O Garoto Feito de Sol e Terra
48 Capítulo 48 — Ingenuidade
O intervalo estava animado como de costume. Grupos espalhados pelo pátio, risadas misturadas ao barulho de vozes, a leveza da metade do dia de aula.
Leo estava sentado numa das mesas de pedra com Davi, Carla e Bruno. O sol batia de leve sobre eles, e Leo ria enquanto segurava o celular, mostrando a tela para os amigos.
— Olha essa merda que o Castilho mandou. — Ele riu, virando o aparelho para Davi e Bruno, que se inclinaram para ver.
O meme era ridículo, algo completamente sem sentido, e ainda assim, Leo riu mais do que deveria.
Davi e Carla esboçaram pequenos sorrisos, mas havia algo hesitante neles. Eles sabiam.
Sabiam da merda que Eduardo tinha feito.
E aquela não era a primeira vez que tentavam contar.
Haviam tido oportunidades. Momentos em que Leo mencionava Eduardo de um jeito que fazia o peito deles apertar. Momentos em que os dois se entreolhavam, divididos entre a culpa e o medo de machucar o amigo.
Mas nunca tiveram coragem.
Porque sempre que olhavam para ele, tão sorridente, tão genuinamente feliz, a ideia de tirar aquilo dele parecia cruel demais.
E agora, vendo Leo ali, completamente despreocupado, com aquele brilho genuíno nos olhos, nenhum dos dois teve coragem de ser o responsável por acabar com isso.
E então, Bruno abriu a boca.
— Nossa, por falar nele, ele tá muito bem, hein? Ele tá namorando com a Kayla, né? — Ele riu. — O pedido de namoro foi muito top.
A risada de Leo morreu no mesmo instante. O mundo ao redor pareceu se silenciar. Ele piscou devagar, franzindo o cenho, tentando entender se tinha ouvido certo.
— O quê?
A expressão de Bruno continuava leve, mas ao perceber o tom de voz de Leo, arqueou a sobrancelha.
Davi e Carla se entreolharam na hora. O estômago de Carla afundou. Merda.
— De onde tirou isso, Bruno? — Davi entrou rápido na conversa, forçando um sorriso casual. — Bruno sempre exagera nas coisas.
— Como assim? Nenhum de vocês viu? — Bruno perguntou.
Carla riu de leve, tentando manter o tom descontraído.
— Bruno, chega de inventar. — Ela balançou a cabeça e tentou mudar de assunto — Aliás, vocês viram aquele vídeo do moleque que caiu da árvore?
— Sim! — Davi engatou na hora, apontando para Leo. — Mano, você ia rir! Juro, o jeito que ele cai... parece um boneco largado no chão.
— Vou achar aqui, espera. — Carla pegou o celular, já rolando a tela como se realmente fosse mostrar algo.
Mas Leo não desviou o olhar. Ele já tinha sentido o clima mudar. Já tinha percebido a pressa estranha de Davi e Carla para desviar do assunto.
— Bruno. — Leo olhou diretamente para Bruno, que estava confuso. O olhar de Leo era firme, intenso. — O que você estava falando agora há pouco?
Bruno olhou de relance para Carla e Davi, meio confuso com o clima estranho. Ele pegou seu celular e procurou o vídeo.
— Ué, cara… — Ele riu nervoso. — Você não viu? O Edu pediu a Kayla em namoro na frente de todo mundo, no meio da festa de aniversário dela. Foi um show. O vídeo tá no insta.
Leo ficou completamente imóvel.
Davi e Carla sentiram o coração falhar um batimento.
Bruno olhou pra ele e franziu o cenho.
— Sério que você não sabia? Mas… vocês não conversam um com o outro todo dia?
O peito de Leo apertou com força.
Todo dia.
Ele e Eduardo conversavam todo dia.
Ele sabia de tudo sobre Eduardo. Ou achava que sabia.
Bruno já tinha achado o vídeo e estava entregando o celular a Leo para mostrá-lo.
