O Garoto Feito de Sol e Terra
90 Capítulo 90 — Efeitos Colaterais
Leo estava ali, mas ao mesmo tempo, não estava.
Ele seguia sua rotina no automático, cumprindo cada tarefa com precisão, revisando campanhas, aprovando materiais, participando de reuniões com respostas curtas e diretas. Fazia tudo com a eficiência de quem dominava o que fazia. Mas, por dentro, era só um vazio.
A Gravità fervilhava ao redor dele. Pessoas indo e vindo, emails chegando, clientes marcando reuniões, demandas surgindo. Mas Leo só existia dentro desse fluxo, sem realmente sentir nada.
Ele nem se dava ao trabalho de olhar para Diego quando ele estava por perto.
E Diego, por sua vez, não forçava. Mas Leo sentia a presença dele, sentia os olhares pesando sobre si como lâminas afiadas. Diego queria uma reação, qualquer uma, mas Leo não ia dar esse gostinho para ele.
O que eles eram, o que tinham sido… já não existia mais.
E a verdade é que já vinha morrendo há tempos.
Ele pensava em como tudo foi se desgastando aos poucos. Como, no começo, havia aquele sentimento de admiração, de respeito, até mesmo gratidão. Diego era mais velho, mais experiente, tinha lhe dado oportunidades e apoio. Mas, com o tempo, os toques começaram a pesar. As palavras começaram a soar erradas. Os gestos não traziam mais segurança.
E agora?
Agora ele não sentia mais nada.
Nem amor.
Nem raiva.
Nem ódio.
Nem saudade.
Só… nada.
E, talvez, essa fosse a pior parte.
A única coisa que realmente o atormentava era o futuro.
Ele tinha poucos dias no hostel. Depois disso, para onde iria?
O pensamento o deixava aflito. Ele nunca precisou encarar essa incerteza tão brutalmente antes. Seu salário não era de todo ruim, mas encontrar um lugar de uma hora para outra, sozinho, sem qualquer planejamento, era um problema real.
Mas ele não pediria ajuda de ninguém.
Especialmente não de Eduardo.
Ele não podia dar espaço para Eduardo. Não depois daquela noite.
◄☼►
Tati já vinha notando há dias. Leo estava apático, calado demais, distante demais. Mesmo no meio do trabalho, onde normalmente ele se jogava de cabeça, parecia estar apenas sobrevivendo. Como se estivesse no automático, sem realmente estar ali.
Ela tentou perguntar algumas vezes, mas ele sempre desconversava, dando respostas curtas.
Mas naquela tarde, enquanto todos na Gravità estavam ocupados com os projetos, Tati o puxou para um canto discreto.
— Tá na hora de você me contar o que tá acontecendo. — A voz dela veio firme, mas com aquele tom de preocupação genuína que Leo conhecia bem.
Ele desviou os olhos, suspirando.
— Tati, não precisa...
— Precisa, sim. — Ela cruzou os braços. — Eu sou sua amiga, Leo. E, olha, você tá na merda. Tá óbvio. Se você não quer falar aqui, então vamos sair depois do trabalho.
Leo hesitou.
Ele sabia que falar sobre isso seria abrir um buraco que ele estava tentando ignorar. Mas Tati não era do tipo que desistia fácil.
E, no fundo, uma parte dele queria desabafar com alguém.
Ele assentiu, sem olhar para ela.
— Depois do trabalho, então.
Tati deu um sorriso pequeno.
— Ótimo.
◄☼►
Depois do expediente, os dois foram até uma lanchonete próxima à Gravità. O ambiente era simples, impregnado pelo aroma forte de café e hambúrgueres recém-preparados.
Leo pediu um refrigerante, mesmo sem vontade. Seu estômago embrulhava só de imaginar a conversa que estava prestes a ter.
Eles se acomodaram em um canto mais reservado. Tati o observou em silêncio, sem pressa, mas com um olhar que deixava claro que vinha notando algo.
— Você e o Diego terminaram? — ela perguntou, enfim, com a voz suave, porém certeira.
Leo girou o copo entre os dedos, hesitou por um instante e então confirmou:
— Terminamos.
Tati ficou em silêncio por um momento, observando Leo com atenção. Então, soltou um suspiro leve e disse:
— Eu imaginei… Tenho reparado como vocês andam distantes. Não pareciam mais os mesmos.
