O Garoto Feito de Sol e Terra
75 Capítulo 75 — Palavras Que Ferem Mais Que Punhos
Os últimos dias foram um borrão de vazio para Eduardo.
Ele ignorou todas as mensagens.
De Leo. De Kayla. De qualquer pessoa que ousasse tentar atravessar a barreira de silêncio que ele impôs.
Na escola, o isolamento era quase sufocante. Ninguém falava com ele. Ou, se falavam, era para sussurrar piadas pelas costas. Os olhares eram constantes, uns de desprezo, outros de curiosidade mórbida.
Mas ele não reagia.
Eduardo apenas passava pelos corredores como um fantasma, os olhos baixos, as mãos nos bolsos, o peito apertado.
Quatro dias.
Quatro dias sem responder ninguém. Sem dizer uma palavra para Leo.
Ele sabia que Leo estava tentando. Sabia que as mensagens dele continuavam chegando, mesmo que Eduardo nunca abrisse. Mas o peso do desprezo do próprio pai, a humilhação esmagadora de ter sido descoberto daquela forma... era demais.
Ele não podia falar com Leo. Não conseguia.
Mas Leo não era do tipo que aceitava silêncio como resposta.
◄☼►
Era uma tarde quente quando Leo tomou sua decisão.
Ele não aguentava mais o silêncio. Não aguentava mais se perguntar se Eduardo estava bem, se algo grave tinha acontecido. Ele só sabia que algo estava errado. Muito errado.
Então, sem avisar, ele foi até a casa dos Castilho.
Subiu os degraus da varanda e bateu à porta. O coração acelerado.
Depois de alguns segundos, a porta se abriu, e ele se deparou com Helena.
Ela o olhou por um instante, o rosto impassível, mas os olhos duros, frios.
Leo engoliu seco.
— Oi, dona Helena… O Eduardo tá aí? — Sua voz saiu hesitante, mas firme.
Ela não respondeu de imediato. Seu olhar escaneou Leo de cima a baixo, como se estivesse vendo algo que não queria.
E então, simplesmente disse:
— Ele está ocupado. Vai embora.
Leo franziu a testa.
— Eu só queria falar com ele, é rápido…
— Eu já disse que ele está ocupado. — As palavras dela cortaram o ar.
O estômago de Leo revirou. O jeito como ela olhava para ele. O tom da voz. Algo ali estava diferente.
Helena respirou fundo e, com a mesma frieza, continuou:
— Você não é bem-vindo aqui. Vá embora. Agora.
A rigidez na voz dela era inconfundível. Não era um pedido. Era uma ordem.
Leo ficou imóvel por um instante.
Então, reparou.
Os ombros tensos demais. O jeito como os lábios dela estavam pressionados um contra o outro. O olhar que... não o via como antes.
Não era desconfiança. Não era curiosidade.
Era algo muito pior.
O sangue de Leo gelou. Ele engoliu em seco.
Não perguntou nada.
Não precisava.
Ela sabia.
Ela sabia, e agora... ela o queria longe.
Leo sentiu um nó se formar na garganta, mas apenas assentiu devagar.
Helena fechou a porta bruscamente.
Leo ficou um tempo parado, sem reação, até que se virou, descendo os degraus da varanda com passos pesados, o peito comprimido.
Quando alcançou a calçada, exalou com força, tentando se livrar do aperto no peito. Mas não conseguiu.
Porque aquela reação...
Aquele olhar...
Era a prova de que as coisas estavam muito, muito piores do que ele imaginava.
◄☼►
Eduardo estava deitado na cama quando ouviu.
Baixo. Quase um sussurro.
Mas era ele.
A voz de Leo atravessou as paredes e o atingiu como um soco no estômago.
Eduardo se levantou num impulso, o coração batendo forte, os pés se movendo antes que pudesse pensar. Foi até a janela, afastou a cortina só um pouco e viu.
Leo estava parado na calçada, um pouco afastado da porta, o rosto carregado por algo que Eduardo não sabia se era raiva, frustração ou pura preocupação.
Eduardo não pensou. Desceu.
Os passos eram pesados, rápidos. Seu peito queimava.
Abriu a porta dos fundos sem fazer barulho e saiu. Quando chegou na rua, chamou:
— Leo.
Leo se virou no mesmo instante, os olhos arregalados ao vê-lo ali.
Mas Eduardo não deu tempo. Agarrou seu braço e o puxou sem pensar, levando-o para a esquina.
Leo tropeçou um pouco no começo, mas foi junto, sem reagir. Quando finalmente pararam, Leo olhou para Eduardo com algo entre alívio e irritação.
— Eduardo, caramba, você sumiu! — O tom dele era desesperado. — Eu tô há dias tentando falar com você! O que tá acontecendo?
Eduardo sentiu o peito arder.
Houve um silêncio pesado, como se o mundo estivesse prendendo a respiração.
Leo encarou Eduardo com mais firmeza.
— Me fala, o que tá acontecendo? — repetiu, mais baixo, quase implorando.
— O que tá acontecendo? — Eduardo repetiu, a voz carregada de amargura. Ele deu um passo para trás, os olhos queimando. — Tá acontecendo que minha vida acabou, Leo!
