O Garoto Do Andar de Cima
11 Capítulo 10: O Pequeno Herói Da Holanda
Shun POV
Coisas ruins podem acontecer em um piscar de olhos.
Um.
Dois.
Três.
Pisque.
Um garoto está caminhando pelas ruas e rindo com sua amiga.
Ele pisca. E um abismo se abre no chão.
De dentro dele sai um homem em uma carruagem negra forjada nas profundezas do inferno.
O garoto pára de rir e começa a chorar.
Tarde demais. O homem sai da carruagem e o puxa pra dentro do abismo.
Eu estava preso dentro daquele abismo escuro agora.
"Hyoga está morrendo."
Eu não conseguia respirar.
Não pisque.
Forcei o desespero garganta a baixo com um gole de refrigerante.
Minha mãe não tinha perguntado se eu queria uma festa de boas vindas, mas como dizer não? Ela estava tão animada. Acho que convidou todos os nossos conhecidos, inclusive toda a família.
Não queria decepcioná-la, mamãe estava fazendo o que podia. Ela até contratou cozinheiros profissionais para a festa para prepararem e servirem coquetéis de camarão, bolinhos de molusco e espetos de polvo. Colocou velas de citronela no jardim pra espantar os mosquitos, e encheu os vasos de arranjos com flores como jasmins, para que o ar tivesse o mesmo cheiro daqueles anúncios de revista para perfumes de celebridades.
– Você está bem, querido? Está tão pálido. — Minha mãe tocou minha testa como se quisesse checar se eu estava com febre.
– Eu estou bem. — Eu sorri. Eu estava sempre sorrindo. Porque quando eu sorria as pessoas paravam de fazer perguntas. Eu não queria elas fizessem perguntas. Perguntas me faziam pensar. Eu não queria pensar. Coisas horríveis aconteceriam se eu pensasse muito.
Eu era o menino na história do Pequeno Herói da Holanda. Achando que conseguiria conter as águas zangadas com seu dedo. Tentando impedir que as muralhas que seguravam o Mar do Norte rachassem e as águas alagassem toda a terra. Sabendo que qualquer buraco, mesmo do tamanho de um dedo, era extremamente perigoso. As muralhas precisavam ser constantemente vigiadas.
Não pisque.
"Hyoga levou um tiro..."
Eu comecei a suar.
– Você está bem mesmo? — Vovó perguntou.
– Estou... Só está um pouco quente aqui. — Não era totalmente mentira. O calor estava demais. Eu queria poder abrir um botão daquela camisa que mamãe me fizera usar. — Eu preciso de um pouco de ar.
– O ar condicionado está ligado — Vovó falou — Não estaria tão quente se sua mãe não tivesse aberto todas as portas.
– O que eu fiz agora, mãe? — Mamãe apareceu outra vez e pegou um camarão da bandeja de um garçom que estava passando. Ela havia se afastado pra cumprimentar um casal que chegara. Eu não fazia idéia de quem fosse. Com exceção da família, eu não conhecia a maioria dos convidados.
– Está fervendo aqui dentro, Shu-chan estava dizendo que precisa de um pouco de ar.
Minha mãe olhou pra mim. Os olhos dela pareciam estar mais escuros por causa da luz indireta. Estava bonita e jovial, vestida de calça de linho branca e bata de seda. Estava perfeita. Tudo estava perfeito. Tudo ficaria bem. Hyoga ficaria bem.
Eu engoli em seco outra vez.
Shunrei disse que a bala não atingira nenhum órgão vital, a cirurgia de emergência havia corrido bem, a hemorragia fora contida a tempo e ele já estava estabilizado, embora seu estado ainda fosse bastante delicado.
Cirurgia de emergência, hemorragia, estado delicado... palavras que eu nunca imaginara ouvir relacionadas a ele.
– Eu preciso sair. — Eu falei controlando o choro de pânico que estava preso na minha garganta.
Não pisque.
– Então vá, querido. — Mamãe falou. Seus cabelos negros tocaram meus ombros quando me beijou. Ela já tinha entendido minha necessidade de sair às vezes. De ficar sozinho. Sorrir o tempo todo era dolorido. Me deixava meio em carne viva por dentro.
– Não acredito que você vai deixar ele se isolar no jardim outra vez? Em uma festa pra ele? — Vovó falou.
Minha mãe a ignorou.
Vovó me olhava como se não conseguisse acreditar. Eu me virei de costas sem olhar pra trás.
