isqueiro metálico e tragou lentamente, soltando a fumaça no ar frio de São Paulo.
Eduardo piscou, surpreso. Leo fumando?
Algo naquilo o pegou desprevenido. Não combinava com a imagem que ele guardava do Leo de antes, mas, ao mesmo tempo, fazia sentido. O jeito despreocupado, a forma como segurava o cigarro entre os dedos, como se aquilo já fosse parte dele há muito tempo.
E por Deus… ele continuava lindo de morrer.
O tempo tinha sido injustamente generoso com Leo. Seu rosto parecia ainda mais marcante, seus traços mais definidos, a expressão mais séria, mais distante. Havia algo nele que Eduardo não reconhecia completamente.
Mas era Leo.
Era o mesmo garoto por quem Eduardo tinha se apaixonado tantos anos atrás. O mesmo que ele magoou e abandonou. O mesmo que ele nunca esqueceu.
E agora, ele estava ali. A poucos metros. O cigarro entre os dedos, os olhos vagando pelo movimento da rua, alheio ao fato de que Eduardo o observava do outro lado.
Eduardo engoliu em seco.
O que ele faria agora?
Congelou.
Ele não soube o que fazer. Seu instinto gritava para que ele desse um passo à frente, atravessasse a rua e chamasse Leo, dissesse algo, qualquer coisa. Mas o medo o paralisou. Medo do que Leo diria. Medo do que Leo sentiria ao vê-lo ali depois de tantos anos. Medo de não significar mais nada.
Então, ficou onde estava. Observando.
Enquanto tragava o cigarro com calma, Leo manteve os olhos vagando pelo movimento da rua, sem perceber a presença de Eduardo ao longe. Ele parecia alheio a tudo, perdido nos próprios pensamentos.
Até que alguém apareceu.
Uma garota saiu pela porta do prédio e foi direto até ele. Devia ter mais ou menos a idade deles, talvez um pouco mais velha. Tinha cabelos curtos e um ar despreocupado.
Ela parou ao lado de Leo e puxou um cigarro do bolso, acendendo-o com o isqueiro dele. Os dois trocaram algumas palavras que Eduardo não conseguiu ouvir, e então a garota soltou uma risada baixa, inclinando a cabeça para trás.
Leo riu também.
E aquilo apertou o peito de Eduardo de um jeito inexplicável.
Era um riso diferente. Não era aquele riso nervoso de quando ele tentava disfarçar alguma coisa.
Era um riso solto. Natural.
Era o riso de alguém que tinha seguido em frente.
Eduardo sentiu os dedos tremerem ao lado do corpo.
O que ele estava fazendo ali?
◄☼►
Eduardo não abordou Leo naquele dia. Nem no dia seguinte. Nem no outro.
Ele voltou para o hotel onde estava hospedado, um lugar discreto e sem luxo, a poucas quadras da Gravità Studios. Acomodou-se na cadeira ao lado da janela e ficou olhando para a cidade, para as luzes dos prédios, para o movimento das ruas abaixo. Mas sua mente estava em um único lugar.
Leo.
A imagem dele tragando o cigarro, rindo com a colega de trabalho, parecendo completamente confortável na vida que construiu não saía da sua cabeça.
Ele achava que estava preparado para vê-lo de novo. Achava que poderia simplesmente entrar naquele prédio, chamá-lo, explicar tudo. Mas a verdade era que ele não sabia como fazer isso. Não sabia como dar esse passo.
Então, adiou.
Nos dias seguintes, Eduardo começou a seguir uma rotina silenciosa e discreta. Ele trabalhava remotamente do hotel, resolvendo as pendências da empresa, participando de reuniões virtuais. Mas sempre que tinha um tempo livre, escapava. Ia até a Gravità Studios, encontrava um café próximo, ou ficava encostado em alguma esquina estratégica, observando.
Ele não queria chamar isso de perseguição, porque não era isso. Não era sobre invadir a vida de Leo. Ele só… precisava vê-lo.
