O Garoto Feito de Sol e Terra
12 Capítulo 12 — A Despedida na Fazenda
O sol brilhava intensamente no céu aberto, iluminando os vastos campos ao redor da fazenda dos Souza. O vento quente trazia o cheiro de mato fresco, enquanto vozes animadas ecoavam pelo local. Era sábado, e alguns dias antes Leo havia convidado Eduardo para passar o dia lá.
Eduardo desceu da bicicleta e olhou ao redor, surpreso ao ver a movimentação no quintal.
Leo estava perto do celeiro, arrumando algumas tábuas para improvisar uma mesa. Bruno e Davi carregavam um grande engradado de refrigerantes que conseguiram na vendinha do Seu Zé. Carla ajudava a mãe de Leo a organizar pratos e copos.
— O que tá acontecendo aqui? — Eduardo perguntou, confuso.
Leo sorriu e deu um tapinha leve no ombro dele.
— Sua despedida, ué.
Eduardo piscou.
— Minha… despedida?
Carla revirou os olhos.
— É. A gente não ia te deixar sumir da escola sem pelo menos fazer alguma coisa.
— Isso aqui foi ideia do Leo. — Davi acrescentou, pegando uma garrafa de refrigerante e abrindo com um estalo.
Eduardo olhou para Leo, que deu de ombros.
— Não dava pra te deixar ir embora sem um dia decente.
Eduardo sentiu o peito apertar.
Mesmo tentando ignorar, sabia que aquilo significava muito.
Ele olhou ao redor e viu como todos estavam ali por ele. Mesmo que tentassem agir com naturalidade, havia algo especial naquele dia.
Era a última vez que estariam juntos como alunos da mesma escola.
— Vocês são incríveis. — Eduardo murmurou, um sorriso sincero no rosto.
— A gente sabe. — Bruno brincou, puxando Eduardo para perto.
— Agora chega de papo, bora comer! — Leo anunciou.
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O dia foi cheio de risadas e brincadeiras.
Eles jogaram futebol no campo de terra, apostaram corrida no meio do milharal, fizeram guerra de lama perto do riacho. Carla quase caiu dentro da água tentando escapar de Davi, e Bruno derrubou dois copos de suco enquanto tentava equilibrar um prato de bolo ao mesmo tempo.
Rita fez questão de preparar uma mesa recheada com bolo, pão de queijo, bolinho de chuva e suco de fruta.
Enquanto comiam, a conversa fluiu como sempre. Nenhum deles tocou no assunto da mudança, como se ignorá-lo por um tempo significasse que não precisariam lidar com isso.
Mas Eduardo sabia.
A despedida pairava no ar, silenciosa, mesmo que ninguém falasse sobre ela.
◄☼►
Quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu de laranja e roxo, Eduardo percebeu que o dia estava chegando ao fim.
Ele estava sentado na cerca de madeira, olhando para o horizonte, quando Leo se aproximou e se sentou ao lado, soltando uma pergunta:
— E então… tá ansioso sobre a escola nova?
Eduardo suspirou.
— Acho que vai ser diferente. Ainda não sei se tô ou não ansioso.
Leo assentiu, chutando levemente a cerca com o calcanhar.
— Bom… pelo menos você ainda vai estar por aqui.
Eduardo olhou para ele.
— Você achou que eu ia sumir?
Leo deu um meio sorriso.
— Não sei. Às vezes parece que o mundo de vocês, dos riquinhos, suga vocês pra dentro e nunca mais devolve.
Eduardo riu.
— Se fosse assim, eu já tinha sumido há muito tempo.
Leo deu de ombros.
— É. Mas às vezes eu fico na dúvida.
Eduardo sentiu um aperto no peito.
Ele queria dizer que nada mudaria, mas sabia que seria uma mentira. Alguma coisa sempre muda. Mas ele não deixaria que aquilo significasse o fim da amizade deles.
Então, ao invés de prometer algo que talvez não pudesse cumprir, apenas sorriu e deu um soco leve no ombro de Leo.
— Se eu sumir, você me puxa de volta.
Leo riu.
— Pode deixar.
◄☼►
Quando a noite caiu de vez, o grupo foi se despedindo aos poucos.
Bruno e Davi foram os primeiros a pegar as bicicletas e partir. Carla abraçou Eduardo com força antes de sair, dizendo que esperava que ele não se tornasse um "esnobe da cidade".
Leo, no entanto, apenas ficou ali, observando Eduardo subir na bicicleta.
— A gente se vê, riquinho.
Eduardo sorriu.
— A gente se vê, Leo.
Então, pedalou para casa, sentindo o vento frio da noite bater no rosto.
Ele não sabia o que o futuro reservava.
