O Garoto Feito de Sol e Terra
23 Capítulo 23 — Uma Visita Inesperada
Eduardo e Kayla estavam na biblioteca da escola, terminando as últimas anotações do trabalho em dupla.
Os corredores já estavam mais vazios, a maioria dos alunos havia ido embora, e o barulho no pátio começava a diminuir. Kayla suspirou e largou a caneta, esticando os braços como se tivesse acabado de sair de um sono profundo.
— Finalmente. Agora eu vou ter que ir pra casa e ficar no maior tédio do mundo. — resmungou, empurrando o caderno para o lado. Depois, virou o rosto para Eduardo. — E você? Vai fazer o quê hoje?
Eduardo ainda rabiscava algo no canto da folha, sem pressa. Respondeu automaticamente:
— Vou pra fazenda do Leo.
Kayla levantou os olhos na hora.
— Sério?
— Uhum.
Ela sorriu e se inclinou um pouco na mesa, apoiando o rosto nas mãos.
— Posso ir junto?
Eduardo travou por um instante.
Não era como se tivesse algo contra Kayla indo… mas ele queria ficar sozinho com Leo.
Só ele e Leo.
— Ah… — hesitou. — É que eu não sei se—
— Ah, qual é, Eduardo! Eu sempre quis ver como é aquela fazenda!
— Mas—
— Por favor, por favor, por favor! — Ela juntou as mãos, fazendo uma expressão pidona e inclinando a cabeça de um jeito dramático.
Eduardo soltou um suspiro.
Sabia que não ia conseguir dizer não.
— Tá bom, tá bom.
Kayla sorriu largamente e deu um pulinho na cadeira.
— Ótimo! Então vamos logo antes que fique tarde.
Eduardo não podia negar que ela parecia genuinamente animada, mas algo dentro dele sabia que Leo não ia gostar nada disso.
◄☼►
Leo estava na varanda da fazenda, esperando Eduardo, como sempre.
Mas quando viu a bicicleta de Eduardo se aproximando com alguém na garupa, franziu a testa na hora.
Assim que a bicicleta parou, Kayla desceu com um pulo ágil, sacudindo os cabelos e alisando a roupa, que estava perfeitamente limpa e alinhada, destoando completamente da poeira, do cheiro de terra e do ambiente ao redor.
Leo só conseguiu piscar, incomodado.
Eduardo viu a reação dele, e sabia exatamente o que Leo estava pensando.
— Oi, Leo! — Kayla sorriu, animada. — A gente já se conheceu na festa do Eduardo, lembra?
Leo assentiu lentamente.
— Oi. Sim, lembro.
— Bom, agora eu vim invadir sua fazenda!
Antes que Leo pudesse responder, um barulho de passos apressados veio de dentro da casa. Duas figuras loirinhas surgiram correndo pela varanda.
— Dudu! — Mariana e Sofia gritaram juntas, atropelando uma à outra enquanto se jogavam nas pernas de Eduardo.
Eduardo riu e se abaixou para abraçá-las.
— Vocês estão crescendo rápido demais. Logo vão estar me carregando no colo.
Kayla olhou as meninas com um sorriso divertido.
— São suas irmãs, Leo?
Leo assentiu.
— Sim.
Kayla abaixou-se um pouco e bagunçou os cabelos delas.
— Vocês são fofas demais.
Mariana riu, sem se incomodar, mas Sofia fez uma careta e se apressou em ajeitar os fios bagunçados.
Leo observava tudo sem saber bem o que sentir.
Ele tinha uma certa simpatia por Kayla. Precisava admitir que ela era engraçada, solta, nada metida como se esperava que fosse.
Ainda assim… ele preferia que ela não estivesse ali.
◄☼►
Rita estava na cozinha quando ouviu uma voz diferente vindo do lado de fora.
Franziu a testa, estranhando. Reconhecia bem os tons animados das filhas e de Eduardo, mas havia outra voz ali, uma que não fazia parte daquele cenário.
Quando apareceu na varanda, parou no meio do caminho ao ver quem estava ali.
Kayla Albuquerque.
A filha do homem mais influente da cidade.
Gente que nunca pisava naquela fazenda.
Kayla sorriu abertamente assim que notou a presença dela.
— Boa tarde! Sou Kayla!
Rita hesitou por um instante antes de esboçar um sorriso educado. Claro que ela sabia quem era Kayla.
— Seja bem-vinda... entre, sente-se. Quer alguma coisa? Fiz bolo, tem pão caseiro, queijo, biscoito de polvilho…
Kayla riu e balançou as mãos.
— Não, eu tô bem! Eu vim conhecer a fazenda, não roubar toda a comida da sua casa.
