Notas iniciais
Oi pessoal, aqui vão algumas notas dessa one, pra que vocês possam entender um pouco do meu método de escrita. Essa história é dividida em duas partes, como minha outra oneshot. E, como em "O Armário", decidi não dividi-la em dois capítulos, pois a vejo de uma forma íntegra e completa, que inicia e tem seu fim fechadinho. Não sei se me entenderam. Bem, boa leitura!

O FUNERAL DE ALLISON ARGENT

Agarro o fino arco de aço frio e puxo com força a gaveta. Leve, penso. A gaveta correu seus 2,5 m, levantando meu jaleco um pouco, e parou lentamente, o baque suave estalando na sala. A garota, como de praxe, estava nua, os olhos fechados, braços estendidos ao longo do corpo. Os pés faziam um V, inclinados cada um para seu lado, a etiqueta balançando no dedão direito. Na ficha, lei oo nome: ALLISON ARGENT. O que muitas pessoas viam como uma cena invernal, incolor, eu já havia aprendido a contrastar: o branco — BRANCO — da pele, o cinza na volta dos olhos, o azul dos lábios, o róseo da auréola dos mamilos e, então, o piche dos cabelos. O ferimento é uma fenda limpa, três dedos acima do umbigo, e sua cor era preta, cinza e verde. O sangue, há muito seco nas veias, tinha mantido o inchaço do corte, um relevo na planície etérea da pele da garota. O resultado era um corte de um lado a outro do corpo, perfurando intestinos, abrindo o estômago e saindo ao lado da 12ª vértebra. Faca de gume perfeitamente afiado, estava escrito na ficha. Latrocínio.

A faculdade de Medicina me ensinou cada milímetro do corpo humano. 206 ossos, 4 tecidos, 18 tipos de cirurgia. Quando me formei, 10 anos depois de ter ingressado na Universidade, estava preparado para quase tudo. Menos para Beacon Hills.

Das 23 cidades localizadas na mesma região estadual, Beacon Hills é a cidade que mais registra ferimentos causados por ataques de animais. Casos de mordidas definitivamente causadas por dentes de lobo, mas em um formato que se assemelha estranhamente com um maxilar humano. Arranhões profundos, de unhas compridas e largas demais, mas, segundo o veterinário da cidade, sem dúvida caninas. Envenenamento por répteis. Ataque de pássaros. Ataque de coiotes.

Beacon Hills inteira um hospício veterinário, e sou eu quem tem que decifrar tudo quando as coisas dão, de todas as maneiras, errado: eu sou o médico legista da cidade.

— Que tipo de ladrão rouba usando uma katana? – pergunto-me em voz alta, e realmente pensando na pergunta.

Ladrões raramente têm posse legalizada de armas, mas, cá entre nós, não é nenhuma dificuldade conseguir uma do mesmo jeito. E suas vantagens sobre uma espada (isso está muito estranho) são infinitas: rapidez, leveza, facilidade no transporte, facilidade no manuseio. A não ser que a menina Argent estivesse em um dos volumes de Kill Bill, o uso de uma katana é completamente impassível.

Eu conhecia a garota de vista. Uma ou duas vezes a vi aqui mesmo, no hospital, visitando algum amigo ou amiga internado, geralmente acompanhada do filho de Melissa McCall, Scott, e também do Stilinski, filho do xerife. Em certa época, chegou aos meus ouvidos que ela e McCall estavam namorando, mas não dei muita atenção ao fato. Assuntos adolescentes pararam de prender meu interesse no terceiro semestre de faculdade, quando as provas ocuparam 100% do meu tempo e não me deixaram espaço pra mais nada.

O que eu tinha para fazer ali era rápido. Devia apenas verificar os dados, se correspondiam com o corpo e com a identidade – e eu sabia que correspondiam, pois fui eu quem cuidou da análise – e, então, liberar o corpo para a funerária.