Mas, pelo menos naquela noite, sentia que a amizade deles ainda estava firme.
◄☼►
O pôster colorido do filme de aventura estava estampado na vitrine do cinema no pequeno shopping da cidade de São Tomás. Eduardo sabia que Leo adorava esse tipo de história — ação, mistério, cenas exageradas e heróis improváveis.
Então, certa tarde, enquanto estava na fazenda, ele fez o convite.
— Vai passar aquele filme que tem piratas e tesouros no cinema. Você gosta dessas coisas, né? Vamos?
Leo, que estava encostado na porteira, arqueou uma sobrancelha.
— Gosto, mas… cinema? Você acha que eu tenho dinheiro pra isso?
Eduardo deu de ombros.
— Relaxa, eu compro os ingressos.
Leo franziu a testa.
— Com o quê?
— Minha mesada.
Leo soltou uma risada curta.
— Olha só, bancando o riquinho generoso agora... sério, eu nunca achei que um dia ia ser sustentado por um riquinho.
Eduardo riu.
— Não se acostuma.
Leo fez um gesto de aceitação, mas no fundo, ele ficou animado. Cinema não era algo que fazia parte da sua rotina. Era caro, e normalmente o máximo que conseguia era assistir filmes antigos na TV de casa.
— Então beleza. Que horas?
— Nos encontramos amanhã antes da sessão na praça. Vamos de bicicleta.
— Fechado.
◄☼►
No dia seguinte, os dois se encontraram perto da praça e pedalaram até o cinema.
Leo tinha chegado primeiro e esperado Eduardo com um pé apoiado na bicicleta e os braços cruzados.
— Até que enfim, hein? Pensei que ia desistir e me deixar esperando.
— Eu? Nunca.
Assim que chegaram no cinema, compraram pipoca e refrigerante antes de entrarem na sala escura.
O filme começou e, como Eduardo imaginava, Leo adorou.
A cada cena exagerada de ação, Leo fazia comentários baixos, rindo das lutas impossíveis ou dos personagens que tomavam decisões completamente burras. Eduardo ria junto, sabendo que era exatamente por isso que Leo gostava daquele tipo de filme.
Por um tempo, parecia que estavam vivendo um daqueles dias normais de infância.
Nada tinha mudado.
◄☼►
Quando saíram do cinema, a noite já tinha tomado conta da cidade. O vento fresco cortava as ruas silenciosas, carregando o cheiro de pipoca e as luzes dos postes iluminavam o chão de paralelepípedos.
Leo esticou os braços, satisfeito.
— Beleza, riquinho. Você fez uma boa escolha de filme.
— Eu sempre faço.
— Ah, tá. — Leo revirou os olhos. Então apontou para o outro lado da rua, onde as bicicletas estavam encostadas. — Bora apostar corrida até lá?
Eduardo arqueou uma sobrancelha e perguntou:
— Sério? Vai querer mesmo perder?
— E você vai querer continuar sendo humilhado?
Eduardo não queria perder. Então, antes que Leo pudesse contar até três, saiu correndo.
— Ei! Trapaceiro! — Leo exclamou, disparando logo atrás.
Os dois correram em meio à rua de pedras, os passos ecoando entre as construções antigas do centro de São Tomás. Eduardo sentia o vento contra o rosto, mas Leo logo o alcançou, esbarrando de leve no ombro dele para tentar desequilibrá-lo.
— Isso é falta! — Eduardo reclamou entre risadas.
— Não tem juiz, não tem falta!
Os dois estavam quase chegando às bicicletas quando algo se moveu rápido na calçada.
Pequeno. Peludo.
Um rato.
Eduardo viu de relance e instintivamente desviou, sentindo um arrepio subir pela espinha. No impulso do susto, ele se segurou em Leo para não tropeçar, tentando evitar uma queda ridícula.
Só que ele acabou segurando firme na mão de Leo, que instintivamente também segurou a dele.
Por um instante, tudo parou.
Os dois perceberam o que fizeram quase ao mesmo tempo.
Nenhum deles disse nada.
Foi só um segundo. Um segundo curto demais para ser ignorado e longo demais para ser esquecido.
Então, Eduardo soltou.
Leo continuou andando até a bicicleta e nenhum dos dois olhou para o outro.
Até que Leo quebrou o silêncio:
— Se você tivesse caído, teria sido muito mais engraçado.
Eduardo, ainda sentindo o coração meio acelerado, riu para disfarçar o incômodo.
— Você queria que eu caísse, né?
— Claro.
— O rato era enorme.
Os dois começaram a rir.
A tensão do momento estranho foi se dissolvendo nas piadas.
Mas mesmo enquanto riam, nenhum dos dois conseguia apagar completamente a sensação daquele toque inesperado.
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