O Funcionário do Fast-Food
19 XIX — Alegorias

DEDOS ALABASTRINOS fecharam-se ao redor da maçaneta da porta que separava o banheiro do quarto ao qual descansava Uzumaki Naruto. Após lavar o rosto, tentando exterminar o cansaço de uma noite mal dormida, o dono dos fios cor-de-carvão inflava com o desejo do amigo receber alta o mais rápido possível, quando identificou o som de alguém entrando no quarto. A princípio sequer se importou, imaginando ser alguma enfermeira disposta a checar o estado do funcionário do fast-food. No entanto, a voz grave e rouca que soou do outro lado fez com que Sasuke empacasse na frente da pia amarelada: a curiosidade ardendo em seu peito ao ouvir seu nome ser pronunciado.
— Não se preocupe, o Shikamaru não está fumando, só foi comprar comida. — A voz masculina sussurrava para um provável celular, sendo possível captar uma pontada de raiva em seu tom — É, eles me liberaram para ver o Naruto agora, já que o Uchiha sumiu do mapa. — Cuspiu o nome do estudante, que arqueou uma sobrancelha confuso. Ele só havia saído do quarto do amigo duas vezes, sendo a última para ligar para Itachi (aproveitando que o amigo tinha caído no sono), explicando a situação. Não demorou a voltar. Entretanto, quando o fez, aproveitou que o Uzumaki continuava a cochilar e resolveu lavar o rosto, respirando um pouquinho. Foi nesse momento que o homem entrou no quarto — Sim, ele está dormindo. — A voz continuou, dessa vez mais gentil e Sasuke reconheceu como pertencente ao ruivo de olhos pálidos de antes. Não soube o porquê, mas cerrou os dedos com mais força na madeira — Se concentre no Iruka agora, Temari. Faça ele se alimentar, tomar todos os remédios e um banho. O Sai tem o contato do Kakashi, se precisar. — Ditou e sua voz carregava uma calma incomum — É... também estou aliviado... Vou desligar, não quero acordar ele. Diga um olá ao Kyuu por mim.
O silêncio acolheu o quarto e foi inevitável ao estudante não se sentir tentado a sair porta à fora: abrindo-a com um estrondo e anunciando sua presença com desdém para aquele que tinha o fogo nas mechas finas e curtas. Ele gostaria muito de expulsar o estranho rapaz do quarto de Uzumaki Naruto, mas encontrou-se incapaz de realizar seus objetivos quando a voz fraca do próprio rapaz soou, do lado de fora:
— Ei, cabeça-de-fósforo.
O timbre soturno presente na voz de Naruto preocupou o Uchiha, que girou a peça de madeira, liberando uma pequena fresta na porta, para poder observá-los com atenção. Ele não desejava se intrometer na conversa dos dois, muito menos espionar o amante das flores, porém a desconfiança com Gaara o fez compreender que devia ficar atento aos movimentos do desconhecido. Se ele fizesse o Uzumaki sofrer, Sasuke estava pronto para abandonar seu esconderijo, correndo para socorrer o amigo. Não se importava de — no processo — desfigurar aquele desgraçado de expressão tão mórbida, é claro.
— Você me deu um baita susto. — O Sabaku declarou e o estudante notou que ele estava sentado na cadeira ao lado da cama. Naruto continuava deitado, com todos aqueles fios que mediam seus sinais vitais e o lençol o cobrindo até o pescoço, do jeito que o Uchiha havia deixado, antes de sair, para que não passasse frio. Em resposta, o Uzumaki sorriu sem-graça e murmurou um pedido de desculpas, evitando encarar o ruivo.
— E o tio Iruka? — Desconversou.
— A Temari o levou pra casa, com o Sai. Ele precisava comer algo, você sabe.
Naruto assentiu, parecendo não estar surpreso.
A quietude que se seguiu não trouxe a tranquilidade que Sasuke antes havia experimentado e ele sentiu-se nervoso quando captou que algo acontecia ali. Alguma coisa que não conseguia compreender, mas que parecia ser tortuosa para o dono dos olhos cor-de-céu. Os lábios entreabertos do rapaz loiro indicavam seu desejo de fala, mas as palavras certas não eram encontradas e ele permanecia mudo. Enquanto isso, Gaara destinava suas órbitas frias para a due de girassóis tão confortavelmente dispostas na mesinha, cerrando as sobrancelhas rubras para indicar seu desgosto.
