O Funcionário do Fast-Food
14 XIV — Huntington

XIV
HUNTINGTON
NAQUELA SALA DESPROVIDA DE CORES, Uchiha Sasuke sentava-se em uma poltrona desconfortável. Ele tinha em seus olhos um aspecto doentio, quase anêmico e um sentimento angustiante pairava na sombra de seus olhos, deixando sua figura tão miserável. A tristeza sondava seus pensamentos, sussurrando malícias, salientando o quão inútil e insuficiente era, não deixando o universitário fugir da culpa, proclamando que as promessas realizadas naquela madrugada seriam em vão: ele não conseguiria proteger o amante de flores.
Sua incapacidade fazia com que as lágrimas revogassem seu direito de liberdade e as órbitas negras nadavam na esclerótica vermelha quando ele as segurava, tentando manter uma postura determinada, garantindo ao homem de cabelos castanhos que estava tudo bem. No entanto, como poderia estar tudo bem quando o relógio de ponteiros martelava em um tique-taque frenético? Ou quando jalecos brancos passavam de um lado para o outro, apressados em comunicar suas desgraças ao mundo? Como ele podia permanecer estável, quando tinha que assistir Iruka tentando conter movimentos involuntários de seu corpo? Era doloroso, pois o homem se abraçava, deixando que as unhas se cravassem nos braços, tentando não chamar a atenção, em busca de conseguir ao menos um pouco do controle de sua coordenação motora e estava nítido o quanto lamentava aquilo, o quanto queria não estar naquele tipo de enfermidade. Por isso, curvava-se sobre si, reprimindo tão bem as lágrimas como o Uchiha.
Um silêncio aflito sondava os dois e Sasuke, num primeiro momento, não se importou com isso, levando em consideração a situação e o quão ruim era com as palavras. Contudo, ao passar tanto tempo ao lado do tio do Uzumaki, começou a perceber que a mudez de Iruka escondia alguma coisa e foi inevitável não deixar o medo infiltrar-se em seu sangue. A constatação veio quando, em algum momento, o homem levantou os olhos e o rapaz pôde perceber que as írises castanhas estavam perdidas, como se revivessem algum momento tortuoso, de um sentimento tão ruim que parecia dilacerar toda a alma do homem. Em sua expressão também era possível identificar algum tipo de aceitação, como se — lá no fundo — ele esperasse por aquilo.
Sasuke, então, viu-se com muito medo.
Ele sabia que a vida de Uzumaki Naruto não era das melhores. Reconhecia isso nas mentiras que o amigo cantava, em sua insegurança que o fazia fugir sempre que tentava se aproximar, na determinação em parecer que estava bem ou mesmo no quanto empenhava-se para que ninguém pudesse ultrapassar a infeliz barreira que tinha construído. A maestria e naturalidade com que fazia aquele tipo de coisa denunciava que já fazia um tempo que o amante das flores tinha se acostumado com aquilo e, em contrapartida, o Uchiha via-se envolvido por uma afeição atípica, descobrindo uma intensa vontade de ajudar o dono dos cabelos dourados a recuperar tudo o que a vida tinha lhe tomado.
Compreendia que não seria fácil e passara incontáveis noites acompanhado pela insônia, refletindo como poderia ajudar o rapaz. Até mesmo quando Naruto tinha sumido, ele se pegava abrindo a conversa dos dois várias vezes ao dia e noite, deixando que seus olhos devorassem as mensagens deles, perguntando-se se tinha feito algo errado, buscando qualquer indício do que poderia ter magoado aquele que tinha se tornado um grande amigo. Não foram poucas as vezes que pegou-se digitando mensagens para o funcionário do fast-food e, envergonhado, tinha que admitir que passara tanto tempo observando a foto do contato de Naruto com Iruka, estudando seus detalhes, buscando qualquer tipo de informação sobre aquele pateta que chegara um ponto que simplesmente tinha decorado a imagem e, se fechasse os olhos e tivesse o dom da arte, tinha a certeza que a conseguiria reproduzir com exatidão.
No fim, ao recuperar seu laço com o amigo, Sasuke tinha a certeza de que iria conseguir ajudá-lo. Se Naruto precisasse de dinheiro, estava disposto a lhe entregar sua mesada. Se Iruka precisasse de cuidados médicos, Sasuke daria um jeito de incluir ele em seu plano de saúde. Se o porquinho-da-índia precisasse de ração, o próprio Uchiha iria comprar.
