O Garoto Feito de Sol e Terra

4 Capítulo 4 — A Festa na Casa Albuquerque


No sábado à noite, Eduardo se viu diante do espelho, puxando a gola da camisa social que sua mãe o obrigara a vestir.

— Precisa mesmo disso tudo? — resmungou, ajeitando os botões da camisa.

— Claro que sim — respondeu Helena, ajustando os brincos de pérola enquanto se olhava no espelho. — É uma festa importante, Eduardo. Pelo menos finja que tem bons modos.

Ele bufou e seguiu os pais até o carro.

A festa acontecia na casa dos Albuquerque, uma das famílias mais influentes da cidade. Assim que chegaram, Eduardo ficou impressionado com o tamanho da casa. Era ainda maior do que a sua. O portão de ferro preto se abriu, revelando um jardim iluminado por pequenas luzes penduradas nas árvores. O gramado parecia ter sido aparado com precisão cirúrgica, e os carros importados estacionados na entrada denunciavam a riqueza dos convidados.

Assim que entraram, Eduardo sentiu um leve desconforto. Diferente das tardes barulhentas na fazenda ou da escola cheia de risadas, ali tudo parecia… ensaiado. Os adultos conversavam em tom baixo, segurando taças de champanhe, enquanto garçons passavam com bandejas cheias de petiscos sofisticados.

Ele olhou ao redor, tentando encontrar algo que prendesse sua atenção, quando ouviu uma voz ao seu lado:

— Também acha tudo isso um saco?

Eduardo virou-se e viu uma garota de cabelos lisos e castanhos, com olhos verdes brilhantes e um sorriso divertido. Ela estava usando um vestido azul claro e segurava um copo de suco, diferente dos adultos que bebiam champanhe.

— Mais ou menos — respondeu ele, um pouco surpreso.

Ela estendeu a mão.

— Eu sou Kayla.

Ele apertou a mão dela, sentindo-se um pouco menos deslocado.

— Eduardo.

— Ah, você é o filho do senhor Castilho, né? Meu pai falou sobre o seu.

— E seu pai é…

— O dono da casa — disse ela, sorrindo.

Eduardo arregalou os olhos.

— Sério?

— Sim, mas não se preocupe, eu não sou tão chata quanto ele — brincou ela.

Ele riu. Kayla parecia diferente do que imaginava que uma filha de empresário seria. Não era esnobe, nem falava com aquela superioridade que Eduardo já vira em algumas pessoas ricas. Pelo contrário, ela parecia descontraída e até um pouco rebelde.

— Você não gosta dessas festas? — ele perguntou.

Kayla suspirou.

— Eu já fui em tantas que perdi a conta. É sempre a mesma coisa: adultos conversando sobre negócios, gente fingindo que se importa, e comida que parece chique, mas que nem é tão gostosa assim.

Eduardo olhou para a mesa de petiscos e pegou um canapé pequeno.

— Isso aqui não parece ruim.

Ele mordeu e fez uma careta.

Kayla riu e perguntou:

— Tá vendo?

— Tem gosto de… ar-condicionado. — Eduardo respondeu.

Ela gargalhou e disse:

— Pois é! Eu gosto de comida de verdade, sabe? Arroz, feijão, carne… essas coisas.

Eduardo sorriu.

— Meu amigo Leo diz a mesma coisa.

Kayla ergueu uma sobrancelha.

— Leo?

— Sim. Ele mora numa fazenda perto da cidade. É o meu melhor amigo.

— Humm… gostei do nome. Ele veio?

Eduardo hesitou antes de responder.

— Não. Só eu e meus pais mesmo.

Kayla pareceu perceber a mudança no tom de Eduardo. Ela ficou pensativa por um momento e disse:

— Bom, se algum dia tiver outra festa, você pode trazê-lo. Aposto que seria bem mais divertido do que estar aqui com esses engravatados.

Eduardo sorriu.

— Aposto que sim.

A noite passou mais rápido depois disso. Kayla levou Eduardo até os fundos da casa, onde havia uma área externa mais afastada da multidão de adultos. Lá, eles conversaram sobre coisas banais: escola, música, lugares que gostariam de visitar.

— Eu queria ver neve — disse Kayla, olhando para o céu. — Já vi uma vez, mas era muito pequena e nem lembro direito.

— Eu nunca vi.

— Sério? Achei que você já tivesse viajado bastante.

— Sim, mas nunca para um lugar onde nevasse.

— Então, se um dia formos ver a neve, tem que ser a primeira vez dos dois vendo juntos!

Eduardo sorriu. Gostava da forma como Kayla falava, como se fosse dona do próprio destino.