Davi entrou em desespero.
— Mano, nada a ver, o Bruno tá zoando. — Ele riu forçado, já tentando puxar o celular da mão dele antes que a bomba explodisse de vez. — Tá tentando te mostrar um vídeo pornô, certeza.
— Davi, cala a boca. — Bruno afastou a mão dele, rindo. — Não tô zoando nada.
E então, desbloqueou o celular e abriu o vídeo.
Leo pegou o aparelho antes que Davi pudesse impedir.
O silêncio ficou pesado.
E Leo assistiu. Assistiu ao vídeo inteiro.
O salão cheio. O brilho das luzes. Eduardo no palco. O pedido. Kayla subindo, rindo. Beijando Eduardo na frente de todos.
O coração de Leo batia tão forte que ele sentia o som nos ouvidos.
Ele não sabia o que pensar. Não conseguia processar.
O celular ainda estava em sua mão quando ele ergueu o olhar.
Carla e Davi estavam paralisados.
— Vocês sabiam? — Leo perguntou. A pergunta saiu quase sem força, mas o impacto foi imediato.
Carla desviou o olhar.
Davi apertou os lábios.
— Leo… — Carla tentou falar algo, mas não tinha resposta.
A boca de Leo ficou seca. Ele sentiu como se o mundo inteiro estivesse tombando de repente.
Eduardo nunca contou.
Eduardo falava com ele todo dia, mas nunca disse nada.
Ele se levantou, jogando o celular de Bruno de volta para ele sem dizer nada e saiu sem olhar para trás.
Bruno piscou, confuso.
— Mas que porra foi essa?
Foi o bastante para Carla perder o pouco de paciência que ainda tinha. Ela deu um tapa na cabeça dele.
— IDIOTA!
— O quê?! — Bruno recuou, massageando a cabeça, ainda sem entender nada.
Carla passou a mão pelo rosto, exasperada.
— Eduardo e Leo, porra!
Bruno piscou.
— Edu e Leo…? — Ele franziu a testa, e então, aos poucos, a ficha caiu. O olhar dele se arregalou. — Ah, sério? Nossa… caramba!
Davi soltou um suspiro derrotado.
— É. Caramba.
E enquanto isso, Leo caminhava para longe, sentindo seu peito se partir ao meio.
◄☼►
Leo entrou numa das cabines do banheiro masculino e trancou a porta atrás de si.
O som abafado das vozes e risadas do lado de fora parecia distante, como se pertencesse a outra realidade, uma realidade onde ele ainda era burro o suficiente para não perceber o óbvio.
Ele se apoiou contra a pia, os nós dos dedos pressionando a porcelana fria. O coração ainda batia rápido, descompassado, enquanto a mente girava sem parar.
Eduardo estava namorando com Kayla.
Essa frase ecoava em sua cabeça como um soco no estômago.
Desde quando?
Como ele não percebeu?
Leo engoliu seco, os olhos fixos no próprio reflexo no espelho. O rosto estava sério, mas o que ele sentia por dentro era um furacão.
Agora fazia sentido.
As pausas. Os sumiços. Algumas respostas vagas. A forma como Eduardo mudava de assunto às vezes, como se estivesse sempre segurando algo nos lábios, mas nunca deixando escapar.
Leo sempre sentiu que Eduardo escondia alguma coisa, mas ele nunca quis forçar, nunca quis ser aquele cara que pressiona, que cobra. Porque ele confiava em Eduardo.
Confiava.
E agora…
Agora tudo parecia uma grande piada.
O celular vibrou no bolso.
Leo piscou, pegando o aparelho sem pensar.
Eduardo.
Mais uma mensagem.
Eduardo: mano, olha isso aqui, mto idiota kkkkk
Leo olhou para a tela, sentindo o estômago revirar.
O dedo deslizou para abrir a conversa, e ele leu a mensagem mais uma vez.
Como era possível que Eduardo realmente agisse como se nada tivesse acontecido? Como se ele não tivesse escondido aquilo dele esse tempo todo?
