O Garoto Feito de Sol e Terra

71 Capítulo 71 — Quando Não Há Mais Para Onde Fugir


O dia seguinte foi um inferno para Eduardo.

Quando chegou à escola, Kayla passou direto por ele, sem nem olhar em sua direção. Ele já esperava por isso, mas ainda assim, o aperto no peito foi inevitável.

Samanta, por outro lado, tinha um sorriso maldoso no rosto toda vez que seus olhos encontravam os dele. Ela ria baixinho com algumas amigas, cochichando algo que ele sabia muito bem do que se tratava.

Ele tentou ignorar. Tentou agir como se não se importasse.

Porém, o intervalo foi um pesadelo.

Quando tentou se agarrar a alguma normalidade e foi cumprimentar seus amigos, percebeu que nada mais seria como antes.

— E aí. — Eduardo disse, tentando soar casual ao se aproximar de Tiago, Hugo e Giovane.

Tiago apenas olhou para ele, um olhar estranho, diferente.

— E aí.

Os outros o cumprimentaram com um aceno de cabeça e por alguns segundos ficaram em silêncio, até que Hugo riu, cutucando Giovane.

— Mano, tu viu o vídeo, né?

Eduardo congelou, sentindo o estômago afundar.

— O vídeo do Castilho? Vi. — Giovane respondeu, dando um riso de lado.

Hugo pegou seu celular e abriu o vídeo em que Eduardo e Leo se beijavam.

— Parece até cena de filme romântico, né? — Debochou. — Tava apaixonado mesmo, hein Castilho?

Eduardo quis vomitar.

— Vai se foder. — Ele rosnou, tentando tirar o celular da mão de Hugo, mas o cara se afastou, ainda rindo.

— Na moral, Castilho, nunca imaginei. — Hugo zombou. — Quer dizer que tu curte mesmo essa parada?

— Pô, e a gente? — Giovane completou, ainda debochado. — Tu já olhou pra gente com segundas intenções?

Ele e Hugo caíram na gargalhada.

Tiago, diferente dos dois, não riu. Mas também não fez nada para impedir.

Eduardo sentiu o rosto esquentar.

Ele queria revidar. Queria gritar, arrancar o celular da mão deles, acabar com aquelas risadas idiotas.

Mas o nó na garganta o impediu.

Seu olhar foi até Tiago, esperando qualquer reação, mas Tiago apenas desviou o olhar, cruzando os braços.

Hugo e Giovane não estavam prontos para parar.

As risadas continuaram, e as provocações também.

— Mano, o Castilho tava pegando o moleque com uma vontade, hein? — Hugo debochou, balançando a cabeça como se estivesse impressionado. — Puta que pariu, parecia até cena de filme pornô, que pegada foi aquela?

— Pior que foi mesmo! — Giovane riu, cutucando Tiago. — Tu viu? O moleque tava praticamente se derretendo no beijo, e o Castilho ali, segurando firme.

Tiago manteve a expressão séria, mas não se segurou e riu baixo.

Eduardo sentiu o estômago afundar ainda mais.

— Na moral, Castilho, será que tu beija a Kayla com essa intensidade toda? — Hugo provocou, rindo. — Acho que não, hein.

— Acho que não mesmo. — Giovane concordou, gargalhando. — Porque aquilo ali foi beijo de quem tá na febre.

Eduardo cerrou os punhos, sentindo as unhas cravarem na palma da mão. O sangue estava fervendo, o rosto pegando fogo.

— Vão se foder.

Ele rosnou, a voz carregada de raiva e vergonha, e saiu dali sem olhar para trás. Mas mesmo com ele fora do alcance, Hugo e Giovane continuaram rindo.

— Ih, será que ele foi encontrar o boy? — Hugo zombou.

— Certeza. — Giovane respondeu, rindo ainda mais. — Porque pelo jeito que ele beijou, deve estar morrendo de saudade.

Tiago não riu dessa vez. Apenas ficou observando Eduardo sumir no corredor e não disse nada.


◄☼►


Após o término das aulas naquele dia, Eduardo estava fora da escola quando seu celular vibrou no bolso.

Ele tirou o aparelho, o coração já batendo mais forte ao ver o nome de Tiago brilhando na tela.


Tiago: mano, sei que tá uma merda pra vc agora

Tiago: mas olha, vc tá sofrendo as consequências dos seus atos


Eduardo fechou os olhos por um instante, respirando fundo. Claro que Tiago ia vir com essa merda.


Tiago: não vou te deixar na mão pq sou teu amigo

Tiago: mas amigo tbm tem que ser sincero

Tiago: e cara, tu fez MUITA merda


Eduardo sentiu o maxilar travar. Ele já sabia disso, não precisava que ninguém esfregasse na cara dele.