Leo apertou o copo entre os dedos, sentindo um nó na garganta. Ele sabia que quem estivesse por perto perceberia, mas ouvir isso em voz alta tornava tudo ainda mais real.
Ele assentiu, olhando para o refrigerante.
— E eu tô morando num hostel agora.
Tati arregalou os olhos.
— Meu Deus, Leo... mas o que aconteceu?
Leo hesitou.
Essa era a parte difícil.
Ele queria mentir. Queria dizer que o relacionamento simplesmente não estava dando mais certo. Mas, no fim, ele sabia que Tati não era idiota.
Então, respirou fundo e soltou:
— Eu traí ele.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Tati piscou algumas vezes, claramente tentando processar.
— O quê?!
A incredulidade dela fez algo dentro de Leo doer.
— Você...? — Ela balançou a cabeça, perplexa. — Leo, eu confesso que nunca imaginaria isso de você.
Leo sentiu o peito apertar. Ele não sabia exatamente o que esperava, mas a surpresa dela o atingiu de um jeito ruim.
— É… eu também não.
Tati continuou olhando para ele como se estivesse tentando juntar as peças.
— Você sempre foi tão... correto. Como isso aconteceu?
Leo sentiu o gosto amargo da culpa subir pela garganta.
— Aconteceu. Eu fiz uma escolha ruim, e agora tô pagando por isso.
Ele não mencionou Eduardo. Não conseguia. A expressão de Tati suavizou um pouco.
— Você... — Ela passou a mão pelo rosto. — Droga, Leo. Eu nem sei o que dizer.
Ele soltou uma risada seca.
— Não precisa dizer nada.
Ela ficou em silêncio por um momento antes de falar, mais suave dessa vez:
— Tá, olha... mas você não precisa ficar num hostel. Você pode ficar lá em casa.
Leo imediatamente negou.
— Não, não precisa disso.
— Precisa, sim! — Ela insistiu. — Eu moro com uma amiga, mas a gente dá um jeito.
Leo balançou a cabeça.
— Tati, sério. Eu não quero incomodar ninguém.
Ela bufou, cruzando os braços.
— Você tá sozinho num hostel, sem ninguém, depois de uma merda dessa, e tá me dizendo que não precisa?
Leo não respondeu.
Porque, no fundo, ele sabia que precisava. Mas aceitar ajuda significava admitir o quanto estava ferrado.
E ele não queria admitir isso. Ele queria lidar com aquilo sozinho. Queria sentir que tinha algum controle sobre a própria vida.
Então, apenas tomou um gole do refrigerante, sem olhar para Tati.
Ela suspirou e disse:
— Ok. Mas se mudar de ideia, você sabe onde me encontrar.
Leo não respondeu. Apenas continuou olhando para o copo, sentindo o peso da culpa esmagando seus ombros.
◄☼►
Eduardo não sabia bem por que dirigiu por aquela rua.
Ele só estava indo ao mercado, tentando ocupar a mente com tarefas simples, sem muito sucesso. Desde que Leo o expulsou naquela manhã sufocante, a inquietação não o deixou.
Leo não atendia mais suas ligações, provavelmente o havia bloqueado, pois a chamada nunca era efetuada.
E a Gravità? Eduardo não tinha mais desculpas para aparecer por lá. A campanha estava encerrada. O contrato finalizado.
Então, quando seu olhar bateu numa pessoa saindo de um hostel e indo para a calçada, ele sentiu um aperto esquisito no peito.
Não podia ser.
Mas era.
Porque a porta do hostel se abriu e Leo saiu, com a jaqueta jogada nos ombros e a postura rígida. Ele puxou um cigarro do bolso e acendeu com um isqueiro barato, tragando fundo como se aquilo fosse a única coisa que o mantinha de pé.
Eduardo sentiu uma onda de frustração crescer dentro dele.
O que caralho Leo estava fazendo ali?
Ele estacionou o carro rapidamente, sem hesitar, e desceu. Atravessou a rua com passos firmes, já se preparando para ser recebido com hostilidade.
E ele não precisou esperar muito.
Leo percebeu sua presença antes mesmo que Eduardo dissesse algo. O olhar dele endureceu na mesma hora.
