O Garoto Feito de Sol e Terra
61 Capítulo 61 — Tarde Demais Para Voltar Atrás
Os dias se arrastaram, lentos e pesados. Duas semanas inteiras.
Nem Leo nem Eduardo deram qualquer sinal de vida. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação. Nada. Nunca tinham passado tanto tempo sem falar um com o outro.
No começo, Eduardo ainda abria o chat, encarando o espaço vazio onde antes existiam provocações, piadas e desabafos. Agora, só havia um silêncio sufocante.
Várias vezes, seus dedos pairaram sobre o teclado, tentados a digitar algo, qualquer coisa. Um simples "Oi", um "Como você tá?". Mas ele nunca teve coragem de enviar.
Porque, no fundo, sabia que Leo não queria falar com ele. E essa certeza doía mais do que qualquer palavra não dita.
Naquela tarde, Eduardo estava largado na cama quando o celular vibrou.
Pegou o aparelho sem muito interesse, já esperando alguma mensagem de Kayla.
Mas não. Era Bruno.
Bruno: aí, mano, amanhã tô fazendo um rolê aqui em casa. meu aniversário, né? cola aí
Eduardo arqueou a sobrancelha. Desde que tudo aconteceu, ele quase não tinha falado com Bruno. O cara era amigo dele, mas também era amigo de Leo, então era um território meio incerto.
Eduardo: valeu pelo convite, mano
Eduardo: mas tem certeza que quer que eu vá?
Eduardo perguntou aquilo não por falsa modéstia, mas porque sabia como as coisas estavam. Ele não tinha certeza de que ainda era bem-vindo naquele grupo.
Carla e Davi, que antes eram seus amigos, agora mal falavam com ele. O desprezo deles era evidente, e Eduardo sabia exatamente o motivo. Eles tinham escolhido um lado. O lado de Leo.
Então, quando Bruno o convidou, a dúvida veio automaticamente. Ele realmente queria Eduardo lá? Ou aquilo só ia tornar as coisas mais estranhas para todo mundo?
Mas a resposta veio rápido.
Bruno: óbvio, né, porra? cê é meu amigo
Eduardo passou a mão pelo rosto.
Ainda se sentia deslocado em qualquer coisa que envolvesse Leo. Mas, porra, ele gostava de Bruno. O amigo sempre foi gente boa, apesar de meter os pés pelas mãos às vezes.
Eduardo: tá bom. eu vou
Mas antes que pudesse bloquear o celular, outra mensagem chegou.
Bruno: mas ó... o leo vai estar lá
O estômago de Eduardo deu um nó.
Claro que Leo estaria. Ele hesitou antes de responder.
Eduardo: e ele sabe q eu vou?
Bruno demorou um pouco antes de responder.
Bruno: ainda não falei nada. mas presta atenção, castilho
Bruno: só não faz merda, beleza?
Eduardo soltou uma risada curta, sem humor.
Eduardo: tô indo lá pra beber e comemorar teu aniversário, não pra arrumar problema
Mas a verdade? Eduardo não fazia ideia do que poderia acontecer.
◄☼►
Bruno sabia exatamente o que estava fazendo.
Quando mandou mensagem para Carla, Davi e Leo, convidando-os para o aniversário, não mencionou Eduardo. Porque sabia que, se falasse, Leo não iria. E, no fundo, Bruno queria que todo mundo estivesse lá. Queria que as coisas voltassem ao normal.
Ou, pelo menos, queria que eles tentassem. Então mandou mensagens no grupo onde só tinha ele, Carla, Leo e Davi.
Bruno: aí, amanhã rola aniversário na minha casa. vai ter churrasco, cerveja (pra quem bebe), refri pra quem não, música... enfim, vcs vão colar, né?
Carla: óbvio, né. nem precisa perguntar
Davi: tô dentro
Leo demorou mais para responder.
Bruno quase achou que ele ia inventar alguma desculpa.
Leo: blz, eu vou
Bruno expirou lentamente, só então percebendo que estava segurando a respiração. Funcionou.
Mas ele sabia que estava mexendo num vespeiro.
Se Leo soubesse que Eduardo estaria lá, ia surtar. Mas Bruno decidiu que era melhor assim. Se eles fossem se encontrar, que fosse de uma vez. Sem tempo para fugir.
A verdade é que Bruno sentia falta de quando as coisas eram simples.
De quando ele, Carla, Davi, Leo e Eduardo eram só um grupo de amigos na escola, zoando um ao outro, jogando conversa fora no intervalo, saindo depois das aulas pra fazer qualquer coisa idiota.
Sentia falta de quando não tinha essa merda toda.
Quando Leo não andava sempre com aquela cara fechada, quando Carla e Davi não ficavam tensos toda vez que alguém mencionava Eduardo, quando Eduardo não estava sempre tão... distante.
Por isso ele queria todo mundo na festa.
Por isso não avisou Leo sobre Eduardo.
Porque se dependesse deles, essa merda nunca ia acabar.
Se dependesse de Carla e Davi, Eduardo ia continuar sendo tratado como um traidor. Se dependesse de Leo, ele ia passar o resto da vida fugindo.
E se dependesse de Eduardo...
Bom, Bruno não tinha certeza. Mas sabia que Eduardo e Leo não podiam se evitar para sempre.
Então, decidiu que ia ser assim.
Ia ser no seu aniversário que isso ia estourar. E que Deus o ajudasse.
◄☼►
No dia da festa, Leo, Carla e Davi chegaram juntos.
O clima estava leve.
Bruno tinha se esforçado para garantir que aquela seria uma noite tranquila. Sem tensão, sem brigas, sem ninguém querendo arrancar a cabeça de ninguém.
Leo tentou entrar no ritmo.
Ele sabia que não podia passar a vida inteira remoendo tudo. Então, mesmo que ainda sentisse o peito cheio de estilhaços, tentou.
Tentou rir das piadas de Davi. Tentou se empolgar com Carla falando sobre o bolo de aniversário. Tentou fingir que estava inteiro.
A festa já estava cheia quando chegaram. Gente da escola, amigos do bairro, até algumas caras desconhecidas para Leo.
Mas estava bom. Aos poucos, ele começou a relaxar, a conversar mais.
Até que Eduardo chegou.
O ar na sala pareceu mudar.
Não foi nada escandaloso. Não houve silêncio absoluto ou olhares arregalados.
Mas Leo sentiu.
O peito apertou assim que seus olhos captaram Eduardo cruzando a porta.
Ele estava do mesmo jeito de sempre. Camiseta preta, calça jeans, cabelo levemente bagunçado. Bonito pra caralho sem o menor esforço.
E Leo odiou isso.
Odiou que, depois de tudo, Eduardo ainda conseguia bagunçá-lo inteiro só por existir.
Carla parou de rir. Davi lançou um olhar discreto para Leo, esperando alguma reação. Bruno, do outro lado da sala, captou a mudança no clima e se manteve atento, pronto para intervir se fosse necessário.
Eduardo olhou em volta, cumprimentou algumas pessoas.
Então, seus olhos encontraram os de Leo. E ali ficaram. Presos.
Um segundo. Dois.
Um mundo inteiro naquele olhar.
Leo sentiu a respiração pesar, mas não desviou.
Eduardo parecia hesitante, como se tivesse algo preso na garganta. Mas então, fez o que sempre fazia.
Sorriu de leve, como se nada tivesse acontecido e foi falar com Bruno.
Leo sentiu a raiva crescendo no peito.
Por que Eduardo fazia isso? Por que ele sempre agia como se nada estivesse acontecendo?
Carla percebeu e murmurou baixo:
— Respira fundo, Leo.
Leo piscou algumas vezes e respirou.
Ele não ia deixar Eduardo estragar sua noite. Não dessa vez.
Ele saiu do ambiente. Não queria estar ali.
