O Garoto Feito de Sol e Terra
87 Capítulo 87 — Saudade
Nos dias seguintes, o clima entre Leo e Diego estava longe de ser o mesmo de antes. A tensão pairava entre eles, silenciosa, mas sufocante. Diego não falava mais sobre a briga no bar, mas Leo sabia que aquilo ainda estava ali, preso no meio dos dois como uma sombra indesejada. O jeito que Diego o olhava, como se esperasse qualquer deslize, qualquer motivo para trazer o assunto de volta, deixava Leo inquieto.
E, por causa disso, Leo tomou uma decisão simples: ignorar Eduardo completamente.
Quando Eduardo aparecia na Gravità, Leo se mantinha ocupado, focado, sem sequer erguer os olhos para ele. Se alguém falava o nome de Eduardo, Leo fingia que não ouvia. Se Eduardo passava por perto, Leo simplesmente não olhava.
Era melhor assim.
Eduardo, por sua vez, não forçava nada. Parecia entender o recado. Ainda aparecia para acompanhar os trabalhos da campanha, conversava com Evandro, revisava os materiais, mas não tentava puxar assunto com Leo.
Sempre que Diego estava por perto, lançava a Eduardo olhares carregados de desprezo.
Se incomodava? Sim.
Mas Eduardo já tinha deixado claro que não fugiria.
◄☼►
Enquanto Leo revisava alguns materiais no computador, o celular vibrou discretamente ao lado do teclado.
Uma notificação no WhatsApp.
Tati.
Ele franziu o cenho antes de desbloquear a tela.
Tati: O que aconteceu no bar depois que eu fui embora??
Leo respirou fundo, revirando os olhos antes de responder.
Leo: Nada demais
A resposta foi rápida.
Tati: Nada demais? Sério? Porque ouvi que seu namorado e o Castilho saíram na porrada. Quer tentar de novo?
Leo apertou os lábios, sentindo um incômodo no peito. Ele não queria falar sobre aquilo. Não queria pensar na merda toda que Diego armou, na forma como Eduardo reagiu e, principalmente, na conversa que teve com Diego depois.
Ele hesitou antes de digitar uma resposta mais longa.
Leo: Diego que foi provocar. Castilho revidou. Aí deu no que deu
Tati: E VOCÊ no meio disso tudo?
Leo respirou fundo, os dedos pairando sobre o teclado do celular.
Leo: Eu só queria sair dali
Tati demorou um pouco mais para responder dessa vez.
Tati: Tá tudo bem entre vocês?
Leo engoliu seco, apertando o celular nas mãos.
Ele queria dizer que sim. Queria escrever uma resposta simples, mudar de assunto, seguir o dia sem mais complicações.
Mas seus dedos não se moveram.
Porque a verdade era que ele não sabia mais se estava tudo bem.
◄☼►
Diego recebeu a proposta na manhã de segunda-feira.
Uma viagem a trabalho para outro estado, um projeto grande envolvendo dramaturgia e produção de conteúdo para uma campanha nacional. Duas semanas longe.
Leo ouviu tudo sentado no sofá, observando Diego explicar os detalhes animado, gesticulando enquanto falava. No passado, Leo teria se sentido ansioso, inseguro, talvez até triste com a partida do namorado.
Mas agora… tudo que sentia era alívio.
Não que ele quisesse admitir isso. Mas era um respiro. Um tempo para si mesmo, longe da tensão constante, dos questionamentos, do olhar sempre vigilante de Diego.
— Vou no fim de semana — Diego disse, sentando-se ao lado de Leo e segurando seu rosto com uma das mãos. — Você vai sentir minha falta?
Leo forçou um pequeno sorriso.
— Claro.
Diego o encarou por um momento, analisando cada detalhe de sua expressão.
— Então mostra pra mim.
Leo sentiu o aperto familiar no peito.
Porque ele sabia o que vinha a seguir.
Diego o puxou para um beijo firme, intenso, possessivo. Como se quisesse marcá-lo antes de ir. Como se quisesse lembrá-lo a quem ele pertencia.
E Leo deixou.
Porque era mais fácil. Porque ele não queria mais brigas. Porque, no fundo, uma parte dele se agarrava à ideia de que tudo poderia voltar ao normal.