Rita arqueou as sobrancelhas, pega de surpresa pela resposta.
Ela não esperava que a menina de uma das famílias mais ricas da cidade fosse tão... normal.
Leo, ao lado, bufou baixinho, cruzando os braços.
O pior era que Kayla parecia genuinamente interessada em tudo.
Enquanto Mariana e Sofia puxavam Eduardo pela mão para mostrar algo no quintal, Kayla ficou para trás, olhando ao redor com curiosidade sincera.
Ela passou os dedos pelo batente da varanda, observando a textura da madeira rústica. Depois, seus olhos percorreram a casa, os detalhes simples, as cortinas feitas à mão, o cheiro de bolo recém-saído do forno.
— Isso aqui é lindo. — comentou, mais para si mesma do que para os outros.
Rita ficou ainda mais surpresa. Não pelo elogio, mas pelo tom verdadeiro.
Kayla não estava sendo gentil por educação, ela realmente estava admirada.
E então, sem cerimônia, desceu os degraus da varanda e caminhou pelo terreiro, parando ao lado de um antigo carro de boi. Passou a mão na roda de madeira, analisando os detalhes.
— Isso aqui ainda funciona?
Leo, que ainda estava parado com os braços cruzados, revirou os olhos.
— Não. Tá aí só de enfeite.
Kayla não se incomodou com o tom seco. Pelo contrário, sorriu.
— Que desperdício! Aposto que seria divertido dar uma volta.
Leo suspirou.
Kayla parecia deslumbrada com tudo ao seu redor. Para Leo e Eduardo, a fazenda era apenas a fazenda. O mesmo céu, a mesma terra, o mesmo vento que sempre esteve ali.
Mas, para Kayla, era como entrar em outro mundo.
— Vocês vivem no meio disso tudo?! — ela perguntou, girando devagar, os olhos brilhando enquanto observava a imensidão dos campos, o verde sem fim, as árvores balançando suavemente ao ritmo do vento.
Leo arqueou uma sobrancelha.
— Isso tudo? Você fala como se fosse outro planeta.
Kayla riu, sem se importar com o sarcasmo na voz dele.
— Pra mim, é.
Eduardo, parado ao lado, observava de canto, esperando o momento em que Leo fosse perder a paciência.
Ele obviamente estava incomodado.
Kayla fazia perguntas demais, tocava nas cercas, analisava o celeiro, olhava as galinhas como se fossem exóticas. Leo respondia tudo no automático, seco, sem paciência.
Até que, do nada, Leo perguntou:
— Já viu um cavalo de perto?
Kayla abriu um sorriso curioso.
— Não. Só aqueles de exposição, em eventos.
Leo bufou.
— Então nunca viu um cavalo de verdade.
Kayla arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.
— E você vai me mostrar um, então?
Leo deu de ombros.
— Vem comigo.
◄☼►
Os três caminharam até o estábulo, onde alguns cavalos estavam descansando sob a sombra, balançando a cauda preguiçosamente para espantar moscas.
Assim que os viu de perto, Kayla arregalou os olhos.
— Meu Deus, eles são enormes.
Eduardo riu.
— E você tá vendo de longe. Chega mais perto.
Ela hesitou, mordendo o lábio, como se precisasse criar coragem. Mas foi.
Assim que se aproximou, Eduardo pegou delicadamente sua mão e a guiou até a testa de um dos cavalos, que soltou uma respiração tranquila, imóvel sob o toque.
Leo observou aquilo com uma sensação estranha crescendo dentro dele.
Não gostou da cena.
Não gostou da forma como Eduardo segurou a mão dela, nem do jeito hesitante, mas curioso, que Kayla sorriu ao sentir o calor do animal sob seus dedos.
Era um momento que parecia íntimo demais. Pequeno, mas significativo.
Porque, até então, esses momentos eram dele e de Eduardo.
Era ele quem incentivava Eduardo, quem empurrava na direção de algo novo, fosse um desafio besta ou uma coisa mais séria.
Naquela fazenda, Eduardo sempre foi o aprendiz. Leo quem mostrava as coisas, quem ensinava, quem guiava.
Mas agora, Eduardo fazia isso com Kayla.
E, por algum motivo, isso incomodava mais do que deveria.
— Ele não vai morder minha mão, né? — Kayla perguntou, rindo nervosa.
— Só se você der um motivo. — Eduardo disse, segurando o riso. — Se você conseguir ficar quietinha por um momento, acho que ele não morde.
Kayla arregalou os olhos e deu um tapa leve no braço dele.
— Idiota!
Leo fechou os dedos em punho.