Não queria ficar no mesmo espaço que Eduardo, sentindo aquele peso sufocante no peito, fingindo que tudo estava bem.
Ele passou por algumas pessoas na festa, desviou de uma conversa, pegou um copo de refrigerante na mesa só para ter algo em mãos e sumiu para outro canto da casa.
Precisava respirar.
Carla observou ele sair e suspirou fundo. Então, virou-se para Davi.
— Eu não acredito nisso.
Davi já sabia o que estava por vir.
— Carla, só… calma.
— Calma? — Ela arqueou a sobrancelha. — Davi, pelo amor de Deus, a gente tá aqui, tentando fazer o Leo se sentir bem, tentando fazer com que essa merda toda passe, e aí o que acontece? O Bruno me convida o próprio Castilho pra festa?
Davi passou a mão no rosto.
— Ele não avisou pra gente! — Carla esbravejou, os olhos fervendo de indignação.
Antes que Davi pudesse tentar acalmá-la, ela já estava marchando até Bruno. Bruno estava perto da mesa de bebidas, conversando com Alan e mais dois amigos. Nem viu Carla chegando até ela bater no ombro dele.
— Bruno.
Bruno virou-se, meio surpreso.
— Oi?
Carla cruzou os braços, sem paciência.
— O que diabos deu na sua cabeça de convidar o Eduardo?
Bruno revirou os olhos.
— Ah, pronto.
— Pronto o caralho, Bruno!
Alan e os outros olharam um para o outro, percebendo o tom da conversa e já se afastando para evitar se meter no meio.
Bruno soltou um suspiro cansado.
— Carla, eu queria o grupo todo aqui. E sim, isso inclui o Eduardo.
Carla soltou uma risada incrédula.
— Você tá de sacanagem comigo.
— Não, não tô. — Bruno olhou para ela, sério. — Eu tô cansado dessa treta toda.
— Cansado? CANSADO? — Carla repetiu, o olhar afiado. — Bruno, o Leo se fudeu todinho por causa desse desgraçado, e você ainda tem coragem de dizer que tá cansado?
— Eu sei o que aconteceu! — Bruno rebateu, irritado. — Mas eu também sou amigo do Eduardo, cacete!
Carla riu de novo, completamente desacreditada.
— Sério? Então, basicamente, foda-se o Leo?
— Não é isso, porra! — Bruno passou a mão pelos cabelos, frustrado. — Eu sei que o Castilho fez merda, mas isso não quer dizer que eu tenha que cortar ele da minha vida!
Carla o olhou por um instante, os olhos fervendo de raiva.
— Você nunca entendeu, né?
Bruno bufou.
— Carla…
— Nunca entendeu o que o Leo passou. O que ele ainda tá passando.
— Não é verdade…
— É sim! — Ela apontou um dedo para ele. — Porque se você entendesse de verdade, não teria feito essa merda.
Bruno apertou os punhos, tentando manter a paciência.
— Você quer que eu faça o quê, então? Que eu pare de falar com ele?
— Quero que pare de ser um imbecil, já é um bom começo.
Bruno riu seco.
— Ah, claro. Porque você sempre sabe tudo, né, Carla?
— Eu sei o suficiente pra saber que o Leo merece mais do que ficar lidando com isso toda vez!
Bruno respirou fundo, fechando os olhos por um segundo antes de abrir de novo. Carla continua:
— Quer saber? Eu não vou ficar discutindo isso aqui.
— Ótimo.
Carla deu um passo para trás, ainda fervendo de raiva.
— Mas uma coisa, Bruno.
Ele levantou o olhar para ela.
— O que foi?
— Se essa noite acabar com o Leo indo embora na merda de novo… — Ela estreitou os olhos. — A culpa vai ser sua.
E então, ela se afastou.
Bruno ficou ali, sentindo o estômago afundar.
Porque, mesmo que odiasse admitir… parte dele sabia que Carla estava certa.
Bruno gostava de Leo. Gostava muito. Desde sempre.
Mas, para ele, isso não significava que precisava cortar Eduardo da sua vida. Ele entendia que Eduardo tinha feito merda. Entendia mesmo. Mas, na sua cabeça, isso era uma treta entre ele e Leo. Não dele.
Ele não era o juiz da história. Não era quem deveria decidir quem estava certo ou errado.
E, honestamente?
Bruno não queria perder nenhum dos dois.
O grupo deles já estava quebrado o suficiente. Já não era como antes. Antes, todos eles eram inseparáveis. Antes, riam juntos todos os dias, enchiam o saco uns dos outros, marcavam de sair sem nem precisar combinar muito. Antes, nada parecia tão complicado.
Agora?
Agora, parecia que tudo tinha um peso, um limite, um histórico carregado.
E Bruno estava cansado disso. Por isso chamou Eduardo.
Não porque queria provocar Leo. Não porque queria ignorar o que aconteceu, mas porque, no fundo, só queria que tudo voltasse ao normal.
Só que, no instante em que viu Leo sair da sala assim que Eduardo chegou, sentiu um peso no peito.
E quando Carla veio praticamente cuspindo fogo na sua cara, ele percebeu que talvez…
Talvez estivesse errado sobre isso.
◄☼►
Leo estava do lado de fora, encostado no muro, segurando a lata de refrigerante meio amassada entre os dedos. O gás do refrigerante já tinha perdido força, mas ele nem ligava.
O ar da noite estava fresco, mas ele sentia o corpo quente, inquieto. A chegada de Eduardo tinha tirado todo o ar do ambiente.
Ele tentou ignorar. Tentou respirar fundo e esquecer que Eduardo estava lá dentro, conversando com os amigos como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse partido o coração dele. Mas ignorar Eduardo sempre foi impossível.
— Você tá bem?
A voz de Carla cortou o silêncio.
Leo não olhou para ela de imediato. Manteve os olhos fixos na lata, girando-a entre os dedos.
— Tô.
Carla suspirou, cruzando os braços.
— Olha, eu sei que isso te pegou de surpresa. Eu também fiquei puta. Mas… se você quiser ir embora, eu vou com você.
Leo finalmente a olhou.
O olhar de Carla era genuíno. Ela sempre esteve do lado dele. Sempre.
E, naquele momento, ele percebeu que não precisava lidar com aquilo sozinho. Mas…
Ele também não queria fugir.
— Eu vou ficar mais um pouco — disse, voltando a olhar para a lata.
Carla não pareceu muito convencida.
— Tem certeza?
Leo respirou fundo.
— Tenho.
Ela ficou em silêncio por um momento, analisando ele. Então, suspirou e deu um pequeno sorriso de lado.
— Certo. Mas se aquele imbecil vier encher o saco, eu juro que jogo essa lata na cara dele.
Leo riu, pela primeira vez naquela noite.
E, mesmo que o coração dele ainda estivesse uma bagunça… Aquele riso, mesmo que breve, foi o suficiente para ele respirar um pouco melhor.
◄☼►
Leo ficou ali, parado, observando a festa através da porta entreaberta. O som abafado das vozes e da música chegava até ele como um zumbido distante, como se tudo estivesse acontecendo em outra dimensão.
Ele sabia que não deveria olhar. Mas olhou.
Seus olhos encontraram Eduardo do outro lado do ambiente, rindo com Bruno e alguns colegas. O sorriso dele era largo, genuíno, daquele jeito que sempre fez algo dentro de Leo revirar.
Aquele sorriso que já foi só dele.
Eduardo parecia à vontade, jogado no sofá com a postura relaxada, o corpo levemente inclinado para frente enquanto gesticulava no meio da conversa. Bruno dizia alguma coisa animada, e Eduardo ria de novo, jogando a cabeça para trás.
Como se não houvesse um peso esmagador entre eles.
Leo apertou a lata de refrigerante em sua mão, os dedos cravando no alumínio já amassado.
