O Garoto Feito de Sol e Terra
25 Capítulo 25 — Sonhos Distantes
O restante do ano passou como um borrão.
As semanas foram um amontoado de provas, noites estudando, professores correndo para fechar notas e alunos contando os dias para a liberdade das férias. Eduardo mal teve tempo de processar tudo antes de se ver sentado no pátio, observando as festividades escolares se desenrolarem ao redor.
E então, sem aviso, o ano acabou.
Naquela noite, o jantar na casa dos Castilho parecia comum. A mesa impecavelmente arrumada, os pratos finos reluzindo sob a luz do lustre, Helena comentando sobre a última reforma que queria fazer e Frederico verificando e-mails no celular entre uma garfada e outra.
Eduardo comia em silêncio, distraído. Só percebeu que algo estava por vir pelo tom casual demais do pai quando ele falou:
— Vamos viajar.
Eduardo ergueu os olhos do prato, franzindo o cenho.
— Viajar pra onde?
Helena sorriu, cruzando os talheres sobre o prato como quem entrega uma boa notícia.
— Orlando. Vamos para a Disney.
Eduardo parou de mastigar por um segundo. Engoliu a comida com mais dificuldade do que esperava.
— Sério?
— Sério. — Frederico confirmou com a expressão orgulhosa de quem já tinha tudo planejado. — Já está tudo certo. Ficaremos três semanas lá.
Três semanas.
Três semanas inteiras fora.
Nos primeiros segundos, Eduardo sentiu a animação crescer dentro de si.
Era a Disney, afinal. Algo que qualquer garoto da idade dele sonharia em ver de perto.
Mas, por baixo da empolgação, algo se instalou: um incômodo discreto, quase imperceptível no início, mas que foi crescendo aos poucos, se acomodando em seu peito como um peso que ele não conseguia ignorar.
Ele não soube explicar de imediato, não soube dizer por que a notícia, que deveria deixá-lo animado, trazia junto essa sensação estranha.
Então, naquela noite, não disse nada. Apenas assentiu, forçando um sorriso enquanto seus pais seguiram animados com os planos, discutindo roteiros, hotéis, passeios.
Mas, no dia seguinte, quando foi até a fazenda contar para Leo, finalmente entendeu o motivo daquele aperto silencioso que não o deixava em paz.
◄☼►
Leo estava sentado no celeiro, os dedos habilidosos manuseando uma corda gasta, tentando refazer um nó que já não segurava mais tão bem. O cheiro de feno e madeira envelhecida pairava no ar, e o único som ali dentro era o estalo suave da corda sendo tensionada entre seus dedos.
Então, Eduardo entrou e se jogou ao lado dele, a expressão carregando algo que Leo não conseguiu decifrar de imediato.
— Vou pra Disney nessas férias.
Leo parou o que estava fazendo na hora. Piscou, processando as palavras. Virou o rosto devagar, como se tivesse acabado de ouvir algo completamente absurdo.
— O quê?!
Eduardo soltou um riso sem graça.
— Meus pais decidiram do nada. Passaremos três semanas lá.
Três semanas.
Leo ainda o encarava como se ele tivesse acabado de dizer que ia se mudar para outro planeta.
— Três semanas?!
Eduardo coçou a nuca, sem jeito.
— É.
Leo soltou um suspiro pesado e voltou a mexer na corda, apertando o nó com mais força do que precisava.
— Que inveja de você.
Eduardo sentiu o aperto no peito crescer.
Ele sabia. Sabia que Leo nunca saiu de São Tomás, nunca teve uma grande viagem, nunca viu nada além das estradas de terra, dos campos e das ruas simples da cidade.
E agora, ali estava ele, indo para outro país, para um lugar que Leo nunca sonharia em conhecer.
Sentiu-se mal. Como se estivesse deixando algo para trás.
— Queria que você pudesse ir junto. — disse, a voz saindo baixa, sincera.
Leo soltou uma risada curta, mas sem humor.
— Disney não é lugar pra gente como eu.
Eduardo franziu o cenho e empurrou o ombro dele de leve.
— Para. Falo sério. Ia ser muito legal se você pudesse ir.
Leo não respondeu de imediato.
Porque sabia que não havia nada a ser feito.
Eduardo sempre teve um mundo que ele nunca poderia alcançar, isso era um fato. Mas agora, pela primeira vez, Leo sentiu esse fato apertar forte dentro do peito.
A vida de Eduardo estava seguindo um caminho para onde ele não poderia segui-lo. E, por mais que não quisesse admitir, isso doía.
O silêncio entre os dois se alongou.
Eduardo percebeu algo na expressão de Leo, algo contido, um peso não dito.
Se aproximou.
Sem pensar muito, levantou a mão e segurou o rosto de Leo, os dedos deslizando contra a pele quente.
Leo prendeu a respiração.
— O que foi? — murmurou, a voz baixa, quase temerosa.
Eduardo não respondeu. Apenas se inclinou, os olhos fixos nos dele.
E então, os lábios se tocaram.
O beijo começou calmo, quase hesitante. Um encontro suave, cuidadoso, como se ambos ainda testassem o terreno.
Mas bastaram alguns segundos para que mudasse.
A calma cedeu lugar à intensidade; a pressão dos lábios aumentou, a respiração ficou curta, e havia uma urgência crescente, como se Eduardo quisesse segurá-lo ali, impedir que qualquer espaço voltasse a existir entre eles.
Leo correspondeu no mesmo instante, os dedos se agarrando ao tecido da camisa de Eduardo, puxando-o para ainda mais perto.
O calor subiu rápido.
As respirações se misturaram.
As mãos de Eduardo deslizaram, sem intenção, até que os dedos roçaram onde não deveriam.
Um toque breve.
Quase nada.
Mas suficiente para fazer Leo se enrijecer de imediato.
Eduardo também congelou.
O ar entre eles mudou num segundo, a consciência caindo pesada sobre o que tinha acabado de acontecer.
Rapidamente, Eduardo recuou a mão, sem jeito, sem saber como olhar para Leo.
O silêncio ficou pesado.
Leo engoliu em seco, os olhos fixos no chão.
Nenhum dos dois falou nada.
Porque nunca tinham chegado tão longe antes, e nenhum deles sabia o que fazer com isso.
Fale com o autor