Tiago: trair a Kayla já foi pesado pra caralho

Tiago: mas ainda mais com um moleque???

Tiago: mano… isso é impensável


Eduardo parou no meio da calçada, o celular firme entre os dedos. Ele sentiu o rosto esquentar, não de vergonha, mas de raiva.

"Um moleque."

Tiago falava como se fosse algo nojento, como se ser pego beijando um cara fosse um nível de traição pior do que qualquer outra coisa.

Como se, se fosse outra garota, ainda teria sido ruim, mas não tão imperdoável quanto isso.

Eduardo apertou o celular com força. Podia responder mil coisas. Podia perguntar se Tiago teria a mesma energia se ele tivesse sido pego com uma menina qualquer. Mas ele sabia que não.

Porque, para Tiago, a traição não era o pior. Era o fato de ser com Leo.

E isso doía mais do que Eduardo queria admitir.

O celular vibrou mais uma vez, e ele já sabia que era Tiago novamente.


Tiago: mano, mas na moral…

Tiago: tu gosta mesmo desse moleque?

Tiago: ou tu só curte pegar macho mesmo?


A raiva subiu como um incêndio dentro de Eduardo.

Zombeteiro.

Cheio de malícia.

Como se tudo isso fosse só uma piada.

Eduardo encarou a mensagem por longos segundos, os dedos tremendo de raiva.

Ele sabia o que Tiago queria. Queria que ele negasse. Queria que ele dissesse "claro que não, caralho, que pergunta idiota."

Mas Eduardo não conseguiu. Porque, se fosse qualquer outro cara no lugar de Leo, ele com certeza não teria chegado tão longe. Não teria arriscado tanto. Não teria ferrado sua vida inteira por alguém que não significasse nada.

Engolindo seco, Eduardo começou a digitar.

Mas apagou.

Começou de novo.

Apagou de novo.

O que ele poderia dizer? Que Tiago não entendia nada? Que Leo não era qualquer moleque? Que ele não sabia como parar?

No fim, jogou o celular no bolso e não respondeu nada.

Porque ele mesmo não sabia qual era a resposta.


◄☼►


Eduardo encarava a tela do celular, as mensagens de Leo se acumulando.


Leo: oi edu

Leo: vc tá bem?


O nome de Leo brilhava na tela, e cada vibração fazia o estômago de Eduardo revirar.

Ele queria responder. Porra, queria muito. Mas só de pensar em digitar algo, sentia um nó na garganta.

Depois daquele dia na escola, depois das risadas, das provocações nojentas, depois de Tiago perguntando se ele gostava de Leo ou só pegava porque “curtia macho”… Eduardo se sentia humilhado.

Mesmo sozinho, mesmo sem ninguém para ver, ele se sentia exposto. Como se o mundo inteiro soubesse. Como se estivessem esperando qualquer passo em falso para jogar ainda mais merda em cima dele.

E responder Leo agora seria assumir para si mesmo o que ele estava tentando ignorar.

Que a resposta para a pergunta de Tiago era óbvia.

Mas ele não podia. Não agora.

Soltando um suspiro pesado, Eduardo bloqueou o celular, enfiando-o no fundo da mochila como se pudesse enterrar aquele problema junto.

E Leo ficou ali. Esperando. Sem resposta.


◄☼►


Mais tarde naquele dia, o celular de Eduardo vibrou de novo.

Ele viu o nome de Leo brilhando na tela.

Era uma ligação.

Por um segundo, pensou em ignorar, como fez com as mensagens. Mas algo dentro dele não deixou.

Por fim, atendeu.

— Edu…?

A voz de Leo do outro lado veio hesitante, cuidadosa. Eduardo sentiu o peito apertar. Porra, ele não queria que Leo falasse assim.

Mas tudo dentro dele estava uma bagunça.

— Você tá bem? — Leo perguntou.

Eduardo fechou os olhos com força, sentindo o estômago afundar.

Por que ele tinha que perguntar isso?

O nó na garganta apertou de um jeito insuportável. Ele passou a mão pelos cabelos, depois pelo rosto, tentando conter a raiva, o cansaço, o caos que fervia dentro dele depois da humilhação daquele dia.

Ele estava sem forças para fingir que estava tudo bem.

— Nada bem, Leo. — A voz dele saiu afiada. — Cara, você sabe o que tá acontecendo comigo?

Leo ficou em silêncio por um segundo, pego de surpresa.

— Edu...

— Todo mundo viu aquelas fotos, o vídeo, Leo. TODO MUNDO. — Eduardo disparou, a raiva e a frustração por toda a situação transbordando. — Você tem ideia do que tão falando de mim na escola?!

Leo respirou fundo.