Como ele conseguia?
Como Eduardo conseguia seguir com a vida dele, rir tão fácil, enquanto Leo sentia um buraco no peito cada vez que pensava nele?
Os olhos de Leo deslizaram sobre Eduardo sem que ele percebesse. O jeito como ele se movia, a forma natural como se misturava ao ambiente, como todo mundo parecia se gravitar ao redor dele.
Como se ele fosse o centro de tudo.
Como se nada estivesse quebrado.
Mas Leo sabia que era uma mentira.
Porque ele conhecia Eduardo. Sabia que, por baixo daquela fachada relaxada, Eduardo era um mar revolto. Tão confuso quanto ele.
E, por mais que soubesse disso, não doía menos vê-lo ali, como se estivesse completamente bem.
Leo desviou o olhar, o estômago afundando.
Virou o rosto de volta para a rua e fechou os olhos por um instante, tentando regular a respiração. Tentando não sentir.
Mas era impossível.
Porque, mesmo sem querer, Eduardo ainda era a primeira e última coisa em que ele pensava.
Leo ficou ali por mais alguns minutos, tentando se convencer de que não se importava. Tentando ignorar a presença de Eduardo na mesma festa. Tentando fingir que não era afetado pelo fato de ele estar ali, rindo, se divertindo.
Mas, eventualmente, a pressão na bexiga ficou impossível de ignorar. O incômodo cresceu até se tornar mais forte do que qualquer outra coisa em sua mente. Suspirando pesadamente, ele percebeu que precisava ir ao banheiro. Mas havia um problema.
Para chegar até lá, precisaria passar por Eduardo.
A simples ideia fez seu peito apertar. Ele não queria. Não queria ter que olhar para ele. Mas também não ia se esconder.
Respirou fundo, reunindo toda a sua determinação, e começou a andar. Os passos eram firmes, mas dentro dele tudo parecia um caos. Ele atravessou o espaço sem diminuir o ritmo, sem sequer olhar na direção do sofá.
Mas sentiu.
Sentiu os olhos de Eduardo nele.
O olhar pesado, carregado de alguma coisa que Leo não queria decifrar.
Os pelos de sua nuca se arrepiaram. Um arrepio que não era exatamente ruim, e isso o irritou mais ainda.
Ele não queria sentir nada.
Passou direto, sem hesitar, sem demonstrar nada além de pura indiferença.
Mas, ao fundo, no canto da sua visão periférica, Eduardo o acompanhava com o olhar. E Leo soube que, por mais que tentassem evitar, essa história ainda não tinha acabado.
◄☼►
Bruno notou quando Eduardo se desligou da conversa. O jeito que ele parou de rir, que sua expressão ficou mais séria, que o olhar se desviou completamente dos amigos.
Curioso, ele seguiu a linha do olhar de Eduardo.
E lá estava Leo.
Bruno o viu caminhando firme, com os ombros tensos, desaparecendo no banheiro.
Ah, merda.
Ele voltou os olhos para Eduardo, que parecia perdido, preso demais naquela direção.
Bruno bufou, já sabendo no que aquilo ia dar.
Ele deu um gole no refrigerante e, num movimento discreto, pegou Eduardo pelo braço e o puxou para um canto mais reservado.
— Mano, nem vem. — Bruno foi direto, estreitando os olhos. — Nem vem fazer merda.
Eduardo piscou, surpreso pela abordagem repentina.
— Que? Que porra, Bruno?
Bruno cruzou os braços.
— Você acha que eu não vi? Tava olhando pro Leo desde que ele entrou.
Eduardo franziu a testa, tentando bancar o desentendido.
— Para de graça, cara — Bruno continuou. — Você não pode fazer isso.
— Fazer o quê? — Eduardo retrucou, impaciente.
Bruno soltou um riso seco.
— Ir atrás dele.
Eduardo cerrou a mandíbula.
Ele sabia que Bruno tinha razão. Sabia que o certo era deixar as coisas como estavam, fingir que Leo não estava ali, seguir em frente.
Mas, porra.
Era Leo.
E ignorá-lo estava se tornando cada vez mais difícil.
◄☼►
Mais tarde, na tentativa de animar a festa, Bruno bateu palmas e chamou a atenção da galera:
— Pessoal, bora jogar um “Eu Nunca”?
A galera vibrou, alguns riram, outros já pegaram as bebidas. Leo, que ainda estava meio afastado, bufou baixinho, mas não fez nada para sair dali. Ele sabia que Carla e Davi iam querer jogar, e se ele tentasse escapar, só ia parecer que estava fugindo.
Bruno explicou as regras rapidinho para os desavisados.
— Se alguém falar "Eu nunca" e você já tiver feito aquilo, tem que beber. Simples.
— Eu começo! — Alicia, uma colega de classe, se adiantou, animada. Ela pegou sua latinha e lançou o primeiro desafio — Eu nunca andei de avião.
Algumas pessoas riram, e de imediato Eduardo pegou a cerveja e deu um gole.
Leo ficou parado. Sua mão apertava o copo de refrigerante, mas ele não levou à boca.
Porque ele nunca tinha andado de avião.
Eduardo sim.
Ele olhou de relance para o outro, que simplesmente bebeu sem nem pensar muito. Eduardo percebeu o olhar e, sem querer, olhou de volta.
Os olhos se encontraram por um segundo.
E naquele segundo, Leo lembrou da viagem à praia.
A viagem que, até onde ele sabia, era o momento mais especial que tinham vivido juntos. O auge deles. O momento que, para Leo, era a melhor lembrança da vida dele.
Mas Eduardo já tinha outras viagens.
Já tinha vivido mais. Já tinha estado em outros lugares, longe dali.
Ele desviou o olhar rapidamente, como se aquilo não tivesse significado nada.
A rodada continuou, com mais alguns “eu nunca” sendo lançados no ar. Alguns eram bobos, outros mais ousados, arrancando risadas e brincadeiras entre o grupo. Copos se erguiam, goles eram tomados, segredos eram revelados no meio da zoeira.
Foi quando Julia, com um sorriso travesso, pegou sua bebida e lançou mais um desafio para a roda:
— Eu nunca transei com uma mulher.
A galera caiu na risada. Algumas meninas trocaram olhares cúmplices, rindo.
Eduardo, sem nem piscar, pegou a cerveja e deu um gole.
Leo viu.
E não conseguiu evitar o aperto no peito.
Ele viu quando outros caras beberam também, quando algumas meninas riram e comentaram coisas baixinho. Mas tudo pareceu ficar em segundo plano quando Eduardo levou a lata à boca.
Porque, por mais que Leo soubesse que Eduardo transava com Kayla, ouvir aquilo assim, dessa forma tão casual, com todo mundo rindo e bebendo como se fosse só um jogo qualquer… doeu.
Ele sentiu Carla e Davi olharem para ele, mas ignorou. Mantinha a mão firme no copo de refrigerante, os olhos fixos em algum ponto qualquer, tentando não reagir.
Naquele momento, Leo quis sair dali.
Ele apertou os dedos ao redor do copo de refrigerante, sentindo um nó se formar em sua garganta.
Só de imaginar Eduardo transando com Kayla, tocando ela, segurando ela daquele jeito… do mesmo jeito que o segurava.
A respiração dele ficou pesada. Ele não queria pensar nisso. Não queria sentir isso.
Mas a imagem vinha.
A forma como Eduardo o segurava forte, como sua boca traçava um caminho lento e quente pela pele dele, como os sussurros roucos escapavam entre os beijos desesperados…
Ele fazia isso com ela também?
Leo sentiu o estômago revirar.
Era óbvio que sim.
Eduardo estava com ela.
Eduardo dormia com ela, tocava ela, beijava ela.