Mas enquanto Diego o empurrava contra o colchão e o tomava como sempre fazia, Leo percebeu que não sentia nada.
O toque já não queimava. O desejo não vinha.
E, pela primeira vez, enquanto os olhos de Leo estavam fechados, ele permitiu que sua mente vagasse para outra pessoa.
E isso o fez odiar a si mesmo ainda mais.
◄☼►
Uma semana e meia se passou desde que Diego partiu em viagem.
Mesmo assim, o silêncio entre Leo e Eduardo continuava absoluto.
Leo o evitava. Não olhava em sua direção, não respondia a nenhuma tentativa de aproximação. Eduardo, por sua vez, não insistiu.
Mas agora, a campanha estava pronta.
Eduardo estava sentado sozinho na sala de reuniões da Gravità enquanto assistia ao vídeo finalizado no notebook.
A tela iluminava seu rosto enquanto ele observava as imagens se desenrolarem diante de seus olhos.
Era impecável.
As tomadas do campo, os ângulos escolhidos, a composição das cores, a forma como cada cena capturava a essência do agronegócio com um toque quase cinematográfico.
E ali, em cada detalhe, ele via Leo.
A assinatura de Leo estava em cada enquadramento, em cada ajuste de luz, na suavidade da edição.
Eduardo respirou fundo, absorvendo tudo.
As fotos estavam dispostas ao lado, no material impresso que a equipe havia preparado. Ele passou os dedos sobre uma das imagens, onde o pôr do sol dourava o campo vasto, dando um ar quase etéreo ao lugar.
Era um trabalho excepcional.
E Eduardo não pôde evitar um pequeno sorriso ao pensar no quanto Leo era bom profissionalmente.
Não quis mais pensar em nada. Ali só existia o talento de Leo, gritando em cada frame, em cada clique da câmera.
E Eduardo sentiu um orgulho absurdo.
Ele fechou o notebook com um clique suave, recostando-se na cadeira por um instante. O orgulho pelo trabalho impecável de Leo e da equipe da Gravità ainda pulsava em seu peito.
Esse projeto precisava de uma comemoração.
Sem hesitar, pegou o celular e enviou uma mensagem para Evandro, chamando-o até a sala. Alguns minutos depois, o diretor de marketing entrou, trazendo consigo um ar sempre profissional, mas com um brilho curioso no olhar.
— O que achou? — Evandro perguntou, sentando-se ao lado de Eduardo.
Eduardo sorriu de canto.
— Excelente. Vocês fizeram um trabalho impecável. Superou todas as expectativas.
Evandro soltou um riso satisfeito.
— Bom ouvir isso. A equipe se dedicou muito. Principalmente o Leo, ele ficou horas revisando tudo pra garantir que a identidade visual e narrativa estivessem alinhadas.
O nome de Leo fez algo apertar no peito de Eduardo, mas ele ignorou. Ele já sabia disso. Era impossível não ver o toque dele em cada detalhe.
— E é exatamente por isso que acho que precisamos comemorar. — Eduardo sugeriu. — Um happy hour, tudo por minha conta.
Evandro arqueou uma sobrancelha, surpreso.
— Isso sim é um cliente satisfeito.
Eduardo riu.
— E com razão. A campanha ficou incrível. Então, o que acha de juntar a equipe e irmos a um bar aqui perto para comemorar? Nada muito formal, só pra gente brindar ao trabalho bem feito.
Evandro já estava pegando o celular, animado com a ideia.
— Gostei disso. Vou avisar a todos.
Eduardo assentiu, levantando-se.
— Ótimo. Vejo vocês lá então.
Enquanto saía da sala, Eduardo sabia que Leo provavelmente não iria gostar disso. Mas, depois de tanto tempo evitando Eduardo, seria impossível ignorá-lo hoje à noite.
◄☼►
O bar já estava animado quando Eduardo chegou. Escolheu uma mesa estratégica, espaçosa o suficiente para acomodar toda a equipe, e pediu uma rodada de chopes para dar início à comemoração. Ele estava ansioso, mas manteve a expressão neutra, bebendo devagar enquanto esperava os outros chegarem.
