O Garoto Feito de Sol e Terra

2 Capítulo 2 — O Primeiro Dia


O sol mal havia nascido, mas a pequena cidade de São Tomás já estava acordada. O barulho dos galos cantando, dos carros antigos passando pelas ruas de paralelepípedo e das primeiras conversas nas padarias indicavam que um novo dia começava. Para Eduardo Castilho, porém, aquele dia era diferente de qualquer outro que já tivera.

— Pronto para o seu primeiro dia na escola nova? — perguntou sua mãe, Helena, enquanto ajeitava a gola da camisa do uniforme.

Eduardo suspirou.

— Não tenho muita escolha, né?

Ele já sabia que teria que estudar ali. A escola particular do centro da cidade, a mais conceituada, realmente não tinha vagas. E, para desespero de sua mãe, a única alternativa era a escola pública, um prédio simples de paredes amarelas desgastadas pelo tempo, mas cheio de crianças correndo para todos os lados.

O carro parou em frente ao portão e, antes que sua mãe tentasse um discurso motivacional, Eduardo abriu a porta e saiu. A ideia de estar ali ainda não o agradava, mas ficar parado reclamando não mudaria nada.

Helena desceu o vidro da janela, com um sorriso que forçava otimismo.

— Qualquer coisa, é só ligar, filho.

Eduardo apenas acenou com a cabeça, já impaciente para acabar logo com aquilo.

— Tá bom! Tchau, mãe.

— Tchau! — disse ela, lançando um último olhar preocupado para o prédio de paredes amarelas.

Em seguida, Helena engatou a marcha do carro, um sedã prateado que parecia um pouco fora do lugar naquela rua de paralelepípedos. Ela partiu, deixando para trás um rastro suave de poeira e um Eduardo que se sentia completamente deslocado.

Logo ao entrar, foi recebido por uma mulher de expressão gentil, a diretora da escola.

— Eduardo, certo? Seja bem-vindo! — disse, com um sorriso caloroso. — Sua turma é a do quinto ano. Pode vir comigo, vou te levar até sua sala.

Os corredores eram barulhentos, cheios de mochilas coloridas e cartazes nas paredes com desenhos feitos pelos alunos. Eduardo sentiu olhares curiosos sobre si, cochichos aqui e ali. A cidade não era grande, e todo mundo já sabia que uma família rica tinha se mudado para o centro.

Quando a diretora abriu a porta da sala, um turbilhão de vozes preencheu o espaço. Crianças falavam ao mesmo tempo, algumas corriam entre as carteiras, outras desenhavam no caderno sem dar atenção para a confusão.

— Classe, silêncio! — pediu a diretora.

O barulho diminuiu, mas não cessou completamente. Ela suspirou e anunciou:

— Este é Eduardo Castilho, o novo colega de vocês. Quero que o recebam bem.

Algumas crianças pararam para observá-lo com atenção, mas outras continuaram absortas em seus desenhos ou conversas.

— Eduardo, pode se sentar ali.

Ela apontou para uma carteira vazia ao lado de um garoto que parecia ocupado rabiscando algo na madeira da mesa com uma ponta de lápis. O menino tinha a pele um pouco bronzeada, os cabelos loiros bagunçados e uma postura relaxada, como se nada ao redor o incomodasse.

Eduardo caminhou até o lugar e sentou-se, ajeitando a mochila. O garoto ao seu lado parou de rabiscar e o encarou de canto de olho.

— Você é o novo menino rico, né? — perguntou, sem rodeios. — Ouvi falar de você.

Eduardo franziu a testa.

— Eu sou só o Eduardo.

O garoto abriu um sorriso torto, como se aquela resposta tivesse sido satisfatória.

— Eu sou o Leonardo, mas todos me chamam de Leo.

— Legal.

Por um instante, os dois ficaram em silêncio, sem saber muito bem o que dizer. Até que Leo quebrou o silêncio:

— Você já andou de carroça?

Eduardo piscou, surpreso com a pergunta.

— Não…

— Já subiu num boi?

— Claro que não!

Leo riu e disse:

— Então você não sabe de nada.

Eduardo cruzou os braços.

— E você, já jogou videogame?

Leo balançou a cabeça e respondeu:

— Não.

— Então você também não sabe de nada.

Eles se encararam por um momento e, sem motivo aparente, começaram a rir.

E foi assim que Eduardo e Leo se tornaram amigos.


◄☼►


Leo parecia saber de tudo sobre a escola. No recreio, levou Eduardo para conhecer o pátio dos fundos, onde alguns alunos jogavam bola descalços. Também apresentou as melhores árvores para escalar e o lugar exato onde a merendeira deixava os bolinhos de chuva frescos antes de levá-los para a cantina.

— Se você chegar bem na hora que ela tira da panela, consegue pegar um quentinho — explicou, como se estivesse compartilhando um segredo de estado.