A bebida no copo de Leo ficou esquecida. Ele olhava para a mesa, mas não via mais nada. Só Eduardo, levando a lata de cerveja aos lábios depois daquela frase.
O peito dele queimava.
E o pior de tudo?
Ele não podia reclamar. Não tinha esse direito.
◄☼►
Eduardo engoliu a bebida quase sem pensar, sentindo o álcool descer queimando pela garganta. Mas quando abaixou a lata, finalmente notou o olhar de Leo.
A intensidade silenciosa, o brilho contido naqueles olhos que ele conhecia tão bem.
Mas, assim que Eduardo o encarou de volta, Leo desviou. Rápido demais. Como se tivesse sido pego sentindo algo que não deveria.
Eduardo sentiu o peito apertar.
Porra.
Ele nem pensou antes de levar a bebida à boca. Só respondeu no automático, como se fosse qualquer pergunta idiota do jogo.
Mas não era qualquer coisa.
Ele viu a forma como Leo engoliu seco. Viu a forma como seus dedos apertaram o copo, o jeito discreto que seu maxilar travou.
Eduardo queria se bater.
Porque sabia exatamente o que Leo estava pensando.
◄☼►
A rodada do jogo continuou. As vozes ao redor soavam distantes, como um zumbido abafado. Risadas explodiam de tempos em tempos, e latas tilintavam conforme os participantes bebiam. Mas Leo não conseguia focar em nada.
Os amigos falavam, provocavam uns aos outros, mas ele não estava ali.
O olhar de Eduardo ainda queimava em sua pele.
As palavras “eu nunca transei com uma mulher” ainda martelavam na sua mente.
O som da bebida descendo pela garganta de Eduardo ecoava como um trovão em sua cabeça.
Leo sentia um gosto amargo na boca.
Carla riu ao seu lado de alguma coisa que Bruno disse, cutucando Davi. Alguém fez outra declaração no jogo:
— Eu nunca fui pego colando na prova.
Risadas. Algumas pessoas beberam.
Leo nem ouviu direito.
Seus dedos estavam apertados ao redor do copo, os pensamentos girando como um furacão na sua mente.
Ele não sabia se estava com raiva, com ciúmes ou se só queria ir embora dali o mais rápido possível.
Mas uma coisa era certa: ele não suportava mais estar naquele jogo.
Passaram-se alguns minutos, até que ele não conseguiu mais ficar ali.
O copo estava firme em sua mão, os sons da festa se misturavam como um zumbido irritante ao redor, e o calor do ambiente parecia sufocante. O olhar de Eduardo ainda pesava sobre ele, como se tentasse atravessar sua pele e enxergar tudo que Leo estava sentindo.
Mas ele não queria ser lido.
Não queria sentir.
Sem dizer nada, se levantou de repente e saiu da roda, indo direto para fora da casa.
O ar fresco da noite bateu em seu rosto, e ele inspirou fundo, tentando dissipar a confusão em sua mente. Atrás dele, a festa continuava, risadas e música abafadas pela porta semiaberta. Mas para Leo, tudo parecia distante.
Os outros já estavam alterados pela bebida, tão imersos no jogo e na euforia da festa que nem notaram sua saída repentina.
Mas Eduardo notou.
Sentado no sofá, segurando a latinha meio esquecida entre os dedos, Eduardo seguiu cada movimento de Leo com os olhos.
O jeito tenso que ele se levantou. O modo como atravessou o ambiente sem olhar para ninguém. O silêncio carregado que deixou para trás.
Eduardo sentiu o peito apertar.
Sem pensar, largou a lata na mesa e se inclinou para frente, como se estivesse prestes a se levantar também.
Mas então hesitou.
O que ele faria se fosse atrás de Leo?
O que ele poderia dizer?
Seu coração martelava no peito enquanto olhava para a porta semiaberta, por onde Leo havia saído.
Ele sabia que isso era por causa dele. Sabia.
E aquilo o matou por dentro.
◄☼►
Lá fora, Leo sentia o estômago revirar.
A noite estava fresca, mas ele sentia um calor sufocante subir pelo corpo, misturado ao nó apertado em sua garganta.
Ele fechou os olhos, tentando afastar a única imagem que agora tomava conta de sua mente.
Eduardo. Com Kayla.
Tocando ela. Beijando ela. Sussurrando para ela do mesmo jeito que fazia com ele.
O peito de Leo apertou com força.
Por que diabos ele estava pensando nisso? Ele não queria imaginar, mas era impossível.
Aquele maldito jogo. Aquela maldita bebida que Eduardo tomou sem hesitar. Aquele maldito olhar que ele lançou para Eduardo no instante em que percebeu.
Leo passou a mão pelo rosto, tentando respirar fundo. Ele não deveria se sentir assim. Não podia sentir ciúmes.
Mas porra. Doía.
Doía de um jeito que ele não conseguia colocar em palavras. De um jeito que fazia seu coração parecer pesado demais dentro do peito.
Ele cerrou os punhos.
Deveria superar isso. Deveria parar de se importar. Mas como, se Eduardo nunca saía da sua cabeça?
Ele não tinha direito algum de se sentir assim.
Kayla era a namorada de Eduardo.
Era com ela que Eduardo andava de mãos dadas na saída da escola. Era com ela que Eduardo ria e fingia que sua vida estava perfeita. Era com ela que Eduardo transava.
Leo sentiu o peito apertar ainda mais.
Ele não era nada. Nunca foi.
O máximo que teve foram momentos roubados, escondidos. Momentos que nunca significariam o suficiente. E talvez, no fundo, Leo sempre soube disso.
Mas saber não fazia doer menos.
Ele respirou fundo, apertando as mãos ao lado do corpo.
Queria ir embora. Queria sair dali, esquecer aquela festa, esquecer Eduardo.
Mas o que ele mais queria era algo que sabia que não podia ter.
E isso era a pior parte.
◄☼►
Eduardo hesitou antes de sair da festa. Ele não sabia ao certo o que estava fazendo, só sabia que não conseguia ignorar.
O ar lá fora estava fresco, um contraste gritante com o calor abafado da casa cheia de gente. E lá estava Leo, parado sozinho, os braços cruzados contra o peito, olhando para o nada.
Eduardo sentiu um aperto no peito. Ele parecia tão sozinho.
Ele engoliu seco, se aproximando devagar, os passos quase incertos. Não sabia o que ia dizer. Só sabia que precisava falar.
— Oi… Tá tudo bem?
Leo piscou, saindo de seus pensamentos, e virou o rosto levemente para Eduardo. O olhar dele estava vazio. Ou talvez só estivesse cansado.
— Tá. — Respondeu curto, seco.
Eduardo não acreditou.
Ele ficou ali, de pé, ao lado de Leo, sentindo que deveria dizer mais alguma coisa, mas sem saber exatamente o quê.
O silêncio entre eles era pesado, como se carregasse tudo o que nunca foi dito.
Leo não olhava para ele.
Eduardo se sentiu um merda. Porque, no fundo, sabia o motivo de Leo estar ali sozinho. Sabia exatamente o que o tinha feito sair da festa.
Mas Leo não tocou no assunto. Não perguntou nada.
— Você quer que eu saia daqui? — Eduardo perguntou depois de um tempo, a voz mais baixa.
Leo continuou olhando para o nada, a expressão fechada.
— Faça o que quiser.
Eduardo sentiu um nó se formar na garganta.
Ele queria que Leo o mandasse ir embora. Que xingasse. Que jogasse na cara tudo que ele fez. Mas o silêncio de Leo era pior.
Porque Eduardo sabia que o que vinha depois do ódio era a indiferença.
E se Leo começasse a não se importar mais... Eduardo não sabia se conseguiria lidar com isso.
Leo sentia o peito apertar, a garganta travada. Ele queria chorar. Queria gritar. Queria odiar Eduardo. Mas odiá-lo significava ainda se importar.