– Shunny... — Mamãe chamou outra vez.
Meu ombros ficaram tensos. Será que ela ia mudar de idéia por causa do que vovó dissera?
Não. Tudo o que disse foi:
– Não demore muito. Tem uma tempestade chegando.
Eu assenti, e caminhei para o jardim lateral, onde tinha mais privacidade.
Sentei-me em um banco ao canto, sob as sombras de uma Cerejeira que me deixavam quase totalmente oculto na penumbra.
Tudo ia ficar bem. Hyoga fora socorrido a tempo.
Saori, a irmã do Seiya, estava voltando sei lá de onde na madrugada daquele sábado, Shunrei dissera, quando o encontrara caído, baleado, próximo ao muro externo do Campus. Ninguém sabia ainda o que tinha acontecido. A polícia estava fazendo suas investigações, mas era difícil ter certeza de qualquer coisa enquanto o Hyoga não acordasse. Ele estava dormindo sob efeito de medicamentos agora.
Eu também colocara a mim mesmo pra dormir em um caixão de vidro junto com ele. Não sentia mais vontade de fazer as coisas que costumava fazer. Sentia-me apático, morto. Completamente morto por dentro.
A única coisa que ainda fazia era organizar a casa. Fazia isso o tempo todo. Já tinha organizado o quarto, a cozinha, a garagem, a despensa... Enquanto estava organizando as coisas, não tinha tempo pra pensar em Hyoga.
Era como estar se afogando. Depois do pânico e da dor iniciais, tudo ficava calmo lá embaixo, e só se ouviam o barulho dos seus próprios batimentos cardíacos e o som das bolhas de ar saídas da sua garganta.
Já faziam duas semanas agora.
Eu suspirei, olhando acima, para as nuvem carregadas no céu escuro.
Forcei um sorriso outra vez. Hyoga tinha dito que gostava do meu sorriso.
Eu não podia sucumbir. Tudo o que tinha que fazer era não pensar... não sentir... não chorar.
Aconteça o que acontecer, não pisque.
Entrevi uma sombra se aproximar e sentar-se ao meu lado. Um braço passou pelos meus ombros e eu reconheci o cheiro familiar de perfume importado e tabaco.
– Nii-san?
Ikki sorriu, e eu vi o branco dos seus dentes na escuridão.
– Você não deveria estar lá dentro, entretendo os sócios do papai?
– Fugi. — Ele disse simplesmente com um sorriso arteiro.
Eu sorri, sinceramente dessa vez, e nós ficamos ali em silêncio no escuro. Era bom ter meu irmão comigo.
Um relâmpago riscou o céu e um trovão ao longe fez um barulho não muito alto. As pessoas dentro da casa provavelmente não ouviram nada além das gargalhadas, do tilintar das taças de champagne, e da música que mamãe colocara pra tocar — algum tipo de sinfonia para piano.
Eu vi a silhueta de um casal recortada contra a escuridão, próximo ao gazebo nos fundos. Eles estavam se beijando.
Eu ia desviar os olhos quando um feixe de luz atravessou as nuvens escuras iluminando os rostos do casal. Eles se separaram e eu automaticamente reconheci um dos personagens daquele idílio amoroso. Eu fechei os punhos: Papai!
Eu não conhecia a moça que estava com ele, mas ela obviamente não era minha mãe.
Eu queria matar meu pai. Ele e mamãe dormiam separados há anos, mas ele não lhe dava o divórcio. Estava sempre viajando e tinha amantes pelo mundo todo, enquanto ele ficava sozinha em casa. Então, a cada três ou quatro meses ele aparecia, ficava algumas noites, restabelecia seu domínio ou o que quer que fosse que ele tivesse sobre ela, e ia embora outra vez.
Era o que ele fazia, era o que tinha feito a minha vida toda. Era o jeito dele de estar no controle. E minha mãe nunca o desobedecia porque dependíamos dele. Para tudo. Ele tinha o dinheiro e se ela o chateasse nós estaríamos na rua.
– Eu odeio ele. — Meu irmão falou, de repente.
Eu levantei o rosto e percebi que ele olhava na mesma direção em que eu estivera olhando. Da posição em que estávamos conseguíamos vê-los claramente, embora não pudéssemos ser visto por eles.