Conferi todos os itens – check em todos –, empurrei a gaveta, trancafiando-a novamente no seu pequeno cubículo refrigerado e saí do necrotério. Dei a prancheta para a enfermeira atualizar o sistema, dobrei o jaleco milimetricamente e guardei-o na mochila. Indo no corredor que dava para a porta de saída, cruzo com Melissa McCall, os cabelos cacheados presos num rabo de cavalo, vestida com o uniforme largo demais e, aparentemente, apressada. Acho que ela sabe de algo que eu não sei. É claro que sabe. Ela olha para mim com medo, como se temesse que eu percebesse a estranheza toda da situação, da cidade, do seu filho e dos amigos dele. Com medo de que eu note suas unhas roídas, ou seu sorriso nervoso de sobrancelhas caídas quando diz “Oi, dr. Thwaites”, ao que eu respondo “Olá, Melissa”, no exato momento em que cruzamos o mesmo eixo do corredor.

Entrei no meu carro e dirigi até meu apartamento. Eram 23h53min quando cheguei, atirando a mochila no tapete e caindo com tudo no sofá. Liguei a televisão pelo comando de voz – me sinto patético cada vez que faço isso. Sinto que estou enlouquecendo cada vez que grito com um eletrônico.

Fui caindo para um estado de consciência inferior, calmo, daqueles que tudo parece macio, confortável e quentinho, como se o mundo estivesse induzindo você ao sono. O tempo flui de maneira estranha nesses estágios de sono, portanto não sei dizer quantos segundos, minutos ou horas se passaram até que, na televisão, o nome Allison Argent foi dito, me chamando de volta à consciência.

Era apenas a notícia de sua morte ainda repercutindo nos jornais em que ainda não tinha passado. As falas e as imagens eram as mesmas, sem nenhuma novidade. A repórter no local do assassinato, tentando reconstituir os fatos, o pai dela filmado de longe, sua foto com alguns amigos, o brevíssimo parecer de Scott sobre o assunto (Tudo foi tão rápido, foi tão rápido). E então tinha um especialista em katanas sentado junto à âncora do jornal, explicando as partes da arma e o modo que era usada. Ninguém parecia se perguntar, como eu fazia, o porquê de ser uma katana.

— O garoto que morreu com os ferimentos no tórax, um dos gêmeos, as quinhentas pessoas sacrificadas... – começo a listar. Nos últimos meses analisei mais corpos do que consigo contar e, mesmo não sendo minha função e nem da minha conta me perguntar onde estão os assassinos destas pessoas, ou o porquê de terem sido assassinadas, não posso evitar. Nessas horas o xerife Stilinski parece mais incompetente do que sua fama faz parecer.

Na televisão, a âncora dispensa o convidado expert em katanas. Ela se vira na cadeira, ficando cara a cara comigo.

— Allison Argent – ela começa, uma expressão de falsa tristeza no rosto. – será enterrada no Cemitério Sta. Luzia, depois de amanhã, dia 26, às 10h00min

E então troca de assunto.

E eu tomo uma decisão.

Vou nesse funeral. Se nada na vida e nem na morte destes jovens me deu alguma pista sobre o que acontece em Beacon Hills, talvez observar seus amigos, emocionalmente frágeis e de guardas baixas, dê alguma luz ao caso.

Passei todo o dia seguinte vidrado, resumido a roer unhas, tremer de pernas, estalar de dedos e arrancar a pele do lábio inferior. Fui para o hospital para cumprir horário, mas não havia muito o que fazer. Foi um dia sem óbitos.

Fiquei quatro horas sentado em uma cadeira de dentista, dentro de uma “peça de tralhas”, como chamamos, rodeado de monitores queimados, macas faltando uma, duas ou três rodas, suportes para soro (também sem rodas), e tudo o mais que não prestava mais para ser usado. A cadeira em que estaou sentado, por exemplo, está toda fodida: não sobe nem desce, não inclina nem para cima nem para baixo, emperrada na horizontal. Só notei que não piscava os olhos pelo que deveram ser 20 minutos, quando os senti ardendo, desidratados. Arrependi-me amargamente de não ter notado antes quando desci as pálpebras e as senti como uma lixa, esfolando e trazendo lágrimas aos meus olhos. Quando saí da “peça de tralhas”, já tinha cumprido minhas horas obrigatórias de permanência, e pude voltar para casa e ficar vidrado no meu sofá, ao invés de numa cadeira de dentista velha e dura. Nada de Melissa MacCall nesse dia, nada de “Oi, dr. Thwaites”, nada de falsas simpatias.