E isso o matava.
O vento frio da noite soprava levemente, bagunçando os cabelos de Eduardo, que não desviava o olhar de Leo. Ele via tudo ali, o cansaço, a dor contida, a tensão nos ombros dele.
E então, Leo quebrou o silêncio.
— Olha... por que você tá aqui fora? — A voz saiu rouca, um pouco mais baixa do que ele pretendia. Mas ele estava cansado demais para disfarçar.
Virou o rosto, encarando Eduardo pela primeira vez naquela noite. Leo continuou:
— Não deveria estar lá dentro jogando?
Eduardo engoliu em seco.
Porque ele deveria. Deveria estar lá dentro, rindo, brincando, vivendo a vida que escolheu. Mas, em vez disso, estava ali, encarando Leo, tão lindo à luz da lua, o brilho prateado destacando seus olhos, seus traços tão bem desenhados. Tão absurdamente perfeito.
Eduardo respirou fundo.
Queria dizer algo. Qualquer coisa.
Mas o único pensamento que vinha era: Como eu deixei isso acontecer?
Como ele tinha deixado Leo escapar?
Como tinha deixado tudo desmoronar?
E como, mesmo depois de todo esse tempo, de todas as mágoas, de todas as tentativas falhas de seguir em frente, ele ainda não conseguia parar de querer Leo?
A casa estava agitada, cheia de gente rindo, conversando, bebendo e jogando. O som abafado da música chegava até a área externa onde Leo e Eduardo estavam, envoltos em um silêncio que parecia muito mais alto do que qualquer coisa que estivesse acontecendo dentro daquela casa.
Leo queria mandar Eduardo embora. Queria dizer para ele simplesmente voltar para a festa, para a sua vida perfeita, para Kayla. Mas, em vez disso, Eduardo continuava ali, encarando-o como se tivesse algo preso na garganta, algo que nunca conseguia dizer.
E então, talvez pelo efeito do álcool, talvez pela saudade insuportável, Eduardo fez algo impensável. Sem pensar muito, sem se importar com mais nada, pegou Leo pelo pulso e o puxou.
— Que porra— Leo começou, mas Eduardo não o soltou.
Entrou na casa, caminhou firme pelo corredor, desviando das poucas pessoas que ainda estavam por ali, sem que ninguém percebesse. Ou quase ninguém.
Carla estava saindo da cozinha naquele instante. E viu.
Viu Eduardo puxando Leo, viu o jeito como Leo tentou resistir, mas no fim deixou-se levar.
Carla franziu a testa, mas ficou onde estava, observando.
Eduardo abriu a porta do banheiro, sem soltar Leo e puxou-o para dentro. A porta se fechou atrás deles.
E ali estavam, sozinhos.
Leo arfava, o peito subindo e descendo de forma irregular, não tanto pelo esforço, mas pelo que diabos estava acontecendo.
— Eduardo, o que você pensa que tá fazendo?! — Leo perguntou, a voz carregada de irritação e confusão.
Eduardo não respondeu.
Não tinha resposta.
Apenas olhou para Leo com aquela intensidade que fazia seu peito apertar, que fazia sua respiração ficar irregular, que fazia tudo se dissolver.
Ele ergueu a mão devagar, os dedos roçando de leve na bochecha de Leo, no contorno do maxilar, subindo até os cabelos. O toque foi suave, quase hesitante, como se estivesse tentando memorizar cada detalhe.
Mas Leo não permitiu.
Na mesma hora, tirou a mão dele dali, afastando-a com um movimento firme.
— O que você pensa que tá fazendo? — repetiu, a voz baixa, tensa.
Eduardo não respondeu.
Não sabia o que responder. Só sabia que não conseguia mais ficar longe.
A respiração pesada preenchia o banheiro pequeno, o silêncio denso como se o tempo tivesse parado. O cheiro de álcool e perfume pairava no ar.
Leo queria falar. Queria gritar. Queria mandá-lo sair dali.
Mas não conseguia.
E então, Eduardo se aproximou, num movimento firme e, antes que Leo pudesse raciocinar, os lábios dele tomaram os seus.
Foi um beijo urgente, desesperado, carregado de saudade e desejo contido por tempo demais.
E Leo cedeu.
Sem pensar, sem resistir, seus lábios se moveram em resposta, sua mão se fechou ao redor da camisa de Eduardo, puxando-o para mais perto.
A boca de Eduardo era quente, intensa, exatamente como ele lembrava.
Exatamente como ele queria.
Mas então...
A realidade bateu. Com força.
Leo abriu os olhos no meio do beijo, sua mente gritando para ele parar.
Não podia fazer isso. Não podia cair de novo.
Com um movimento hesitante, quase doloroso, afastou Eduardo, quebrando o beijo.
Eduardo olhou para ele, a respiração ofegante, o olhar carregado de sentimentos que Leo não queria decifrar.
— Para... — Leo murmurou, o peito subindo e descendo rápido.
Eduardo não recuou.
Muito pelo contrário. Eduardo deu um passo à frente, diminuindo ainda mais a distância entre eles, forçando Leo contra a parede.
Leo sentiu o toque gelado do azulejo em suas costas, um contraste gritante com o calor do corpo de Eduardo tão próximo. Sua respiração ficou presa na garganta, e o olhar fixo de Eduardo o deixava sem saída.
— Se realmente quer que eu saia, diz. — A voz de Eduardo saiu baixa, rouca, carregada de algo denso, quase palpável.
Leo prendeu a respiração. Eduardo acrescenta:
— Fala que quer que eu vá embora que eu viro as costas e saio.
O silêncio entre eles se tornou ensurdecedor. Leo engoliu em seco.
Sua mente gritava que precisava falar. Que precisava acabar com aquilo antes que fosse tarde demais, mas ele não conseguia.
Os olhos de Eduardo estavam fixos nos seus, esperando.
Esperando para ser mandado embora. Esperando para ser rejeitado.
Esperando por algo que nunca viria, porque Leo não queria mandá-lo embora. Porque doía demais. Porque tinha saudade demais. Seus olhos estavam marejados, e ele mordeu o lábio, a respiração falha.
Eduardo não disse mais nada. Aguardava.
E então, num fio de voz, quase um sussurro, quase uma rendição, Leo respondeu:
— Eu… — Hesitou.
Eduardo aguardava, continuando a encará-lo nos olhos.
— Fala, Leo.
— Não.
Eduardo piscou, surpreso.
Por um segundo, um único segundo, a hesitação brilhou no olhar dele.
Mas então, tudo desapareceu. E ele beijou Leo.
Dessa vez, não houve hesitação.
O beijo foi profundo, desesperado, como se finalmente tivessem deixado tudo cair.
As mãos de Eduardo agarraram a cintura de Leo, puxando-o contra si. Leo gemeu contra a boca dele.
Seus dedos cravaram nos cabelos de Eduardo, segurando-o como se tivesse medo de que ele desaparecesse.
O banheiro pequeno ficou ainda menor, o calor dos corpos, a respiração pesada, os gemidos baixos, tudo era uma explosão.
Eles se agarraram ali, como se tudo no mundo fosse insignificante perto daquilo. Perto deles.
A respiração de Eduardo era quente contra a pele de Leo, os lábios mal se afastavam enquanto os dois continuavam a se beijar com uma fome acumulada por semanas.
As mãos de Eduardo deslizavam pela cintura de Leo, os dedos pressionando a pele por cima da roupa, como se quisesse gravar aquela sensação. Leo segurava os cabelos de Eduardo, puxando-o para ainda mais perto, como se o espaço entre eles não fosse suficiente.
O banheiro parecia pequeno demais, apertado demais, quente demais.
A boca de Eduardo desceu pelo maxilar de Leo, roçando pela sua pele antes de mordiscar seu pescoço de leve. Leo suspirou, seus olhos se fechando por um instante, entregue àquela sensação.