– Odeio o que ele faz com a mamãe e como trata você — Continuou -. Odeio que todas as vezes que nos encontramos esteja com uma mulher diferente. Ele nem se importa de exibi-las diante do próprio filho. Ele não tem moral alguma, e odeio o fato dele ser o responsável legal por você. Odeio ter que fingir que ele é um ótimo pai, e odeio que todos o achem charmoso e maravilhoso quando, na verdade, ele é um bastardo cruel que gosta de humilhar as pessoas e faz de tudo pra manter as aparências.
– Nii-san...! — Eu exclamei, surpreso com aquela confissão. Ikki sempre fora o filho preferido. O braço direito do nosso pai. Não imaginei que se sentisse assim.
Ele balançou a cabeça como se pra afastar o pensamento e sorriu levando uma mão à minha testa pra bagunçar meu cabelo.
– Desculpe ficar te perturbando com meus problemas, Pequeno. — Ele disse mais leve, e então acrescentou. — Mas saiba que se eu tenho obedecido cegamente a ele até agora é só porque ele ainda é seu guardião legal, e tem poder de decisão sobre você. Mas você vai fazer 18 anos em Setembro e quero que comece a pensar em vir viver comigo em New York.
O quê? Viver com o Ikki em New York?
– Mas... a mamãe... — Eu gaguejei.
– Não se preocupe, eu vou cuidar dela também.
Eu pisquei. Estava atônito. Abri a boca e a fechei de volta umas três vezes antes de falar.
– Ah... Eu.. — Eu não sabia o que dizer.
– Não. — Ele me interrompeu com um aceno de mão — Você não tem que me responder isso agora. Nós temos tempo ainda. Só pense no assunto, ok?
Eu assenti, confuso, e ele sorriu.
– Certo. Agora eu tenho presente pra você. — Ele tirou um envelope do bolso do paletó e o colocou na minha mão.
Eu olhei ainda mais confuso pro papel e o abri.
– Uma passagem de avião?
Ele assentiu.
– Pra Boston. Você vai ver seu amigo.
O Hyoga... Eu ia ver o Hyoga?
Só que... Eu balancei a cabeça confuso. Como ele sabia sobre o Hyoga? Eu não havia falado a ninguém a não ser... Ah, Misuki sua linguaruda.
– Era o que você queria, não era? — Meu irmão falou outra vez.
Era. Claro que era. Eu queria ver o Hyoga, mas... Mas tinha medo também. De alguma forma parecia que vê-lo tornaria tudo aquilo ainda mais real. E se quando eu estivesse lá ele... Eu senti as águas zangadas do Mar do Norte se agitando outra vez contras muralhas rachadas dentro de mim.
Não pisque.
– O papai... — Eu falei incerto. — Ele nunca vai me deixar...
– Então você vai ter que enfrentá-lo. — Ikki me interrompeu outra vez.
Eu cruzei os braços infantilmente.
– É fácil pra você dizer.
– Não. — Ele balançou a cabeça. — Não é fácil dizer isso. Mas é ainda mais difícil vê-lo assim.
Eu mordi o lábio e olhei pra baixo. Sabia que o Ikki ia perceber que alguma coisa estava errada. Sabia que ia enxergar a água represada, e a muralha rachada dentro de mim. É claro que ia. E a Misuki... E a mamãe... Droga, eu não queria preocupá-las.
– Desculpa, Nii-san. — Eu falei.
Ele balançou a cabeça outra vez.
– Você não tem que se desculpar. Tem que superar. Você sabe que eu lutaria todas as batalhas por você se pudesse. Mas eu tenho que te deixar crescer. — Ele sorriu sem jeito e encolheu os ombros, quando eu o encarei surpreso com aquela afirmação — Foi o que a mamãe me disse. — Ele explicou, e foi minha vez de sorrir.
– E pra crescer você tem que lutar suas próprias batalhas. — Ele continuou mais sério.
Eu assenti.
– É, eu meio que já tinha percebido isso também.
Ele sorriu.
– Então você vai ter que enfrentá-lo — Ele falou determinado -. O negócio é ser mais inteligente do que ele, Shunny. Você vai derrotá-lo no seu próprio jogo.
– No seu próprio jogo? — Eu repeti, sem entender aonde ele queria chegar com aquilo.
Ele concordou com a cabeça.
– Ouça. O que o nosso pai mais preza?
Eu pensei por um momento e então arrisquei:
– Sua imagem?
Ele sorriu outra vez.