Pouco a pouco, a equipe da Gravità foi aparecendo. Evandro, Karina, Rafael... Todos em clima descontraído, satisfeitos com o sucesso do projeto. Eduardo se levantou para cumprimentá-los um a um, trocando sorrisos e comentários sobre a campanha.
E então, quando ele menos esperava, Leo entrou.
Por um segundo, Eduardo sentiu o tempo desacelerar. Leo usava uma jaqueta escura, os cabelos um pouco bagunçados pelo vento, e a expressão contrariada denunciava que ele não queria estar ali.
— Tive que arrastar esse aqui. — Tati comentou, rindo enquanto dava um leve empurrão em Leo para que ele andasse. — Caseiro do jeito que é, quase que ia pra casa.
Leo respirou fundo, trocou um olhar rápido com Eduardo e desviou imediatamente, como se nada tivesse acontecido. Eduardo, por sua vez, escondeu um pequeno sorriso ao perceber que, apesar de toda resistência, Leo tinha vindo.
◄☼►
A noite avançava e, aos poucos, a mesa grande foi se esvaziando. Entre rodadas de bebida e risadas, as pessoas foram se dispersando para os jogos do bar. Havia sinuca, dardos, fliperamas, e até um karaokê em um canto mais afastado.
Eduardo observava tudo sem realmente prestar atenção. Seu olhar, sem querer, sempre voltava para Leo.
Leo estava encostado na bancada do bar, segurando um copo com algum drink, girando-o levemente entre os dedos. Ele estava sozinho, alheio às conversas e à animação ao redor.
Era a oportunidade perfeita.
Eduardo respirou fundo, largou seu copo na mesa e atravessou o bar até ele.
Leo nem se moveu quando percebeu a aproximação.
— Sai daqui, Eduardo. — Sua voz saiu baixa, mas firme.
Eduardo ignorou.
— Eu queria te dizer uma coisa.
Leo soltou um suspiro impaciente, mas não respondeu.
— O seu trabalho foi impecável. — Eduardo continuou, sincero. — Eu fiquei impressionado, de verdade. E muito orgulhoso.
Leo virou o copo nos lábios, terminando o drink em um gole só. Não disse nada.
— Me fez lembrar de você na fazenda. — Eduardo sorriu de leve, apoiando o antebraço na bancada. — Aquele garotinho que passava o dia tirando fotos de tudo com aquele celular velho… aquele que eu te dei, lembra?
O silêncio caiu entre eles.
Pesado.
Leo ficou imóvel.
Eduardo percebeu o modo como os dedos dele apertaram um pouco mais o copo vazio, a respiração ficando mais lenta, como se estivesse tentando conter algo.
E então, quando Eduardo olhou melhor… viu.
Os olhos de Leo estavam marejados.
Ele sentiu aquilo como uma facada no peito.
— Leo? — Eduardo chamou, hesitante. — O que foi?
Leo respirou fundo e fechou os olhos por um instante, como se estivesse tentando recuperar o controle sobre si mesmo. Mas, quando voltou a abri-los, finalmente falou, sua voz saindo embargada:
— Você não tem ideia do inferno que foi quando você me deixou, Eduardo.
Eduardo, surpreso, prendeu a respiração.
— Você foi embora, e eu… — Leo continuou, desviando o olhar. — Eu esperei. Esperei você aparecer. Dar um sinal de vida, tentar consertar o que tínhamos, sei lá, qualquer coisa.
A garganta de Eduardo apertou.
— E depois de anos, você simplesmente aparece.
Leo balançou a cabeça, passando a mão pelos cabelos, respirando com dificuldade.
Eduardo não hesitou mais.
— Leo, eu sinto muito. Me perdoa.
Leo balançou a cabeça em negação.
— Você acha que um "sinto muito, me perdoa" apaga tudo?
Eduardo sentiu o coração pesar no peito.
— Eu sei que não. Mas eu não posso mudar o que eu fiz. Eu só posso te pedir perdão… e te provar que eu nunca mais te machucaria.
Leo apertou os olhos com força, como se quisesse afastar todas as emoções. Eduardo sentiu o peito doer ao vê-lo assim, e, pela primeira vez, percebeu o quanto Leo ainda estava quebrado por dentro.
Eduardo se inclinou um pouco mais para perto, sem invadir o espaço de Leo, mas tentando garantir que ele ouvisse cada palavra.
