O Garoto Feito de Sol e Terra
82 Capítulo 82 — O Jogo da Indiferença
A sala de reuniões estava silenciosa, apenas o som dos cliques do projetor ecoando no espaço moderno da Gravità Studios. Eduardo sentou-se à mesa, mantendo a postura impecável e o olhar focado na apresentação, mesmo que sua mente estivesse longe dali.
À sua frente, estavam Karina, a diretora de criação, Rafael, o gerente de projetos, e… Leonardo, responsável pelo audiovisual.
Eduardo manteve a compostura quando Leo entrou, mas não conseguiu evitar que seu olhar se demorasse um pouco mais nele. Ainda era estranho vê-lo tão diferente e, ao mesmo tempo, tão igual ao garoto que ele nunca esqueceu. Mas agora, Leo estava ali na sua frente, e eles precisavam ser profissionais.
O projeto começou com Karina apresentando as diretrizes da campanha, falando sobre a abordagem visual, o tom e os objetivos que a Castilho Agronegócios queria alcançar. Eduardo ouvia atentamente, pontuando algumas questões, mas, na maior parte do tempo, sua atenção gravitava involuntariamente para Leo.
Ele estava sério. Focado. Fingindo perfeitamente que Eduardo era apenas mais um cliente.
Então, Rafael pegou um tablet e deslizou alguns slides, virando para Leo.
— Agora é com você, cara. Quer passar os apontamentos do audiovisual?
Leo assentiu, ajustando a postura na cadeira. Ele passou os olhos pelo material rapidamente antes de falar, como se precisasse se preparar antes de lidar com aquela situação.
— Certo. — Sua voz era firme, mas havia uma leve tensão em suas palavras. — Para a parte visual, vamos focar em um tom mais documental, mostrando a realidade do agronegócio, mas sem perder o apelo estético. Queremos que pareça autêntico, mas ao mesmo tempo estratégico o suficiente para engajar o público certo.
Eduardo cruzou os dedos sobre a mesa, mantendo a atenção nas palavras dele, mas observando cada detalhe. Leo não olhava diretamente para ele. Não desviava da tela ou dos outros presentes na sala.
Ele estava se segurando.
Eduardo viu o jeito que ele mexia nos dedos da mão esquerda, um velho hábito de quando ficava ansioso. O modo como sua respiração ficava ligeiramente mais pesada antes de falar diretamente para o grupo.
Ele estava tenso.
Mas ainda assim, era um profissional impecável.
— Quanto à parte fotográfica, pensei em algo com uma abordagem mais orgânica, menos posada. Queremos capturar o trabalho real acontecendo, com a luz natural e a paleta quente que remete ao campo. O objetivo é afastar a ideia de algo artificialmente montado e trazer um realismo que converse com o público-alvo.
Eduardo assentiu, analisando os pontos.
— Eu gosto dessa abordagem. — Ele disse, mantendo o tom neutro.
Pela primeira vez na reunião, Leo olhou diretamente para ele.
Foi um olhar rápido, afiado, como se estivesse testando alguma coisa. Mas Eduardo sustentou.
— Bom, se não tiverem mais nada a acrescentar, podemos alinhar os próximos passos e definir cronogramas. — Karina finalizou, folheando algumas anotações.
O silêncio pairou por um segundo após as palavras de Karina, até que a porta da sala de reuniões se abriu e Evandro, o diretor de marketing, entrou com seu habitual sorriso confiante.
— E aí, pessoal? — Ele cumprimentou, lançando um olhar para Eduardo. — Como foi a reunião? Alguma dúvida, Castilho?
Eduardo se endireitou na cadeira, mantendo a postura firme.
— Nenhuma até agora. — Respondeu. — Acho que estamos alinhados.
Evandro assentiu, satisfeito, e então olhou para os demais.
— Ótimo. Como já conversamos, o ideal é que vocês comecem logo com as gravações e as fotografias no campo de agro da família Castilho. Quanto mais rápido tivermos esse material, melhor para estruturar a campanha.
Ele olhou para Karina e Rafael.
— Já viram a logística disso?