E foi nesse momento que Eduardo sussurrou, rouco, contra sua pele:
— Vem pra minha casa hoje. Comigo.
Leo sentiu um arrepio subir pela espinha.
Seu corpo inteiro pulsava em resposta ao convite, à ideia, à tentação.
Ele abriu os olhos e encontrou o olhar de Eduardo fixo no seu, escuro de desejo.
O coração dele bateu forte.
Por um segundo, ele quis dizer sim. Por um segundo, quis esquecer tudo.
Quis ir. Se perder de novo.
Mas então...
O peso da realidade caiu sobre seus ombros.
Ele não podia. Eduardo ainda estava com Kayla.
Ainda era o mesmo cara que quebrou seu coração.
Leo respirou fundo, sentindo a dor da verdade se misturar ao desejo sufocante.
Empurrou Eduardo levemente pelo peito, criando um espaço entre eles.
Eduardo franziu a testa, confuso.
Leo passou a língua pelos lábios inchados, tentando organizar os pensamentos.
— Eu não posso. — murmurou, a voz falha.
Eduardo continuou olhando para ele, como se esperasse que mudasse de ideia. Mas Leo sabia que não podia.
Porque, se fosse com Eduardo naquela noite, sabia que se perderia de vez.
Eduardo percebeu a hesitação de Leo, viu o conflito estampado em seus olhos, mas também notou algo inegável: o corpo de Leo traía suas palavras.
Os olhos de Eduardo desceram por um instante e, quando voltaram para o rosto de Leo, um sorriso torto surgiu em seus lábios.
— Não é isso que você quer de verdade, né, Leo? — a voz dele saiu baixa, provocativa, carregada de malícia.
Leo sentiu o rosto esquentar na hora.
Seu corpo inteiro ficou rígido, a respiração travou.
Eduardo levou a mão até a cintura de Leo, puxando-o levemente para si, sentindo o peso da excitação do outro contra ele.
— Porque seu corpo tá me dizendo outra coisa. — continuou, a boca perto demais, a respiração quente contra a pele de Leo.
Leo fechou os olhos por um segundo, tentando recuperar o controle, tentando não ceder, mas Eduardo sabia exatamente o que estava fazendo.
Ele desceu a boca pelo maxilar de Leo, roçando os lábios contra sua pele, enquanto seus dedos apertavam sua cintura com firmeza.
Leo segurou os ombros de Eduardo, tentando afastá-lo, mas estava sem forças. Porque, no fundo, ele não queria que Eduardo parasse. E Eduardo sabia disso.
— Diz que não quer. — Eduardo sussurrou contra seu ouvido, a voz baixa, arrastada. — Diz que eu tô errado e eu saio daqui agora.
Leo sentiu um arrepio percorrer seu corpo inteiro.
Ele tentou dizer.
Tentou afastar Eduardo.
Mas, no fundo, ele sabia. Sabia que não podia mentir.
◄☼►
Leo e Eduardo saíram do banheiro juntos, tentando agir como se nada tivesse acontecido, mas era impossível disfarçar. Leo estava com a respiração ainda um pouco acelerada, a boca vermelha e os cabelos bagunçados pelos dedos de Eduardo. Eduardo, por sua vez, tinha um brilho nos olhos, aquele olhar de quem sabia exatamente o que tinha acabado de fazer.
Carla, que já estava de olho na movimentação desde antes, cruzou os braços e trocou um olhar significativo com Davi.
— Olha isso, Davi. O Castilho e o Leo acabaram de sair do banheiro juntos. — ela disse, baixo o suficiente para que só ele ouvisse. A expressão dela era um misto de decepção e frustração.
Davi acompanhou o olhar, vendo Leo ajeitando a própria camisa como se isso fosse apagar o que quer que tivesse rolado ali dentro.
— Pelo amor de Deus... — Davi suspirou, passando a mão pelo rosto.
— Ele não tem um pingo de respeito por si mesmo, sabe? — Carla murmurou, balançando a cabeça em desgosto. Havia cansaço na voz dela.
Davi não respondeu de imediato. Ele sabia que Leo estava se machucando, que estava preso nesse ciclo tóxico com Eduardo e que, no fim, isso só ia piorar as coisas.
Mas, ao mesmo tempo...
Ele olhou para Leo de novo. Havia algo no olhar dele. Algo entre saudade, desejo e culpa. Algo que mostrava que, por mais que Carla estivesse certa, por mais que ele estivesse se jogando num poço sem fundo, ele não conseguia evitar.
E essa era a pior parte.
Porque, no fundo, Davi sabia que, até Leo realmente quebrar a cara de vez, ninguém ia conseguir convencê-lo de nada.
◄☼►
A festa ainda seguia animada, com risadas altas e conversas misturadas ao som abafado da música tocando. Mas, para Leo e Eduardo, o mundo parecia ter parado ali, no instante em que saíram do banheiro.
Eduardo olhou para Leo rapidamente, analisando o jeito como ele evitava seu olhar, ainda ajeitando a própria roupa como se tentasse apagar os vestígios do que tinham acabado de fazer.
Com a voz baixa, discreta, mas cheia de significado, Eduardo disse:
— Me encontra lá fora.
Leo não respondeu. Nem precisava.
Ele apenas engoliu seco, desviou o olhar e passou por Eduardo sem dizer nada, indo em direção à cozinha. Mas Eduardo sabia. Sabia que Leo faria exatamente o que ele pediu.
Então, sem se despedir de ninguém, Eduardo foi o primeiro a sair da festa.
Ele atravessou o quintal, sentindo o ar fresco da noite aliviar um pouco o calor do próprio corpo. O coração batia forte. Não era apenas pela adrenalina do que tinham feito, mas pelo que ainda estava por vir.
Montou na bicicleta, mas não foi embora. Apenas ficou ali, esperando ansioso.
E então, alguns minutos depois, Leo apareceu.
Saiu da casa com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa, os passos firmes, decididos. Ele nem olhou para os lados. Nem hesitou.
Porque ele já sabia para onde estava indo.
Eduardo não disse nada. Só olhou para ele.
E, naquele instante, Leo sabia que amor próprio, respeito por si mesmo, orgulho, tudo isso era irrelevante. Porque ele só queria Eduardo.
Montou na bicicleta ao lado dele e, sem trocar uma palavra, os dois começaram a pedalar pela rua vazia.
O vento frio da noite batia contra seus rostos, mas o calor entre eles era inegável.
Eles seguiram juntos, lado a lado, no silêncio que dizia tudo o que palavras nunca conseguiriam expressar.
Leo sabia que aquilo era errado. Mas, naquele momento, ele não queria saber de mais nada.
◄☼►
O caminho até a casa de Eduardo foi silencioso. O vento frio da noite cortava seus rostos, mas Leo mal sentia. Seu corpo estava quente, os nervos acesos, a mente um caos de pensamentos que ele se recusava a organizar.
Ainda dava tempo de recuar.
Ainda dava tempo de dizer "não" e voltar para casa.
Mas cada vez que olhava para Eduardo pedalando ao seu lado, tão determinado, tão certo do que queria, Leo sentia a luta dentro de si se tornar inútil.
E, quando chegaram à casa dos Castilho, Leo soube: se entrasse ali, não teria mais volta.
Mas não queria pensar nisso agora.
Eduardo desceu da bicicleta primeiro, empurrou-a até o muro lateral e a deixou ali. Leo fez o mesmo, os movimentos quase automáticos.
O silêncio era pesado.
Eduardo abriu a porta e entrou primeiro. Leo hesitou por meio segundo antes de segui-lo.
O ar dentro da casa parecia diferente.
Talvez fosse coisa da sua cabeça, talvez fosse apenas a sensação de estar ali depois de tanto tempo.