À frente do espelho, arrumei minha gravata e me encarei. Completamente preto, salvo alguns fios brancos de cabelo crescendo desordenadamente nas têmporas, como fios desencapados correndo para todos os lados. Parece que, além de isentos de cor, eram também isentos de fibra. Assim como eu, que não tinha fibra alguma para ir neste funeral, mas estava decidido a ir mesmo assim. Talvez fosse minha única chance de escapar da loucura.

Estacionei meu carro a duas quadras do cemitério e cumpri o resto do caminho a pé. O sol estava ofuscante, brilhoso, como se tentasse dizer “Ei, eu não sou uma mancha amarela no céu, eu sou uma BOLA DE FOGO”. Mas em breve seria desfalcado, pois uma maré de densas nuvens cinzas se aproximava perigosa e ameaçadoramente, um presságio para uma tempestade recheada de eletricidade suficiente para arrepiar os cabelos.

No gramado, afastadas alguns metros da primeira linha de lápides, havia cerca de duas dúzias de pessoas. Não identifiquei nenhum dos amigos de Allison dentre elas, e supus que ainda não houvessem chegado. Eram 9h47min da manhã, e as únicas pessoas conhecidas que estavam presentes eram alguns professores do colégio de ensino médio da cidade.

Posicionei-me no limiar da floresta que cercava o lado sudeste do cemitério, cuidando para não chamar muita atenção. De lá era possível ver apenas parte do caixão, os cabelos negros e o fino nariz pálido despontando da madeira branco-prateada. As pessoas apoiavam-se umas nas outras. As mulheres tinham os braços trançados com os dos maridos, que cediam seus ombros às suas cabeças chorosas, os lenços constantemente subindo até o rosto, enxugando os olhos. Mesmo sem conseguir ouvir literalmente suas palavras por causa da distância, podia ouvi-las de funerais passados, como se as árvores que me cercavam repetissem as falas ditas anos atrás pelas minhas tias e primas, as vozes agudas e embargadas pelo ranho.

Tão jovem, tão bonita.

Ainda tinha tanta vida pela frente.

Os pais devem estar arrasados.

Sua irmã foi uma ótima pessoa, Brenton.

A última lembrança me causou um incômodo no peito, como se um lagarto estivesse enjaulado nas minhas costelas, a cauda batendo pelas paredes da minha caixa torácica enquanto me arranhava por dentro para tentar sair, movendo-se tanto que comprimiu os pulmões e jogou todo meu ar para fora deles. Uma sensação de vazio, como se este mesmo lagarto tivesse crescido dentro de mim, se alimentando dos meus músculos, carne e gordura, daquela grande bomba que, no final, é o centro de tudo. Lágrimas ameaçaram descer por minhas bochechas, mas, como as mulheres no funeral, as enxuguei antes que tivessem tempo.

Por um instante pensei estar de volta em 1981, dezesseis anos, vendo meu pai recolhido a um banco distante, isolado e de cabeça baixa. Mas aquela cabeça que eu via no presente tinha cabelos louros quase castanhos, enquanto os do meu pai eram pretos, e aquele homem era na verdade mais alto e mais forte que meu pai. Aquele era o sr. Argent, derramando lágrimas pela sua própria filha defunta, em paz, sem ninguém tentando sentar ao seu lado, consolá-lo ou prestar-lhe condolências. Não duvido que algumas das mulheres tenham tentado, assim como não duvido que ele tenha mandado todas para bem longe dali. O olhar estava fixo em algum ponto do gramado.

Depois de mais alguns minutos, mais pessoas foram chegando. Vários jovens, provavelmente colegas da garota, e mais alguns professores conhecidos também, como Bobby Finstock, coach do time de lacrosse, aproximaram-se do caixão. Então um jipe estacionou ali perto, e dele desceram Scott McCall, o menino Stilinski e Lydia Martin, a garota ruiva que esteve um tempo internada no hospital, todos vestindo preto. Lydia imediatamente cruzou o braço com Stilinski, se abraçando ao ombro dele e enterrando o rosto na curva de seu pescoço para sufocar o choro. O menino afagou os cabelos laranjas da amiga com carinho enquanto se dirigiam para mais perto do corpo. Lembrei que, quando foi minha vez de velar o corpo da minha irmã, não havia ninguém lá em quem eu pudesse me apoiar, talvez porque, naquela altura do campeonato, pouquíssimas pessoas de fato lamentavam a morte dela.