Sasuke só queria o Uzumaki feliz e bem.
O quão imbecil tinha sido ao pensar que o dinheiro resolveria todos os problemas do amigo. O quão mesquinho e superficial era por acreditar em tais pensamentos ridículos! Não importava se ele tinha sentido Naruto apoiado sem seu peito, o abraçado e garantido que o protegeria do mundo, muito menos se tinha ficado observando o Uzumaki dormir por um tempo inestimável durante aquela madrugada, murmurando promessas que só ele saberia. Afinal, eram só palavras e pensamentos insignificantes se comparadas ao que a vida do rapaz escondia. Os problemas de Naruto eram profundos e sua dor estava enraizada em sua alma, de modo que Sasuke percebeu que era um completo idiota por acreditar que o dinheiro — e somente ele — iria resolver tudo.
Descobriu isso quando, ao alvorecer, um sonolento Uzumaki o acordou com espasmos que faziam seu corpo todo tremer, ao passo que expressões de dor pincelavam seu rosto. Sasuke estranhou, mas supôs que ele estava tendo algum tipo de pesadelo e ocupou-se então em abraçá-lo, sussurrando palavras confortantes na intenção de transmitir alguma paz e, para seu alívio, pareceu ter algum efeito, pois Naruto acalmou-se aos poucos. No entanto — para sua surpresa — em determinado momento o loiro simplesmente despertou e escorregou para fora da cama, rumando em direção ao banheiro. O universitário tentou segurá-lo, provavelmente pressentindo que algo estava por vir, mas Naruto ignorou sua súplica para que voltasse para a cama e pudessem dormir mais um pouco — ou melhor: para que ficasse ao seu lado — e rastejou para o outro cômodo.
Naquele momento, Sasuke sentou-se repentinamente. As costas eretas encostaram-se no apoio da cama e seus olhos rolaram pelo quarto, observando as paredes maltratadas pelo tempo, o piso velho e, por fim, o vaso que o amigo orgulhosamente exibira, esquecido no chão. Ali, um pesar cobriu seu coração e ele pulou para fora da cama, correndo atrás do Uzumaki e encontrando a porta do banheiro trancada. Bateu nela, sentindo um suor frio escorrer por suas costas quando ouviu o som do amigo vomitando e sua voz ressoou pelo corredor, questionando se ele estava bem. A resposta não veio e o Uchiha bateu mais uma vez, dessa vez com mais força, pedindo para que Naruto o deixasse entrar. Nada. Sasuke respirou fundo, tentando se acalmar e bateu novamente, chamando pelo nome dele. Mais uma vez, o silêncio foi tudo o que recebeu e suas dúvidas viraram certezas quando Iruka surgiu, ostentando em seus olhos uma perturbação desesperadora: algo não estava certo.
Sasuke deixou que seu nervosismo transparecesse, quando o mirou.
— Ele não responde. — Desabafou e viu a respiração de Iruka tornar-se irregular.
— Naruto! — Disparou, surpreendendo o Uchiha quando se jogou contra a madeira — Ei, Naruto! Abra essa porta agora mesmo! Ei! Responda!
Assustado e temendo que ele se machucasse, Sasuke segurou o homem e percebeu que as lágrimas começavam a escorrer por seu rosto, enquanto ele lamentava sua falta de força e amaldiçoava alguma coisa. A cena partiu seu coração e ele afastou Iruka dali, prometendo que iria ajudar o amigo.
Na primeira vez que jogou o corpo contra a madeira, chamou por seu nome, só para encontrar o silêncio como companhia mais uma vez. Na segunda investida, rugiu em preocupação, percebendo que a sensação de paz que tinha se estabelecido naquela madrugada havia sido somente uma mentira que escapara por entre seus dedos. O medo então o devorou e ele aplicou mais força, jogando-se na porta com toda sua energia, ignorando o quanto aquele gesto podia machucar seu corpo. Não suportava aquela sensação de impotência, de não poder fazer algo por Naruto e, por isso, continuava a se jogar continuamente naquela madeira, socando e chutando furiosamente o objeto.
Quando a porta cedeu, a cor fugiu de seu rosto e, por um segundo, viu-se incapaz de fazer qualquer movimento. A cena que encontrou o deixou atordoado e roubou o ar de seus pulmões, quando seu cérebro conseguiu processá-la.