Quando a festa chegou ao fim, ele voltou para casa com a sensação de que aquela noite tinha sido diferente. Pela primeira vez, conhecera alguém que parecia entender um pouco do que se passava dentro dele.

Mas, ao mesmo tempo, enquanto olhava pela janela do carro, pensava em Leo.

Será que ele teria gostado de estar lá?

Será que aquele mundo também poderia pertencer a ele?

Ou será que, no fundo, certos mundos nunca se misturavam completamente?


◄☼►


A manhã seguinte amanheceu quente, e o sol iluminava a escola pública de São Tomás com intensidade. Eduardo caminhava pelos corredores com a mochila nas costas, ainda processando os acontecimentos da noite anterior. A festa tinha sido interessante, mas diferente de tudo o que ele costumava viver no dia a dia.

Assim que entrou no pátio, avistou Leo sentado no degrau da escada, rodeado por Bruno, Carla e Davi. Eles pareciam entretidos com alguma conversa animada, mas, assim que viram Eduardo, Leo abriu um sorriso e se levantou.

— E aí, senhor da festa chique! Como foi lá? — perguntou, cruzando os braços e fazendo uma careta teatral de curiosidade.

Eduardo riu.

— Foi legal. Bastante comida estranha e um monte de adultos falando de negócios.

Leo fez uma expressão pensativa.

— Mas era comida boa pelo menos?

Eduardo revirou os olhos.

— Nem tanto. Algumas coisas tinham gosto de ar-condicionado.

Todos riram, mas antes que Leo pudesse continuar a fazer perguntas, Davi se inclinou na direção de Eduardo, os olhos brilhando de ansiedade.

— E a Kayla?

Eduardo franziu a testa.

— O quê?

— Kayla Albuquerque! Ela estava lá, né? — Davi perguntou animado.

Eduardo piscou, um pouco surpreso.

— Sim, estava. Você a conhece?

Davi suspirou, balançando a cabeça.

— Conhecer, conhecer, não. Mas já vi ela umas vezes de longe... Ela é muito bonita. Todo mundo da cidade sabe que ela é filha do Albuquerque. Eu nunca teria nem chance de falar com ela.

Carla riu.

— Davi, você mal fala com as meninas da nossa escola, imagina com a filha do empresário mais rico da cidade.

Davi fez uma cara ofendida.

— Isso não tem nada a ver! Eu só… só não tive a oportunidade ainda.

— Aham. Porque você tem tanta coragem, né? — Bruno zombou.

Davi bufou e olhou de novo para Eduardo, perguntando:

— Mas e aí? Você falou com ela? Como ela é?

Eduardo assentiu.

— Falei, sim. Ela é legal. Bem diferente do que eu imaginei que uma filha de empresário seria... Não é esnobe nem nada.

— E ela é tão bonita de perto quanto parece de longe? — Davi insistiu.

Leo revirou os olhos.

— Meu Deus, Davi! Você tá parecendo um tonto.

Davi ignorou e continuou esperando a resposta de Eduardo, que revirou os olhos e respondeu:

— Sim, ela é bonita.

Davi sorriu satisfeito.

— Sabia!

Bruno riu e deu um tapa nas costas dele.

— Agora é só você criar coragem pra falar com ela, campeão.

— Vocês estão rindo, mas um dia eu vou ter uma namorada bonita igual a Kayla. Vocês vão ver!

Carla cruzou os braços.

— Então começa treinando com as meninas da escola. Se você conseguir falar com elas sem gaguejar, quem sabe um dia tem chance.

O grupo riu, enquanto Davi resmungava sobre como todo mundo pegava no pé dele.

Leo se virou para Eduardo, sem esconder a curiosidade.

— Mas sério, foi legal ou foi muito diferente do que você esperava?

Eduardo pensou por um momento.

— Foi… estranho. Eu me diverti, mas senti que não era meu lugar. Era tudo muito ensaiado. Parece que todo mundo lá sabia exatamente o que dizer e como se comportar.

Leo assentiu, pensativo, comentando:

— Bom, pelo menos você teve um pouco de diversão.

Eduardo sorriu.

— Sim. Mas, sinceramente? Prefiro mil vezes passar o dia na fazenda do que ir em outra festa daquelas.

Leo abriu um sorriso largo e deu um tapinha no ombro do amigo.

— Viu só? No fundo, você é um caipira também.

O grupo caiu na gargalhada, e, naquele momento, Eduardo percebeu que, por mais que existissem dois mundos diferentes em sua vida, este aqui—o da escola, dos amigos, das brincadeiras—era o que realmente o fazia se sentir à vontade.