Ele não sabia exatamente o que estava sentindo, mas sabia o suficiente para querer acabar com aquele momento.
Antes que pudesse pensar muito, abaixou-se, pegou um punhado de feno e jogou direto na direção do rosto de Kayla.
— Bem-vinda ao campo.
Kayla gritou em indignação e, sem nem hesitar, abaixou-se e pegou um punhado de terra, jogando de volta.
E então, tudo virou uma bagunça.
Eduardo entrou na brincadeira, rindo alto enquanto Kayla tentava se vingar de Leo, que desviava ágil, provocando ainda mais.
Logo, estavam rolando na terra, sujos, cheios de poeira, sem conseguirem parar de rir.
Kayla parecia completamente diferente da garota da escola particular.
Ali, ela não era filha do senhor Albuquerque.
Ali, ela só era Kayla.
E Leo…
Leo ainda sentia aquela sensação incômoda no peito.
◄☼►
O sol já começava a baixar no horizonte quando Kayla bateu as mãos nas roupas, tentando tirar a poeira e os restos de feno da bagunça que fizeram. Seus cabelos estavam desgrenhados, as botas sujas de terra, e havia um brilho satisfeito nos olhos dela.
— Bom, acho que tá na hora de eu voltar pro meu habitat natural. — disse, rindo.
Eduardo pegou a bicicleta e lançou um olhar rápido para Leo antes de falar:
— Vou levar Kayla até a casa dela.
O tom era quase hesitante. Ele sabia que Leo não tinha gostado da visita. Sabia que o amigo queria que aquele dia tivesse sido só dos dois.
Leo manteve as mãos nos bolsos da calça, apenas assentindo, sem dizer nada.
— Valeu por me deixar invadir tudo. — Kayla disse, sorrindo para Leo.
Leo fez um som baixo de relutância, mas um sorrisinho puxava o canto de sua boca.
— É, foi divertido.
Kayla riu, satisfeita.
Antes de eles irem, Mariana e Sofia correram para se despedir de Eduardo, agarrando suas pernas.
— Volta logo, Dudu!
— Claro que vou voltar.
Kayla se abaixou e apertou as bochechas das meninas.
— Vocês são umas fofas.
Sofia ergueu o queixo, convencida.
— A gente sabe.
Kayla gargalhou alto.
Então, com um pulo ágil, subiu na garupa da bicicleta de Eduardo, enlaçando os braços ao redor da cintura dele para se segurar.
Leo sentiu o estômago revirar ao olhar a cena.
Observou em silêncio enquanto Eduardo pedalava, carregando Kayla pelo caminho de terra até a saída da fazenda.
Na varanda, ficou parado, assistindo os dois se afastarem.
Porém, apesar de tudo, ele não conseguia odiar Kayla, por mais que a presença dela o incomodasse. Ela era realmente diferente do que ele esperava.
Ela gostou da fazenda de verdade, não só como algo exótico para olhar de longe. Gostou do cheiro de terra, da simplicidade da casa, do vento bagunçando o cabelo sem se importar. Gostou do caos, da risada fácil, do fato de que ali ela não precisava ser nada além de si mesma.
Mas, por mais incrível que Kayla fosse…
Ele ainda não estava pronto para ver Eduardo compartilhando esse mundo com outra pessoa.
Porque, até agora, era algo só deles.
E, mesmo sem saber exatamente o porquê, ele não queria que isso mudasse.
◄☼►
Leo ainda estava na varanda, observando Eduardo e Kayla desaparecerem pela estrada de terra. O som distante da bicicleta diminuía aos poucos, até que só restou o vento soprando leve pelo campo.
Foi então que Rita surgiu na porta, enxugando as mãos no avental, os olhos carregando um brilho observador.
— Então essa é a famosa Kayla Albuquerque.
Leo desviou os olhos da estrada e olhou para a mãe sem responder.
Ela apoiou uma das mãos na cintura, pensativa.
— Filha do senhor Albuquerque, uma garota cercada de gente importante… — ela fez uma breve pausa, como se estivesse lembrando da cena de mais cedo. — E, ainda assim, tava aqui, jogando terra com vocês como se fosse uma das nossas.
Leo bufou, jogando a cabeça para trás.
— Nem me fale.
Elacaptou o tom de implicância na voz do filho e sorriu de leve.
— Achei ela esperta, simpática. E parece gostar muito de Eduardo.
Leo fechou um pouco o rosto. Desviou o olhar, cruzando os braços.
— Todo mundo gosta do Eduardo.
Rita não deixou passar o peso nas palavras dele.
Ela sorriu de canto, mas não disse nada.
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