O Garoto Feito de Sol e Terra
16 Capítulo 16 — O Aniversário de Eduardo
O salão da casa dos Castilho estava impecável.
Helena tinha contratado um buffet sofisticado, com garçons uniformizados circulando com bandejas de aperitivos elegantes e sucos servidos em taças. As mesas eram cobertas com toalhas brancas, e arranjos de flores estavam espalhados pelo ambiente, decorando o espaço com um ar requintado.
Tudo estava perfeitamente planejado.
Afinal, Frederico e Helena Castilho não estavam apenas comemorando os treze anos do filho, estavam apresentando o peso do nome Castilho para a sociedade de São Tomás. E todos os nomes influentes estariam lá para testemunhar.
Tiago chegou acompanhado dos pais, cumprimentando a família Castilho com um aperto de mão ensaiado. Hugo e Giovane vieram juntos, já fazendo piadas sobre qual garota Eduardo deveria tentar beijar naquela noite. Kayla estava deslumbrante, vestindo um vestido azul-claro que fazia seus olhos verdes parecerem ainda mais brilhantes. Samanta, a garota com quem Tiago ficou, veio com um grupo de amigas, lançando olhares discretos para ele sempre que passava por perto.
Entre um cumprimento e outro, os presentes foram se acumulando sobre a mesa ornamentada com toalha de linho e laços dourados. Eduardo recebeu uma coleção de roupas de grife, tênis importados, um relógio caro que seu pai garantiu ser "um clássico", além de um perfume francês que Helena escolheu pessoalmente, alegando que era "o aroma da elegância". Havia também um kit de canetas de uma marca sofisticada, enviado por um tio distante que nunca aparecia, mas fazia questão de marcar presença com presentes caros.
Os convidados entregavam os embrulhos com sorrisos e tapinhas nas costas, como se cada presente fosse um investimento, um lembrete de que Eduardo pertencia àquele mundo.
Era uma festa digna do nome Castilho.
Mas, para Eduardo, não estava completa. Porque não seria certo comemorar seu aniversário sem os amigos de verdade.
◄☼►
Na véspera da festa, Eduardo telefonou para Carla, Davi e Bruno, convidando-os. Os três aceitaram sem hesitação, animados com a promessa de uma noite grandiosa.
Depois, discou o número da fazenda, o mesmo de sempre, aquele que nunca mudava. O telefone tocou algumas vezes antes de alguém atender.
— Alô?
Era a voz da mãe de Leo, Rita. Eduardo se apresentou, e ela não precisou de mais explicações antes de chamar seu filho. Do outro lado, Eduardo ouviu o som abafado dela gritando pelo filho, chamando-o para atender.
Leo pegou o telefone logo depois, a respiração um pouco acelerada.
— Oi? Eduardo? — sua voz soou curiosa. Não era sempre que Eduardo ligava, ainda mais àquela hora, e Leo claramente não fazia ideia do motivo.
Eduardo não enrolou. Falou da festa, da casa cheia, da música, das luzes e dos amigos que estariam lá. E, no meio de tudo isso, disse que Leo precisava ir.
O silêncio do outro lado foi breve, mas denso. Eduardo imaginou a expressão que Leo devia estar fazendo: o cenho franzido, o maxilar tenso. Não precisava estar lá para saber que ele estava hesitando.
— Todos os seus amigos vão estar lá — Leo disse, sem esconder o incômodo na voz.
— E você também — Eduardo insistiu.
Outro instante de silêncio. Então, um suspiro.
— Tá bom. Eu não vou perder seu aniversário.
Leo não perderia de fato, afinal, era seu melhor amigo.
◄☼►
No dia da festa, todos eles apareceram.
Não havia dúvida de que Leo, Carla, Davi e Bruno destoavam completamente do resto da festa. As roupas eram simples. Nenhum deles estava vestido para um evento daquele nível. Leo, especificamente, usava sua camisa de botões xadrez mais arrumada e um jeans que já tinha visto dias melhores.
Quando chegaram, Eduardo sorriu de verdade pela primeira vez na noite.
Leo carregava algo nas mãos. Um pacote pequeno, embrulhado em um pedaço de pano simples, amarrado com um nó firme.