— Elas são bonitas, não é? — O Uzumaki comentou, percebendo a atenção que as flores recebiam e não notando a repulsa do amigo. Sasuke quis esganá-lo por ser tão inocente e idiota. — O idiota do teme que me trouxe. E pensar que alguém tão chato podia ser tão sensível... — Gargalhou, estendendo o braço para tocar o vaso em que estavam plantadas. O sol bateu em seus fios dourados, iluminando o local. O anil de seus olhos brilhou belamente no quarto sem vida.
— São de boa qualidade. — Gaara confirmou amargamente.
— Ah! — Ele percebeu alguma coisa e seu sorriso se suavizou — Ei, fogueira ambulante, não precisa fazer essa cara. Sabe que não ligo para o preço dos presentes. O que importa é o valor sentimental. — Declarou, recolhendo o braço e deixando que o índigo fitasse o teto alabastrino — Você sabe que sempre adorei seus girassóis roubados do jardinzinho do velho Ebizou.
Sasuke estacou com a revelação. A mente trabalhando a mil, tentando entender aquela conversa absurda. Ele quase podia sentir as engrenagens movendo-se em seu cérebro, funcionando a todo vapor para que ele compreendesse o significado daquele diálogo. Entretanto, não foram as palavras que apontaram o que tentava a todo custo entender. Não. Os gestos do Sabaku delataram tudo: o jeito como ele se curvou na cama, deixando que seus dedos encontrassem os do Uzumaki, fitando-o com tanto fascínio que a ironia e o desdém abandonaram as duas pedras frias que eram seus olhos, enquanto um rubro doce preenchia suas bochechas.
Ao Uchiha, pareceu que seu estômago havia sido esbofeteado, considerando a dificuldade em respirar que o assolou. De repente, uma cruel constatação pipocou por seus pensamentos tão confusos: não conhecia de fato Uzumaki Naruto. Ele — que sequer devia saber da existência da doença da família do rapaz — não possuía nenhuma informação acerca de seu passado. Não sabia quem eram as pessoas que o cercavam, as que lhe abandonaram ou mesmo as que ficaram. Era incapaz de ler a atmosfera daqueles que estavam ao seu entorno. Não conseguia decifrar as trocas de olhares íntimas e singelas entre ele e o Sabaku, para entender o que pensavam... Na verdade, os pequenos detalhes que havia descoberto sobre o loiro não passavam de fragmentos avulsos, ou pequenos borrões de tinta numa tela branca. Naruto era uma incógnita. Uma figura abstrata, recheada de técnicas complexas que Sasuke — alguém lógico que nunca dedicara muito tempo às artes — precisava sentar e estudar minuciosamente.
— Como está seu braço? — A voz grave de Gaara murmurou e um tom preocupado tomava conta dela. Havia algo ali, indicando que o temor excessivo tinha alguma base sólida. Não era apenas um detalhe, como se ele lhe perguntasse sobre o tempo despreocupadamente, apenas para puxar assunto. Existia uma história por trás da indagação e Sasuke jurava que o anseio se tornava palpável, quando um sorriso brotou nos lábios de Naruto.
— Não faça essa cara, Gaara. — Pediu gentilmente, deixando que as mãos se soltassem a bagunçando os fios escarlates — A anemia não tem nada a ver com isso.
— Você perdeu muito sangue naquela vez. O desgraçado te acertou com força.
— Eu perdi, é? — Naruto grunhiu com ironia remexendo-se na cama. — Poxa, se me contassem que um pulso estraçalhado por uma faca tem grandes chances de matar uma pessoa, eu teria acertado todos nossos rivais nessa região. Iria ter me poupado um monte de merda.
Uma coisa estranha aconteceu: o Sabaku riu.
Uma risada leve, contida, mas dócil.
O alívio transbordou na face de Naruto e ele sorriu.
— Estou te dizendo, Fósforo: a anemia não tem nada a ver com meu pulso. Não iria morrer por uma coisa pequena assim, porra. — Afirmou, mostrando a língua para o ruivo — Seria uma vergonha deixar isso acontecer depois que você foi baleado daquele jeito.