Ali, no chão do banheiro, Naruto estava caído, desmaiado. Inerte, ele tinha em sua face uma tonalidade pálida, como se estivesse muito doente. Naquele ambiente sem cor, o sangue rubro destacou-se, escorrendo do nariz, sujando a gola de sua roupa. Ele também estava no vaso e no chão, em pingos que se juntavam e pareciam rir cruelmente da expressão espantada de Sasuke.
Sem pensar, o Uchiha se aproximou em um só passo do menino, ajoelhando-se em sua frente e deixando, cuidadosamente, que sua cabeça repousasse em suas pernas. Com delicadeza, ele o abraçou, chamando baixinho seu nome, checando seus sinais vitais, sussurrando que tudo ficaria bem. Iruka o seguiu, caindo de joelhos ao lado deles e, chocado demais para falar qualquer coisa, o tio deixou que suas mãos afagassem tristemente os cabelos do sobrinho, acariciando seus ombros com carinho.
O desfecho tinha sido o hospital: Naruto havia sido internado com urgência e desde então não se tinha mais notícias dele, de modo que Sasuke só podia ver os minutos escorrerem lentamente, permitindo que a angústia lhe fizesse companhia, perguntando-se como tudo podia ter desmoronado tão facilmente. Afinal, eles tinham dormido juntos, o Uchiha tinha jurado que o protegeria do mundo, tinha planejado inúmeras formas de ajudar o funcionário do fast-food e... lá estava ele, sentado naquela sala branca, perguntando-se assombrosamente se os sorrisos contagiantes de Naruto voltariam a iluminar seus dias. Odiando sua impotência e buscando não surtar com o batalhão de jalecos que continuava a correr de um lado para o outro, atarefados demais para destinar qualquer atenção ao miserável Uchiha que só queria seu amigo de volta.
— Deveria ir descansar — A voz fraca, grave e dolorosa de Iruka sussurrou, quando ele ergueu os olhos para o Uchiha — Vá para casa um pouco.
Sasuke negou com a cabeça.
— Vou esperar.
O tio do Uzumaki assentiu e voltou a olhar para as próprias mãos.
— O Naruto é a pessoa mais teimosa que já conheci. — Confidenciou com um sorriso triste — Aposto que se tivesse conhecido ele quando vocês eram crianças, iria odiá-lo, afinal quando uma ideia vinha à sua mente, ele enlouquecia todos a sua volta e não desistia dela nunca... É, naquela época ele sabia ser bem importuno quando queria.
— Não mudou tanto assim. — Sasuke comentou e os sorriram, sem nenhum tipo de humor, a alegria recusando-se a estabelecer-se naquele ambiente frio e de presságios tão ruins.
— Não, não mesmo... Só que naquela época era muito pior. Sabia que quase deixou a mãe careca, de tanta preocupação, quando tentou aprender a andar de bicicleta? O Naruto caía toda hora, ralava os joelhos, os cotovelos, se sujava todo... Era um caos! Só que ele continuava a subir nela, recusando-se a usar as rodinhas e, a cada machucado, ele sorria mais e insistia sem parar. Acho que a cabeça dele nunca aprendeu o significado de desistir.
— É bem a cara dele.
— Por isso sei que ele vai ficar bem. — Revelou, tentando reprimir as lágrimas — A vida dele foi bem difícil, sabe? Ele já aguentou muita coisa, suportou uma barra tão pesada que é um milagre que ainda consiga sorrir. Então, eu sei, ele vai ficar bem. Ele sempre fica.
Era óbvio que o homem se agarrava naquelas palavras, acreditando em cada sílaba do que pronunciava e Sasuke não o julgou, descobrindo-se envolvido pelo mesmo sentimento.
— Ele tem que ficar. Ou irei socá-lo até que melhore. — Grunhiu, cerrando os punhos.
Um sorriso surgiu no rosto de Iruka e o Uchiha enxergou a gratidão em seus olhos.
— Agora vejo o porquê dele gosta tanto de você.
— Como assim?
— Você sabe: meu sobrinho não tem muito tempo para as pessoas e ele sempre se esquiva delas, quando tentam de aproximar... Obviamente, a maioria desiste dele fácil. No entanto, você permanece aqui, o acompanhando em um momento tão crucial. — Explicou, deixando que os olhos repousassem seriamente no estudante — Sei que ele fez algo e por isso você o procurou ontem, Sasuke. Não imagina o quanto sou grato por não desistir dele.