— Edu, eu sei que tá difícil, mas eu—

— Mas o quê, Leo?! — Eduardo interrompeu, a voz subindo. — Você não tem ideia! Não é você que tá lá ouvindo os caras rindo da sua cara, falando merda, tirando sarro porque “o Castilho curte macho”!

Leo ficou mudo do outro lado.

— Eu sou piada agora! Eu passo no corredor e escuto os cochichos, as risadinhas. Meus amigos riem na minha cara! Todo mundo tirando sarro de mim, falando das fotos, falando merda!

Eduardo sentiu o sangue ferver. Ele sabia que não era culpa de Leo, mas precisava descontar em alguém.

— E sabe o que é pior? — Eduardo continuou — Tiago, quem dizia ser meu melhor amigo naquela escola, mal consegue olhar na minha cara. Ele me manda mensagem dizendo que “não vai me deixar na mão”, mas deixa bem claro o quanto acha tudo isso uma aberração. Que trair a Kayla com um moleque é nojento. E eu tenho que ouvir isso e fingir que tá tudo bem, que não me afeta.

Leo engoliu em seco do outro lado da linha.

— Edu…

— E a Kayla, porra?! Que merda tudo isso. — Eduardo pressionou a ponta dos dedos contra a testa, sentindo a raiva e a culpa se misturando. — Eu sou um lixo, Leo. Um merda completo. E tudo porque—

Ele parou.

Leo engoliu em seco.

Eduardo apertou o punho, sentindo a garganta fechar.

— Eu vou perder tudo, Leo. — A confissão saiu amarga, cortante. — TUDO. Tudo porque eu sou um merda.

Leo ficou calado.

Eduardo sentia o peito explodir.

Raiva.

Medo.

Culpa.

E então, antes que sua voz falhasse, antes que dissesse algo que não pudesse voltar atrás, murmurou:

— Tchau, Leo.

E desligou.

Sem esperar resposta.

Sem dar tempo para Leo dizer nada. Sem querer ouvir a única pessoa que ele ainda queria por perto.

O celular escorregou dos dedos de Eduardo e caiu sobre o colchão ao lado dele. O quarto estava mergulhado em silêncio, apenas a respiração entrecortada e acelerada dele preenchia o espaço. Seu peito subia e descia em um ritmo descompassado, como se tentasse conter uma explosão que já era inevitável.

Ele tentou segurar. Tentou engolir tudo.

Mas foi inútil.

As lágrimas vieram como um rompimento de represa, queimando sua pele conforme escorriam pelo rosto. Eduardo levou as mãos à cabeça, enterrando os dedos no cabelo, puxando com força como se pudesse arrancar a dor junto. Seu corpo inteiro tremia, e a frustração acumulada nos últimos dias finalmente se soltou.

Ele soluçou alto, os ombros sacudindo com o peso do desespero. A humilhação de ter sido exposto, de ter se tornado piada na boca dos amigos. A rejeição de Kayla. O desprezo de Samanta. A decepção de Tiago, misturada ao nojo velado. A sensação de que todos ao seu redor estavam apontando para ele, rindo, zombando, reduzindo-o a uma caricatura do que ele nunca quis admitir que era.

E então, Leo.

O nome dele ecoou em sua mente como uma faca cravada no peito. Eduardo se encolheu ainda mais, o rosto afundado entre os braços. O jeito que ele tinha despejado toda aquela raiva, todo aquele ódio em alguém que não merecia. Leo só queria ajudar. Leo só queria estar lá. E Eduardo, como sempre, tinha afastado a única pessoa que realmente se importava.

Sua própria voz se repetia em sua cabeça, cruel, como um lembrete de que tudo estava desmoronando ao seu redor. E ele mesmo estava empurrando as pessoas para longe.

Ele queria voltar no tempo. Queria desdizer aquelas palavras. Queria pegar o celular, ligar de volta e dizer "me desculpa", mas seu orgulho e sua vergonha eram monstros maiores do que sua coragem.

Sua respiração ainda saía trêmula, os soluços irregulares. O peito apertado, o nó na garganta insuportável. Eduardo se virou de lado na cama, abraçando os próprios joelhos, sentindo-se menor do que nunca.

Porra.

Por que tudo tinha que ser assim?

Por que ele não podia simplesmente ser outra pessoa? Alguém que não sentia o que sentia, alguém que não precisasse esconder, mentir, trair, fugir?

Mas a verdade era que ele não podia fugir mais.

O toque do celular quebrou o silêncio sufocante do quarto. Eduardo se assustou com o som, o peito ainda subindo e descendo em respirações trêmulas. Ele piscou algumas vezes, tentando limpar a visão turva pelas lágrimas, e virou o rosto para a tela do celular.

