O Garoto Feito de Sol e Terra
46 Capítulo 46 — Flores e Verdades Malditas
Helena Castilho sempre gostou de flores. Quando se sentia sozinha na imensidão fria da sua casa, era para a floricultura de Dona Aurora que ia. Não precisava de desculpas. Apenas passava ali, olhava as flores, conversava um pouco, respirava um ar diferente.
Naquela tarde, a loja estava tranquila, o cheiro de terra e pétalas frescas pairando no ar, misturado ao aroma de café que Aurora sempre mantinha em um cantinho do balcão.
Carla estava ali, ajudando a avó a organizar algumas encomendas. Usava um avental manchado de terra e segurava uma pequena tesoura de poda, ocupando as mãos com alguma tarefa enquanto ouvia a conversa entre as duas mulheres mais velhas.
Helena tocava levemente as pétalas de um arranjo de lírios brancos, um sorriso radiante estampado no rosto.
— Você não imagina como estou feliz, Aurora. Meu filho finalmente tomou uma atitude!
Aurora ergueu uma sobrancelha, ainda ajeitando alguns girassóis em uma cesta.
— Ah, é? E o que foi que seu menino aprontou?
Helena sorriu largo.
— Pediu Kayla Albuquerque em namoro! Na frente de todo mundo, no meio da festa de aniversário dela, sem medo! Foi lindo, um verdadeiro cavalheiro!
Carla, que até então não estava prestando muita atenção, parou o que estava fazendo. A tesoura de poda ficou suspensa no ar por um segundo a mais do que deveria. Ela sentiu o estômago revirar.
Eduardo e Kayla?
Aurora riu, ajeitando os óculos sobre o nariz.
— Que coisa bonita, Helena! Ele sempre foi um bom rapaz. E a Kayla… bem, é uma moça de família, não é?
— Oh, sim, a melhor escolha possível! — Helena suspirou, cheia de orgulho. — Uma família de respeito, bons valores, os dois combinam perfeitamente. Sempre soube que isso ia acontecer.
Carla continuava em silêncio.
Uma inquietação crescia dentro dela, se espalhando como espinhos em seu peito.
— E não foi só isso, minha querida — Helena continuou, empolgada. — Gravaram tudo! O pessoal da festa filmou e postou nas redes sociais.
Carla sentiu o coração falhar um batimento.
Redes sociais. Vídeo.
O nome de Leo surgiu em sua mente como um raio.
Ele sabia disso?
Carla tentou parecer tranquila, continuando a mexer nas flores, mas algo dentro dela estava incomodado. Não sabia explicar o que era. Só sabia que não gostava dessa história.
Kayla e Eduardo? Namoro oficial?
Isso significava que Leo...
Não.
Ela nem quis terminar o pensamento.
Quando Helena finalmente se despediu, ainda sorrindo satisfeita, Carla ficou ali por um momento, com a tesoura de poda esquecida em suas mãos.
A curiosidade a venceu.
Ela pegou o celular discretamente, abriu o Instagram e digitou Kayla Albuquerque na barra de pesquisa.
O perfil dela era aberto. Muitos seguidores.
E bem ali, no topo da página, nos stories, estava o vídeo.
O vídeo começou a rodar.
Eduardo estava no palco. O salão inteiro vibrando. O pedido. Kayla subindo no palco, rindo, beijando ele.
Os aplausos. O coro de aprovação.
O olhar de Eduardo, que não parecia o olhar de alguém feliz.
Carla apertou os lábios. Algo estava errado.
Ela sentiu um aperto estranho no peito, como se estivesse assistindo a um erro acontecendo bem na sua frente, e ninguém estivesse percebendo.
E Leo?
Ela piscou algumas vezes, sentindo o coração pesar.
Ele sabia?
Se não sabia... como reagiria quando descobrisse?
Carla bloqueou o celular e soltou um longo suspiro.
"Isso não vai acabar bem."
Ela saiu do Instagram de Kayla e, sem pensar muito, digitou outro nome na busca.
Eduardo Castilho.
A página carregou. O perfil dele era fechado, mas ele e Carla se seguiam. Havia poucas postagens. Era como ela imaginava, pois Eduardo nunca foi de postar muito. Não havia nenhum vídeo. Nenhuma foto sobre o pedido de namoro. Nada.
A única marcação era no perfil de Kayla, onde ele tinha sido tagueado no vídeo, mas até isso parecia… forçado.
Carla travou a mandíbula. Ele não postou nada porque não queria? Ou porque simplesmente não sentia que aquilo era algo dele?
Ela bloqueou o celular, fechando os olhos por um instante, mas Leo não saía da sua mente.
A imagem dele, do jeito que olhava para Eduardo, das vezes que ela pegava os dois juntos e sentia que havia algo ali, algo que ninguém dizia em voz alta, mas que estava em cada olhar, em cada provocação, em cada silêncio alongado.
Carla viu aquilo em Leo.