Então, ele a viu.
Helena, a mãe de Eduardo, estava sentada no sofá, com os olhos grudados na televisão, assistindo à novela da noite. O brilho da tela iluminava seu rosto, e, mesmo sem desviar o olhar da TV, ela percebeu a presença dos dois.
— Oh, oi Leo… — murmurou ao vê-lo, sem grande entusiasmo.
Já fazia um tempo que ela não via Leo por ali. Antes, ele sempre aparecia naquela casa. Era parte da rotina. Mas agora… Agora, era diferente.
Leo sentiu o peso da recepção morna, mas apenas assentiu.
— Oi, dona Helena.
Eduardo, por outro lado, não deu espaço para conversa.
— A gente vai subir.
A mãe apenas fez um gesto displicente com a mão, o olhar fixo na televisão.
— Tá bom.
E foi isso.
Eduardo seguiu na frente, subindo as escadas sem olhar para trás.
Leo ficou parado no mesmo lugar por um segundo. Seu coração batia forte.
Dava tempo de ir embora. Ainda dava tempo.
Mas, quando Eduardo parou no meio da escada e olhou para ele, esperando, toda hesitação se desfez.
Sem dizer nada, Leo subiu.
Cada passo parecia mais pesado, como se estivesse se jogando em algo que sabia que só traria mais dor depois.
Mas não importava.
Porque ele não queria mais lutar contra isso.
O quarto de Eduardo estava escuro, com as cortinas fechadas e o ar carregado de lembranças. Mal entraram e a porta se fechou atrás deles, Eduardo puxou Leo pela cintura, sem perder tempo. O choque do corpo de Eduardo contra o seu, o calor daquele toque tão conhecido, fez Leo esquecer por um instante toda a confusão em sua mente.
As bocas se encontraram em um beijo urgente, quase desesperado. Eduardo pressionava Leo contra a porta, suas mãos firmes na cintura dele, os dedos deslizando por sua camisa, como se quisesse sentir cada centímetro de sua pele.
Leo não resistiu. Não queria resistir. Seu corpo cedeu ao toque de Eduardo, a boca entreaberta, os gemidos presos na garganta enquanto os beijos ficavam mais intensos. Eduardo segurava seu rosto com uma das mãos, o polegar acariciando sua bochecha com suavidade, enquanto os lábios devoravam os seus com uma fome que parecia nunca saciar.
— Você é lindo, Leo — sussurrou Eduardo, entre um beijo e outro. A voz dele estava rouca, carregada de desejo. O olhar profundo, fixo em Leo, era quase uma confissão.
Leo não respondeu. Não conseguia. Cada palavra de Eduardo parecia um golpe direto em seu coração, mas, ao mesmo tempo, um alívio para a saudade que consumia seus dias. Ele fechou os olhos, permitindo-se sentir. Permitiu que Eduardo o puxasse mais para perto, que o beijasse com mais intensidade, que suas mãos deslizassem por seu corpo com familiaridade.
Ali, naquele instante, não havia mais dúvida, não havia mais dor. Apenas a urgência dos dois, o desejo que transbordava. Leo queria se perder naquela sensação, naquele calor, mesmo sabendo que tudo aquilo era temporário. Mesmo sabendo que a realidade não tardaria a bater à porta novamente.
Mas, por agora, tudo o que ele queria era sentir.
Enquanto isso, o celular de Leo vibrava incessantemente no bolso de sua calça jogada sobre o chão do quarto de Eduardo. A tela piscava, mostrando uma enxurrada de notificações de Carla. Se ao menos Leo tivesse olhado…
Carla: leo, eu vi vocês dois entrando naquele banheiro. vc é idiota?
Carla: me diz que não é o que eu tô pensando
Mais mensagens.
Carla: pelo amor de Deus, leo, vcs dois SUMIRAM da festa. onde vc tá?
Carla: vc não tem respeito nenhum por si mesmo?
Carla: diz que não foi pra casa dele. diz que não fez essa merda de novo
Carla: leo, me responde AGORA
Carla: meu deus, eu não acredito nisso. o bruno me contou q viu vcs saindo. vc realmente não aprende, né?
Carla: eu tô com vontade de ir aí e te encher de porrada
As mensagens continuavam chegando, uma após a outra, a raiva de Carla evidente nas palavras. Mas Leo não viu nenhuma delas. Seu celular permanecia ali, jogado e esquecido, enquanto ele estava ocupado demais se afundando em Eduardo, se perdendo nos toques quentes, nos beijos famintos e no desejo que queimava entre os dois.
Amanhã, talvez, Leo se odiasse por isso. Mas, naquele momento, não existia amanhã.
A respiração de Eduardo estava descompassada, o corpo quente e colado ao de Leo, cada toque incendiando a pele como se fosse a primeira vez. O quarto estava em silêncio, exceto pelo som dos beijos intensos e dos suspiros arrastados que escapavam no meio do desejo crescente.
Leo estava completamente entregue, seus olhos brilhando à luz fraca do abajur, os lábios inchados dos beijos famintos que trocavam sem pausa. Eduardo o observava ali, debaixo dele, tão lindo, tão real, e sentia o coração disparar. Nunca quisera alguém daquela forma. Nunca sentira algo tão visceral, tão desesperador.
O desejo entre os dois era bruto, carregado de saudade, de mágoa, de tudo o que haviam passado. Eduardo sentia cada parte do corpo de Leo como se estivesse redescobrindo-o, como se quisesse marcá-lo ali, naquele momento, como se pudesse parar o tempo e fazer aquilo durar para sempre.
Os movimentos eram intensos, os toques quentes, as respirações misturadas. Leo se agarrava a Eduardo, os dedos apertando as costas dele, puxando-o para mais perto, como se não quisesse que houvesse um espaço sequer entre seus corpos.
E então, no ápice do momento, Eduardo sentiu como nunca antes. Não era apenas prazer físico. Era algo além. Algo profundo, que queimava no peito, que o fazia se perder por completo. Seu nome escapou dos lábios de Leo em meio aos gemidos, e Eduardo soube que nunca experimentaria nada parecido. Nenhuma outra pessoa, nenhum outro toque, nenhuma outra noite poderia ser como aquela.
Porque era Leo.
Porque sempre foi Leo.
E naquele instante, entre os lençóis revirados, os corpos suados, Eduardo percebeu que não importava o quanto tentasse negar.
Leo era a única coisa que fazia tudo valer a pena.
Eduardo deslizou os dedos pelo rosto de Leo, traçando cada detalhe como se quisesse gravá-lo na memória. O suor ainda marcava a pele de ambos, as respirações ainda estavam pesadas, mas naquele momento não havia mais pressa, nem urgência. Apenas o silêncio e o peso do que acabaram de viver.
Ele segurou o rosto de Leo com delicadeza e o beijou de novo, dessa vez sem pressa, sem desejo urgente, mas com algo mais profundo. Amor. Admiração. Uma necessidade silenciosa de que aquele momento nunca acabasse.
Quando se afastou, seus olhos encontraram os de Leo. E ali, entre a entrega e o cansaço, Eduardo percebeu algo que lhe deu um aperto no peito. Leo estava ali, nos seus braços, entregue, mas havia algo mais no olhar dele. Algo que Eduardo não queria ver.
Mágoa.
Era sutil, escondida entre o brilho dos olhos cor de mel, entre a forma como ele parecia tentar aproveitar aquele momento e, ao mesmo tempo, protegê-lo de alguma verdade inevitável. Eduardo sentiu o estômago afundar.
Porque sabia o motivo daquela mágoa.
Porque, apesar de tudo, apesar de cada toque, cada beijo, cada promessa silenciosa feita entre os lençóis, Leo ainda era o cara que Eduardo magoou.