— Ele é meu amigo. — Sasuke confessou, sentindo que as bochechas começavam a ser pinceladas por um tímido tom de rubro.
— Eu sei, mas... — O homem coçou a cabeça, incerto em suas palavras — O Naruto é difícil. Eu tenho o acompanhado desde sua adolescência e sei muito bem o quão difícil ele é. Só que, por favor, entenda que a vida o levou a ser desse jeito, Sasuke. A maioria das pessoas, nesse ponto, nem iriam sorrir mais, ao contrário do meu sobrinho, que todo dia levanta da cama e enfrenta a vida, encarando-a nos olhos com determinação. Ele é um menino doce, a pessoa mais gentil que pude conhecer — com certeza herdou isso dos pais —, mas foi forçado a vivenciar experiências terríveis, cruéis, do tipo que muda a pessoa.
— E por que ele não me conta essas coisas?
Iruka respirou fundo, fitando-o com compaixão.
— Sei que deve pensar que ele não confia em você e é normal se sentir frustrado. Se serve de consolo, ele faz o mesmo comigo e olha que sou tio e moro com ele. Só que é difícil para ele, sabe? As pessoas abandonaram ele em momentos que não deviam fazer isso, também foi forçado a conviver com a morte muito cedo, conheceu muita gente ruim depois disso, trilhou um caminho solitário e autodestrutivo... Muitos sonhos dele foram destruídos com tudo isso e, acredito eu, ficou difícil para o Naruto confiar em alguém. Então ele aprendeu a não depender de ninguém e, infelizmente, acabou por não conseguir confiar nos outros com facilidade.
Com aquela explicação, a face de Iruka transfigurou-se em uma dor comovente e Sasuke teve a certeza que ele revivia, em sua mente, a vida do sobrinho. A compaixão o assolou e ele viu-se nutrindo um sentimento de admiração por aquele homem tão enfermo, que amava tanto o sobrinho. Era uma relação bonita e recíproca, visto a foto de perfil do WhatsApp do loiro e o quanto ele parecia se preocupar com o tio.
— Iruka!
Abandonando os pensamentos, Sasuke virou-se na direção da voz feminina, encontrando uma mulher de cabelos claros, que se aproximava em passos largos e desesperados. Atrás dela, dois rapazes de cabelos negros ajudavam um ruivo a caminhar e todos tinham em suas expressões um sentimento de medo. Sasuke franziu o cenho, curioso sobre quem eram.
— Por favor, me diga que o Huntington não o pegou também. — Disparou, antes de envolvê-lo em um abraço apertado e se debulhando em lágrimas pesadas.
— Se você sempre entrar em desespero quando o Naruto for internado, não vai durar muito, Temari. — O rapaz de cabelos negros e curtos comentou sério — É só mais uma internação, como todas as outras, cacete. — Disse, mas a voz falha evidenciou seu medo.
— Vai se foder, Sai. — Replicou ela.
— Ei, já deu! Estão deixando o Iruka nervoso. — Aquele de cabelos amarrados manifestou-se e o tio do Uzumaki tornou-se alvo dos olhares deles quando um silêncio preocupante se expandiu na sala branca.
— Desculpe. — Temari e Sai sussurram, envergonhados.
O homem garantiu que estava tudo bem, mas o Uchiha identificou que os movimentos de seu corpo estavam mais descontrolados e sua respiração tornava-se cada vez mais irregular com a confusão que o grupo trazia. Na verdade, eles pareciam ser ótimas pessoas, mas o pânico que os circundava começava a se tornar sufocante e, mesmo que agissem como se já estivessem acostumados com aquele lugar — o que preocupava o estudante —, era óbvio que temiam alguma coisa — que Sasuke associou como sendo “Huntington, de modo que precisou conter-se para não questionar o que a palavra queria dizer e qual conexão tinha com seu amigo.
Refletindo sobre isso, sua atenção foi roubada quando sentiu um incômodo, como se estivesse sendo observado. Seus pensamentos mostraram-se corretos, quando notou que era analisado pelo rapaz de cabelos rubros, cujo qual tinha a ajuda dos amigos para sentar-se numa poltrona ao lado de Iruka. Os lábios e pálpebras franziram-se, quando uma expressão de dor cruzou seu rosto, mas ele disfarçou, voltando a encarar Sasuke e o Uchiha identificou — acima de olheiras roxas e pele pálida — uma desprezível frieza, enquanto os olhos claros e opacos carregavam uma áurea de quem estava pronto para briga, queimando em irritação.