— Que porra você tá fazendo aqui? — Leo esbravejou, soprando a fumaça do cigarro.
Eduardo não recuou.
— Eu que devia perguntar isso. O que você tá fazendo aqui, Leo?
Leo riu sem humor, puxando outra tragada antes de responder.
— Te interessa?
— É claro que sim. O que aconteceu? Você está hospedado aqui? Por quê?
— Não é da sua conta— Leo estreitou os olhos, a voz carregada de raiva contida.
Eduardo respirou fundo, dando um passo à frente.
— Leo, por favor… para com essa teimosia. Me fala o que tá acontecendo.
Leo desviou o olhar, a mandíbula travada.
— Chega, Eduardo. Você já conseguiu o que queria. Queria me comer, conseguiu, parabéns. Agora pode vazar da minha vida.
A forma como Leo cuspiu aquelas palavras fez algo dentro de Eduardo se revirar.
— Porra, para de falar assim, Leo. — Ele rebateu no mesmo instante.
— Não, porque foi exatamente isso. — Leo o encarou, os olhos frios. — Você armou tudo direitinho, me cercou, jogou as palavras certas, e eu caí. Como sempre.
— Não, porra! — Eduardo rebateu na mesma hora, a raiva crescendo. — Você acha que eu fiz tudo isso, que eu voltei, que eu mexi no caralho do passado só pra te levar pra cama? É isso que você pensa de mim?
Leo sustentou o olhar, tragando fundo, como se estivesse decidindo se respondia ou não. Mas então, soltou uma risada sarcástica.
— Pra ser sincero? Sim.
Eduardo sentiu um nó na garganta.
Porque não importava o que Leo falasse, ele via a verdade estampada em cada gesto dele. Na tensão dos ombros, no jeito que apertava os dedos contra o cigarro, na forma como desviava o olhar no último segundo.
— Leo...
— Vaza, Castilho. — Leo interrompeu, a voz carregada de algo que Eduardo não conseguia decifrar.
Mas Eduardo não ia embora sem respostas.
Ele cruzou os braços, estudando Leo por um momento, observando as olheiras, o cansaço estampado na postura, o cigarro tremendo levemente entre os dedos.
E então, soltou:
— Isso tem a ver com o Diego, não tem?
Leo travou. Foi sutil, um pequeno endurecer nos ombros, mas Eduardo percebeu.
— Vocês brigaram? — Ele perguntou, firme.
Leo apertou os lábios e desviou o olhar, tragando fundo o cigarro antes de soltar:
— E se sim? Vai fazer o quê?
As palavras vieram afiadas, cortantes, carregadas de mágoa. Eduardo prendeu a respiração por um instante.
— O que aconteceu, Leo? Ele te expulsou?
— Você não tem o direito de perguntar nada disso. — A voz de Leo era fria, mas seus olhos brilhavam de algo que Eduardo não sabia se era raiva ou dor. — Não tem o direito de agir como se se importasse. Como se você tivesse algum direito sobre mim. Porque não tem.
Eduardo ficou em silêncio.
Porque ele sentiu. Sentiu que, talvez, seu plano de reaproximação tivesse efeitos colaterais que ele não calculou.
Mas ele não iria desistir.
Eduardo suspirou, passando a mão pelo rosto.
— Eu vou descobrir o que aconteceu. E aquele filho da puta vai ter o que merece.
— Faça o que quiser.
E com isso, Leo jogou o cigarro no chão, esmagou a bituca com o pé e entrou de volta no hostel, deixando Eduardo parado ali na calçada.
◄☼►
Leo seguiu com os dias o mais normalmente possível, ou ao menos tentou.
Certo dia, estava na agência, mexendo mecanicamente em alguns relatórios quando recebeu uma notificação no computador. Era Evandro pedindo que fosse até sua sala.
Um arrepio percorreu sua espinha. Algo estava estranho.
Evandro nunca o chamava assim, diretamente.
Com uma sensação de desconforto crescente, Leo se levantou e atravessou o corredor até a sala privada de Evandro. Assim que entrou, notou que o clima ali estava pesado. Evandro estava sério, com os braços cruzados, olhando para ele como se mal acreditasse no que ia dizer.
— Fecha a porta, Leo.
Leo obedeceu, sentindo o coração acelerar.
— Evandro, tá tudo bem?
Evandro respirou fundo, a expressão carregada de decepção.
