O Garoto Feito de Sol e Terra

38 Capítulo 38 — Indecisões


Eduardo acordou com o celular vibrando na mesa de cabeceira. O quarto ainda estava meio escuro, a luz fraca da manhã entrando pelas frestas da cortina. Ele piscou algumas vezes, pegando o celular sem pensar muito.

Havia duas notificações novas.


Kayla: bom dia, castilho! acordou vivo depois de ontem? 😂

Kayla: ainda tô rindo do jeito que a gente fugiu praquele terraço. foi demais!

Kayla: espero que a ressaca não tenha te matado


Leo: (foto)


Leo tinha mandado uma foto aleatória da fazenda. Um céu aberto, limpo, com algumas vacas pastando ao fundo.


Leo: bom dia p quem acorda cedo e já trabalhou mais q vc no ano inteiro

Leo: e aí, riquinho, vai vir hj ou vai dar perdido de novo?


A lembrança da noite anterior o atingiu com força assim que leu as mensagens de Leo na tela. Foi como se o peso que ele tivesse empurrado para o fundo da mente voltasse à superfície num estalo; o beijo no terraço, o riso de Kayla, a tentativa de se encaixar em algo que parecia certo apenas do lado de fora.

Doía perceber que, enquanto ele tentava se convencer de que estava tomando a atitude certa, Leo permanecia lá, com a mesma presença discreta, quase inocente, mas capaz de desarmá-lo com meia dúzia de palavras e uma foto qualquer.

Eduardo ficou parado por um instante, encarando as mensagens.

Kayla e Leo.

A diferença entre os dois era gritante. Kayla era puro fogo, espontaneidade, um turbilhão de energia que o puxava para um lado novo, até então desconhecido. Leo era casa. Era familiar, certo, algo que pulsava dentro dele de um jeito incontrolável.

Mas só um deles sabia quem Eduardo realmente era. E, ironicamente, esse era o único que não fazia ideia do que havia acontecido na noite passada.

Eduardo passou a língua pelos lábios, indeciso. Sentia o peso do celular na mão como se fosse mais do que apenas um aparelho. Como se aquelas mensagens carregassem algo maior do que simples "bom dias".

Eduardo respirou fundo, apertando o celular na mão antes de deslizar os dedos pela tela.

Quem ele deveria responder primeiro?

Primeiro, Leo.

Ele abriu a conversa e digitou rápido:


Eduardo: bom dia, fazendeiro

Eduardo: não exagera, eu ainda trabalho mais que vc, só que mentalmente

Eduardo: e claro q eu vou, né? só preciso acordar de verdade primeiro


A resposta veio quase instantânea.


Leo: ah, claro, pq levantar da cama deve ser muito cansativo, né?

Leo: vem logo q minha mãe fez pão de queijo


Eduardo riu baixo, balançando a cabeça. Algo dentro dele relaxou com a resposta de Leo. Como se, por um instante, a noite passada não existisse. Como se ele ainda fosse o mesmo Eduardo de sempre.

Mas ele não era.

Porque, assim que saiu da conversa com Leo, a realidade voltou com força ao ver a notificação de Kayla ainda ali, esperando.

Ele hesitou por um momento, até que finalmente abriu a conversa e digitou com menos pressa:


Eduardo: bom dia kkk tô vivo, mas meio quebrado

Eduardo: ainda n acredito q a gente subiu naquele terraço

Eduardo: vc realmente sabe todas as passagens secretas da escola, hein?


Kayla demorou um pouco mais para responder, mas quando veio, a mensagem carregava toda a energia dela.


Kayla: eu sou uma mente brilhante subestimada, castilho 😌✨

Kayla: mas me diz... foi bom, né?


Eduardo travou por um segundo.

Ele sabia exatamente sobre o que ela estava falando.

Os dedos pairaram sobre o teclado, e por um momento ele pensou demais.

Pensou no beijo. Pensou em como foi bom; não avassalador, não inesquecível, mas bom. Simples. Correto. O tipo de coisa que qualquer um esperaria que fosse.

Mas também pensou em Leo.

E a culpa voltou como um peso inevitável em seu peito.