O coração de Eduardo apertou. Ele queria dizer algo, queria garantir que aquilo não era apenas mais uma recaída, mas sua garganta travou. Porque, no fundo, ele sabia que nenhuma palavra mudaria o que já estava feito.
Então, ao invés de falar, apenas acariciou os cabelos de Leo e o puxou mais para perto, esperando, talvez, que seu toque dissesse tudo que sua boca não conseguia.
Mas, lá no fundo, ele temia que já fosse tarde demais. Que nenhuma palavra ou gesto fosse capaz de desfazer a dor que ele havia causado.
E agora, depois de tudo, depois de cada beijo, cada toque, cada gemido abafado, Eduardo se sentia um merda.
Como podia desejar tanto alguém que ele mesmo quebrou? Como podia tocá-lo dessa forma, sabendo que também foi o responsável pela dor que via escondida em seu olhar?
Seus dedos deslizaram pelo rosto de Leo, que fechou os olhos por um instante, como se quisesse guardar aquele toque, como se ainda fosse capaz de acreditar na ilusão de que aquilo significava algo maior.
Eduardo queria acreditar também.
Mas a culpa queimava dentro dele como uma ferida aberta.
Ele não era burro. Sabia que, no fundo, Leo ainda estava tentando protegê-lo de si mesmo. Fingindo que estava tudo bem, fingindo que não doía.
Mas Eduardo via.
Via na forma como Leo desviava o olhar de vez em quando, como se lembrasse de algo que tentava esquecer.
◄☼►
O silêncio entre eles ainda pesava, ainda carregava todas as palavras não ditas, todas as feridas que, mesmo camufladas pelo desejo, ainda estavam ali. Eduardo sentia a respiração de Leo se acalmar aos poucos, mas o olhar dele continuava distante, preso em algum ponto do teto, como se estivesse em outro lugar.
E então, do nada, Leo quebrou o silêncio:
— Você já reparou nos brilhos das estrelas à noite?
Eduardo piscou, pego de surpresa pela pergunta inesperada. Ele virou a cabeça para encará-lo, mas Leo ainda olhava para cima.
— Às vezes, eu gosto de ficar observando. — Leo continuou, a voz baixa, quase um sussurro. — Parece que elas piscam, como se estivessem mandando sinais pra gente.
Eduardo sentiu um calor diferente no peito. Não era desejo, não era culpa. Era… algo próximo da gratidão.
Por um instante, Leo estava tentando trazer um pedaço deles de volta. Um pedaço da amizade que existia antes de tudo desmoronar.
Eduardo segurou a mão de Leo sobre o lençol, entrelaçando os dedos nos dele. Leo não o afastou.
— Eu nunca tinha parado pra reparar. — respondeu com um tom mais leve, quase animado. — Mas agora que você falou, acho que vou prestar mais atenção.
Leo virou o rosto para olhá-lo, e Eduardo viu um pequeno resquício do Leo que conhecia. O Leo que se encantava com as pequenas coisas.
— Você devia. — Leo disse, esboçando um sorriso quase imperceptível.
Eduardo apertou um pouco mais a mão dele.
— Me fala mais sobre isso.
Leo ficou em silêncio por um momento, como se estivesse decidindo se queria continuar aquela conversa ou não. Mas então, respirou fundo e começou a falar.
Falou sobre como gostava de tentar identificar as constelações, como às vezes ficava na varanda da fazenda só observando o céu até tarde. Falou sobre como, quando era mais novo, pensava que as estrelas piscavam como um código secreto, como se tentassem se comunicar com as pessoas na Terra.
Eduardo ouvia tudo com atenção, absorvendo cada palavra, cada pequeno detalhe.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, eles estavam tendo uma conversa normal. Uma conversa que não era carregada de dor, de culpa ou de desejo sufocado.
Era só… eles.
Como antes.
E Eduardo não queria que aquele momento acabasse.
Ele continuava segurando a mão de Leo, o polegar deslizando de leve sobre a pele quente dele, como se não quisesse soltar. Não agora.
— Mas como você sabe identificar uma constelação? Eu olho pro céu e vejo um monte de pontinho aleatório. — Eduardo perguntou, realmente curioso.
Leo riu baixinho, e Eduardo sentiu uma pontada de alívio. Ele queria ouvir aquele som novamente.
— Tem umas que são mais fáceis, tipo as Três Marias. Você nunca reparou nelas? — Leo virou um pouco o rosto para encará-lo.
Eduardo pensou por um momento e então balançou a cabeça.
— Ah, sei lá. Acho que nunca olhei direito.
— É só procurar três estrelas alinhadas. — Leo explicou, com um tom mais animado. — Elas fazem parte do Cinturão de Órion. E se você seguir uma direção, encontra Sirius, que é a estrela mais brilhante do céu.
Eduardo franziu as sobrancelhas, realmente interessado.
— E se seguir pra outra direção, encontra o quê?
Leo olhou para ele, como se estivesse tentando entender se Eduardo estava zoando ou se realmente queria saber.
Mas Eduardo queria.
Queria continuar ouvindo aquela voz, vendo aquele brilho leve nos olhos de Leo, vendo-o falar sobre algo que gostava sem estar carregado pela dor.
— Depende. — Leo continuou, desviando o olhar para o teto de novo. — Mas dá pra achar outras constelações, como Touro e Gêmeos.
— Você tem uma favorita?
Leo ficou em silêncio por um momento, mordendo de leve o lábio antes de responder.
— Gosto de Escorpião. Ela aparece no céu do Brasil no outono e inverno. Dá pra ver bem da fazenda.
— E por quê?
Leo deu de ombros.
— Acho bonito. E tem Antares, uma estrela vermelha gigante. Quando eu era mais novo, achava que era Marte.
Eduardo sorriu de canto.
— E você só ficava olhando, sozinho?
Leo assentiu.
— Às vezes com minhas irmãs. Mas geralmente sozinho. Gosto do silêncio da noite.
Eduardo o observou, analisando cada traço do rosto dele. O perfil de Leo sob a luz fraca do quarto parecia ainda mais bonito.
E, por um momento, Eduardo quis dizer que queria ver as estrelas com ele.
Mas ficou quieto.
Porque não sabia se merecia mais momentos assim com Leo.
Então, apenas continuou ouvindo.
Porque Leo estava falando com ele sem mágoa na voz. E Eduardo não queria quebrar aquilo.
Eduardo percebeu que, aos poucos, a tensão no ar ia se dissipando. Ele falava mais, puxava assuntos bobos, e para sua surpresa, Leo respondia. Não de forma hesitante, não com aquele peso nos ombros, mas genuinamente, como se por alguns instantes tivesse se esquecido de toda a bagunça entre eles.
E então, Eduardo soltou uma piada besta. Algo completamente sem sentido sobre como talvez as Três Marias fossem, na verdade, três fofoqueiras celestiais que passavam a noite espionando a Terra.
Ele nem esperava uma reação, mas então, Leo riu.
De verdade.
O som saiu leve, espontâneo, e Eduardo sentiu o coração bater mais forte.
Foi como um soco no estômago, mas de um jeito bom. Porque fazia tanto tempo que ele não ouvia Leo rir desse jeito.
Por um momento, Eduardo só ficou olhando, gravando aquela cena na memória.
— Que merda de piada foi essa hein, Castilho? — Leo zombou, ainda rindo um pouco.
Eduardo riu junto.
— Sei lá. Tô tentando te impressionar com meu conhecimento astronômico.
Leo revirou os olhos, mas o sorriso ainda estava ali.
E, naquele instante, Eduardo soube.
Soube que aquele foi o melhor momento da noite. Porque, por um breve segundo, foi como voltar no tempo.
Como se eles ainda fossem só Leo e Eduardo.
Sem Kayla.
Sem mentiras.
Sem mágoas.
Só os dois.
E Eduardo queria ficar ali para sempre.
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