— Leo, me explica isso aqui.
Ele empurrou um documento impresso sobre a mesa com um movimento seco e preciso. O papel deslizou até Leo, que o pegou com dedos trêmulos, o olhar correndo apressado pelas linhas impressas.
Seu estômago revirou. O sangue pareceu gelar em suas veias à medida que as palavras tomavam forma e sentido.
Era uma denúncia formal, repleta de acusações graves. O documento alegava que Leo havia desviado recursos da campanha, realocando verbas de forma indevida. Havia também uma acusação de que ele teria manipulado o processo de entrega de materiais, favorecendo fornecedores específicos em contratos suspeitos. O relatório detalhava supostas irregularidades, citando valores, datas e até e-mails anexados como "prova" de sua suposta má conduta.
Cada linha parecia apertar um laço invisível em torno de sua garganta.
— Evandro, isso… isso não é verdade! — Leo balbuciou, sentindo o pânico subir ferozmente, como se o ar tivesse se tornado pesado demais para respirar.
Evandro ergueu uma sobrancelha, a expressão endurecida, e puxou outro documento de uma pasta ao seu lado.
— Você tem alguma explicação, então? Porque as provas estão aqui. — Sua voz era afiada, cortante. Ele deslizou mais um papel na direção de Leo. — O que eu vejo aqui é uma atrocidade. Um desvio de caráter. Nunca pensei que você fosse capaz disso.
Leo pegou o novo documento com dedos rígidos, um frio rastejando por sua espinha antes mesmo de entender do que se tratava. Seu olhar correu pelas planilhas anexadas, e o pânico em seu peito se intensificou.
Era um relatório financeiro. Movimentações suspeitas, valores que sumiram sem rastros claros, tudo organizado em uma linha do tempo precisa. O mais aterrorizante era que os números batiam exatamente com as denúncias feitas contra ele. Cada transação, cada valor realocado se alinhava perfeitamente às acusações de desvio de dinheiro e favorecimento ilícito.
— Isso… isso não faz sentido — Leo murmurou, a voz quase um fio de ar.
Ele abriu a boca para continuar, mas as palavras morreram antes de serem formadas. Seu olhar voltou para o documento, varrendo os detalhes com desespero crescente. Eram informações específicas, detalhadas demais para serem apenas suposições. Alguém de dentro da equipe precisava estar por trás disso.
E esse alguém tinha feito um trabalho impecável em incriminá-lo.
Diego.
Só podia ser ele.
— Evandro, eu… eu não fiz nada disso. Alguém… alguém está armando pra mim. Eu nunca—
— Leo. — Evandro o interrompeu, a voz fria. — Eu gosto de você, mas não posso ignorar essa denúncia. Você tem ideia do impacto disso? Não é um erro pequeno. Isso pode inclusive virar um processo criminal.
Leo sentiu o chão sumir sob seus pés.
— Eu juro que não fiz nada errado. Alguém… alguém está armando pra mim. Você me conhece, eu nunca faria—
Evandro balançou a cabeça lentamente.
— Eu achava que te conhecia. — Evandro rebateu de imediato. — Mas as provas estão aqui. O que você quer que eu faça? Que ignore? Que passe a mão na sua cabeça?
Leo engoliu em seco.
Evandro fechou os olhos por um instante, como se estivesse ponderando algo, mas quando os abriu novamente, sua decisão já estava tomada.
— Sinto muito, Leo. Não tem como continuar com você aqui. Isso é uma quebra irreparável de confiança. Está dispensado.
O mundo de Leo parou.
Por um instante, tudo ao redor pareceu se distanciar, as palavras de Evandro ecoando em sua mente como um golpe seco. Ele tentou processar, tentou encontrar algo para dizer, alguma defesa, qualquer coisa.
— Mas… — Sua voz saiu fraca, hesitante.
Evandro, no entanto, já estava de pé. Sem dizer mais nada, caminhou até a porta e a abriu, deixando claro que a conversa tinha acabado.
Leo sentiu um peso esmagador no peito. Não havia espaço para argumentos. Não havia segunda chance, pois ele não tinha como provar nada.
Engolindo em seco, ele apenas se levantou e saiu da sala em silêncio, sentindo os olhos de todos em sua direção.