A boca do estudante de Direito estava seca, ele sabia. A garganta começava a fornecer a irritante sensação de que estava arranhada e foi aí que tomou a consciência do quão inquieto aquela história o deixava. Ele remexia os dedos finos e longos na maçaneta, brincando com ela, tentando desviar a tensão acumulada para qualquer coisa. As linhas lógicas e lineares de seus pensamentos eram destruídas, deixando apenas o caos e incontáveis peças de quebra-cabeça para que resolvesse. Sequer conseguia respirar normalmente com as revelações entre aqueles dois.
Era indiscutível que a vida de Uzumaki não era fácil. A realidade estava exposta em cada parte da minúscula casa em que habitava, em cada gesto dele, em sua gigantesca preocupação em adquirir dinheiro suficiente para cuidar do tio doente. Entretanto, ele não fazia jus à cruel imagem que a televisão pintava das pessoas mais pobres. Elas eram devastadas pela violência, tornando-se vis, abomináveis e de psicológico fraco. A sua pureza, no entanto, era encantadora, a bondade? Infinita. O amante das flores, em seus gestos e conhecimentos extraordinários, não possuía um aspecto de quem estava acostumado com as barbaridades que faziam parte da periferia da cidade. Por isso, a naturalidade em que discutia com Gaara sobre esfaqueamentos e tiros, chocou o Uchiha, abalando todas as certezas que ele tinha sobre o mundo.
Não era fácil conceber a ideia de que Naruto estava acostumado com a violência e, por isso, o medo trouxe angústias ao rapaz de fios escuros. Se o Uzumaki continuava a agir normalmente — mesmo com aquelas questões absurdas em sua vida —, o que mais poderia esconder por trás das infinitas camadas de seus sorrisos maravilhosamente moldados?
A resposta veio mais cedo que ele podia esperar.
— Ei. — Gaara chamou o outro, indicando a flor do sol com a cabeça, parecendo recordar alguma coisa — Haviam vários girassóis na estufa naqueles dias, hm?
A voz agora trazia uma melancolia profunda e Naruto não precisou de muito esforço para entender sobre o que ele estava falando. O rapaz de cabelos dourados suspirou pesadamente e recolheu as mãos, fechando as pálpebras e voltando a se mexer desconfortável na cama. Sasuke precisou se esforçar para não ir lá arrumar seus travesseiros, imaginando que deviam estar incomodando sua coluna.
— Sei que a sua mãe preferia os lírios tão comuns das estufas normais, mas a mamãe gostava dos girassóis de lá. — Comentou e foi possível captar um sorriso triste brotando em seus lábios. O Uchiha odiava como tanto ele, como Iruka, sempre pareciam mergulhar num passado doloroso, revivendo-o em suas mentes como se estivessem de fato nele.
— Lembra-se quando os médicos brigavam com as duas quando fugiam?
— Só para serem encontradas com os braços afundados na terra e os cabelos bagunçados, cheios de plantas e galhos! — Exclamou e uma risada frágil acompanhou a melancólica empolgação — Não posso culpá-las, pois faria o mesmo. É um saco ficar internado.
— Você distraía os médicos para elas fugirem. — Gaara apontou, risonho.
— E quem me ajudava mesmo, Fósforo? Ahh! Lembra-se como sabíamos a planta da maioria dos hospitais de cabeça, naquele tempo? Era tão fácil confundir as enfermeiras e os médicos... Só precisávamos de poucas informações para causar um inferno na rotina deles!
— Eles sempre saíam correndo atrás da gente pelos corredores, gritando e xingando.
Os dois sorriram sem-graça, envoltos da vergonha e Sasuke remoeu sua curiosidade.
Nesse ponto, o Uzumaki voltou a abrir as pálpebras. Seus olhos carregavam um mar profundo de tristezas e não foi difícil para o estudante de direito identificar que aquele assunto corroía todo seu ânimo, deixando apenas uma avassaladora dor, que sobrepunha a tudo que compunha o rapaz tão extrovertido.
— Desculpe por te lembrar disso. — O Sabaku murmurou, levando a mão até a gigantesca tatuagem sua testa. A ponta dos dedos a tocaram com delicadeza e Sasuke percebeu que seus olhos tremeluziram à luz do sol — É que vai completar 7 anos na próxima semana.
