O Garoto Feito de Sol e Terra

21 Capítulo 21 — Escrita Criativa


A aula de escrita criativa era uma das poucas que Eduardo realmente gostava.

Geralmente, ele não se importava tanto com as tarefas. Mas, naquele dia, a professora propôs algo diferente.

— Quero que escrevam um poema sobre algo importante na vida de vocês. Pode ser sobre qualquer coisa. Algo que amam, algo que mudou vocês, algo que marca a vida de algum jeito.

Eduardo segurou a caneta, olhando para a folha em branco.

Algo importante na vida dele.

O que isso significava?

Seus pais diriam que deveria escrever sobre a importância dos estudos, do futuro promissor, dos valores que uma boa família deve seguir. Tiago e os outros provavelmente escreveriam sobre garotas, sobre o gosto da liberdade, sobre a adrenalina de quebrar as regras.

Eduardo não sabia sobre o que escrever.

Até que, sem perceber, sua mente o levou para um lugar.

Um campo aberto.

Um pôr do sol dourado.

O cheiro de terra e grama fresca.

E um garoto correndo.

Ele o viu sem querer.

Os cabelos bagunçados pelo vento, os pés descalços correndo sobre a terra batida, o riso solto como se fosse parte intrínseca do mundo.

Eduardo piscou, afastando a imagem.

Mas ela continuou ali.

Algo importante.

A fazenda. O vento. A liberdade.

Isso não fazia parte dele mais do que qualquer outra coisa?

Eduardo engoliu em seco. E então, a caneta começou a se mover sozinha.


O Garoto Feito de Sol e Terra


Ele corria junto do vento sem pensar,

pés sujos de terra, com o olhar a brilhar

O mundo parecia dele sem ele precisar tentar,

e a liberdade era algo que ninguém podia lhe tirar.


Ele ria, e até o vento parava pra acompanhar,

bagunçando seus cabelos loiros só pra poder brincar.

A terra conhecia o jeito dele andar,

e o sol parecia querer sempre o abraçar.


Ele era feito de sol e terra,

de um jeito livre que ninguém consegue segurar,

de algo que eu nem sei como escrever no meu caderno,

mas que sempre ficou ali, quieto, eterno.


E eu, perdido nesse momento difícil de explicar,

sigo o vento, sigo ele, sem saber onde vou parar.

Porque nenhum outro lugar me chama pra ficar,

nenhum outro parece comigo combinar.


Corro sem pensar, sem medo de errar,

porque perto dele eu sou leve, quase dá pra voar.

Sou parte do sol que insiste em nos iluminar,

e parte da terra que sabe quem a gente é sem precisar explicar.


Quando terminou, Eduardo encarou o papel diante de si.

Seu coração acelerou.

As palavras estavam ali, cruas, incontestáveis. Ele escreveu sobre Leo sem perceber, sem planejar, sem sequer tentar evitar.

E, naquele momento, ele soube que não podia mais fingir que Leo era só seu melhor amigo.

Porque, na verdade, ele nunca foi só isso.


◄☼►


Na aula seguinte, a professora começou a devolver os poemas corrigidos.

Eduardo pegou o seu com uma leve tensão nos ombros, sem saber o que esperar.

Ao abrir a folha, seus olhos foram direto para a marca em azul ao lado da nota.

9,5.

Ele piscou, surpreso.

— Castilho.

A voz da professora o fez levantar a cabeça. Ela o observava com um sorriso satisfeito.

— Seu poema foi um dos melhores da turma. — comentou, segurando a folha com delicadeza. — Tem um simbolismo forte sobre liberdade, sobre pertencer ao mundo sem amarras. Parece algo muito pessoal, algo que veio de dentro.

Eduardo forçou um sorriso, acenando com a cabeça, mas não respondeu.

Porque, no fundo, ele sabia.

Não era só sobre liberdade.

Era sobre Leo.

Mas isso… ninguém precisava saber.


◄☼►


Quando chegou em casa naquela tarde, Eduardo não jogou o poema fora. Também não deixou em qualquer lugar. Dobrou a folha com cuidado, como se fosse algo valioso.

Abriu a gaveta da escrivaninha e pegou sua pasta de documentos, onde guardava coisas importantes:

Boletins da escola.

Certificados de competições.

Cópias de documentos da família.

E agora, o poema.

Colocou a folha dentro da pasta com a mesma atenção que teria se estivesse guardando algo de extrema importância.

E, de certa forma, estava.

Porque, naquele papel, estava a verdade que ele ainda não sabia dizer em voz alta.

Fechou a pasta e empurrou a gaveta. Ficou ali por um momento, parado, olhando para o nada.

E então, sorriu de leve.

Porque, no fundo, sabia que aquela folha guardava mais do que um poema.

Ela guardava um pedaço de si mesmo.