Ele viu Leo chegando para o trabalho de manhã, às vezes apressado, segurando um copo de café, às vezes tranquilo, conversando com alguém. Viu Leo saindo no horário de almoço, caminhando pelas ruas próximas, rindo de alguma piada que um colega fazia. Viu Leo indo embora no fim do dia, com os fones de ouvido e o olhar distraído, como se o mundo ao redor fosse apenas um pano de fundo.
E cada dia que passava, Eduardo se sentia mais longe.
Leo parecia tão bem. Tão inteiro. E Eduardo? Eduardo ainda estava ali, preso a algo que já não existia mais.
Mas ele não conseguia ir embora. Não agora. Não sem tentar.
Ele só precisava de coragem.
E, a cada dia que passava, sentia que estava chegando mais perto de finalmente encontrá-la.
◄☼►
Eduardo encarava o celular sobre a mesa do hotel. Ele precisava de um empurrão. De alguém que o tirasse desse limbo de indecisão.
Pegou o celular e rolou a lista de contatos até encontrar um nome familiar. Fernando.
Sem hesitar mais, apertou para ligar.
— Fala, sumido. — A voz de Fernando surgiu do outro lado da linha, carregada de um tom descontraído. — Pensei que você já tivesse desistido dessa loucura.
Eduardo soltou um riso baixo.
— Eu não consigo. — Sua voz saiu mais fraca do que queria. — Eu vou lá no prédio todo dia, Fernando. Eu vejo ele, mas não tenho coragem de chegar perto.
Fernando suspirou.
— Edu… você já chegou até aí. Você viajou pra São Paulo, tá hospedado num hotel perto do trabalho do cara, fica observando ele todo santo dia… Você acha mesmo que faz sentido continuar só olhando?
Eduardo passou a mão pelo rosto.
— E se ele não quiser me ver? E se me odiar?
— E se ele quiser? E se ele também ficou preso nisso todo esse tempo? — Fernando rebateu, e Eduardo ficou em silêncio. — Você nunca vai saber se não falar com ele.
Eduardo suspirou pesadamente. Ele sabia que Fernando estava certo. Mas dar esse passo parecia impossível.
— Se você não tentar, Edu, vai se arrepender pelo resto da vida. E olha que você já carrega arrependimento suficiente. — Fernando acrescentou, mais sério. — Fala com ele. Encontra uma desculpa, sei lá. Mas faz alguma coisa.
Eduardo fechou os olhos. Ele precisava agir. Precisava sair desse ciclo de observação passiva.
— Tá bom. — Ele murmurou. — Eu vou dar um jeito.
— Isso. Agora vai lá e resolve essa merda, cara. — Fernando riu. — E depois me liga pra contar. Quero saber tudo.
Eduardo desligou e ficou encarando o telefone por alguns segundos. Seu coração batia forte no peito.
Era isso.
Ele ia falar com Leo.
◄☼►
Eduardo sentiu o coração quase explodir no peito.
Cada passo que dava em direção a Leo parecia mais pesado do que o anterior. Ele não sabia como Leo reagiria, não sabia o que diria, não sabia se teria forças para enfrentar a possibilidade de ser rejeitado.
Mas não podia mais adiar.
Leo estava encostado na parede lateral do prédio, segurando o cigarro entre os dedos, a testa levemente franzida enquanto olhava para o nada. Ele parecia distraído, disperso em pensamentos.
Por um momento, Eduardo hesitou.
Até que, se aproximando mais e reunindo toda a coragem que conseguiu, ele finalmente abriu a boca:
— Oi, Leo.
Leo não reagiu de imediato. Continuou tragando, olhando para frente como se não tivesse ouvido direito. Mas então virou a cabeça na direção de Eduardo.
E o choque nos olhos dele foi visível.
Seu corpo ficou rígido. A expressão endureceu. Ele piscou algumas vezes, como se não acreditasse no que estava vendo.
Eduardo segurou a respiração.
O olhar de Leo era diferente do que Eduardo lembrava. Estava mais maduro, mais carregado de um cansaço silencioso, como se os anos tivessem deixado marcas invisíveis nele. Mas, ainda assim, havia algo ali que Eduardo reconhecia.