— Sei disso. — Naruto sussurrou e afastou os lençóis que o Uchiha havia arrumado com tanta dedicação. Suas mãos afastaram a roupa do hospital e os próprios dedos tocaram a figura em sua barriga. De longe, Sasuke não conseguiu decifrar o que era, mas parecia uma tatuagem complexa, a qual cobria toda a pele naquela região. Aquilo o surpreendeu. Não imaginava que o funcionário do Fast-Food pudesse esconder alegorias em seu corpo. — As pessoas dizem que uma hora o buraco some, mas o meu continua tão grande quanto no dia que ela morreu... — Relevou e os dedos cerraram-se em cima do próprio estômago — Vocês e a Temari vão ao cemitério? Posso acompanhar, se quiserem. — Ao moreno, pareceu que ele tentou mudar o fluxo de seus pensamentos, concentrando-se em Gaara, no lugar das próprias tribulações.
— Não precisa, Naruto.
— E perder a oportunidade de irritar o espírito da tia, levando girassóis, quando vocês vão levar lírios e jasmins? — Um riso fraco abandonou sua garganta e o anil de suas órbitas fitaram Gaara com carinho.
O Uchiha reconheceu a bondade e empatia tão características de Naruto e desejou apagar toda a tristeza dele, mesmo sabendo ser impossível. O loiro não merecia tanto sofrimento, quando apenas irradiava luz e alegrias. No entanto, seu passado continuava se desdobrando em sua frente, revelando acontecimentos duros e sofríveis.
— Então vou comprar azaleias e bicos-de-papagaio. — O Sabaku respondeu e o estudante lembrou-se de suas conversas passadas onde o amigo sempre dizia que aquelas eram as flores favoritas de seus pais. De repente, começou a temer cada vez mais o rumo daquela conversa — Vamos visitá-la.
— A mamãe vai gostar... Sabe como ela apreciava as azaleias.
— Sim. — O rapaz de cabelos rubros pareceu hesitar em suas palavras, deixando que as mãos repousassem nas próprias pernas, apertando-as levemente — Isso me lembra que o funeral dela foi a coisa mais bela e delicada desse mundo. Estou certa de que a tia Kushina ficou orgulhosa do seu esforço em encontrar azaleias tão encantadoras.
— Era a única coisa que podia fazer. O tio Iruka ainda estava chocado com a morte meu pai... — Comentou e a voz revelava toda a dor que havia presenciado naquele tempo — O coitado sequer conseguiu resolver a parte burocrática. Se não fosse sua mãe naquele tempo, não sei o que teria acontecido conosco.
Os dois se calaram por um momento e se encararam.
Sasuke viu-se sedento pela vontade de poder ler seus pensamentos. Gostaria de infiltrar-se na mente do Uzumaki para poder compreender a extensão de seu sofrimento de uma vez. Ele sentia que sufocava com aqueles fragmentos que o deixavam apenas teorizar o passado daqueles dois, sabendo que jamais conseguiria entender de verdade sua dor. As informações o rodeavam, mas não deixavam ser de fato pegas. Elas diziam que o óbito dos pais de Naruto havia acontecido num momento muito próximo, mas não revelavam o quão tinham lhe afetado. Ele não tinha os detalhes de como o amigo suportara aquela fase, o que tinha feito para seguir em frente, muito menos como lidara com a morte. Portanto, sobrava ao Uchiha imaginar o quão triste devia ter sido para Naruto acompanhar seus pais enfermos.
— A única coisa boa nisso tudo foi que nos conhecemos. — Gaara apontou sem-graça.
— Hoje você diz isso, mas na época lembro que me odiou!
— Não me culpe, Naru. Estávamos largados naquela sala de recreação de merda, esperando notícias das nossas mães e você insistia em pintar... O que era mesmo?
— Azaleias!
— Jura? Eram azaleias? Para mim não passavam de rabiscos incoerentes. — Comentou surpreso e o Uzumaki fez um bico infantil, indignado com a interpretação dele.
— Pelo menos tentei me ocupar, já que você só ficava quebrando os gizes de cera. — Disparou tentando se defender e Gaara pareceu revirar os olhos — Estou mentindo?