Alguém do RH já estava ao lado de sua mesa, recolhendo o notebook da empresa e colocando todo o resto dos seus pertences em uma caixa. Leo saiu, segurando a caixa com a mão trêmula. Ele se sentia exposto, humilhado, traído.
Quando passou pela área comum, seu olhar encontrou o de Diego, que estava sentado casualmente em uma das mesas de reunião, observando tudo com um sorriso discreto.
Um sorriso de vitória.
Leo sentiu uma onda de raiva, vergonha e impotência percorrer seu corpo, mas manteve a cabeça erguida e saiu da Gravità sem dizer nada.
Sem olhar para trás.
Porque, naquele momento, ele sabia que tinha perdido mais do que um emprego.
Tinha perdido parte de si mesmo.
◄☼►
Leo entrou no pequeno quarto do hostel e fechou a porta com força, trancando-a atrás de si. Seu peito subia e descia em respirações irregulares, a visão turva pelas lágrimas que ele tentava conter, mas não conseguiu.
A mochila deslizou de seus ombros e caiu no chão, junto com a caixa que segurava. Ele não se importou. Passou as mãos pelos cabelos loiros, pressionando os olhos com os dedos, como se isso pudesse conter a dor esmagadora dentro dele.
Mas era impossível.
Ele tinha perdido tudo.
Seu emprego. Sua estabilidade. Sua dignidade.
Tudo armado, tudo manipulado por Diego, e ele não pôde fazer nada.
O choro veio como um soco no estômago, cortante, incontrolável. Ele se jogou na cama pequena e apertou os travesseiros contra o rosto, tentando sufocar os soluços desesperados. Seu corpo tremia, o peito doía, a cabeça latejava.
Ele não sabia quanto tempo passou assim, mas a dor não diminuía.
Por que ele confiou em Diego?
Por que tinha ficado ao lado de alguém que, no fim, estava disposto a destruí-lo sem hesitação?
O celular vibrou ao lado da cama.
Ele pegou o aparelho com mãos trêmulas.
Tati: Leo, pelo amor de Deus, o que aconteceu?
Tati: Fala comigo, tô preocupada
Tati: A Gravità não faria isso sem motivo. Eu sei que tem algo errado. Me responde, por favor
Leo olhou para as mensagens sem forças para responder.
O que ele diria? O que ele poderia dizer? Nada que aliviasse aquela dor. Nada que fizesse tudo voltar ao normal.
Ele bloqueou a tela do celular e o jogou de lado. Se encolheu na cama, o corpo ainda tremendo, as lágrimas ainda quentes escorrendo pelo rosto.
Ele percebeu que não tinha nada.
Nem casa. Nem emprego.
Ele estava completamente sozinho.
◄☼►
O celular vibrou na cama.
Leo franziu a testa ao ver o nome na tela. Diego.
Seu primeiro impulso foi ignorar, mas o ódio, o rancor, a necessidade de enfrentar aquela merda o fizeram atender.
— O que você quer? — A voz dele saiu ríspida, carregada de exaustão e raiva contida.
Do outro lado, Diego soltou uma risada baixa, venenosa.
— Queria saber como está se sentindo agora que teve o que mereceu.
Leo apertou o telefone contra a orelha, os dedos tremendo de raiva.
— Vai se foder, Diego.
— Você achou mesmo que ia me ferrar e sair ileso? Acha que a vida funciona assim? — Diego rebateu, a voz carregada de sarcasmo
Leo cerrou os dentes, o peito queimando de ódio.
— Você me destruiu.
— Você se destruiu sozinho, Leonardo. — Diego cortou, frio. — Eu só dei um empurrão pra acelerar o inevitável.
Leo apertou os olhos, tentando manter a respiração estável.
O silêncio pesava entre eles, denso e sufocante. Ele queria se segurar, queria engolir aquilo e simplesmente desligar, mas a dor em seu peito era grande demais.
Então, após uma pausa, sua voz veio, trêmula, embargada:
— Então… o que a gente teve nunca significou nada pra você?
Silêncio.
Por alguns segundos, Diego não respondeu.
Quando falou, sua voz veio calma demais, quase clínica:
— Significou. Acho que o contrário é que não aconteceu, né?
— Eu sei que errei, mas nunca quis que as coisas chegassem nesse ponto — Leo murmurou.