— Feliz aniversário, riquinho. — Ele disse, jogando o embrulho na direção de Eduardo.
Eduardo pegou no ar, franzindo o cenho com um sorriso curioso.
— Valeu. O que é?
— Abre e vê.
Desatando o nó, Eduardo desdobrou o pano com cuidado. Dentro, encontrou uma pequena fivela de metal envelhecido e um pedaço de couro trançado. Demorou um segundo para entender.
— Fiz pra você. — Leo explicou, enfiando as mãos nos bolsos. — É um chaveiro. Usei couro da fazenda.
Era simples, robusto, feito para durar. Eduardo passou os dedos pelo trançado firme, reconhecendo ali o trabalho das mãos de Leo, a paciência com que ele costumava lidar com coisas que importavam.
Ele sorriu, girando o chaveiro entre os dedos.
— É perfeito.
Leo deu de ombros, desviando o olhar, como se não fosse nada demais. Mas Eduardo sabia que era.
— Esse é, de longe, o melhor presente que eu ganhei hoje — Eduardo disse, sorrindo de verdade.
Leo desviou o olhar, fingindo que aquilo não significava nada.
— Não precisa exagerar também.
Mas Eduardo sabia que não era exagero.
◄☼►
O pai de Eduardo não demorou a notar os convidados "desajustados". Frederico o chamou para um canto da festa, mantendo a voz baixa, mas com um tom firme:
— Quem são esses garotos?
Eduardo já sabia que aquilo aconteceria.
— São meus amigos.
Frederico franziu a testa.
— Da escola pública?
Eduardo sustentou o olhar do pai.
— Sim.
Frederico respirou fundo, como se estivesse prestes a dizer algo mais, quando uma voz grave interrompeu a conversa.
— Frederico! — O senhor Rocha, pai de Tiago, se aproximou com um sorriso calculado e um aperto de mão firme. — Preciso falar com você sobre aquela proposta. Podemos conversar um instante?
Frederico hesitou por um segundo, lançando um último olhar a Eduardo antes de se virar para o homem.
— Claro, Rocha. Vamos lá.
E sem mais uma palavra, se afastou, deixando Eduardo parado ali, com o peso do olhar do pai ainda queimando em suas costas.
Eduardo sabia o que aquele olhar significava.
Mas não se importava.
◄☼►
Lá dentro, nem sempre Eduardo conseguia dar atenção a Leo e os outros amigos. Tinha que tirar fotos com os pais, com Tiago e seus amigos novos. Era arrastado pela mãe para cumprimentar pessoas que nem conhecia direito.
Leo odiou cada segundo daquilo. Davi e Bruno não demoraram a ir embora. Carla ficou um pouco mais, mas depois também foi.
Leo ficou. E se arrependeu.
Os amigos ricos de Eduardo eram detestáveis. Conversavam sobre garotas, dinheiro e viagens que Leo nunca poderia fazer. Eles riam do que era normal para ele e Eduardo estava no meio daquilo.
Às vezes, Leo percebia o olhar de Eduardo o procurando, mas toda vez que isso acontecia, alguém puxava Eduardo para longe.
◄☼►
Leo estava parado perto de uma mesa, bebendo um refrigerante, quando ouviu uma voz atrás dele.
— Você é o Leo, né?
Ele se virou e viu Kayla Albuquerque parada ali, olhando diretamente para ele. Ele sabia exatamente quem ela era.
— Sim. E você é a Kayla...
Ela sorriu.
— Eu mesma.
Leo não soube dizer o que estava acontecendo ali. Por que Kayla, uma das garotas mais populares da cidade, estava falando com ele?
Mas então ela olhou ao redor e fez uma careta.
— Sabe, eu odeio esse tipo de festa.
Leo ergueu as sobrancelhas.
— Sério?
Kayla riu de verdade.
— Sim. Eu nasci no meio disso tudo, mas não significa que eu goste.
Leo não sabia se acreditava nela. Mas então ela continuou:
— Eduardo comentou bastante sobre você.
Isso fez Leo prestar mais atenção.
— Comentou?
— Sim. — Kayla sorriu. — Falou sobre a fazenda, sobre as coisas que vocês fazem, sobre as corridas na lama… deu até vontade de conhecer também.