— É um saco ficar preso num hospital. Só queria ir embora e mesmo assim eles me largaram em uma sala colorida, para pirralhos, esperando que ficasse feliz e esquecesse todas as preocupações com minha mãe. — Murmurou e foi possível identificar um pouco de raiva em sua voz — Nesse momento surge um cara da minha idade que não tem nenhum dom artístico e é um fanático por flores, fala e fala sem parar, tagarelando pra porra... O que esperava que fizesse? Caísse de amores por você?
Foi necessário aplicar muito esforço para que o estudante de direito não atravessasse o quarto e esfolasse aquele desgraçado. Quem ele pensava que era para falar daquele jeito com seu amigo? Será que não tinha empatia suficiente para notar as coisas que o loiro passava ou o quão abalado estava com aquela conversa que mergulhava no passado? Sasuke esperava que Naruto o mandasse ir embora, desprezando sua existência.
Mas ele riu. Alto. Deliberadamente.
— Que idiota pé-no-saco! — O funcionário do fast-food concordou risonho.
— Imagina como foi descobrir que ele também ficaria por ali antes de visitar sua mãe? Quase tive a certeza de que estava sendo punido por algo da minha vida passada.
— Você diz isso, mas lembro muito bem de como se divertiu plantando pela primeira vez com nossas mães. Seu cabelo e roupas ficaram todos sujos de terra e você ficou vermelho igual um tomate, quando terminou de plantar jasmins e minha mãe te elogiou!
— Claro! — Gaara defendeu-se rapidamente e o rubro espalhou-se por sua face pálida — Ela jogou-se em mim, me abraçando e gritando que eu tinha um dom extraordinário. Não era suficiente dizer apenas que tinha feito um bom trabalho?
— Ela tinha muita energia. — Naruto concordou e o brilho triste inundou a íris azulada — As pessoas sempre se surpreendiam quando descobriam que ela estava num estágio avançado do câncer, lembra?
— Câncer de ovário, né? — Gaara comentou melancólico, desviando seus olhos para o céu lá fora, deixando que suas mechas escarlates cobrissem as órbitas claras — Minha mãe sempre comentou que não tinha como uma pessoa tão energética estar tão doente. Ela sempre afirmava que deviam ter trocado os exames da tia Kushina com alguém e ela estava perdendo tempo ali.
— Ela só conseguia ser assim por causa da tia Karura. Depois que o papai se foi, não sobrou muita gente para se preocupar com ela... E a tia Karura sempre estava lá, obrigando-a a tomar os remédios, exigindo que caminhassem pelo hospital e tricotassem. Acredita que minha mãe nunca tinha pegado numa agulha? E, no entanto, sua mãe teve toda a paciência em ensinar ela a fazer bonequinhos de tricô e cachecóis.
Eles sorriram tristemente com as memórias.
— Às vezes me pergunto como o universo pôde permitir uma coisa tão cruel a pessoas tão dóceis. — O Sabaku murmurou, tocando mais uma vez o Kanji de Amor em sua testa — Se eu recebesse um tumor, não ficaria surpreso. Não sou a melhor pessoa do mundo e você sabe quanta merda já fiz. Iria merecer isso. — Apressou-se em dizer quando o Uzumaki remexeu-se para protestar — Já elas... nunca fizeram nada de mal para ninguém. Eram mães extraordinárias e mulheres incríveis e, mesmo assim, ganharam uma doença agressiva e letal. E mesmo assim ela ganhou a merda de um câncer cerebral...
— Ah, cabeça-de-fósforo... — Agora era Naruto que buscava suas mãos. Eles entrelaçaram elas e se encararam por alguns segundos, presos no doloroso passado — Não diga isso. Ela te amava e ficaria revoltada se descobrisse que pensa assim...
— Ela já deve ter ficado revoltada quando fizemos a tatuagem, Naru.
Um fraco e frágil sorriso ergueu levemente os cantos dos lábios do Uzumaki.
— Se elas pudessem nos encontrar hoje, com certeza a primeira coisa que fariam seria espancar nossas cabeças quando descobrissem das tatuagens — Brincou, mas não havia alegria em sua fala — O Shikamaru sempre diz que foi um ato honroso gravar a importância dela em nossas peles, mas...