– Exato. As aparências. Então você vai fazer assim. Você vai voltar lá pra dentro agora mesmo e, se ele estiver por lá, você vai dizer na frente dos sócios dele o quanto está feliz por ter um pai maravilhoso que te deixou voltar a Boston pra fazer companhia a um amigo doente. Depois, você vai contar para os amigos dele como está feliz por estar voltando a Boston. E então vai contar para família, para os meus amigos, os seus amigos, as amigas da mamãe, para os garçons, o cozinheiro, a moça da limpeza, os ajudantes de cozinha... enfim, você vai dizer pra todo mundo como está feliz de ter um pai tão caridoso que está lhe mandando de volta a Boston pra visitar um amigo enfermo.
Eu mordi o dedo, ponderando.
– Não vai ser fácil. — Ikki falou. — E você vai precisar ter coragem. Mas como ele é um homem que preza muito as aparências, o que ele vai fazer?
Eu não respondi e ele continuou: — Vai deixar você voltar a Boston pra se safar.
Eu olhei pra baixo pensativo. Aquilo era uma loucura enorme, mas... talvez...
– É loucura. — Eu disse, olhando pra ele outra vez — Mas... é tanta loucura que pode funcionar.
– É claro que vai funcionar. — Ele sorriu convicto, e então sua expressão suavizou. — E eu sempre vou estar aqui pra te segurar se você cair. — Ele ergueu uma mão pra fazer um carinho nos meus cabelos outra vez. — Ainda que lute suas batalhas, você não tem que lidar com tudo sozinho, Shunny. Você pode se apoiar em outras pessoas. É pra isso que servem os amigos. É pra isso serve a família. Mesmo estando longe, eu vou estar ao seu lado sempre.
Sim, Ikki sempre estaria comigo. Eu senti meus olhos esquentarem e meu coração apertar.
Não. Eu não podia chorar. Se fizesse isso sabia que não conseguiria mais parar. Eu tentei falar mas ele não deixou.
– Vai. — Ele disse. — Enquanto todos ainda estão lá dentro.
Eu mordi o lábio, hesitante, mas ele me empurrou de leve, fazendo-me ficar em pé.
– Vai, vai rápido.
– O papai vai ficar uma fera. — Eu falei.
Ele sorriu de lado, com os olhos brilhando de satisfação.
– Ele vai, não vai?
Eu balancei a cabeça. Não sabia se o meu irmão realmente estava fazendo aquilo pra me ajudar, ou pra atormentar nosso pai. Uma combinação das duas coisas, provavelmente.
– Obrigado. — Eu disse, antes de me virar e começar correr pra dentro da casa outra vez.
– Ah, e Shun... — Ele chamou antes que eu entrasse. — É bom você dizer pra aquele garoto melhorar logo, antes que eu mesmo vá até lá acabar com ele de uma vez.
– Nii-san!! — Eu o repreendi, mas estava rindo... pela primeira vez desde que soubera do acidente do Hyoga.
Pela primeira vez eu tinha esperança.
Eu acreditava.
Tudo ia ficar bem.
***
Eu cheguei a Boston na metade da semana seguinte. Fora minha primeira vez viajando sozinho e eu me senti infeliz pelo quão ansioso fiquei em chegar.
Shunrei me mandara uma mensagem de que Hyoga havia saído da UTI, e já estava recebendo visitas. Tudo ia ficar bem.
O hospital em que Hyoga estava era o Hospital Geral de Massachusetts em West End, e eu paguei um táxi pra lá assim que ajeitei minhas coisas no alojamento.
Harvard ficava diferente nas férias. Haviam mais turistas do que alunos passeando pelas áreas abertas, os dormitórios estavam assustadoramente quietos e desertos, e agora ainda havia uma equipe da polícia isolando locais e fazendo perguntas. Mais do nunca a faculdade me pareceu como o cenário de um filme.
O relógio redondo na entrada marcavam duas e quinze da tarde, quando eu cheguei na recepção do hospital.
A mulher loira de óculos atrás do balcão me deu um crachá de identificação e me mandou para a ala B no quarto andar quando eu falei o nome do Hyoga.
A porta do quarto estava aberta, Hyoga estava deitado em uma cama, e um homem ruivo falava com ele quando eu cheguei.
Eu não conseguia entender o que o homem dizia, mas pelo tom aveludado e a forma como os lábios dele se mexiam percebi que estava falando em francês.
Aquele devia ser o irmão dele, eu concluí.