— Você nunca mereceu nada disso, Leo. Nunca.
Leo continuava de cabeça baixa, segurando o copo vazio como se aquilo fosse o único suporte que o impedia de desmoronar ali mesmo.
— Você merecia tudo. — Eduardo continuou, a voz firme, mas cheia de culpa. — Merecia alguém que não tivesse medo. Alguém que te olhasse nos olhos e dissesse que te queria sem hesitar, sem pensar em mais nada. Alguém que não se escondesse, que não tivesse qualquer receio de assumir o que sentia, que não fugisse feito um covarde.
Leo passou a mão pelo rosto. Eduardo viu quando uma lágrima caiu, e depois outra. Leo não queria chorar, mas estava chorando. E aquilo fez o peito de Eduardo doer ainda mais.
— Eu me odeio por isso, Leo. Mesmo. — A voz dele saiu baixa, quase um sussurro. — Se eu pudesse… se eu pudesse voltar no tempo, eu daria um tiro naquele Eduardo do passado.
Leo levantou os olhos na hora, o olhar brilhando de lágrimas e incredulidade. Eduardo soltou uma risada triste.
— É verdade, Leo. Eu sinto ódio, raiva, vergonha por tudo que fiz. Eu não soube dar valor ao que realmente importava. E agora, aqui estou eu, tentando me redimir de tudo que falei, de tudo que fiz com você.
Leo desviou o olhar, respirando fundo, tentando recuperar o controle sobre si mesmo.
— Eu só… — Eduardo hesitou, mas então soltou de uma vez. — Eu só queria que você soubesse disso.
Leo apertou os olhos, como se tentasse sufocar qualquer sentimento que queria transbordar. Ele inspirou profundamente, mantendo o olhar fixo no copo vazio em suas mãos. Sua voz veio baixa, quase um sussurro, mas cada palavra atingiu Eduardo como uma faca cravada no peito.
— Eu tive que te matar, Eduardo.
Eduardo franziu a testa, confuso.
— O quê?
Leo soltou uma risada curta e amarga, balançando a cabeça.
— Você me deixou sem escolha. — Ele ergueu os olhos, finalmente encarando Eduardo, e ali havia algo que Eduardo nunca tinha visto antes: um cansaço profundo, algo quebrado, algo irreparável. — Você acha que eu consegui seguir em frente só porque o tempo passou? Porque eu decidi esquecer?
Eduardo não disse nada. Não sabia o que dizer.
Leo apertou o copo em suas mãos, a voz falhando conforme continuava.
— Eu tive que me convencer que você tinha morrido. Porque era mais fácil lidar com isso do que viver esperando um sinal de vida.
Eduardo sentiu o ar escapar de seus pulmões.
As palavras de Leo ecoaram dentro dele, esmagando tudo.
— Leo…
Mas Leo apenas negou com a cabeça, desviando o olhar, passando a mão pelo rosto para limpar as lágrimas teimosas.
Eduardo sentiu sua visão embaçar. Ele piscou algumas vezes, mas as lágrimas vieram assim mesmo.
A ideia de que Leo precisou apagar sua existência da própria vida, que precisou "matá-lo" para seguir em frente, era cruel demais para suportar. E Eduardo percebeu, naquele instante, que não importava o quanto tentasse consertar as coisas…
O passado nunca poderia ser apagado.
◄☼►
Leo não disse mais nada. Apenas virou as costas e saiu, deixando Eduardo parado ali, com o peito esmagado pelo peso do que acabara de ouvir.
Ele o matou.
A frase ecoava na cabeça de Eduardo como um soco, como um golpe impossível de absorver.
Mas Leo… Leo seguiu em passos rápidos para o banheiro.
Assim que entrou, fechou a porta e encostou-se contra a pia, respirando fundo, tentando ignorar o aperto no peito e as lágrimas que ainda teimavam em marejar seus olhos. Ele esfregou as mãos no rosto, como se pudesse apagar o que sentia.
Não podia.
Ele fechou os olhos por um instante, tentando recuperar a compostura. Quando se sentiu um pouco melhor, abriu a porta para sair.
— Tá tudo bem?