Ainda que os traços fossem mais firmes, ainda que a expressão fosse mais contida, ainda que a postura transmitisse uma resistência que antes não existia… o brilho nos olhos de Leo, mesmo que enfraquecido, ainda era o mesmo.
E por um instante, Eduardo se pegou lembrando.
Lembrando do garoto que o olhava com tanta intensidade quando eram adolescentes. Do garoto que, mesmo tentando disfarçar, deixava escapar naqueles olhos todas as emoções que sentia.
E então, Leo franziu os olhos, tragou mais uma vez e soltou a fumaça devagar, sem dizer nada.
Eduardo se sentiu pequeno diante daquele silêncio.
Ele precisava falar. Precisava dizer algo antes que Leo simplesmente desse as costas.
Eduardo abriu a boca, mas as palavras pareciam travar na garganta. Seu coração batia tão forte que ele quase podia ouvir o som ecoando em seus ouvidos.
— Eu… — Ele começou, hesitando. Sentiu a boca secar, as mãos suarem. — Eu preciso…
Leo apenas o observava, sem dizer nada, tragando o cigarro com calma, como se esperasse.
Eduardo engoliu em seco.
— Eu preciso falar com você. — Ele finalmente conseguiu dizer, mas sua voz vacilou no final, saindo mais fraca do que queria.
Ele odiou o jeito como soou. Como se estivesse vulnerável demais. Como se estivesse implorando.
E, talvez, estivesse mesmo.
Leo apenas o encarou, ainda atordoado, mas não disse nada.
O tempo pareceu se estender entre eles.
Até que, sem qualquer expressão, Leo tragou mais uma vez e soltou a fumaça direto no rosto de Eduardo, forçando-o a dar um passo para trás.
E então, sem uma palavra, Leo virou as costas e entrou no prédio, deixando Eduardo ali, parado, com um nó sufocante na garganta e o gosto amargo da rejeição queimando sua pele.
Eduardo saiu dali sentindo o peso esmagador do fracasso em seus ombros. As pernas estavam bambas, o peito apertado, e a única coisa que ele conseguiu fazer foi pegar o celular no bolso e abrir a conversa com Fernando. Os dedos tremiam enquanto digitava.
Eduardo: Deu merda
Eduardo: Eu fui falar com ele
Eduardo: Mas ele me ignorou completamente. Soprou fumaça na minha cara e entrou no prédio
Eduardo: Eu sou um idiota. Eu nunca devia ter vindo
Ele apertou "enviar" antes que pudesse pensar melhor. Encostou-se na parede do prédio mais próximo, respirando fundo, tentando acalmar a raiva e a frustração que subiam dentro dele como uma onda incontrolável.
O celular vibrou segundos depois.
Fernando: Puta que pariu, Eduardo
Fernando: O que você esperava? Que ele fosse abrir os braços e correr pro seu colo?
Fernando: Você fez tudo aquilo e ainda sumiu por SETE ANOS. Sete, caralho. Acha que um "oi, Leo" ia resolver tudo?
Eduardo fechou os olhos, rangendo os dentes. Ele sabia que Fernando estava certo. Mas ler aquilo doía.
O celular vibrou novamente.
Fernando: Se você quer mesmo falar com ele, vai ter que fazer mais do que isso. Vai ter que insistir. Ele tem motivos pra te odiar
Fernando: Mas se você realmente quer consertar essa merda, então tenta direito
Eduardo olhou para o prédio da Gravità, a fachada brilhando sob o sol. Leo estava lá dentro, e ele sabia que aquele reencontro não seria fácil.
◄☼►
Leo entrou no prédio com passos rápidos, como se pudesse fugir da própria mente. Seu coração ainda estava disparado, a respiração presa no peito, e suas mãos tremiam ligeiramente ao fechar os punhos.
Eduardo.
Ele tinha acabado de ver Eduardo.
Depois de anos. Depois de tudo. Depois do inferno que viveu tentando superar aquele abandono.
E agora ele simplesmente apareceu ali, do nada, com aquela mesma voz, aquele mesmo olhar?
Porra.
— Leo?