Eu analisei o homem. Ele era mesmo bonito como a Shunrei dissera. A pele era pálida e o nariz afinalado como o do Hyoga. E ele também tinha um cabelo incrível. Se houvesse uma modalidade de família pra uma competição olímpica de cabelo aqueles irmãos venceriam sem esforço.
Mas as semelhanças terminavam aí, eu pensei. Até que Hyoga disse alguma coisa e o homem sorriu... Um sorriso encantador. Um sorriso igual, igualzinho, ao do Hyoga. Era tão estranho vê-lo na boca de outra pessoa.
Aquele sorriso deixava os irmãos muito parecidos.
Então, como se pressentisse minha presença, Hyoga levantou os olhos na minha direção.
– Shun? — Ele piscou confuso. Seus olhos desfocados.
Por alguma razão meu coração disparou.
– Ah... Oi. — Eu acenei sem jeito, e imediatamente pensei que eu deveria ter me lembrado de trazer um presente, ao menos saberia o que fazer com as mãos.
Então o homem de cabelos vermelhos ao lado de Hyoga olhou pra mim e eu senti vontade de me encolher. Bonito, sem dúvida, mas um pouco assustador também.
– Eu non conheço você. — O homem falou, ajeitando os travesseiro do irmão. O sotaque dele era bem mais acentuado que o do Hyoga. — Você deve ser algum colega novo do Hyoga, suponho?
– S-sim, senhor. — Eu consegui responder.
Ele assentiu.
– Entre, s'il vous plait.
Eu obedeci.
O quarto era surpreendentemente grande e bem decorado. Além da cama principal havia uma mesa redonda de refeições, uma pequena saleta com um sofá cama pra acompanhantes, uma TV gigantesca pregada na parede, e uma mini cozinha. Nem parecia um quarto de hospital.
– Sou Camus, irmão do Hyoga. — O homem se apresentou.
– Shun Amammya. — Eu fiz uma pequena reverência. — Prazer em conhecê-lo, senhor.
Seus lábios se repuxaram de leve, como se fosse sorrir, mas então ficou sério outra vez.
– O prazer foi meu, Shun. — Ele disse, e então olhou pra Hyoga recostado nos travesseiros. — Bien, — Ele se voltou pra mim outra vez. — Vou deixá-los conversar em paz, então. Qualquer coisa estarei aqui ao lado. — Ele disse abrindo outra porta que comunicava à uma sala maior, contígua ao quarto.
Eu assenti.
– E o Hyoga ainda está sob efeito de fortes analgésicos. — Ele acrescentou — Então seria recomendado que não se esforçasse demais.
Eu assenti outra vez, e, com um aceno de cabeça, ele se foi.
Eu caminhei até a cama e olhei para o Hyoga deitado ali. O rosto pálido, os cabelos desalinhados, os olhos vítreos como bolas de gude. Meu coração se apertou.
Ele piscou como que pra focar a visão quando eu me aproximei e sorriu.
E foi o que bastou pra que aquele nó dentro de mim desatasse. Ele estava bem. Estava vivo. Minha respiração falhou. Uma sensação quente subiu pela minha garganta, e as águas do Mar do Norte se agitaram mais uma vez dentro das muralhas, incontroláveis.
Eu soltei um soluço... Depois outro... Ondas batiam furiosamente contra a muralha... E então estava tudo transbordando. Meu rosto todo molhado.
– Shun... — Sua mão se ergueu vacilante em direção meu rosto, e eu a segurei, ajudando-o a levá-la até a minha bochecha.
Eu sorri entre as lágrimas. Ele estava bem... Eu apertei mais a mão que segurava, enquanto o Mar do Norte me inundava. Mas eu não estava me afogando. Não mais. Eu não iria nunca mais me afogar porque agora eu tinha a mão dele pra me segurar... E eu também tinha o Ikki, a mamãe, e meus amigos. De repente, aquelas águas já não eram mais frias e zangadas, mas cálidas e reconfortantes, lavando pra longe toda a dor.
Eu soltei a mão dele e respirei fundo, limpando minhas lágrimas. Então levei minha mão aos seus cabelos. Eu nunca tinha tocado os cabelos dele antes. Eles eram tão macios...
Eu respirei fundo outra vez. O que era essa sensação intensa e suave, morna e pungente que ele me despertava? Qual era o nome desse sentimento?
– Shun... — Ele murmurou outra vez, deixando sua mão cair do meu rosto.
Eu tentei focar minha atenção.