— Isso não cobre o buraco, não é? — O Sabaku completou amargamente — Imaginei que quando tatuasse o tanto que amava mamãe, a dor diminuíra, deixando apenas um sentimento nostálgico e bom.
— Sim, também pensei o mesmo, Gaa. Achei que tatuando bem perto do ventre, ficaria ligado para sempre com ela e sua morte não seria tão dolorosa... — Admitiu com um muxoxo nauseante — Acho que nos enganamos. A dor continua constante. Ela não desaparece, sabe?
A sua sinceridade era tamanha que o Uchiha se viu assustado.
Ele sabia que não podia culpar o Uzumaki por se abrir tão facilmente com aquele desgraçado ruivo. Ao que parecia, eles haviam criado uma sólida intimidade decorrente a doença de suas mães. Seria errado a Sasuke cobrar o mesmo tratamento que Gaara recebia, quando não passava de um desconhecido na vida do amante das flores. Seria ilógico sentir-se enfurecido pelo carinho que compartilhavam entre si e como liam um ao outro naturalmente.
Mesmo assim, Sasuke sentia a raiva dentro dele agarrando-se aos seus pensamentos ordenados, desmontando-os e abrigando-se casualmente na sua mente. Ela cravava sua moradia e afirmava que não iria embora tão cedo. Queria respostas. Exigia que Naruto despisse seu passado numa mesa, apontando para cada grande evento, indicando ao Uchiha como havia sobrevivido com tantos acontecimentos marcantes. Ela vociferava ao estudante que ele sempre estava ali pelo amigo, pronto para ajudá-lo e, portanto, que se explodissem os traumas e as dificuldades em se abrir. Sasuke merecia sinceridade como o Sabaku, que a recebia numa bandeja sem nenhuma dificuldade.
Ele cedia aos pensamentos conturbados, deixando que a fúria o consumisse e o fizesse ir ao rapaz loiro, quando uma lembrança de Itachi surgiu.
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Na época, o irmão havia acabado de terminar com a primeira namorada e o estudante de direito — que não passava de uma criança — o questionara o motivo.
— É difícil lidar com as pessoas, Sasu. — O mais velho respondeu, sentado na cama dele e com um aspecto triste — Nós precisamos compreender que elas não são como nós. O que é fácil para mim, pode ser difícil para você.
— Não entendi, irmão.
— Deixe-me colocar de um jeito mais fácil — Murmurou pacientemente, bagunçando os fios curtos do pequeno — Por exemplo, para você é fácil fritar um ovo. Você pega o óleo, coloca na frigideira, quebra o ovo, joga sal e algum tempero e vai mexendo, controlando o fogo. É fácil. Só que para mim não é a mesma coisa. Eu posso saber a teoria, mas falho na prática, ao passo de que você obtém êxito.
— É verdade. Na última vez você queimou a frigideira favorita da mamãe. — Sasuke apontou, achando graça em como Itachi tinha ficado bravo e a mãe precisara consolá-lo, dizendo que um dia ele dominaria a cozinha.
O irmão pigarreou, ignorando-o.
— As relações com as pessoas são quase assim. A Akane era incrível, mas enquanto era fácil para ela sair e fazer amizade com desconhecidos, eu encontrava o inferno tentando segui-la. Era uma boa pessoa, mas exigia que acompanhasse seu ritmo, sendo igual a ela... Ela não reconhecia que tinha minhas próprias limitações. Não respeitava meu rimo.
— Isso te cansou?
— Acho que sim, já que muitas vezes reclamava que sempre me encontrava tagarelando com você, mas não fazia o mesmo com ela. Entretanto, não via que estamos juntos há mais de 11 anos e sempre fomos muito próximos.
— Que menina louca! — O Uchiha mais novo exclamou, enfurecido pela cobrança excessiva da ex-namorada do irmão — Você só estava com ela há cinco meses!
— E mesmo assim, a Akane me cobrou coisas que nem você seria capaz... O ponto, irmãozinho, é que é difícil lidar com as pessoas. Elas não têm manuais e precisamos respeitar seus ritmos, para que não degastemos nossas relações. Entende?