— Irei verificar. — Karina respondeu, conferindo anotações na pasta à sua frente. — Estamos cuidando do cronograma e vou organizar as passagens junto com a secretária.
Evandro olhou para Eduardo novamente.
— Castilho, sua equipe já está preparada para receber a gente lá?
Eduardo deu de ombros.
— Podemos providenciar tudo a tempo. Eu mesmo me proponho a ir. Se quiserem, já podemos começar daqui dois dias.
— Ótimo! — Evandro concordou sem nem hesitar.
Leo, que estava calado o tempo todo, desviou o olhar para a mesa, sentindo o peito apertar.
Daqui dois dias.
Ele sentiu os dedos apertarem contra a lateral da cadeira. Não importava o quanto tentasse se preparar para lidar com Eduardo novamente, o tempo estava contra ele.
Evandro bateu as mãos uma contra a outra, animado.
— Perfeito, então. Quero ver essa campanha ser um sucesso.
Ele olhou para Leo, que ainda mantinha a expressão séria.
— Leo, você já sabe o que precisa, né?
Leo piscou, voltando sua atenção para o diretor.
— Sim, já tenho o briefing estruturado.
Evandro sorriu.
— Esse é o espírito.
Ele deu um último olhar para Eduardo.
— E você, Castilho? Mais alguma coisa?
Eduardo balançou a cabeça.
— Nada no momento.
— Ótimo. Então é isso, pessoal. Preparem-se, porque essa campanha vai ser grande.
A reunião se encerrou e, um a um, os profissionais começaram a sair da sala.
Mesmo sem dizer nada, sem trocar nenhuma palavra fora do escopo profissional, estava claro para Eduardo:
Leo ainda sentia alguma coisa.
◄☼►
Leo estava sentado na copa da Gravità Studios, girando o copo de café entre os dedos. O ambiente ao redor estava movimentado como sempre, mas sua mente estava longe dali.
Desde a reunião com Eduardo, ele não conseguia tirar a sensação estranha do peito. Agora, saber que teria que viajar para um dos campos de agro da Castilho Agronegócios para gravar o material da campanha tornava tudo ainda pior.
Ele não queria ir.
Pela primeira vez em tempos, sentiu-se hesitante em relação ao trabalho.
— Por que essa cara? — A voz de Tati o puxou para a realidade. Ela pegou um café na máquina e se sentou ao lado dele, arqueando uma sobrancelha. — Você sempre fica animado quando tem gravação externa, mas agora tá parecendo que vão te mandar pra um enterro.
Leo suspirou, mas não respondeu de imediato.
Tati franziu o cenho.
— O que foi? — Ela insistiu. — Você não gostou do projeto?
— O projeto é ótimo. — Ele respondeu, mas havia falta de entusiasmo em sua voz.
— Então qual é o problema?
Leo abriu a boca para responder, mas fechou logo em seguida. Ele não podia simplesmente dizer "o problema é o Castilho".
Antes que pudesse bolar uma desculpa convincente, Karina entrou na copa segurando o celular e uma pasta de anotações.
— Leo, você não foi muito com a cara do Castilho, né? — Ela disse, com um sorriso divertido. — Você tava sério demais naquela reunião.
Leo olhou para ela rapidamente, tentando mascarar a tensão.
— Tô de boa. Ele é só mais um cliente. — Respondeu, bebendo o café.
— Bom, ele me pareceu gente boa. De qualquer forma, o projeto já tá andando e a gente precisa se organizar. As gravações logo irão começar, e como eu sei que você gosta de se preparar antes, achei bom te avisar logo: já mandei a secretária comprar as passagens.
Leo travou por um segundo.
Dois dias.
Era isso que ele tinha até estar preso no mesmo ambiente que Eduardo Castilho.
Ele respirou fundo.
Tati percebeu o jeito que ele ficou rígido por um instante e cruzou os braços, analisando.
— Tá estranho, hein. — Disse, desconfiada.
— Eu tô normal. — Leo rebateu, levantando-se com o copo de café vazio.
— Sei.. — Ela comentou. — Mas tudo bem, uma hora você me conta.
Leo não respondeu, apenas saiu da copa, sentindo um peso no peito.