A mandíbula de Leo travou.
Ele bloqueou o celular e guardou de volta no bolso.
Não respondeu.
E, pela primeira vez, não sentiu vontade de responder. A verdade era cruel, mas estava ali, na frente dele.
E, dessa vez, Leo não podia mais ignorar.
◄☼►
Quando o sinal tocou, marcando o fim do intervalo, Leo esperou alguns minutos e finalmente saiu do banheiro. O corredor já estava quase vazio, os passos apressados dos alunos ecoando enquanto voltavam para as salas.
Mas Leo caminhou devagar.
Não estava com pressa.
Não queria nem ter que voltar.
Entrou na sala sem olhar para ninguém. Ignorou Carla, Davi e Bruno completamente. Não viu se eles tentaram chamar sua atenção. Não queria ver.
Sua mente não estava ali. Sua mente estava a quilômetros de distância.
Cada vez que fechava os olhos, via Eduardo no palco.
Ouvia a voz dele fazendo o pedido.
Via Kayla rindo, aceitando, beijando-o como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
A aula começou, mas ele não absorveu uma única palavra.
As vozes dos professores, o barulho dos cadernos sendo folheados, o arrastar das cadeiras… tudo parecia abafado, longe, irrelevante.
Leo tentou focar, mas como diabos ele ia conseguir focar quando sua cabeça estava explodindo?
Quando o sinal tocou novamente, marcando o fim das aulas, ele foi o primeiro a sair. Pegou a mochila, jogou sobre os ombros e passou reto pelo corredor, ignorando tudo e todos.
Mas então, os três amigos, Carla, Davi e Bruno correram para o alcançar.
Eles pareciam hesitantes, nervosos.
Davi deu um passo à frente, coçando a nuca, escolhendo as palavras com cuidado.
— Cara, olha... é uma merda tudo isso.
— A gente queria ter te contado antes. — Carla completou, a voz um pouco mais baixa, quase cautelosa. — Mas toda vez que tentamos, parecia que... sei lá, que ia acabar te machucando. E machucou.
Leo não reagiu. O silêncio dele era um peso esmagador no ar.
Bruno, ainda desconfortável e sentindo que tinha ferrado tudo, soltou um suspiro.
— Se serve de consolo, eu não sabia de nada…
Leo desviou o olhar, o peito apertado.
Eles queriam que ele entendesse, mas nada que dissessem agora mudava o fato de que ele foi o último a saber.
Que se fosse por Eduardo ele nunca saberia.
Que seus amigos sabiam e não contaram.
Carla tentou de novo, dando um passo mais perto.
— Leo…
Mas ele nem deixou ela terminar.
— Carla… não tô afim de falar com ninguém.
A voz saiu firme, mas sem explosão. Sem raiva aparente.
Mas estava tudo ali.
A dor. A decepção. O cansaço.
Carla abriu a boca para insistir, mas parou no meio do caminho, porque pela primeira vez, viu nos olhos de Leo que não tinha mais nada que pudesse ser dito.
Então, ele apenas deu as costas e foi embora.
Bruno, que ainda tentava entender o que tinha acontecido, sentiu o peso daquilo de um jeito estranho no peito.
Ele coçou a nuca, envergonhado. Olhou para Carla e Davi, esperando que um deles dissesse algo, mas nenhum dos dois falou.
Então, soltou um suspiro pesado e balançou a cabeça.
— Cara, como é que o Edu teve coragem de fazer isso?
Carla fechou os olhos por um instante, como se aquela pergunta tivesse pesado ainda mais do que tudo que já estava sentindo.
Davi bufou baixo, cruzando os braços, a frustração visível no rosto.
— A gente também queria entender, Bruno.
Bruno mordeu o lábio, ainda tentando processar.
— Mas, tipo… eles eram…?
— Eram. — Carla interrompeu, a voz carregada de um peso que Bruno não conseguia nem começar a imaginar. Ela passou as mãos no rosto, exausta.