— Acho que sim, mas você não perdeu muita coisa, Nii-San. A Akane sempre se perdia no mapa do Dragon Quest e uma vez até apontou para o Vegeta e disse que era o Goku! Também sempre te tratava mal quando você queimava algo, ao invés de te motivar! A mamãe ficava irada e o papai odiou quando ela fez pouco caso da Katana que ele ganhou do tio Madara.
Itachi riu baixinho e passou a noite assistindo Dragon Ball com o irmão, que ficou feliz quando ele reconheceu Vegeta, Goku e até mesmo o mestre Kame.
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Naqueles dias, Sasuke tinha apoiado o irmão na decisão, mas percebeu que não fazia ideia da dimensão de seu problema. Para uma criança de 11 anos, a ex-namorada do irmão era chata e não respeitava o Uchiha mais velho. No entanto — notava agora — deveria ter sido um inferno para Itachi conviver com alguém que impunha coisas absurdas para o estilo de vida dele. O rapaz era alguém introvertido, metódico e, mesmo com sua infinita paciência, não gostava de ser incomodado quando estava fazendo suas coisas. Akane não o respeitava, exigindo que abandonasse seus estudos para sair com ela pela cidade, decidindo por ele quais os programas que deveriam fazer, quais filmes assistiriam... Ela gostava de uma vida conturbada, enquanto Itachi apreciava um ritmo calmo.
Foi por isso que abandonou a raiva. Não por completo, pois ela ainda se esgueirava pelos cantos de sua mente, tentando a todo custo penetrar em seus pensamentos. Mas não queria ser para Naruto como Akane havia sido para Itachi. Sasuke lembrava-se de como ele ficou triste na época do término, pois gostava mesmo da menina. Entretanto, o que podia fazer quando ela desgastava a relação e não dava indícios de mudança e compreensão para o coitado de seu irmão?
Gaara e Naruto eram como Itachi e Sasuke, o Uchiha mais novo percebeu. Eles haviam compartilhados momentos difíceis, se apoiado e tinham uma forte intimidade por isso. Sasuke, contudo, precisava se colocar em seu lugar. Ele havia chegado na vida do Uzumaki há pouco tempo e, por isso, precisava respeitar o ritmo dele. O estudante percebeu devia sentir-se grato com as informações que o Uzumaki fornecia a ele, se levasse em conta tudo o que tinha passado. Sasuke sabia, com toda a certeza do mundo, que se perdesse seus pais, precisasse cuidar de um tio doente e abandonasse todos os sonhos por isso... Com certeza ele não daria espaço para estranhos se meterem em sua vida. Odiaria as pessoas e as afastaria, deixando que apenas os amigos mais próximos se mantassem por perto.
Naruto, ao contrário do que se esperava, fazia o contrário. Ele deixava que Sasuke se aproximasse aos poucos. De sua própria maneira, contava ao jovem tudo que lhe tinha acontecido e tentava, a todo custo, não criar uma imagem negativa para o Uchiha.
Refletindo sobre isso, o estudante percebeu uma coisa.
Naruto tinha medo que a sua vida tão conturbada o assustasse.
Ele tinha medo que Sasuke não pudesse lidar com aquelas informações, o renegasse e se afastasse, indo a procura de alguém mais estável. Em todos os encontros dos dois, o funcionário do fast-food tentava esconder os piores lados de sua vida, para que o rapaz de cabelos escuros desfrutasse apenas da paz. Aquele dobe não queria preocupá-lo e escondia-se nas camadas de sorrisos mentirosos e pacíficos, ocultando suas tristezas e desgraças.
Abandonando a maçaneta, as mãos de Sasuke entraram pela camiseta em que um esqueleto gris de um sapo havia sido bordado. Seus dedos fecharam-se num colar aquecido pelo calor de sua pele e, ao fechar seus olhos, ele tateou a extensão do objeto, reconhecendo a figura de uma ferradura. Um sorriso dócil tomou seus lábios, ao lembrar-se da vez que Naruto o buscara, no meio da noite, ignorando o horário e o forte cheiro de bebida. Ninguém havia se preocupado tanto com o Uchiha como ele, que fez questão de acalmá-lo, conversando bobeiras para que o rapaz esquecesse seus problemas.
Como Sasuke poderia abandonar uma pessoa tão extraordinária assim?
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