De repente, achei que o que eu estava fazendo era muito sujo e invasivo. Um homem, quase um velho – o que era pior, pois velhos sempre parecem mais nojentos que homens— escavando o luto daqueles jovens apenas para sanar uma curiosidade pessoal, provavelmente infundada. Pensei no funeral de Myrna, e em como eu repudiei todos que não eram amigos dela de verdade, e mesmo assim, apesar de toda a fama dela, foram ao funeral, obrigados por alguma regra social subentendida. De qualquer maneira, permaneci onde estava.

Um carro prateado chegou logo depois, e três pessoas desceram dele. Eram os japoneses, coreanos, ou coisa que o valha, o casal com sua filha adolescente. A garota pareceu desconfortável ao se aproximar dos demais, mãos juntas à frente do corpo, cabeça baixa e passos pequenos, e optou por se manter alguns metros distante. O grupo de amigos pareceu não prestar muita atenção nem dar muita importância à ela, e eu fiz o mesmo.

Lydia Martin foi a única pessoa que tomou coragem e se afastou dos amigos para ir em direção ao sr. Argent. Passando a mão por detrás da saia do vestido preto, sentou-se sem nenhuma hesitação. Os óculos pretos e grandes cobriam boa parte do seu rosto, e sua boca era uma linha esticada, os lábios tão apertados que se confundiam com a brancura da pele, para quem estivesse vendo tudo de longe, como eu. Argent virou-se, e, ao perceber que era Lydia quem tinha sentado ao seu lado, torceu o corpo de lado e envolveu a menina em um abraço apertado, apoiando nela toda sua tristeza, toda sua dor. Todos em volta se sobressaltaram e olharam na direção dos dois, quando os soluços lamuriosos e gemidos do homem saltaram sobre o ombro de Lydia para se espalharem por todo cemitério. Scott encolheu-se, baixando a cabeça e levantando os ombros, como se seus ouvidos houvessem amplificado aquele som à décima potência. Pelo rosto das pessoas em torno dele, deduzi que ele também gemia, afetado pela dor que vinha do outro. Stilinski colocou uma mão em seu ombro e a menina japonesa aproximou-se alguns passos, hesitante. Scott afastou a mão do amigo com um tapa e nem notou a garota, então voltou-se para a floresta, e foi quando pude ver seu rosto, também encolhido, lágrimas escorrendo aos borbotões dos olhos. As mãos abraçavam o próprio corpo quando ele correu, afastando-se enquanto seus amigos gritavam seu nome. Stilinski tentou ir atrás dele, mas Lydia, que já havia se afastado do sr. Argent, disse algo para ele que o fez ficar no lugar. Scott entrou na floresta alguns metros à minha esquerda, as folhas nas árvores raspando umas nas outras como se aplaudissem sua chegada.

Em um impulso, o segui floresta adentro. O barulho dos meus passos quebrando os galhos secos no chão era encoberto pelo barulho dos passos dele quebrando os galhos secos no chão, sobrepondo-se assim como faziam nossas respirações. Era difícil acompanhá-lo. Scott era rápido demais, e tenho certeza que poderia se sair muito melhor que aquilo se a situação fosse mais favorável.

As árvores passavam zunindo à nossa volta, se adensando mais conforme avançávamos. Eu corria com as pernas e seguia Scott com os olhos, e foi como se um daqueles pinheiros funcionasse como uma claquete de corte de cenas: Scott, de repente, corria sobre braços e pernas. Eu podia ouvir rosnados, ganidos, sons de cachorro ferido. McCall chorava em duas línguas, uma delas era humana, a outra, não. Desolado. Enraivecido. Era um som liberto no vácuo total de esperanças.

Ele tropeçou, se com braços ou pernas não sei dizer, e rolou pelo chão até perder velocidade e parar de joelhos, a mão direita apoiada num tronco de árvore. Ofegava. Parei a alguns metros à esquerda dele, atrás de uma pedra tombada coberta de musgo. De onde estava, pude ver quando suas unhas cresceram e criaram vincos na madeira, arrancando sua casca e abrindo caminho em suas veias cheias de seiva, assim como trilhas de pelos pretos e grossos haviam aberto caminho nas suas faces, cobrindo metade de suas bochechas. A cabeça caía sobre o peito, subindo e descendo conforme o ritmo ditado pelos soluços.