Ele podia ignorar Eduardo dentro da Gravità. Podia fingir que a reunião não significou nada. Mas agora, ele teria que passar dias inteiros trabalhando lado a lado com o homem que um dia partiu seu coração.
E, pior ainda, Leo sabia que Eduardo ainda tinha poder sobre ele de uma forma que odiava admitir.
◄☼►
Leo chegou em casa sentindo o peso do dia inteiro nos ombros. Fechou a porta do apartamento e soltou um suspiro longo, passando a mão pelos cabelos, bagunçando-os ainda mais. Ele ainda não sabia exatamente o que sentia. Um misto de desconforto, raiva e… outra coisa que não queria nomear.
Encontrar Eduardo de novo, estar tão perto dele, saber que teriam que passar dias juntos em uma viagem de trabalho… Tudo isso mexia com ele mais do que deveria.
Ele largou a mochila no sofá e foi até a cozinha pegar um copo de água, tentando ignorar a inquietação no peito. Mas não teve muito tempo para processar nada.
A porta do apartamento se abriu novamente e Diego entrou.
Leo se virou ao ouvir os passos firmes do namorado se aproximando. Diego tirou a jaqueta, jogando-a no encosto do sofá e estalou os dedos como sempre fazia quando chegava do trabalho.
Diego ficou parado por um momento, estudando Leo com atenção. Franziu ligeiramente a testa, como se analisasse cada detalhe, a forma como ele segurava o copo de água com força demais, a postura rígida, o jeito como evitava seu olhar.
Ele inclinou a cabeça, cruzando os braços devagar.
— Você tá esquisito. — Ele disse sem rodeios, olhando diretamente para Leo.
Leo desviou o olhar imediatamente, levando o copo até os lábios e tomando um gole de água, como se isso pudesse mascarar sua inquietação. Ele odiava o quanto as pessoas conseguiam perceber facilmente o que ele sentia, como se suas emoções estivessem sempre escancaradas, mesmo quando ele tentava escondê-las.
Diego cruzou os braços, estudando-o.
— Como foi a reunião?
Leo apoiou o copo no balcão da cozinha, respirando fundo antes de responder.
— Normal. É só que... o cliente da nova campanha parece ser meio… exigente.
A mentira saiu mais rápido do que ele esperava.
Diego arqueou uma sobrancelha.
— Exigente?
Leo deu de ombros.
— Sim. Meio metódico, sabe? Do tipo que acha que tem que estar em todas as etapas do processo.
Ele sentiu um gosto amargo na boca ao falar aquilo, mas preferia que Diego acreditasse nessa versão dos fatos. Era mais fácil do que explicar que o "cliente exigente" era, na verdade, Eduardo Castilho, seu passado inteiro voltando para assombrá-lo.
Diego pareceu comprar a ideia. Ele fez uma careta e soltou um suspiro.
— Odeio esses tipos. Mas faz parte, né?
Leo assentiu, pegando o copo novamente e continuou:
— A gente vai precisar viajar pro interior essa semana pra gravar a campanha no campo de agro da família do cliente.
Diego franziu o cenho, pensativo.
— Quanto tempo de viagem?
— Alguns dias.
Diego coçou o queixo, considerando algo, e então disse:
— Se quiser, eu vou junto. De qualquer forma, vou auxiliar nas edições depois, e seria bom já acompanhar o processo desde o início.
Leo hesitou por um momento.
Mas então pensou melhor.
Ter Diego por perto poderia ser uma boa ideia. Uma distração. Um lembrete de que ele tinha uma vida nova, um relacionamento sólido, e que Eduardo não significava nada além de um nome no contrato.
— Acho que é uma boa ideia. — Ele concordou, forçando um meio sorriso.
Diego passou um braço ao redor da cintura de Leo e o puxou para perto, beijando seu pescoço de leve.
— Relaxa. Se esse cliente for um babaca, a gente faz o mínimo e pronto.
Leo soltou uma risada curta, tentando se convencer de que estava tudo sob controle.
Mas ele sabia.
Sabia que, no fundo, nada estava sob controle.
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