O Garoto Feito de Sol e Terra

81 Capítulo 81 — Um Novo Caminho


Eduardo não ia desistir.

O fracasso do primeiro contato com Leo poderia ter sido o suficiente para qualquer outra pessoa recuar, mas ele não era mais aquele garoto de sete anos atrás. Não ia provocar, não ia insistir se Leo realmente não quisesse vê-lo, mas também não ia se esconder atrás do medo.

Ele queria vê-lo de novo. Queria, no mínimo, estar por perto.

E foi por isso que começou a pesquisar.

Sentado na mesa do hotel, com o notebook aberto e o celular ao lado, Eduardo começou a vasculhar cada detalhe da Gravità Studios. Sabia que era uma empresa de audiovisual, mas agora queria entender de verdade o que faziam. E conforme lia mais sobre os projetos, ficou impressionado.

A Gravità trabalhava com campanhas de marketing, publicidade, cases empresariais. Tinham clientes grandes e pareciam ser referência no mercado.

E foi então que uma ideia surgiu.

A empresa do seu pai sempre teve nome forte no agronegócio, mas nunca se preocupou tanto com o marketing. O setor era tradicional, construído no boca a boca e na solidez de relações comerciais. Mas nos últimos tempos, Eduardo sabia que precisavam inovar, modernizar a imagem, alcançar novos clientes.

E a Gravità podia ajudar.

Ele abriu um novo e-mail, seus dedos pairando sobre o teclado por um instante antes de começar a digitar.


Para: contato@gravitastudios.com

Assunto: Proposta para desenvolvimento de campanha


"Prezados,

Meu nome é Eduardo Castilho e faço parte da equipe de gestão da Castilho Agronegócios. Estamos buscando uma empresa especializada para nos auxiliar no desenvolvimento de uma nova campanha de marketing e acreditamos que a Gravità Studios pode ser a parceira ideal para esse projeto.

Gostaríamos de discutir melhor as possibilidades e entender as soluções que vocês oferecem. Caso seja possível, aguardo retorno para alinharmos uma reunião.


Atenciosamente,

Eduardo Castilho"


Ele releu algumas vezes, garantindo que não havia nada pessoal ali. Nada que pudesse soar como um motivo secundário além do profissional.

Clicou em “Enviar” e soltou um longo suspiro.

Agora, só restava esperar.


◄☼►


Eduardo mal pregou os olhos na noite anterior.

A confirmação da reunião veio mais rápido do que esperava. No e-mail formal e direto, a Gravità Studios agradecia o contato e sugeria um encontro já no dia seguinte para apresentação da proposta. Eles pareciam animados para trabalhar com a Castilho Agronegócios, e Eduardo sabia que a empresa do pai era um cliente de peso.

Mas, para ele, aquele contato significava muito mais do que negócios.

Na manhã seguinte, ele vestiu seu melhor terno, mas não era apenas pela formalidade da reunião. Ele queria passar a imagem de controle, de confiança, mesmo que, por dentro, estivesse mais ansioso do que nunca.

Quando chegou ao prédio da Gravità, respirou fundo antes de entrar. O mesmo local onde, dias antes, ele havia ficado parado do outro lado da rua, hesitante demais para chamar Leo. Agora, estava ali como cliente. Como alguém que precisava ser ouvido.

Assim que se apresentou na recepção, a recepcionista sorriu profissionalmente e o guiou até a sala de reuniões.

— O Evandro já está esperando com a equipe — ela informou.

Evandro. O nome soava familiar, talvez tivesse visto no site da empresa enquanto pesquisava. Eduardo apenas assentiu, mantendo a postura firme.

Um homem de meia-idade, com óculos e expressão simpática, o aguardava logo na entrada da sala de reuniões, com um sorriso acolhedor no rosto.

— Eduardo Castilho? Bem-vindo! Sou Evandro, diretor de marketing da Gravità.

Ele estendeu a mão assim que Eduardo se aproximou.

— É um prazer. — Eduardo respondeu, apertando a mão dele com firmeza. — Obrigado pelo convite, Evandro. Estou animado para ouvir a proposta de vocês.

Depois do cumprimento cordial, os dois entraram juntos na sala, onde os outros membros da equipe já estavam posicionados ao redor da mesa.

Evandro começou:

— Deixe-me apresentar nosso time. Aqui está a Karina Alves, a diretora de criação; Rafael Santana, nosso gerente de projetos; e este aqui é Leonardo Souza, responsável pelo audiovisual, videomaker e fotógrafo.

Eduardo congelou.

Seus olhos imediatamente encontraram Leo, que estava sentado à mesa, focado na tela do notebook, fones de ouvido nos ouvidos, alheio à chegada de Eduardo.

Só quando Evandro disse seu nome que Leo finalmente tirou um dos fones e levantou os olhos.

E então travou.

Por um instante, o tempo pareceu parar.

O choque nos olhos de Leo foi evidente. A boca se entreabriu, como se quisesse dizer algo, mas nenhuma palavra saiu. Ele não esperava aquilo. Não esperava ver Eduardo ali, de novo, e ainda mais como possível cliente da Gravità.

Eduardo sentiu o peito apertar. Queria dizer algo, um simples “oi”, mas nada parecia apropriado naquele momento. Então, apenas assentiu levemente para ele, tentando manter a compostura.

Evandro não notou a tensão no ar e continuou normalmente.

— Bom, vamos começar! Eduardo, você pode nos contar um pouco sobre o que busca para a Castilho Agronegócios?

Eduardo piscou, voltando ao presente.

— Ah, claro. — Ele limpou a garganta. — Estamos buscando modernizar a comunicação da empresa. O agronegócio tem crescido, e queremos reforçar nossa presença no mercado de maneira mais impactante.