Ninguém seria o mesmo sem Allison Argent e, quando percebi, eu também chorava, olhos ardendo, garganta fechada e grito sufocado no peito. Ninguém de lá seria o mesmo sem Allison, assim como eu nunca fora o mesmo depois de perder Myrna.

Um arrepio eletrizou por toda minha coluna, um raio me partindo em dois e fritando meu cérebro, quando Scott McCall – antes meio menino meio lobo, mas que agora era meio homem meio lobo – arqueou as costas, jogou os braços para trás e...

... uivou.

Uivou como Myrna fez durante quatro anos, todas noites de lua cheia, trancafiada no celeiro atrás de casa.

Parte II

O FUNERAL DE MYRNA THWAITES

Janeiro de 1981

Era minha vez de alimentar Myrna.

Meu pai empurrou o balde de ferro cheio de milho moído no meu peito. O balde não tinha uma alça, então o equilibrei o melhor que pude usando minhas mãos e o osso da minha bacia para apoiá-lo, o corpo envergando para trás.

— Você pode ajeitar meu gorro, por favor? – pedi.

Salton Thwaites, um homenzarrão atarracado de 48 anos, com sobrancelhas grisalhas tão grossas quanto seu bigode, agarrou os dois lados do meu gorro e o puxou para baixo, perto de tapar meus olhos. Ele tinha um idêntico ao meu cobrindo sua careca, vermelho e marrom ziguezagueando por toda a lã. Agradeci.

— Leve o Tomas para lá hoje – ele aconselhou com seu ar preocupado, conferindo se meu casaco estava bem alinhado. – E não fique observando, como fez da última vez. Não faz bem.

— Não vou – garanti.

— Então tudo bem. Ande, vá de uma vez, sua mãe está quase terminando a sopa.

Meu pai abriu a porta dos fundos da casa, e eu finalmente saí para encarar a noite, a nevasca forte, e a minha irmã.

Havíamos aberto caminho para o chiqueiro pela manhã, escavando a neve que caíra na noite anterior, porém foi em vão: eu resvalava e quase caía a cada três passos, o que é um perigo quando se está carregando quase cinco quilos de milho. A tempestade estava mais forte que ontem, golpeando meus olhos e obscurecendo a luz do celeiro adiante, que era minha única guia até Myrna, e mal deixava ver as coisas que rodeavam nossa propriedade – que eram poucas, na verdade. A casa mais próxima ficava a seis quilômetros a leste, e, além do “quarto” de Myrna, tínhamos um segundo celeiro (neste, sim, abrigávamos os nossos cavalos), uma estufa com plantações de tomates e de batatas, um chiqueiro e o clássico espantalho. O nosso se chamava Ernesto, o cabeça de ursinho de pelúcia. Eu e papai o tínhamos pregado de um modo diferente, e, ao invés de estar de braços abertos como se fosse um Jesus Caipira Com Cabeça de Urso, ele saudava as pessoas com sua mão esquerda, abanando. No fim das contas ele não espantava corvo nenhum, e sim servia como poleiro e vaso sanitário deles.

Chegando na área coberta onde ficava o chiqueiro, tentei localizar Tomas, um dos nossos cinco porcos. Estavam todos amontoados no canto mais distante, afastados da nevasca e agasalhados no calor do corpo um do outro. Comecei a chamá-lo para que se afastasse dos demais.

—Tomas, Tomas. Venha aqui, garotão, vamos. O Brenton aqui tem milho procê, vem cá ver. Isso, mais perto e eu já te dou um punhado bem cheio.

Abri a cerca e arremessei um pouco de milho mais adiante, fora do chiqueiro, e ele prontamente o seguiu, chafurdando. Assim que tive espaço, tranquei o chiqueiro novamente. Fui até ele, que ainda cavoucava os grãos de milho semienterrados na neve, e passei o laço de corda que carregava junto ao ombro por seu pescoço, dando um nó bem firme. Caminhei de costas na neve, em direção ao celeiro de Myrna, atirando outros punhados de milho para que Tomas me seguisse, sempre chamando seu nome (Tomas, Tomas, vem cá, garotão).