Eduardo, que inicialmente estava desanimado quanto à nova escola, começou a demonstrar mais entusiasmo. Diferente da antiga escola particular em que estudava, onde tudo era mais regrado e formal, ali ele podia correr pelo pátio sem que alguém mandasse parar, podia trocar figurinhas sem medo de ser pego e até mesmo jogar bola na chuva sem ouvir reclamações.

— A gente podia fazer uma aposta — sugeriu Leo, no recreio.

— Que tipo de aposta?

— Quem consegue ficar mais tempo com a mão dentro da água fria do bebedouro.

— Mas isso não faz sentido.

— Só os corajosos conseguem.

Eduardo revirou os olhos, mas colocou a mão na água junto com Leo. Ficaram ali, rindo e fazendo caretas, até que uma professora passou e mandou os dois saírem dali.

O resto do dia passou rápido. Depois da aula, continuaram juntos no pátio, explorando os cantos da escola e brincando com os outros alunos. Jogaram bola, correram descalços na grama e até tentaram escalar uma árvore — sem sucesso. Quando o sinal bateu para a saída, Eduardo percebeu que aquele primeiro dia tinha sido muito melhor do que imaginava.

No segundo dia, a empolgação de Leo estava ainda maior. Ele passou a manhã toda falando sobre sua casa e os animais da fazenda onde morava.

— Você devia ir lá hoje — disse ele, entre uma partida e outra de queimada no recreio.

Eduardo hesitou.

— Acho que minha mãe não vai deixar.

— Liga para ela.

Eduardo bufou, mas pegou o celular para ligar. Para sua surpresa, sua mãe não recusou de imediato, mas fez algumas perguntas antes de decidir.

— Quem é esse amigo? Onde ele mora? Tem algum adulto em casa? — perguntou, em tom desconfiado.

— Mãe, a casa dele é numa fazenda. E sim, tem adultos lá — respondeu Eduardo, revirando os olhos.

Do outro lado da linha, Helena suspirou.

— Tudo bem, mas quero que me ligue quando chegar lá. E nada de voltar tarde, viu?

— Tá bom…

Leo, que ouvia tudo ao lado, abriu um sorriso largo ao perceber que tinha conseguido convencer o amigo.

— Então bora!


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A casa de Leo ficava na fazenda da família, um pouco afastada da cidade. Eduardo nunca tinha visto um lugar assim antes. A estrada de terra levava a uma casa simples, mas grande, com um quintal cheio de galinhas ciscando. O cheiro do mato era forte, misturado ao aroma de pão assando.

— Já aviso que minha mãe faz o melhor pão de queijo da cidade — garantiu Leo.

Quando entraram, a mãe de Leo, Rita, recebeu Eduardo com um abraço apertado, como se já o conhecesse há anos.

— Então você é o novo amigo do meu Leo! — disse, com um sorriso gentil. — Seja bem-vindo.

As irmãs mais novas de Leo apareceram correndo, curiosas com o visitante.

— Você é o amigo novo do Leo? — perguntou Mariana, uma garotinha de sete anos, com cabelos claros como os do irmão. Seus olhos curiosos analisavam Eduardo.

— Sou… — respondeu ele, sem saber exatamente como se apresentar.

— Ele é aquele menino rico! — exclamou Sofia, a menor, de cinco anos, com um sorriso travesso no rosto.

Eduardo ficou sem graça, mas Leo apenas deu de ombros e disse:

— Ele é legal.

Aquilo pareceu bastar para as meninas, que logo começaram a puxá-lo para brincar.

Mais tarde, Leo o levou para conhecer os animais.

— Aquele é o Zezé, o cavalo mais velho da fazenda. Esse aqui é o Nico, o cachorro mais inteligente. E aquelas ali são as cabras.

Eduardo olhou desconfiado para as cabras.

— Elas mordem?

Leo riu.

— Não… Só se você irritar elas.

— Acho que prefiro manter distância.

Leo apenas riu e continuou mostrando tudo.

A tarde passou tão rápido que, quando Eduardo percebeu, já estava na varanda da casa, comendo pão de queijo quentinho e rindo das histórias que o irmão mais velho de Leo, Gustavo, contava.

Quando finalmente voltou para casa, naquela noite, Eduardo percebeu que, pela primeira vez desde que havia se mudado, ele se sentia bem. E tudo isso tinha a ver com Leo.


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Os dias se transformaram em semanas, e a rotina de Eduardo em São Tomás começou a se estabelecer. No início, ele achou que nunca se acostumaria com a escola pública, com o jeito barulhento dos colegas e a informalidade das aulas. Mas Leo tornou tudo mais fácil.

Leo estava sempre ao seu lado, seja puxando Eduardo para uma brincadeira, seja o arrastando para longe quando algum professor ficava bravo com suas conversas no meio da aula. Para Eduardo, Leo era um mistério fascinante: não parecia se preocupar com nada, estava sempre rindo de algo e conhecia todos na escola, desde os alunos mais velhos até os funcionários da limpeza.

Juntos, eles aprontavam pequenas travessuras, como na vez em que decidiram soltar uma galinha dentro da sala da diretora.