Enquanto falava, sua atenção era constantemente puxada para Leo, que permanecia quieto no canto da mesa. Eduardo tentava disfarçar, mas não conseguia evitar olhar para ele.

Leo, por outro lado, mantinha uma expressão neutra. O queixo estava erguido, e o olhar era impassível, mas Eduardo notava a rigidez nos ombros dele.

A apresentação seguiu com Karina e Rafael mostrando conceitos, ideias de roteiro e campanhas passadas de sucesso da Gravità. Eduardo ouvia, mas sua mente estava em outro lugar.

Ele estava ali.

Leo estava ali.

Sete anos depois, sentados na mesma mesa, com Eduardo falando de trabalho como se fossem dois estranhos.

Quando Evandro terminou de expor os valores e a estratégia, Eduardo nem parou para analisar os números.

— Fechado. — Disse sem hesitar.

Todos da Gravità se entreolharam, surpresos.

— Você não quer levar a proposta para análise? — Evandro perguntou.

— Não há necessidade. Sei que vocês serão os melhores para esse projeto. — Eduardo respondeu.

Leo soltou uma risada baixa pelo nariz, desviando o olhar.

Evandro sorriu satisfeito e apertou a mão de Eduardo.

— Ótimo! Vamos encaminhar o contrato e alinhar os próximos passos.

A reunião foi encerrada, e conforme os outros começaram a recolher os materiais, Eduardo ainda sentia o olhar de Leo queimando de maneira discreta.

Mas Leo não disse nada.

Assim como Eduardo, ele manteve a postura profissional.

Porém, ambos sabiam que essa história estava longe de acabar.


◄☼►


Eduardo saiu da reunião com um meio sorriso nos lábios.

Ele conseguiu.

Conseguiu entrar no mundo de Leo sem precisar forçar uma conversa, sem precisar implorar por um olhar. Agora, tinham um vínculo profissional, e Eduardo sabia que isso significava tempo, tempo para se aproximar, para quebrar a muralha que Leo claramente ergueu contra ele.

Enquanto descia pelo corredor, ajustando a gola do terno, já pensava nos próximos passos, nos momentos em que teria para interagir com Leo ao longo do projeto. Ele não sabia o que esperava, mas sabia que não podia mais se afastar.

Até que uma voz interrompeu seus pensamentos.

— Castilho.

O coração de Eduardo disparou. Ele reconheceu aquela voz na hora.

Ele virou-se e encontrou Leo parado ali, encostado no batente da porta, os braços cruzados sobre o peito.

Mas dessa vez, não havia choque em seus olhos. Apenas irritação.

Eduardo nem teve tempo de reagir antes de Leo continuar:

— Você acha que eu sou idiota?

Eduardo piscou.

— O quê?

Leo deu um passo à frente, estreitando os olhos.

— Não tenta me enganar. — A voz dele era baixa, afiada. — Você aparecer aqui depois de todos esses anos não é simples coincidência.

Eduardo respirou fundo, tentando manter a calma, mas sua voz saiu firme, sem rodeios:

— Bom… a Castilho Agronegócios precisava melhorar o marketing, e quando comecei a buscar opções, a Gravità apareceu como uma das melhores. Eu precisava de um projeto forte, e vi que a Gravità entrega isso.

Leo riu pelo nariz, descrente.

— Ah, claro. Que conveniente.

Eduardo sustentou o olhar.

Ele poderia continuar jogando seguro, manter o discurso profissional, mas alguma coisa dentro dele não deixou.

Então, quando Leo já estava virando as costas para voltar ao prédio, Eduardo falou:

— Eu senti saudades.

Leo parou.

Por um instante, não se moveu.

Eduardo sentiu o coração acelerar, esperando qualquer reação.

Então, sem dizer nada, Leo virou-se levemente para encará-lo. Seu olhar percorreu Eduardo de cima a baixo, analisando, procurando algo, ou talvez tentando decidir se valia a pena gastar palavras.

E então, riu.

Uma risada baixa. Curta.

Eduardo não soube dizer o que doía mais, o riso ou o silêncio.

Leo apenas deu as costas e entrou no prédio, sem olhar para trás.

E Eduardo ficou ali.

Parado. Sentindo o peso da distância que ele mesmo criou.

Porque, pela primeira vez, percebeu que por baixo da indiferença, da irritação, do desprezo forçado… ainda existia dor.

E Eduardo sabia que, se quisesse realmente consertar as coisas, teria que enfrentar essa dor, por mais que doesse nele também.


◄☼►


Eduardo voltou para o hotel com um misto de sentimentos conflitantes.

Ele se sentia mal, porque nada daquilo foi fácil, porque Leo ainda o olhava como se quisesse apagá-lo da existência, porque aquela risada sem humor ainda ecoava em sua mente como um lembrete cruel de tudo o que ele causou.

Mas, ao mesmo tempo, sentia-se bem.

Porque, depois de tantos anos, ele finalmente ouviu a voz de Leo de novo. E não só ouviu. Aquela voz foi dirigida a ele.

Mesmo carregada de desprezo. Mesmo distante, dura, amarga.

Ainda era a voz dele.

Ainda era Leo.

Eduardo jogou as chaves sobre a mesa do quarto, soltando um suspiro pesado enquanto se sentava na beira da cama.

Ele passou as mãos no rosto, tentando acalmar a avalanche de emoções que vinha junto com aquela simples troca de palavras.

Não era o ideal. Não era o reencontro que ele imaginou em alguma parte tola da sua mente.

Mas era um começo.

E Eduardo, pela primeira vez, tinha certeza de que não desistiria.