Leo franziu o cenho.
— Edu—
— Os meus pais me odeiam. — Eduardo cuspiu as palavras como se elas queimassem dentro dele. — Odeiam, Leo. Você entende o que eu tô dizendo? Eles viram, porra. Eles viram tudo.
Leo sentiu um arrepio na espinha.
Então era isso.
Eduardo riu de novo, um riso quebrado.
— Meu pai me chamou de tudo que você pode imaginar. Minha mãe... — Ele trincou o maxilar, os olhos marejando. — Ela só olhou pra mim como se eu fosse uma decepção. Como se eu fosse...
A voz falhou.
Leo apertou os punhos ao lado do corpo.
— Edu, eu...
— E você?! — Eduardo avançou um passo, os olhos brilhando de pura dor e raiva. — Você acha que pode aparecer aqui sem mais nem menos? Ainda mais agora?
Leo piscou, sentindo um nó na garganta.
— Eu não sabia… Eu tava preocupado com você.
— Preocupado?! — Eduardo riu sem emoção. Foi cruel. — Você já viu alguém perder tudo, Leo? Porque eu tô vivendo isso agora. Minha família me odeia. Meus amigos fizeram de mim piada. Eu sou o ridículo da escola. Tá tudo uma merda.
Leo sentiu a respiração falhar.
Eduardo avançou mais um passo, o olhar carregado de algo que misturava desespero e ódio. O peito queimava, e as palavras saíam antes que ele pudesse segurá-las.
— Você entende o que eu tô dizendo? — Sua voz tremeu, mas não de medo. De raiva. De dor. — Eu perdi tudo, Leo. Minha vida inteira desmoronou.
Leo abriu a boca para falar algo, mas Eduardo continuou, atropelando qualquer resposta.
— E quer saber o pior? Eu não posso nem reclamar. Porque EU FIZ ISSO COMIGO. Eu me coloquei nessa merda. Eu já sabia que seria assim.
Ele inspirou fundo, tentando conter a avalanche de emoções que estava prestes a esmagá-lo. Falhou.
— E tudo isso… por sua causa. Eu deixei isso acontecer comigo.
A frase cortou Leo como uma lâmina.
O peito dele apertou, os olhos arderam, mas ele não desviou o olhar.
— Por minha causa? — A voz de Leo saiu baixa, quase um sussurro. — Você tá mesmo dizendo que isso tudo é minha culpa, Eduardo?
— Não é culpa, mas… — Eduardo respondeu, sem continuar a frase. — Se aquilo nunca tivesse acontecido, eu não estaria nessa.
— Aquilo o quê?
— Como assim “aquilo o quê”, Leo? — Eduardo estreitou os olhos. — Por que será que eu tô sendo massacrado? Por que minha vida virou esse inferno todo? Será que você é mesmo tão ingênuo assim, ou só não quer enxergar?
Leo hesitou. Os lábios se entreabriram, mas nenhuma palavra saiu. Ele apenas olhou para Eduardo, os olhos vacilando, como se não soubesse mais onde olhar.
— Olha… se eu pudesse voltar no tempo, Leo, eu nunca teria chegado perto de você. Nunca teria deixado essa merda toda entre a gente começar. Nunca teria me metido nessa bagunça com você.
Leo sentiu a garganta fechar.
Aquilo doeu.
Do jeito mais cruel possível.
Eduardo percebeu, mas já era tarde demais.
Leo ficou parado por um instante, absorvendo aquelas palavras como se cada uma fosse um golpe seco no peito. A dor se espalhou pelo seu corpo como uma corrente elétrica, queimando, sufocando. Ele abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Porque, no fundo, o que mais podia dizer?
Eduardo já tinha dito tudo.
Leo sentiu o ar faltar, mas não demonstrou. Apenas apertou os punhos ao lado do corpo, como se isso pudesse conter o que estava explodindo dentro dele.
Então, sem mais uma palavra, ele deu um passo para trás.
E outro.
Leo desviou o olhar e virou as costas, caminhando para longe sem pressa, como se o peso das palavras de Eduardo fosse forte demais para que ele conseguisse se mover mais rápido.
Eduardo sentiu o estômago afundar.
Ele ficou parado, vendo Leo sumir na rua. O peito doía. O ar parecia pesado.
Por um segundo, ele sentiu vontade de correr atrás.
De chamar.
De dizer que nada daquilo era verdade.
As palavras estavam ali, presas em sua garganta, arranhando, sufocando, pedindo para serem ditas. Ele queria gritar para Leo parar, para olhar para ele, para não acreditar em nada do que ele tinha acabado de dizer.
Mas sua boca não se abriu.
Seus pés não se moveram.
O orgulho, a dor, o medo, tudo o segurou no lugar.
Porque admitir que não era verdade significava muito mais do que só desfazer aquelas palavras cruéis.
Significava admitir que ele não queria que Leo fosse embora.
Significava admitir que Leo era a única coisa que ainda fazia sentido em meio ao caos.
Significava admitir que, no fundo, ele nunca quis voltar no tempo para evitar Leo.
Quis voltar no tempo para fazer tudo diferente.
Mas agora era muito tarde.
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