Diego deu de ombros, indiferente:
— É, mas chegou. A partir do momento que você vacilou comigo, eu não quis mais saber. Foda-se.
Leo riu, uma risada amarga, incrédula. Respondeu:
— Mesmo se você vacilasse comigo, eu nunca faria algo assim com você. Nunca.
O silêncio voltou a se instalar entre eles, pesado, quase sufocante.
Então, Diego suspirou, mas sua voz continuava impassível, sem qualquer vestígio de hesitação.
— Pois é, Leo. Mas não somos iguais.
A linha ficou muda logo depois. Leo desligou a chamada.
O som do silêncio pesou no quarto minúsculo do hostel. Ele passou as mãos pelo rosto, respirando fundo.
Ele não ficaria ali. Não suportaria ficar ali. Ele não tinha nada mais naquela cidade, nada que valesse a pena.
Então, naquela noite, Leo tomou sua decisão. Ele voltaria para São Tomás, para a fazenda. Para onde tudo começou. Para onde ele poderia sumir de todo esse caos.
◄☼►
Leo jogou a mochila surrada no assento ao lado e afundou no banco do ônibus, exausto. A viagem seria longa, mas ele não se importava. Qualquer coisa era melhor do que ficar naquele lugar.
O motor roncou, e o veículo começou a se movimentar, deixando as luzes da cidade para trás. Leo encostou a cabeça na janela, sentindo o vidro frio contra a pele. Ele não queria chorar. Não queria sentir nada.
Mas então, sem aviso, as lágrimas vieram.
Ele apertou os olhos com força, engolindo a seco, tentando conter, tentando ser forte. Mas era inútil. Cada solavanco do ônibus parecia trazer à tona todo o peso dos últimos dias.
A humilhação. O ódio. A culpa. O vazio.
Ele secou as lágrimas com pressa, quase com raiva, como se aquilo pudesse apagá-las, como se pudesse se convencer de que não doía tanto assim.
Mas doía. Doía pra caralho.
Seu celular vibrou no bolso.
Leo suspirou e pegou o aparelho, sem muito interesse. Mas então viu uma notificação do Instagram.
Solicitação de mensagem – Eduardo Castilho.
Ele prendeu a respiração por um instante.
Claro que Eduardo tentaria entrar em contato. Ele já tinha bloqueado o número, mas Eduardo era insistente. Ele sempre foi.
Leo clicou na notificação, e a mensagem apareceu na tela:
Eduardo: Leo, precisamos conversar. Me responde, por favor
O estômago de Leo se revirou.
Ele não respondeu. Não havia mais conversa alguma a ser tida.
Já havia bloqueado o número de Eduardo e, sem hesitar, o bloqueou no Instagram também. Respirou fundo e fechou os olhos.
A estrada seguia diante dele e ele não olharia para trás.
◄☼►
O ônibus sacudia na estrada de terra, levantando poeira enquanto se aproximava do pequeno município de São Tomás. Leo observava a paisagem passar pela janela suja, campos verdes, estradas de chão batido, pequenos sítios espalhados ao longo do caminho.
Cada quilômetro que o aproximava da fazenda trazia uma onda de nostalgia sufocante. Fazia bastante tempo que não pisava ali.
Quando o ônibus finalmente parou no pequeno ponto no centro da cidade, Leo desceu com sua mochila e caminhou até o mercadinho local para chamar um transporte. No fim, pegou uma carona com um conhecido da família, que o deixou na porteira da fazenda.
E então, lá estava ela.
A casa onde cresceu, a terra onde brincou na infância, os cheiros, os sons… tudo igual.
Mas algo estava diferente.
Assim que atravessou a varanda e entrou pela porta da cozinha, encontrou sua mãe sentada à mesa, parecendo fraca, pálida, as mãos sobre o abdômen. Mariana, sua irmã do meio, terminava de colocar um chá diante dela, enquanto Sofia, a caçula, mexia no celular com uma expressão preocupada.
Leo parou no batente da porta, sentindo o coração afundar.
— O que está acontecendo?
As três se viraram para ele.
— Leo! — Sofia foi a primeira a reagir, correndo para abraçá-lo.
Rita sorriu, mas seu semblante cansado fez Leo gelar.
— Filho… você voltou.
Leo olhou para a mãe, depois para Mariana, e percebeu o desconforto no olhar das irmãs.