Leo sentiu algo esquisito no peito. Eduardo falou sobre ele. Sobre as coisas que eles faziam juntos.
Kayla percebeu algo na expressão dele e sorriu de canto.
— Ele fala de você de um jeito que é difícil não ficar curiosa.
Leo desviou o olhar, fingindo não se importar, mas, por dentro, uma sensação estranha e quente se espalhava por ele.
Talvez fosse felicidade.
Talvez fosse algo que ele ainda não sabia dizer o que era.
Leo olhou para Kayla, tentando entender o que exatamente ela queria com aquela conversa. Ela era popular, deslumbrante, cheia de amigos no colégio. Não fazia sentido estar ali, falando com ele.
Mas então ela disse algo que o pegou desprevenido.
— Eduardo é diferente desses amigos chatos dele, né?
Leo concordaria de imediato, mas ela continuou antes que ele dissesse qualquer coisa.
— E bem mais bonito também.
Leo piscou.
— O quê?
— Aqueles cabelos e olhos escuros... — Kayla continuou, como se estivesse apenas pensando alto. — Meio hipnotizantes, né?
Ela então percebeu o que tinha acabado de dizer. Um leve rubor surgiu em seu rosto, e ela rapidamente mudou de assunto.
— Enfim! Os doces dessa festa são perfeitos, né? Nossa, eu comeria uns vinte brigadeiros agora.
Leo não respondeu de imediato.
Ainda estava processando as palavras anteriores.
Eduardo.
Bonito.
Hipnotizante.
Kayla estava atraída por Eduardo?
A ideia lhe deu um gosto amargo na boca, mas ele não sabia o porquê.
Ele não podia negar.
Eduardo era bonito.
Sempre soube disso, mas nunca tinha parado para pensar nisso daquele jeito, mas agora, ouvindo Kayla falar, ficou incomodado. Não sabia exatamente com o quê.
◄☼►
A festa já estava esvaziando quando Eduardo finalmente conseguiu um momento de paz. As risadas altas dos convidados iam diminuindo, algumas pessoas se despediam de seus pais, e o brilho exagerado daquela noite começava a se dissipar.
E foi então que viu Leo, ainda ali, encostado na varanda, observando o céu como se não pertencesse àquele lugar.
Eduardo se aproximou, sentindo o peso da noite inteira sobre os ombros.
— Ei. — Chamou.
Leo virou o rosto para ele, os olhos cor-de-mel levemente cansados.
— Achei que já tivesse ido embora — Eduardo disse, coçando a nuca.
— Eu ia. Mas fiquei esperando você terminar de ser arrastado de um lado para o outro — Leo respondeu, um sorriso discreto nos lábios.
Eduardo soltou um suspiro.
— Me desculpa. Queria ter te dado mais atenção.
Leo o observou por um instante, como se estivesse pensando no que dizer. Mas então apenas balançou a cabeça.
— Você tava ocupado. Com essa gente toda. É normal.
Eduardo sentiu um incômodo crescer no peito. Não queria que Leo achasse que ele fazia parte “daquela gente”.
— Mas você é meu melhor amigo. Eu devia ter ficado por perto.
Leo deu de ombros, desviando o olhar.
— Tá tudo bem, riquinho.
E antes que Eduardo pudesse dizer mais alguma coisa, Leo se aproximou e o abraçou.
Foi rápido, firme, com aquele jeito meio desajeitado que Leo tinha de demonstrar afeto. Mas Eduardo sentiu. Sentiu o cheiro de terra e vento que sempre acompanhava Leo, sentiu a solidez do abraço.
Quando Leo se afastou, olhou para ele com um meio sorriso.
— Feliz aniversário.
Então, sem esperar resposta, virou-se e desceu os degraus da varanda, caminhando para longe da casa grande, para longe da festa que nunca foi feita para ele.
Eduardo ficou parado ali, observando Leo desaparecer na estrada de paralelepípedos rumo à fazenda.
E por algum motivo, naquela noite cheia de sorrisos ensaiados, presentes caros e cumprimentos calculados, aquela despedida foi a única coisa que realmente importou.
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