– Como você está? — Consegui perguntar, finalmente.
Sua cabeça se mexeu descordenadamente pra cima e pra baixo e ele riu como se estivesse bêbado.
– Eles me encheram de morfina. Eu estou tãaao dopado.
Eu ri também. Ele parecia muito dopado mesmo.
– Por que você demorou? — Ele perguntou.
Eu encolhi os ombros.
– Meu pai não queria me liberar. — Eu falei. E então me sentei ao lado dele na cama e contei tudo sobre a noite da festa de boas vindas, e sobre o plano do Ikki, e de como nós tínhamos conseguido manipular meu pai.
– Seu pai é 'zumidiota'. — Ele falou ao final do relato e eu ri.
– Eu sei.
– Ahhhh-nãooo, ele é um babaca. Estou falando sério. — Ele arregalou os olhos pra enfatizar ainda mais o que disse. — E... ahh, minha boca está tão seca. — Ele reclamou.
Eu levantei pra procurar uma garrafa de água no frigobar pra ele, mas ele segurou meu braço.
– Não vai. Fica.
– Eu vou só pegar um pouco de água pra você. — Eu falei, e ele me olhou desconfiado. — Já volto. Prometo.
Ele fungou e soltou meu braço.
Eu peguei uma garrafa plástica no refrigerador e me sentei ao lado dele outra vez. Ergui sua cabeça — era a segunda vez que tocava seus cabelos — e coloquei a garrafa na frente de seus lábios.
– Beba.
Ele balançou a cabeça.
– O médico disse que não é pra eu beber nada. Se beber vou vomitar.
– É só beber devagar. — Eu disse virando a garrafa.
A água entrou em sua boca e escorreu pelo queixo. Ele tentou segurar a garrafa mas ela acabou escorregando, quicando na cama, e rolando pra debaixo dela. A água molhou o lençol e escorreu pelo chão.
– Ahh não! — Ele falou — Foi mal, Shun. Foi mal mesmo. — Ele parecia desolado.
– Tudo bem. Não foi culpa sua. — Eu disse, afastando o lençol molhado. E então olhei para as faixas enroladas no peito dele. Eu passei o dedo de leve sobre elas.
– O que aconteceu? — Eu perguntei.
Ele suspirou — um suspiro profundo e exausto -, e abriu um espaço na cama, batendo no colchão pra que eu me deitasse ao seu lado.
Eu hesitei, mas ele parecia tão perdido e cansado que acabei obedecendo.
– Não sei. — Ele começou. — Não sei mesmo. — Ele balançou a cabeça e ela rolou para o lado, o queixo batendo violentamente contra o peito. Alarmado, eu o segurei e apoiei sua cabeça no meu ombro pra dar suporte.
Droga, eu não devia ter perguntado sobre isso a ele agora. Ele estava tão dopado.
– Tudo bem. Não precisa explicar. — Eu falei, mas ele continuou:
– Eu estava naquela boate com Seiya. Estava escuro e as pessoas eram esquisitas. Eu estava tão bêbado... Andava confuso e tinha discutido com Freya outra vez. Acabei bebendo demais. E então havia aquele homem... os olhos dourados. Ele parecia mandar por ali. Nós bebemos mais. E, de repente, estávamos em uma sala pequena e cheia de fumaça nos fundos da boate, jogando cartas.
– Cartas? — Eu olhei pra ele assustado. — Jogo clandestino você quer dizer?
– Shhh... — Ele tentou levar o indicador aos lábios pedindo silêncio, mas errou o alvo, e sua mão caiu sobre a minha barriga. — Meu irmão não pode saber. Eu estava bêbado e pareceu divertido à principio. Mas aquele homem... ele estava trapaceando. Eu disse isso a ele...
Uma enfermeira entrou no quarto e eu tentei levantar rápido da cama, mas, mais uma vez, Hyoga me segurou.
Eu senti meu rosto esquentar. Ela, no entanto, não pareceu se importar. Apenas sorriu pra nós, aplicou com uma seringa uma dose de analgésicos no soro de Hyoga e saiu do quarto.
– E foi por isso? — Eu voltei no assunto, depois que porta do quarto se fechou outra vez. — Foi ele que atirou em você?
Ele pestanejou, sonolento.