— O que tá acontecendo aqui? — Ele perguntou, a voz tensa.
Mariana trocou um olhar com sua mãe antes de responder.
— Mamãe tá doente.
Leo sentiu o estômago se apertar.
— Doente como?
Rita tentou minimizar.
— É só uma dor na barriga, filho. Não precisa se preocupar.
Mas Mariana bufou, cruzando os braços.
— O médico disse que é apendicite, Leo. Ela precisa fazer uma cirurgia, mas ainda não fez.
O sangue de Leo gelou.
Ele se virou para a mãe, incrédulo.
— Apendicite? Mãe, isso é sério! Por que diabos você não fez a cirurgia ainda?!
Rita suspirou.
— Gustavo tá viajando, Leo. Não queria dar trabalho.
Leo passou a mão pelo rosto, sentindo a raiva crescer.
— Vocês deviam ter me ligado!
— E dizer o quê? — Mariana rebateu, exasperada. — "Ei, Leo, tudo bem aí na cidade? Então, mamãe pode precisar de uma cirurgia, mas não se preocupa, tá?"
— Sim! — Ele explodiu. — Era exatamente isso que vocês deviam ter feito!
Mariana suspirou e disse:
— A verdade é que no hospital público a fila para qualquer cirurgia está quilométrica... e Gustavo está na estrada pra fazer uma entrega, sabe-se Deus quando ele vem aqui.
Leo respirou fundo, tentando controlar o pânico crescente.
Sofia abaixou o olhar, e Mariana ficou em silêncio, mas Rita apenas sorria, com a paciência de sempre.
Ele não sabia como consertar a própria vida, mas precisava dar um jeito de cuidar da mãe.
Afinal… isso era tudo o que lhe restava agora.
◄☼►
O relógio da cozinha marcava quase nove da noite quando Leo finalmente se jogou na cadeira, exausto da discussão com as irmãs. Sua cabeça girava com o peso da situação.
O hospital público da região era precário. Conseguir a cirurgia ali significava esperar por Deus sabe quanto tempo, e, pela dor evidente da mãe, ele sabia que não podiam esperar.
Mariana cruzou os braços, séria.
— Eu já fui atrás. Falei com um hospital particular essa semana, e um dos médicos foi bem gentil. Disse que consegue encaixar a mãe pra operar assim que a gente pagar.
Leo ergueu o olhar imediatamente.
— Quanto?
Mariana suspirou e pegou o celular, já com a informação na tela.
— Oito mil reais.
O número caiu pesado sobre ele. O estômago revirou.
Oito mil. Era um dinheiro que ele simplesmente não tinha.
— E Gustavo? — perguntou, a voz saindo mais ríspida do que queria.
— Ele tá sem dinheiro, Leo — Mariana respondeu, cansada.
Leo franziu o cenho.
— Sem dinheiro? Mas ele tá rodando direto!
Sofia bufou, impaciente.
— Caminhoneiro não é rico, Leo. O diesel tá um absurdo, os fretes mal pagam as contas. Ele mandou o que pôde mês passado, mas agora tá no limite.
Leo apertou os olhos.
Ele também não tinha um centavo. O dinheiro que ainda restava iria embora no fim da semana com a diária do hostel, que ele sequer poderia pagar mais.
Fechou os punhos. Que merda de vida era essa?
— Eu posso pedir pro Gustavo tentar com algum amigo caminhoneiro — Mariana sugeriu.
Leo balançou a cabeça.
— Eu não vou esperar por favores.
Não ia deixar a mãe sofrer esperando que uma boa alma caísse do céu. Puxou o celular do bolso e abriu o aplicativo do banco.
A palavra "empréstimo" brilhava na tela.
O peito apertou. Ele nunca teve que recorrer a isso antes. Mas agora? Agora não havia escolha.
Digitou o valor. Calculou os juros. Era absurdo, sufocante, mas necessário.
Apertou o botão de confirmação e, em segundos, a dívida estava feita.
— Eu vou pagar essa cirurgia.
Mariana e Sofia se entreolharam, surpresas.
— Como? — Mariana perguntou, desconfiada.
Leo trincou o maxilar, sem responder. Porque, naquele momento, ele ainda não sabia.
Mas uma coisa era certa: ele daria um jeito.
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