Bruno olhou de relance na direção que Leo tinha ido. E pela primeira vez, se sentiu um completo idiota por ter falado do jeito como falou.
◄☼►
O resto do dia foi um borrão.
Quando Leo chegou em casa, largou a mochila no canto do quarto e se jogou na cama, sem ânimo para nada. O celular vibrou pela décima vez no bolso, e ele nem precisou olhar para saber de quem era.
Eduardo.
Ele ignorou.
Assim como ignorou todas as outras mensagens que vieram ao longo do dia.
Mensagens não lidas:
Eduardo: eai, tá muito ocupado deitado na rede?
Eduardo: duvido que vai trabalhar mais do que cinco minutos hoje
Leo apertou os olhos com força, largando o celular sobre o colchão sem desbloqueá-lo.
Mas as mensagens continuaram chegando.
Dessa vez, de outras pessoas.
Mensagens de Carla:
Carla: leo…
Carla: me responde pelo menos, por favor
Carla: eu queria te contar antes. eu juro que queria. mas o eduardo…
Carla: merda, eu sinto muito, de verdade
Mensagens de Davi:
Davi: cara, fala comigo. sei que tá puto, mas… só fala alguma coisa
Davi: a gente não queria que você descobrisse assim.
Davi: eu sei que isso não ajuda agora, mas eu tentei dar um jeito, tentei…
Davi: só queria que você soubesse disso.
Mensagens de Bruno:
Bruno: velho, mal aí. eu não fazia ideia. juro.
Bruno: que merda pqp
Bruno: olha... se precisar de alguma coisa, sei lá, tô aqui.
Bruno: mas serio, o cara fala contigo todo dia e nunca soltou uma palavra?
Bruno: não dá pra acreditar, de verdade.
Bruno: tu não merecia isso, leo.
Leo passou o olhar por todas aquelas mensagens sem responder nenhuma. Tudo parecia um grande peso esmagando seu peito.
Ele respirou fundo, os olhos ardendo, a garganta apertada. E, então, não segurou mais.
Virou o rosto contra o travesseiro e deixou as lágrimas caírem.
Sem barulho. Sem resistência, porque, no fundo, ele sabia. Sempre soube.
Só nunca quis acreditar que, um dia, Eduardo teria medo o bastante para enterrá-lo na parte secreta da própria vida.
Claro que Leo entendia também sua própria situação. Ele não era burro. Sabia que as coisas não eram tão simples. Ele próprio não sabia como sua mãe reagiria caso descobrisse sobre ele e Eduardo. Será que seria uma reação ruim? Será que ela já sabia e apenas fingia não ver?
Ele não fazia ideia.
Mas mesmo com essa incerteza, mesmo sem saber o que poderia acontecer, ele nunca tentou esconder Eduardo de si mesmo.
Nunca fez Eduardo se sentir como um segredo.
E agora, encarando a escuridão do quarto, o rosto ainda úmido das lágrimas, ele entendeu.
Ele finalmente entendeu.
Pensou em Eduardo, nos Castilho, na postura impecável da mãe, no olhar severo do pai.
Pensou em como eles tinham expectativas para o filho, em como Kayla se encaixava perfeitamente no mundo deles. Pensou em como, no fundo, Eduardo nunca deveria ter deixado um espaço ali para Leo.
Só o fato de pensar em um dia namorar com Eduardo oficialmente era algo muito distante. Tão distante que, talvez, nunca teria a chance de ser algo real.
A dor dessa constatação foi pior do que qualquer coisa.
Porque ele sempre soube que era difícil, mas nunca achou que Eduardo teria coragem de passar por cima da relação deles para viver outra vida como se nada tivesse acontecido.
Como se Leo nunca tivesse sido importante.
Leo respirou fundo, virando-se de lado na cama.
O celular ainda vibrava com mensagens de Eduardo.
Mas ele não queria ver. Não queria responder.
Porque ele simplesmente não tinha nada para dizer.
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