A voz de Tati o tirou de seus pensamentos. Ele abriu os olhos e viu a amiga parada na porta, olhando para ele com preocupação.
Leo respirou fundo e forçou um pequeno sorriso.
— Sim. — Sua voz saiu firme, mesmo que sua expressão dissesse o contrário.
Tati franziu a testa, parecendo duvidar, mas não insistiu. Apenas assentiu e saiu, deixando Leo sozinho novamente.
Ele não queria ficar mais nenhum segundo naquele bar. Precisava ir embora.
Puxou o celular do bolso e abriu o aplicativo de transporte. Com os dedos ainda ligeiramente trêmulos, pediu uma corrida até seu apartamento.
Ele voltou para a mesa, sentando-se em um canto enquanto esperava.
Foi quando ouviu o barulho da chuva.
Forte. Torrencial.
Ele olhou para fora e viu as ruas já alagadas, a água escorrendo pelo asfalto iluminado pelos postes.
— Você não vai conseguir um carro tão cedo com essa chuva — Eduardo disse, aproximando-se devagar.
Leo nem olhou para ele.
— Eu espero.
Eduardo suspirou e passou a mão pelos cabelos.
— Eu tô de carro. Posso te levar.
Leo imediatamente negou.
— Não.
— Leo, não seja teimoso.
— Eu já disse que não.
A voz de Leo veio afiada, cortante. Ele finalmente ergueu os olhos para Eduardo, deixando claro que não queria aquele tipo de ajuda.
Eduardo trincou o maxilar, mas se manteve calmo.
— Você vai ficar plantado aqui esperando um Uber que não vai chegar tão cedo?
— Isso não é problema seu.
Eduardo segurou um suspiro, mas não desistiu.
— Leo…
— Eu não quero nada de você, Castilho. — Leo interrompeu, a voz firme, mas um pouco cansada. — Então, por favor, me deixe em paz.
Eduardo sentiu o peito apertar de novo.
Mas não insistiu.
Leo observou o celular pela milésima vez, os dedos deslizando impacientes pela tela. Um motorista que havia aceitado sua corrida cancelou minutos depois, provavelmente desmotivado pela chuva intensa. Ele tentou novamente, mas ninguém aceitava.
O bar já estava mais vazio. Algumas pessoas tinham conseguido ir embora antes da tempestade piorar, outras ainda estavam lá, jogando sinuca ou conversando em pequenos grupos.
Eduardo, por sua vez, estava em outro canto, conversando com alguns funcionários da Gravità, mantendo uma postura tranquila. Mas, vez ou outra, seu olhar ia parar exatamente onde Leo estava, sozinho, esperando algo que não parecia vir.
O tempo passou. Quinze minutos. Vinte. Vinte e cinco.
Leo bufou baixinho. O desconforto de estar ali crescia. A chuva não dava trégua, e ele não queria ter que pedir carona para ninguém.
Até que, quando o relógio marcou mais de meia hora de espera, Eduardo se aproximou novamente.
Ele parou ao lado de Leo, sem ser invasivo, e falou baixinho, apenas para que ele ouvisse:
— Já disse que posso te levar. O carro tá bem ali.
A voz dele estava calma, sem provocação, sem insistência.
Leo trincou o maxilar.
— Eu já disse que não preciso.
Eduardo suspirou, sem desviar os olhos.
— Você tá aqui há quase quarenta minutos esperando. Ninguém vai aceitar essa corrida com esse temporal.
Leo desviou o olhar para a tela do celular, vendo mais um motorista cancelar.
Ele sentiu a raiva subir pela garganta, mas dessa vez não era com Eduardo. Era consigo mesmo, por estar nessa situação.
Passou mais quinze minutos insistindo, tentando convencer a si mesmo de que esperar era melhor do que aceitar aquela carona. Mas a chuva não diminuía, e ninguém aceitava a corrida.
Por fim, respirou fundo, guardou o celular no bolso e se levantou.
Olhou para Eduardo com relutância.
— Vamos logo.
Eduardo precisou se controlar para não demonstrar o que sentia. Mas por dentro, ele estava morrendo de felicidade.
◄☼►
Eduardo se despediu do grupo no bar com um aceno breve, sem entrar em detalhes. Antes de sair, passou pelo caixa, quitou o que haviam consumido até ali e orientou que o restante fosse registrado na conta da Gravità. Garantiu a Evandro que reembolsaria tudo depois.
