O Garoto Feito de Sol e Terra
24 Capítulo 24 — Mensagens Que Dizem Mais do Que Parecem
Eduardo estava deitado na cama, com o celular apoiado na mão, o polegar deslizando pela tela sem realmente fazer nada.
Ele queria mandar uma mensagem, mas não sabia como começar.
Sabia que Leo não iria reclamar em voz alta, mas também sabia que ele não tinha gostado. O incômodo de Leo era algo silencioso, mas Eduardo reconhecia de longe. Estava ali nos olhares evitados, no jeito contido, nas respostas curtas.
Suspirou, passando a mão pelo rosto, indeciso por um instante. Então, antes que mudasse de ideia, digitou rápido e enviou.
Eduardo: foi mal, eu n sabia como negar… ela insistiu tanto pra ir junto
A resposta não demorou.
Leo: deixa disso
Eduardo franziu a testa. Era só isso?
Então, antes que ele pudesse pensar em outra coisa para dizer, Leo mandou outra mensagem.
Leo: até q foi divertido
Eduardo piscou.
Eduardo: serio?
Leo: bom… compensou pelo fato de eu ter jogado terra na sua cara
Eduardo soltou um riso baixo, balançando a cabeça.
Eduardo: ah, vai se ferrar
Mas, por mais que estivesse rindo, ainda sentia que Leo estava sendo só… Leo. Fazendo piada. Desconversando. Então, decidiu perguntar de verdade:
Eduardo: mas falando serio… vc n ficou irritado?
Dessa vez, Leo demorou um pouco mais para responder. Eduardo sentiu o peito apertar um pouco, mesmo sem querer.
Quando a resposta veio, ele quase podia ouvir a voz de Leo dizendo aquilo:
Leo: se eu tivesse ficado irritado, teria jogado terra duas vezes
Eduardo riu sozinho, sentindo o peso da conversa diminuir.
Eduardo: bom saber q existe um nivel de medição de ódio através de terra
Leo: n é ódio, é carinho expressivo
Eduardo arqueou uma sobrancelha, rindo.
Eduardo: sei. com vc, carinho expressivo é jogar terra e me fazer carregar saco de ração
Leo: vc só tá pegando o jeito da fazenda, riquinho
Eduardo: se for pra levar terra na cara, prefiro nem pegar
Eduardo se pegou sorrindo para a tela.
Ele sabia que Leo tinha ficado incomodado, mas também sabia que, no fim, ele nunca ficava bravo com ele de verdade.
E isso era um alívio.
Porque, por mais que Kayla tivesse insistido, Eduardo queria que aquele dia tivesse sido só dos dois.
Mas agora, pelo menos ele sabia que Leo não o odiava por isso.
Bom… talvez só um pouquinho. Ou uma jogada de terra e meia.
◄☼►
Eduardo ainda estava sorrindo para a tela do celular quando ouviu os passos firmes de seu pai pelo corredor.
Ele congelou.
— Eduardo! — a voz de Frederico ecoou pela casa.
Ele rolou os olhos antes mesmo de se levantar da cama.
Já sabia o que viria.
Saiu do quarto e desceu as escadas, encontrando o pai sentado no escritório, rodeado de papéis e uma expressão nada paciente.
— Senta aí. — Frederico apontou para a cadeira ao lado.
Eduardo respirou fundo e obedeceu.
Seus olhos pousaram sobre os papéis da empresa, números e mais números, contratos, valores absurdos.
O tédio bateu na mesma hora.
— Você precisa começar a aprender sobre o que realmente importa. — Frederico começou, sem rodeios.
Eduardo nem respondeu. Já ouvira aquele discurso tantas vezes que conseguia prever cada palavra.
— Sabe o que eu fazia quando tinha a sua idade?
Eduardo segurou um suspiro.
— Já sei, pai. Você trabalhava.
Frederico estreitou os olhos.
— Exato. Eu não perdia meu tempo com bobagens. E, sinceramente, Eduardo… você deveria fazer o mesmo.
Eduardo cruzou os braços.
— Bobagens tipo o quê?
— Tipo passar metade dos seus dias naquela fazenda.
Eduardo se enrijeceu na hora. Seu pai continuou:
— Vamos continuar tendo essa conversa até você entender.
Frederico largou a caneta sobre a mesa e se inclinou um pouco na direção do filho.
— Você tem amigos na sua escola. Amigos que realmente importam.
Eduardo cerrou os punhos sobre os joelhos.
— Leo também importa.
— Não como Tiago, Giovane e Hugo.
A paciência de Eduardo esticava como um elástico prestes a arrebentar.
— Você sequer conhece o Leo.
— E eu não preciso conhecer para saber que ele não é o tipo de pessoa que vai te ajudar a chegar onde você precisa.
Eduardo trincou os dentes.
— Onde eu preciso ou onde você quer?
O silêncio pesou.
Frederico o encarou por um longo momento, surpreso com o tom do filho.
E então soltou um suspiro profundo, pegando a caneta de novo e voltando a rabiscar sobre os papéis.
— Chega. Pegue essa pasta e organize os contratos da semana passada.
Eduardo fez o que o pai mandou, mas sua cabeça estava a quilômetros dali.
Ele sabia que Frederico nunca ia mudar de ideia.
E também sabia que nunca ia parar de ir para a fazenda, não importava o quanto seu pai tentasse.
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