A voz de Tati o tirou do torpor. Ele piscou algumas vezes, tentando focar nela. Sua colega de trabalho o olhava de sobrancelhas erguidas, segurando um copo de café.
— Vem comigo tomar um café na copa? — Ela sugeriu, dando um gole no próprio. — Tá com uma cara péssima.
Leo abriu a boca para responder, mas fechou em seguida. Ele queria dizer sim. Queria tentar agir normalmente. Mas como? Como, depois do que tinha acabado de acontecer?
— Não. — A voz saiu mais seca do que ele pretendia. — Vou ali rapidinho.
Tati franziu a testa, mas deu de ombros.
— Beleza. Se precisar de um cigarro extra, me avisa.
Leo forçou um sorriso fraco antes de se afastar.
Ele não foi para sua mesa. Foi direto ao banheiro.
Empurrou a porta e a fechou atrás de si.
O ar parecia pesado demais. Ele apoiou as mãos na pia, a cabeça baixa, o peito subindo e descendo em um ritmo acelerado.
Eduardo.
O nome ecoava na sua mente como um fantasma.
Sete anos. Sete anos sem vê-lo, sem ouvir sua voz, sem saber absolutamente nada sobre ele. Sete anos tentando esquecer, tentando enterrar cada lembrança, cada cicatriz, cada maldito resquício do passado.
E agora ele simplesmente estava ali.
Do mesmo jeito, mas também diferente.
O olhar dele…
Por um momento, só por um maldito segundo, Leo achou que viu aquele olhar de antes. Aquele olhar que fazia seu peito apertar, que o fazia sentir que existia algo mais.
Mas não.
Leo não podia se permitir pensar nisso.
Eduardo tinha ido embora. E agora, por mais que seu corpo tremesse e sua mente gritasse, ele precisava se lembrar de que não podia deixar Eduardo bagunçar sua vida de novo.
◄☼►
Naquela noite, Leo entrou no apartamento e fechou a porta atrás de si, soltando um suspiro pesado. O ambiente estava silencioso, iluminado apenas pela luz suave da luminária no canto da sala. Diego estava sentado no sofá, mexendo no notebook, provavelmente revisando algum roteiro ou resolvendo algo do trabalho.
Diego era um homem dez anos mais velho do que Leo, com uma presença marcante. Ele tinha aquele ar de intelectual seguro de si, alguém que parecia sempre saber o que estava fazendo. Leo o conheceu num dos estágios da faculdade, e Diego logo percebeu seu talento e o ajudou a se firmar na carreira. E de certa forma, Leo devia muito a ele.
Foi Diego quem o incentivou, quem o apresentou às pessoas certas, quem fez com que conseguisse aquela vaga na Gravità. E era por indicação dele que Leo tinha se tornado um nome respeitado no audiovisual.
Diego também prestava serviços para a Gravità, então estavam constantemente envolvidos nos mesmos projetos. Trabalhavam juntos, moravam juntos. Há um ano dividiam aquele apartamento, um espaço elegante, moderno, no centro da cidade.
Leo jogou as chaves na mesa e passou a mão no cabelo, ainda sentindo o peso do que havia acontecido mais cedo.
Diego ergueu os olhos do notebook, analisando-o com atenção.
— Você tá estranho.
Leo congelou por um segundo, mas logo se forçou a dar de ombros.
— Só cansado.
Diego fechou o notebook, inclinando o corpo para frente, apoiando os antebraços nas pernas.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não. — A resposta veio rápida demais.
Diego estreitou os olhos, estudando Leo por um momento. Ele era bom em ler pessoas, fazia parte do seu trabalho, afinal. Mas não insistiu. Apenas se levantou, caminhando até Leo com passos calmos.
— Vem cá. — murmurou.
Leo deixou que ele se aproximasse. Diego tocou sua cintura e o puxou para um beijo, profundo, intencional. Como se tentasse arrancar qualquer dúvida, qualquer resquício de distração que Leo carregasse.
Leo retribuiu por instinto, mas sua mente ainda estava longe.
Ainda estava na calçada da Gravità.
Ainda estava no momento em que seus olhos encontraram os de Eduardo depois de sete anos.
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