Porém, ele não podia demonstrar isso.

Então digitou:


Eduardo: foi muito bom! 🙂


Simples. Vago. Seguro.

Kayla mandou um emoji de sorriso travesso, e logo depois outra mensagem.


Kayla: fiquei feliz


Eduardo soltou um suspiro longo, jogando o celular de lado na cama e cobrindo o rosto com as mãos.

Ele não sabia o que estava fazendo, mas agora não tinha mais como voltar atrás.


◄☼►


Após um tempo de reflexão, Eduardo pegou o celular novamente e começou a jogar um joguinho que tinha baixado. Estava distraído, quando o grupo do WhatsApp em que estavam ele, Leo, Davi, Bruno e Carla começou a pipocar de mensagens.

Ele parou de jogar e abriu a conversa.


Davi: mano, saiu aquele filme de super-herói hj, geral tem q ir ver, hj tem promoção na compra dos ingressos

Bruno: finalmente um filme decente no cinema

Carla: se não for bom, davi vai se ver cmg hein

Davi: kkkkk para de graça, vc vai amar

Leo: é aquele q o cara tem uma roupa bizarra?

Eduardo: isso é todo filme de super-herói, leo

Leo: pior q é verdade

Davi: então, vamo? hj mesmo?

Bruno: partiu

Leo: tô dentro

Eduardo: bora

Carla: então fechado, a gente se encontra lá na entrada


As mensagens continuaram fluindo, mas antes que Eduardo pudesse guardar o celular no bolso, uma notificação privada de Davi apareceu.

Ele abriu a conversa e viu a mensagem acompanhada de uma foto.

Era Leo na fazenda, usando o chapéu do Mickey que Eduardo havia dado a ele. O sol iluminava seus cabelos loiros, e ele estava rindo de algo fora da câmera, a expressão despreocupada, leve.

Eduardo franziu a testa.

Leo sempre fingia não gostar do chapéu quando Eduardo estava por perto. Fazia cara feia, dizia que aquilo não combinava com ele, que não tinha nada a ver com a fazenda. Mas ali, naquela foto, ele parecia… até confortável.

Talvez os amigos tivessem tirado a foto enquanto brincavam com ele. Talvez Leo nem tenha percebido que estavam registrando o momento.


Davi: olha aí kkk achei q vc ia gostar de ver essa foto

Eduardo: kkkk caramba, e ele finge q não gosta desse chapeu

Davi: kkk pois é


Quando Eduardo achou que a conversa havia acabado, recebeu mais uma mensagem de Davi:


Davi: sei lá

Davi: vcs dois parece q sempre tiveram umas paradas que ninguém mais entendia direito


O estômago de Eduardo deu um nó imediato.


Eduardo: como assim?


Davi demorou um pouco para responder, e cada segundo de espera fez Eduardo sentir um peso na garganta.

Quando a resposta veio, foi curta, mas carregada de um significado impossível de ignorar.


Davi: nada não kkk esquece. só quis mostrar essa foto msm


O coração de Eduardo bateu mais forte. Ele passou a língua pelos lábios, inquieto. Havia algo nas palavras de Davi, uma provocação velada, um teste talvez. Como se ele estivesse esperando para ver como Eduardo reagiria antes de dizer qualquer coisa a mais.


Eduardo: ahh ta, entendi


Eduardo não perdeu tempo. Assim que enviou esta última mensagem para Davi, ele imediatamente chamou Carla no privado.

Se Davi sabia, só podia significar uma coisa.

Carla contou.


Eduardo: carla, a gente precisa conversar


Carla demorou alguns segundos para responder, mas quando respondeu, foi direta como sempre.


Carla: oxe, q foi?

Eduardo: vc falou pro davi?


Houve uma pausa.


Carla: sobre o q?

Eduardo: vc sabe sobre oq...


Mais uma pausa. Dessa vez, longa demais para o gosto de Eduardo.


Carla: eu n contei nada, castilho


Eduardo bufou, passando a mão pelo rosto.


Eduardo: então como ele sabe???

Carla: sei lá, mas n foi por mim. juro.