– Não ele, o outro... Quer dizer, não sei... Talvez. É tudo tão confuso. — Ele fechou os olhos — Nós acabamos expulsos da boate, Seiya foi pra algum lugar... Então eu estava pulando o muro do campus, o portão já estava fechado. Não era a primeira vez que fazia isso. Daí o barulho... como o espocar de uma rolha de champagne... A dor. E, de repente, eu estava caindo. Senti o chão duro contra minhas costas e tudo que eu via era o céu escuro e borrado. E aquele olhos dourados... — Ele abriu os olhos pesado outra vez — Não. Não sei. Não tenho certeza. Mas sabe...? — Ele segredou — Acho que ele não queria me matar de verdade.
Eu senti minha cabeça rodar. Aquilo não fazia nenhum sentido. Hyoga não estava fazendo sentido. Talvez fosse a medicação.
– Não queria te matar de verdade? — Eu repeti, franzindo o cenho. — E por quê ele iria atirar em você se não queria te matar?
– Não sei. — Ele pestanejou outra vez e então passou um dedo vacilante pela ruga na minha testa. — Você está sério... Eu não gosto quando fica assim. — Disse, depois se aconchegou melhor ao meu corpo e eu senti sua respiração morna contra o meu pescoço.
Minha pele arrepiou e eu fui levado de volta àquela noite no quarto dele... Sua perna contra minha, o cheiro do seu cabelo, suas mãos envolvendo a minha cintura... "Não! Pare com isso. Pare agora."
– Shun... — Ele chamou.
– Oi?
Ele fez uma pausa.
– Esquece.
– O quê? — Eu insisti.
– Nada. — Ele respondeu outra vez.
Mas seu tom não era de nada, e eu me virei pra ele. Seus olhos estavam fechados. Sua pele pálida e cansada.
– O quê foi? — Eu perguntei de novo, me sentando.
Ele tinha feito a mesma coisa naquela noite no quarto dele. Não ia deixá-lo escapar dessa vez.
Ele abriu os olhos, percebendo que eu tinha me mexido, e tentou se sentar também. Eu quis ajudá-lo mas ele agarrou minha mão.
– Eu gosto de você. — Ele lançou de repente.
Eu engasguei. Como?
Então respirei fundo.
"Não surta, Shun. Não é o que você está pensando. Vocês são amigos, só isso."
– Ah, eu... eu gosto de você também. — Eu forcei um sorriso, sentindo meu corpo tencionar.
Ele balançou a cabeça.
– Não. Eu não digo como um amigo.
Heim?
Eu tossi. Meus os olhos se arregalaram, meu coração falhou e eu achei que iria engolir minha própria língua.
– Mas nós... — Eu puxei minha mão da dele assustado. — Nós dois somos garotos e...
– Eu sei. — Ele suspirou. Seus olhos estavam fechados novamente.
Eu tentei forçar o ar para os meus pulmões outra vez.
"Calma, Shun, ele está drogado. Só está drogado."
– Uh. Hummm... Mas e a... — De repente, o nome dela parecia pesado demais pra se pronunciar.
Ele lutou pra abrir os olhos.
– As coisas com ela não têm estado certas. Não estão certas desde que eu te conheci.
De repente, eu estava hiperventilando.
"Ele está dopado. Está dopado e está passando por um momento difícil. Não há meios de ele saber o que está dizendo nesse momento."
Mas então o que eu ia fazer? Ah, meu Deus, o que devia fazer agora?
– Você gosta de mim? — Ele perguntou e me olhou com aqueles grandes olhos azuis que, tudo bem, estavam sonolentos e desfocados por causa da medicação, e meu coração falhou e se aqueceu.
E então eu percebi... Eu gostava. Eu gostava do Hyoga. Eu não sabia ainda direito como, mas eu gostava.
"Sim, eu gosto de você, Hyoga."
Mas eu não podia dizer isso em voz alta porque ele era meu amigo. E amigos não deixam que outros amigos façam declarações amorosas quando estão drogados em uma cama de hospital e esperam que eles ajam conforme disseram no dia seguinte.
Mas, outra vez, era o Hyoga ali... lindo, perfeito, incrível. O único capaz de despertar aquelas sensações novas e esquisitas em mim.
Eu olhei pra ele. Ele estava de olhos fechados outra vez. Eu mordi o lábio e toquei sua mão hesitante. Ele não se mexeu.
– Hyoga? — Ele continuou parado.
Então começou a ressonar.
Ah, que ótimo! Ele tinha adormecido.