Eram poucos metros de distância de um ponto a outro, e logo estávamos em frente às portas de madeira. Em dias quentes, e em muitos dias frios também, era difícil trazer os animais assim tão perto. Em geral eles corriam para longe, assustados e com os olhos quase saltando, por isso a corda na volta do pescoço. Nestes últimos dois dias de lua cheia, no entanto, eles só percebiam o perigo quando a porta era aberta e o fedor de pelo molhado, suor e de baba rescendia lá de dentro. Acredito que no restante do caminho, a neve, de alguma forma, encobrisse esses odores.

Joguei um punhado mais farto e amarrei a minha ponta da corda em um toco de madeira à minha direita. Fui até as portas e tirei a chave do bolso de trás da calça, enfiando-a no enorme cadeado que unia as duas pontas da corrente que mantinham tudo bem preso. Não consegui girá-la no cadeado, o mecanismo congelado lá dentro negando-se a desemperrar. Bocejei algumas vezes no metal e, na quarta ou quinta tentativa, houve um estalo alto e as correntes se amontoaram aos meus pés. O vento jogou as portas para dentro com uma força brutal, e Tomas começou a guinchar e se enforcar no seu laço. Visivelmente, não havia sinal de Myrna.

Aproximei-me do toco, levando as mãos à corda.

— Calma Tomas, calminha – eu disse. – Não se desespere, a hora chega para todos nós. Para alguns mais cedo do que para outros, no caso.

No exato momento em que desatei o nó, percebi que aquilo era um erro. Tomas arremeteu com uma força surpreendente em direção ao chiqueiro, guinchando freneticamente. Tranquei meus pés na neve e travei meus braços com toda força ao lado corpo, a corda enrolada nas mãos, e mesmo assim avancei alguns metros na neve.

— Não não não não não não – implorei. – Por favor, não faça isso, temos que ser rápidos.

Puxei a corda, como um pescador que puxa uma vara com um grande achado fisgado no anzol, mas isso só aumentou o desespero do animal. Sua bunda suja de lama e neve balançava, suas patas escorregavam e voltavam a se firmar e seu grito era quase humano. Olhei por sobre o ombro para dentro do celeiro, em pânico, com uma sensação de urgência se alastrando em mim. A cabeça de Myrna se insinuava por detrás de um monte de feno. Os cabelos sujos e embolados tapavam a maior parte do seu rosto, mas eu conseguia ver seu nariz proeminente, farejando. Puxei Tomas de novo, urgente. Meus olhos estavam cheios d’água.

Em um esforço final, o animal deu uma última investida. Meus pés escorregaram no gelo e avançaram para frente. Caí de costas e a neve entrou pelas minhas calças e por debaixo da minha camiseta, queimando a pele das costas e da bunda. Minha cabeça foi amortecida por um aglomerado um pouco mais denso de neve, mas meu gorro voou para longe, de algum modo. A corda se desenrolou das minhas mãos, e Tomas fugiu, livre e guinchando mais alto do que nunca, e foi este desespero barulhento que causou sua morte.

Myrna passou correndo em braços e pernas sobre meu corpo caído na entrada do celeiro. Seu corpo nu se esticou por cima de mim, sua sombra tocou a pele do meu rosto, e ela avançou na escuridão atrás de Tomas. Saltou sobre o animal, os dois rolaram na neve, e ela, rosnando, um som babado e mucoso que vinha direto da garganta, cravou seus dentes afiados na garganta dele. O sangue, preto na noite, se derramou por todo seu rosto, pescoço e seios. Tomas debateu-se, lapsos remanescentes de vida, enquanto Myrna se acocorava sobre seu cadáver e começa a se alimentar.

Por alguns segundos, observei, incapaz de fazer qualquer outra coisa. Então me levantei, e, desesperado, corri na direção do celeiro, daquele em que realmente abrigávamos os cavalos. Meu corpo estava um contraste de temperaturas e, embora eu ainda sentisse muito frio, o suor começava a escorrer pelas costas.