Eduardo exalou lentamente, tentando não surtar.


Eduardo: ele mandou uma foto do leo e disse que achou que eu ia gostar de ver e ainda falou umas coisas estranhas

Carla: estranhas tipo??

Eduardo: (print)

Carla: hmmmmmm

Eduardo: hm o quê, carla???

Carla: talvez ele tenha percebido sozinho?


Eduardo fechou os olhos com força.


Eduardo: não. eu acho q vc deve ter falado algo

Carla: eu não falei nada

Carla: olha… eu amo vcs dois, mas cês são meio óbvios quando tão juntos. tipo… dá pra ver


Eduardo sentiu o estômago revirar.


Eduardo: carla, eu preciso saber se ele sabe MESMO ou se só tá suspeitando.

Carla: então pergunta pra ele, ué


Eduardo bufou.


Eduardo: ótima ideia, né? oi, davi, vc sabe que eu tô ficando com o leo???

Carla: isso, direto ao ponto kkkkkkkk

Eduardo: carla, pelo amor de deus, isso é sério

Carla: eu sei, castilho. mas sério, relaxa

Carla: se o davi sabe, ele não parece preocupado. e se ele só suspeita, não tem pq cê se desesperar.


Eduardo respirou fundo. Ela tinha um ponto.

Mas isso não significava que ele ia conseguir relaxar.

Ele ainda estava processando toda a conversa com Carla e o que Davi poderia ou não saber quando o celular vibrou mais uma vez.


Leo: eai, riquinho, a gente vai mesmo no cinema hj?


Eduardo piscou, pegando o celular.


Eduardo: claro, tá confirmado no grupo

Leo: bom pq eu já tô me programando aqui. quero ver esse filme cheio de explosão kkkkk

Leo: mas queria falar, nem precisa vir hj aqui entao, nos encontramos lá

Leo: se der, te levo pão de queijo


Eduardo sorriu de leve.


Eduardo: olha só, me mimando agora?

Leo: fica esperto q não é sempre q eu sou bonzinho assim n

Eduardo: duvido nada q vai comer tudo antes de chegar lá

Leo: se eu ficar com fome, acontece

Leo: mas falando sério, tô ansioso pra esse filme. as cenas de ação parecem fodas demais, se não tiver pelo menos umas três explosões eu vou pedir reembolso kkkkk

Eduardo: vai só pelo barulho né, seu doente

Leo: óbvio, e pra comer pipoca tbm

Eduardo: vai roubar as minhas pipocas, né? ja conheço suas táticas, souza

Leo: claro, se n roubar sua pipoca, n tem graça

Eduardo: vagabundo

Leo: kkkkkk


Eduardo riu. Tudo parecia normal. Pelo menos até a próxima mensagem.


Leo: te vejo lá então ️

Leo: ❤️


Eduardo congelou.

O emoji.

Ele piscou algumas vezes, como se não tivesse lido direito.

Leo nunca mandava emoji de coração. Não tinham esse costume. Eles se provocavam, se xingavam, se zoavam o tempo inteiro, mas Leo nunca foi de demonstrar afeto tão abertamente, ainda mais por mensagem.

Eduardo ficou encarando a tela, tentando processar aquilo.

Mordeu o lábio, sentindo um frio estranho no estômago.

Depois de alguns segundos, respondeu do jeito mais casual possível.


Eduardo: até lá, fazendeiro


Enviou e ficou olhando para a tela, sua mente não conseguia deixar aquele pequeno detalhe passar.

Aquele emoji.

Por que ele parecia tão fora do normal?

Por um instante, seus dedos pairaram sobre o teclado. Ele quis responder com o mesmo tom, talvez um emoji de coração de volta, ou pelo menos um sorriso.

Mas a culpa segurou sua mão.

A lembrança da noite passada ainda estava ali, recente demais. O beijo, a tentativa de acreditar em um caminho mais fácil. Como ele poderia mandar um coração agora, como se nada tivesse acontecido?

O gesto simples virou um impasse gigantesco.

No fim, ele só bloqueou a tela.

E ficou ali, olhando para o próprio reflexo apagado no visor.