— Eu aposto que ninguém nunca fez isso antes — Leo cochichou, segurando a pequena galinha nos braços enquanto espiavam o corredor.

— Isso é uma péssima ideia — Eduardo sussurrou de volta, mas sem conseguir esconder o sorriso. — Você tem certeza?

Leo não tinha, mas seguiu em frente.

Dez minutos depois, os gritos da diretora podiam ser ouvidos de longe, enquanto a galinha corria desorientada pela sala e os dois garotos saíam fugindo pelo pátio, segurando o riso.

Os dois receberam um castigo leve, algo que envolvia limpar o quadro da sala por uma semana, mas valeu cada segundo de diversão. A verdade é que, pela primeira vez, Eduardo se sentia livre. Na cidade grande, tudo era planejado, programado, organizado. Mas ali, com Leo, ele podia ser simplesmente um menino.

A amizade entre os dois cresceu rápido. Eduardo passou a ir cada vez mais à fazenda de Leo. Gostava de estar lá, longe do barulho da cidade, onde o tempo parecia passar de um jeito diferente. Gostava do cheiro de terra, do barulho dos bichos, do vento que fazia as árvores balançarem no final da tarde. Gostava até das irmãs de Leo, que ficavam insistindo para que ele brincasse com elas.

— Você é o preferido da Sofia — Leo zombava, observando a irmã mais nova puxar Eduardo pelo braço para mais uma brincadeira.

— Por que eu?

— Sei lá, acho que porque você parece uma boneca de porcelana — Leo provocava, rindo da cara de indignação do amigo.

Eduardo adorava aquelas tardes. Depois de brincar, eles ficavam deitados na grama, olhando o céu mudar de cor. Algumas vezes, Leo ensinava Eduardo a assobiar com as mãos. Outras, apenas ficavam em silêncio, ouvindo os sons da fazenda.

Enquanto Eduardo se sentia em casa na fazenda, Leo ficava deslocado quando ia à casa de Eduardo. A casa dos Castilho era enorme, com móveis sofisticados, janelas amplas e um cheiro constante de lavanda no ar.

— Você realmente dorme sozinho num quarto desse tamanho? — Leo perguntou, observando o espaço ao redor na primeira vez que visitou a casa de Eduardo.

— Sim, por quê?

— Sei lá… É que meu quarto é tão pequeno e apertado, cheio de coisa. Antes, eu dividia com minhas irmãs, então era ainda pior.

Eduardo nunca tinha pensado nisso. Para ele, sempre fora normal ter seu próprio espaço, sua própria cama, suas próprias coisas. Mas Leo parecia deslocado ali, como se não soubesse onde colocar as mãos ou como se mover com cuidado para não esbarrar em nada. Até os brinquedos de Eduardo pareciam luxuosos demais para ele.

— Você pode pegar, não vai morder — Eduardo brincou, quando percebeu que Leo hesitava em mexer num dos carrinhos importados que estavam na prateleira.

— E se eu quebrar?

— Eu compro outro.

Leo revirou os olhos, mas pegou o carrinho.

— Você é mesmo um riquinho mimado.

— E você é um caipira desconfiado.

E, como sempre, tudo terminou em risadas.


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Apesar de toda a diversão, havia momentos em que tinham pequenos desentendimentos, típicos de criança.

Certa vez, durante uma brincadeira na praça, Eduardo acabou empurrando Leo sem querer, e ele caiu na areia.

— Você fez de propósito! — Leo reclamou, se levantando e batendo a poeira da roupa.

— Não fiz, não! Foi sem querer!

— Fez sim! — retrucou Leo, apontando para ele com um olhar acusador.

Eduardo bufou, cruzando os braços.

— Você tá exagerando, eu já disse que foi sem querer!

Leo ficou em silêncio por um momento, observando o amigo com os olhos semicerrados, como se estivesse decidindo se continuava a discussão.

Então, do nada, sorriu.

— Você faz uma cara engraçada quando tá bravo.

Eduardo tentou manter a seriedade, mas não conseguiu segurar o riso.

Eles brigavam por besteira, mas nunca ficavam de mal um com o outro por muito tempo.


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O tempo foi passando, e a amizade entre eles se fortaleceu. Eduardo, que antes via São Tomás como um lugar sem graça, começou a gostar da cidade. Começou a conhecer as pessoas pelo nome, a aprender os caminhos de bicicleta, a entender que, às vezes, a diversão estava nas coisas simples.

E Leo foi parte fundamental disso. Passavam os dias juntos, inventando aventuras.

— Um dia, a gente podia fugir e morar numa caverna — Leo disse, enquanto estavam sentados na beira do riacho, jogando pedrinhas na água.

— Pra quê?

— Não sei, só porque seria legal.

Eduardo sorriu.

— Desde que a caverna tenha cama e chuveiro, eu topo.

Leo gargalhou. Eles eram assim: diferentes em quase tudo, mas inseparáveis.

E nenhum dos dois sabia que essa amizade, tão forte e tão pura, um dia se transformaria em algo que eles nem sequer conseguiam nomear.