Não diferente do outro, aquele celeiro também era trancado com correntes e cadeados, cuja chave eu não pegara. Fui direto para a lateral direita, onde ficavam as duas únicas janelas e, em um único salto impulsionado pela corrida, consegui transpor a mais próxima. Minha queda foi desajeitada e sem prática, mas não tinha muito tempo para maiores observações. Os cavalos começaram a empinar e a relinchar, escoiceando nas baixias. A mesma neve que disfarçava o cheiro de Myrna para os animais que lhe serviriam de alimento, aumentava vinte vezes o odor de cavalo molhado e de esterco fresco, deixando a atmosfera lá dentro sufocante. Corri como uma flecha para a parede que dava fundo à estrutura, a lama dura grudada em blocos nas minhas botas, e caí de joelhos aos pés de uma pilha de feno. Com um movimento de braço, joguei toda a pilhagem pelos ares e puxei com força a alça do alçapão que se escondia por baixo. Era um buraco raso que se revelava por baixo, feito apenas para esconder uma Caçadeira de calibre 20 e uma caixa de munições.

Despejei o conteúdo da caixa no chão e a arremessei longe. As balas espalharam-se, tilintando e refletindo a luz alaranjada da lâmpada. Eu consigo, eu consigo¸ pensei, é só lembrar de como o pai me ensinou. Apoiei-me em apenas um joelho e bati a arma no outro, como se fosse um graveto que eu quisesse quebrar. O resultado foi parecido: a arma partiu-se perto do punho, onde ficava o compartimento único para munição. Peguei uma das balas, as mãos tremendo de uma combinação de frio e pânico, e tentei encaixá-la. Os dedos desajeitados e inexperientes vibravam terrivelmente, me deixando cada vez mais nervoso. Girei a bala entre eles para poder introduzir primeiro a ponta, mas ao invés disso ela escorregou, quicou na arma, e voltou para o chão. Tentei mais uma vez, mas o resultado foi o mesmo.

De frustração, grunhi e soquei a terra. Minhas juntas mal sentiram o impacto, então soquei de novo e de novo, e mais uma vez ainda, até que a dor subisse até meu cotovelo, obrigando tudo a ficar parado. Só então peguei outra bala e, prontamente, carreguei a arma. Fechei o compartimento, coloquei o resto das balas no bolso de trás das calças, e pulei novamente a janela.

Myrna continuava lá, mas não podia se dizer o mesmo do porco. As patas estavam viradas para cima, duras, e do que antes fora a barriga, esparramavam-se o estômago e os intestinos, com neve acumulada entre eles. A papada debaixo do queixo do bicho também se fora. O calor que emanava do interior da carcaça podia ser visto como uma nuvem branca que subia, densa, e que sacudia-se conforme Myrna mordia e puxava a carne de uma das coxas traseiras do que, apenas alguns minutos atrás, fora Tomas.

Parei a alguns metros dela, o suficiente para apenas conseguir distinguir suas formas. O cabelo grudava-se ao pescoço e aos seios com o sangue seco e congelado. Apoiei a arma no ombro, mirei e gritei o mais alto que pude:

— MYRNA! MYRNA, OLHE PARA MIM!

Ela parou de mastigar e me dirigiu um olhar desinteressado. Voltou a comer.

Mirei para cima e atirei. A arma deu coice, mas eu estava preparado. Myrna ganiu e se encolheu por trás de Tomas. Comecei a me dirigir para a esquerda em um amplo arco, afastado, sempre apontando para ela. Parei, o celeiro à minha direita e Myrna na minha frente. Eu conseguia ver todo seu corpo de onde estava, acocorada ao lado do porco, as pernas abertas e apoiada nas mãos. Os antebraços ocultavam o sexo. Do umbigo para cima, cada centímetro de pele estava coberto de sangue.

— Vamos, entre lá! – falei, meneando para o celeiro com a cabeça. – Entre, Myrna!

Ela rosnou e se aprumou, levantando a cabeça e olhando para mim. Pude ver o brilho dourado por entre os cabelos, tão diferente do verdadeiro castanho dos olhos dela. Aquele animal de modo algum era minha irmã.

A lembrança do dia da mordida passou como um relâmpago por mim. Eu tinha treze e ela quatorze. Era verão de 1977, e Myrna estava saindo com um garoto do colégio há alguns meses, mas ela insistia em não me contar quem era, e isso costumava me irritar muito. Naquela época dividíamos o mesmo quarto e, em uma das noites mais quentes daquele verão, acordei confuso, e encontrei Myrna de pé no umbral da janela, pronta para saltar. Ela percebeu meu movimento na cama e se virou.

— Não conte nada a ninguém – E saltou.