Leo, por outro lado, saiu de fininho, evitando qualquer olhar curioso. Não queria que ninguém percebesse que estava indo embora com Eduardo.
O caminho até o carro foi rápido, os dois encolhidos sob a tempestade. Assim que entraram, Eduardo ligou o motor e arrancou, cortando a escuridão molhada da cidade.
No carro, o silêncio era quase absoluto.
A única coisa preenchendo o espaço entre eles era o som baixo da rádio, uma melodia suave misturada ao tamborilar da chuva contra os vidros.
Leo olhava para fora, mas não via nada além do borrão das luzes da cidade. Sua mente estava longe dali. Ele estava pensando na conversa que tiveram mais cedo.
Pensando nas palavras de Eduardo.
Pensando no olhar dele quando disse que queria ter dado um tiro no próprio eu do passado.
E, acima de tudo, estava pensando naquilo que ele evitava há anos.
Como seria sentir Eduardo de novo?
Ele já se pegou imaginando antes, é claro. Mas sempre afastava esses pensamentos. Sempre se convencia de que não queria. Que não fazia sentido.
Mas agora, ali, tão perto, com Eduardo dirigindo ao seu lado, com a memória da voz dele, do toque, do cheiro, do calor...
Era insuportável não pensar nisso.
Porque, no fundo, Leo sabia a verdade.
Ele sentia saudade.
Saudade do Eduardo que ria junto com ele.
Saudade do Eduardo que corria com ele no campo, como se o mundo fosse pequeno demais para os dois.
Saudade do Eduardo que olhava para ele com tanta intensidade.
E, por mais que odiasse admitir…
Ele sentia saudade até do Eduardo que o destruiu.
O silêncio dentro do carro parecia gritar tudo o que ele não conseguia dizer.
Quando chegaram no prédio do apartamento onde Leo morava, Eduardo desligou o motor e respirou fundo. O silêncio dentro do carro era tão denso que ele podia ouvir o som rítmico da chuva batendo contra o vidro, o abafado barulho dos pneus dos carros passando na avenida molhada.
Ele olhou para Leo.
— Boa noite, Leo.
Era isso.
Esse era o momento em que Leo pegaria suas coisas, murmuraria algo sem importância e sairia do carro. Esse era o momento em que Eduardo o veria desaparecer pelo portão do prédio, como se nada tivesse acontecido.
Como se o passado não tivesse acabado de explodir entre os dois.
Mas Leo não se mexeu.
Ele continuava ali, sentado no banco do passageiro, com a respiração mais pesada do que deveria estar.
A chuva escorria pelo vidro, desenhando trilhas irregulares na paisagem borrada.
Eduardo percebeu o jeito que Leo fechava as mãos sobre as próprias coxas, como se estivesse tentando conter algo dentro de si.
Então, Leo engoliu em seco. E Eduardo soube.
Soube no instante em que Leo virou o rosto na direção dele, os olhos brilhando com um misto de hesitação e algo que Eduardo não conseguia decifrar.
Soube antes mesmo das palavras saírem.
Leo lambeu os lábios, respirou fundo, desviou o olhar por um segundo e então perguntou, a voz baixa, quase inaudível:
— Quer subir um pouco?
Eduardo congelou.
Seu peito apertou como se tivesse sido atingido por um soco invisível. Ele piscou, confuso, tentando absorver o que acabara de ouvir.
Leo não o encarava mais. Estava olhando para as próprias mãos, como se já estivesse se arrependendo, como se pudesse tomar as palavras de volta.
Eduardo sentiu o estômago afundar.
Se dissesse "não", talvez Leo fingisse que nunca perguntou. Se dissesse "sim", cruzaria um limite do qual não teria volta.
Mas como ele poderia dizer não?
Como poderia recusar?
Então, Eduardo inspirou, e sem hesitação, respondeu:
— Sim.
Leo assentiu lentamente, sem olhá-lo, e soltou o cinto de segurança. Os dois saíram do carro sem dizer mais nada.
A chuva continuava caindo.
E Eduardo sabia que aquela noite mudaria tudo.
Fale com o autor