***
Eu ainda estava tentando acalmar meu coração. Havia recolhido a garrafa plástica que o Hyoga derrubara, e secado o piso com um pano que encontrara na cozinha conjugada. Estava terminando de limpar aquela bagunça, quando ouvi baterem na porta.
Quase deixei cair a garrafa quando Freya entrou no quarto.
Mini-saia jeans, bota preta, blusa com decote generoso... Enfermeira safada, sem a menor dúvida.
Ela olhou feio pra mim, e antes que eu pudesse dizer alguma coisa a voz de Hyoga se fez ouvir, vacilante.
– S- Shun...?
Ele havia acordado?
Freya correu até ele.
– Hyoga! Você está bem? — Novamente sua voz rouca me surpreendeu.
Como se a mini-saia e o decote não fossem o suficiente pra me fazer sentir completamente juvenil e inadequado.
– Como está se sentindo? — Ela levou uma mão à testa dele para verificar sua temperatura, mas ele empurrou sua mão longe. Ela pareceu magoada.
– Shun... — Ele chamou outra vez e eu me aproximei, recebendo um olhar de ódio da sua namorada. Eu me afastei novamente.
– Desculpa, querido, eu não devia ter discutido com você aquela noite. Eu devia ter estado aqui antes — Ela parecia chateada consigo mesma. — Tudo por causa daquela viagem de trabalho estúpida. Eu devia estar aqui.
– Freya? — Ele piscou como se tivesse acabado de perceber sua presença ali.
Ela levou a mão ao rosto dele mais uma vez, tirando o cabelo de sua testa.
– Está tudo bem, querido. Eu estou aqui agora.
Ele desviou os olhos pra mim confuso.
– Shun, por que a Freya está aqui? Ela não devia estar aqui.
Freya me encarou com raiva e eu me encolhi envergonhado.
– São os analgésicos — Eu disse a ela. — Eles está dopado. Muito, muito dopado mesmo.
Ela me ignorou.
– Hyoga... — Ela chamou outra vez tentando atrair sua atenção, mas ele continuava olhando pra mim.
– Shun... Shun, me desculpe. — Ele disse, e só então eu me toquei que ainda estava segurando a garrafa plástica e o pano úmido nas mãos.
– Tudo bem. Não tem problema. — Eu disse me apressando em jogar a garrafa no lixo e devolver o pano à cozinha. — Eu já limpei tudo.
– Não. Sobre o resto. — Ele disse, e a cabeça de Freya se voltou mais uma vez pra mim com raiva e confusão.
Eu me senti corar e desviei o olhar. Então caminhei até a porta, abrindo-a.
– Bem... acho que eu vou indo então. — Eu falei, e acenei sem graça — A gente se vê.
– Não vai. — Hyoga pediu e eu olhei pra ele do vão da porta. Não queria ir. Queria poder ficar ali com ele. Passar a noite toda ao seu lado. Ficar com ele pra sempre.
– Você vai ficar bem. — Eu falei. — Vai ficar tudo bem.
Ele me olhou com tristeza e eu fechei a porta.
Nota:
O Pequeno Herói da Holanda, é um conto infantil conta a história de Peter, um menino de 8 anos, que ao passar por um dos canais formados pelos diques que impedem o avanço do mar na Holanda (A Holanda é um país cuja maior parte do território fica abaixo do nível do mar. Enormes muralhas chamadas diques são o que impede o Mar do Norte de invadir a terra, inundando-a completamente), percebeu um buraquinho no dique por onde corria um fio de água.
Peter compreendeu o perigo imediatamente. Se a água passasse por um buraco qualquer, de pequeno ele logo se tornaria grande, e todo o país seria inundado. Então, o menino desceu a encosta lateral do dique e enfiou o dedo no furo.
A água parou de vazar, e Peter ficou pensando com seus botões: "Ahá! As águas zangadas vão ficar presas. Posso contê-las com meu dedo. A Holanda não vai ser inundada enquanto eu estiver aqui."
Correu tudo bem no início, mas logo escureceu e esfriou. O menino começou a gritar por socorro, mas ninguém ouviu, ninguém veio ajudar.
Começou a esfriar cada vez mais, mas o menino pensava: "De alguma forma, eu vou agüentar!" E passou a noite inteira ali, contendo as águas.
Em algumas versões, no final, ele é socorrido de manhã bem cedo e aclamado como herói. Em outras, encontram o menino já morto congelado, mas ainda com o dedo no furo, contendo as águas.
Fale com o autor