Eu sabia que ela estava indo ver o tal menino do colégio, assim como sabia que ele, provavelmente, não era do colégio. Talvez fosse um marginal, ou um cara bem mais velho, ou qualquer coisa que servisse de motivo para Myrna esconder isso de mim.

E foi nessa mesma noite, algumas horas mais tarde, que Myrna pulou a janela de volta para o quarto, suja e suada, a gola da camiseta manchada de vermelho perto do ombro direito. Perguntei o que acontecera, e ela me mostrou a mordida, duas meias-luas de furos fundos e feios, circulados de vermelho.

— Foi esse menino que fez isso com você? – perguntei, assustado.

Ela fez que sim.

Não contamos nada para ninguém, mas não foi preciso: a ferida sumira horas depois, ao amanhecer. Mas então vieram as transformações. Papai quase morreu na primeira vez. Chamamos o pastor local, e ele disse que devíamos sacrificá-la, mas todos negamos. Então ele nos deu duas coisas. Primeiro, foi a dica de que devíamos dar a ela, em duas noites de cada ciclo, um animal da nossa fazenda. Isso saciaria a fome dela e impediria que, eventualmente, quisesse alimentar-se de nós, ou que fugisse para a floresta para caçar.

Segundo, ele nos trouxe uma muda e várias sementes de uma flor que ele chamou de wolfsbane. Disse que em casos extremos devíamos usar aquilo nela, e até ensinou papai a fazer balas para munição recheadas daquilo. Aprendemos praticamente sozinhos a conviver com a doença de Myrna, e o tal garoto que a mordeu nunca mais apareceu.

Baixei a arma, incapaz. Então ela foi arrancada das minhas mãos com uma firmeza quase rude, e meu pai se posicionou ao meu lado. Suas sobrancelhas franziram por causa da neve, e também para melhorar a mira. Eu chorava, e meu pai via isso.

— Myrna! – gritou ele. – Myrna, volte para o celeiro agora!

Foi aí que a situação fugiu do controle. Myrna correu na nossa direção e meu pai começou a gritar cada vez mais alto, mas não teve coragem de atirar. Ela saltou sobre nós dois e continuou correndo.

Correndo em direção à nossa casa. À nossa mãe.

— Não, Myrna! – gritei.

Meu pai foi atrás dela, mas nem de longe era tão rápido. A porta dos fundos se abriu e o contorno escuro da minha mãe contra a luz apareceu e levou uma das mãos ao peito. Eu e meu pai gritávamos para que fechasse a porta, mas mamãe ficou paralisada vendo o arremedo da própria filha avançando feroz até ela. Aquele momento do espaço-tempo parecia estar esticado de tensão e pânico – TÃO ESTICADO –, um fio a ponto de arrebentar, um zumbido dissonante. Tudo era neve, luz e correria. Tudo era respiração no ar, sangue e gritos. Um fio esticado. Tenso. Dois lados puxando, puxando, puxando, rasgando, dois lados, dois fins.

O fio arrebentou e tudo foi decidido.

Houve um tiro e um grito, nesta ordem.

Myrna caiu e seu corpo se arrastou até que a cabeça dela repousasse sobre os pés da minha mãe. A neve se abriu e ficou rubra onde seu corpo passou. A arma estava no chão, meu pai paralisado ao lado dela e eu paralisado atrás dele. Minha mãe caiu de joelhos e seu choro foi ouvido. Corri até lá, mas meu pai continuou parado. Achei que seus miolos tivessem fritado.

Myrna não estava mais transformada. Os pelos haviam se recolhido e os olhos haviam voltado a serem castanhos. Eu chorava, chorava muito, e não conseguia respirar direito. Minha garganta estava trancada por um nó, e isso pareceu literal no momento. O sangue jorrava da nuca, vermelho com manchas roxas. No meu peito, alimentando-se do desespero, um lagarto crescia.

Notas finais
Muuuuito obrigado por ler até o final! Sei que é chato pedir, mas, se pudesse, pediria que você deixasse um comentário, falando o que achou, aspectos que poderiam melhorar, pontos positivos e negativos, essas coisas. Isso realmente importa muito, pois muitas vezes não conseguimos ver nossos próprios erros e acertos, e sua opinião me ajudaria a progredir bem mais rápido. Obrigado novamente, de coração. Xoxo
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!