Mas, por muito tempo, achou que via isso em Eduardo também.
E agora?
Agora Eduardo estava namorando Kayla de forma oficial.
Agora ele estava nos braços de outra pessoa, com a aprovação de todos, e Leo provavelmente estava alheio à essa história.
Carla passou as mãos pelo rosto, tentando afastar a angústia crescente no peito.
Mas não conseguiu. Porque sabia. Sabia que, em algum lugar, Leo estava prestes a ter o coração partido.
E o pior de tudo?
Carla não sabia como evitar que isso acontecesse.
◄☼►
Eduardo estava sentado no sofá da sala, o celular ao lado, os pensamentos girando na sua cabeça como um redemoinho. Ele tentou ignorar a sensação sufocante no peito, tentou se convencer de que estava tudo bem, de que as coisas estavam seguindo o curso esperado.
Mas então, o celular vibrou de novo.
Uma nova mensagem.
Ele virou o rosto, esperando que fosse Kayla novamente.
Mas não era.
Era Carla.
Carla: então… quando c ia me contar que virou o príncipe encantado do baile?
Eduardo fechou os olhos e bufou. Era óbvio que Carla tinha visto. Ela via tudo. E pior, ela sabia demais.
Ele pegou o celular, hesitou um pouco antes de responder.
Eduardo: do q ta falando?
A resposta veio em segundos.
Carla: não se faz de burro. vi o vídeo, castilho. vi tudo
Eduardo prendeu a respiração.
Carla: fiquei emocionada, viu? vc no palco, cheio de atitude, declaração pública, beijo cinematográfico. parecia até coisa de novela
A ironia pingava de cada palavra.
Eduardo passou a mão no rosto. Claro que Carla não ia simplesmente deixar isso passar.
Carla: achei muito romântico
Eduardo apertou o celular com força.
Carla: pena q vc tava com uma cara de quem preferia estar em outro lugar
Carla: mas né… deve ser impressão minha
Ele engoliu em seco.
Eduardo: carla... o q vc quer?
Um segundo de silêncio. O celular vibrou de novo.
Carla: o leo sabe disso? vc já contou pra ele?
Foi como se alguém tivesse socado seu estômago.
Eduardo ficou paralisado, o coração disparando no peito. Era isso. Era esse o medo que ele vinha tentando ignorar.
Porque a resposta era não.
Ele não contou.
Não mencionou.
Não fez nada.
Eduardo encarou a tela do celular, sentindo a boca secar. O que ele diria? Como respondia a isso?
Antes que conseguisse pensar em algo, outra mensagem apareceu.
Carla: ah… então n contou né
Eduardo sentiu um nó na garganta.
Eduardo: carla, pelo amor de deus, não fala nada pro leo
Os três pontinhos indicando que Carla estava digitando apareceram na tela. Eduardo segurou o celular firme, sentindo o suor nas mãos.
Carla: pq não?
Ele queria responder rápido, queria dizer qualquer coisa que fizesse Carla esquecer essa ideia absurda. Mas tudo que conseguiu foi encarar a tela, completamente sem reação.
Porque, no fundo, ele sabia.
Se Leo descobrisse por outra pessoa, seria ainda pior e Eduardo não sabia se estava pronto para lidar com isso.
Carla: se vc não contar, eu conto
O coração dele parou por um instante. O celular tremia em suas mãos, os dedos suando enquanto lia as palavras de Carla como se fossem uma sentença de morte.
Carla: leo não merece isso, castilho
Carla: vc sabe mto bem que ele é apaixonado por vc
Eduardo apertou os lábios, sentindo a respiração pesar. O peito doía de uma forma que ele não conseguia explicar.
Claro que ele sabia.
Leo sempre foi intenso. Sempre sentia tudo na pele, no olhar, no jeito que falava, no jeito que ria, no jeito que o tocava.
Leo confiava nele, e Eduardo estava prestes a quebrar essa confiança.
A tela do celular continuava acesa, esperando uma resposta, mas ele não sabia o que dizer.
O que ele podia dizer?
Que não queria machucar Leo? Que não sabia como contar? Que tinha feito aquilo sem pensar e agora não sabia como sair? Nenhuma dessas desculpas mudava o fato de que Leo ia sofrer.
Carla não mandou mais nada, mas Eduardo sabia que ela estava esperando.
Então ele digitou, hesitante, os dedos tremendo.
Eduardo: me dá um tempo pfvr
Eduardo: eu resolvo isso
Os três pontinhos apareceram na tela.
Carla: então resolve logo
Eduardo fechou os olhos, sentindo o peito apertar mais forte.
Antes que pudesse responder, outra mensagem apareceu.
Carla: ou vc conta, ou eu conto
Carla: decide, castilho
Eduardo soltou um longo suspiro, passando as mãos pelo rosto. Ele nunca se sentiu tão encurralado na vida.
E, pela primeira vez, percebeu que não tinha mais como fugir.
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