Kayla.

O nome dela brilhava ali como uma maldição.

Por um instante, Eduardo hesitou. Seu corpo inteiro ainda tremia. Ele sabia que, se atendesse, teria que encarar a verdade que vinha evitando. Mas ignorar a ligação dela só pioraria tudo.

Com a garganta seca, ele respirou fundo e deslizou o dedo pela tela, atendendo.

— Oi… — A voz saiu fraca, quase um sussurro.

Do outro lado, Kayla ficou em silêncio por um momento. Apenas o som da respiração dela podia ser ouvido. Eduardo sentiu um aperto no peito.

— Você tá chorando? — A voz dela veio baixa, mas não carregava raiva. Era um tom magoado, cansado. Eduardo fechou os olhos e passou a mão pelo rosto, tentando recompor a própria voz.

— Não… — mentiu, mas sua voz ainda embargada entregava a verdade.

Kayla soltou um suspiro longo. Não parecia zangada. Pelo menos, não da maneira que Eduardo esperava. Ela parecia… machucada. Profundamente machucada.

— Eduardo, eu não te liguei pra brigar com você. — ela continuou, com a voz ainda baixa. — Eu só… eu só preciso entender.

Eduardo ficou em silêncio. Ele não sabia o que dizer. Nem sabia se tinha algo que pudesse amenizar a situação.

— Desde quando? — Kayla perguntou de repente.

O coração de Eduardo deu um salto no peito. Ele engoliu seco.

— O quê?

— Desde quando você fica com ele? — A voz dela saiu mais firme dessa vez. Ainda não era agressiva, mas carregava uma dor nítida.

Eduardo fechou os olhos com força. Ele queria mentir. Queria dizer que o que quer que tivesse tido com Leo não significava nada, que foi um erro recente, que não sabia o que estava fazendo. Mas, porra… ele já tinha mentido demais.

— Desde… — Eduardo começou, mas a garganta travou. Ele mordeu o lábio com força, odiando cada segundo daquela conversa. Ele não queria mais mentir. — Desde antes de você e eu começarmos a namorar.

O silêncio do outro lado do telefone foi cortante.

Por um momento, Eduardo achou que ela tinha desligado. Mas então ouviu um suspiro tremido.

— Mas… — a voz dela saiu embargada, cheia de um entendimento doloroso — … o que a gente teve, em algum momento foi real?

A pergunta acertou Eduardo no peito.

Ele fechou os olhos, deixando mais uma lágrima escorrer. Porque essa era a pior parte.

Porque, sim. Foi real, de certa forma.

Ele gostava de Kayla. Gostava da forma como ela o olhava, do carinho que ela lhe dava, do jeito que ela ria das piadas idiotas que ele fazia. Ele queria gostar dela do jeito certo. Queria que o sentimento fosse suficiente. Queria que Leo não existisse dentro dele da forma que existia. Mas nada disso mudava o fato de que, o tempo todo, ele estava dividido.

— Foi real, Kayla. — A voz de Eduardo saiu baixa, sincera. — Mas…

Kayla ficou em silêncio. Um silêncio pesado, triste.

— Eu fui uma idiota, né? — Ela riu, mas era um riso sem humor, amargo. — Eu achei que ficaríamos juntos pra sempre. Que você me amava do jeito que eu te amava.

Eduardo apertou os olhos, a culpa queimando dentro dele como um incêndio. Ele queria negar. Queria dizer que não era assim, que ele tentou, que ele não queria machucá-la. Mas, no fim, a verdade era exatamente essa. Kayla o amava de uma forma que ele nunca conseguiu retribuir do jeito que ela merecia.

— Me desculpa, Kayla. De verdade. — Eduardo murmurou, a voz falha.

— Você se apaixonou por ele? — Ela perguntou de repente, a voz quase um sussurro.

Eduardo prendeu a respiração.

Ele não sabia como responder. Ou melhor, ele sabia, mas dizer em voz alta tornaria tudo ainda mais real.

O silêncio dele foi resposta suficiente.

Kayla soltou outro suspiro, longo e cansado.

— Tá bom. — Ela disse, com a voz visivelmente trêmula. — Era só isso que eu precisava saber.

Eduardo abriu a boca, querendo dizer algo, qualquer coisa, mas ela já estava se despedindo.

— Adeus, Eduardo.

E então a linha ficou muda.

Eduardo encarou o celular por longos segundos, sentindo o peso de tudo esmagá-lo de novo.

Ele fechou os olhos, deixando a cabeça cair sobre o travesseiro. O peito subia e descia em respirações pesadas. As lágrimas voltaram, silenciosas, sem ele nem perceber.

Era isso.

Kayla tinha ido embora para sempre.