— Olhe só para você, Gaara! — Iruka exclamou mudando de assunto, o envolvendo em um abraço caloroso — O Naruto vai ficar tão feliz de te ver aqui, ele sentiu tanto sua falta quando você estava na Austrália.
— Eu também senti. — Grunhiu, ainda fitando Sasuke.
— Ah! — Iruka pareceu perceber a confusão que se instalava ali — Esse é o Sasuke. Ele estava comigo e me ajudou a trazer o Naruto para cá.
Um tipo de silêncio constrangedor se estabeleceu entre eles, quando o grupo começou a encarar o estudante de direito. Embaraçado, Sasuke percebeu que, para eles, não passava de um estranho, desconexo da dor que sofriam e as írises tão claras de Gaara confirmaram suas suspeitas, quando lhe fuzilaram com ira. Estava claro que eles eram um núcleo pequeno, desacostumados a ter intrusos intrometendo-se em seus sofrimentos.
Felizmente, aquele com um rabo de cavalo percebeu o clima e os apresentou.
— Eu sou Nara Shikamaru e a chorona problemática é a Temari, minha namorada. O inconveniente que fala sem pensar é o Sai, já o que sequer consegue andar direito e tem a cara de doente é o Gaara, meu cunhado.
— Sasuke, Uchiha Sasuke. — Identificou-se e foi inevitável não se sentir um completo idiota por isso. Ao menos Sai lhe destinou um pequeno sorriso, mesmo que irônico, enquanto aquele que se chamava Gaara cerrava os dentes. Temari acenou com a cabeça, ignorando a informação e voltando-se para o tio do Uzumaki, ocupada demais em saber sobre a situação do amigo.
— Então? O que os médicos disseram?
— Ainda estão fazendo uma bateria de exames, não sabemos.
— Caralho! — Bufou, largando o corpo em uma poltrona qualquer — Estamos na merda do século XX e eles demoram tanto para identificar a merda de uma doença? Ele poderia estar morrendo e não saberíamos!
— Para de supor o pior, porra! — Sai rugiu, sentando ao lado dela — Ele está bem, inferno. É só mais um resfriado, como das outras vezes, já te falei.
— Quero acreditar nisso, caralho! Só que... não sei como o Naruto vai reagir se for aquela merda mesmo. Não. Ele não merece uma desgraça dessas. Porra!
— Ele vai aguentar. — A voz de Gaara manifestou-se, tão áspera e cortante que fez Sasuke sobressair-se, tamanho seu susto — Ele vai sobreviver.
— Eu sei, mas... — Seus olhos tornaram-se vacilantes quando fitou o irmão — E se o choque for tão grande, tão forte e devastador e... e se ele tiver uma recaída?
— Acredito que o Naruto está preparado para o que vier — Shikamaru comentou com firmeza — Iruka, estou certo que uma recaída está longe dos planos dele. — Explicou com ternura e foi aí que eles perceberam que o tio do Uzumaki tremia e o pavor devorava seus olhos castanhos, deixando-o pálido — Naruto não é mais o pirralho inconsequente de quinze anos, todos nós sabemos disso. Ele nos provou isso. É um absurdo vocês temerem uma merda dessas, quando ele se esforça tanto para nos garantir que está melhor. — Vociferou com raiva para Temari e Sai, que abaixaram a cabeça, envergonhados — É sempre essa conversa, em todas as internações dele, caralho! Ele não merece essa falta de fé que vocês têm nele, caralho! — Rugiu, retirando um maço de cigarros do bolso da jaqueta marrom — Me acompanha num cigarro, Uchiha?
Não era uma pergunta e sim uma ordem.
Sasuke viu-se obrigado a assentir, levantando-se e o acompanhando para fora. Seus passos foram seguidos pelos olhos atentos do ruivo, a tristeza de Iruka, a vergonha de Temari e as palavras gentis de Sai, tentando acalmar o tio do Uzumaki. Em sua confusão, o Uchiha deixou que Shikamaru o guiasse pelos corredores alabastrinos daquele hospital, as botas cinzentas seguindo o homem de cabelos amarrados que, ao caminhar sem nenhuma hesitação por aquele prédio, denunciava um triste conhecimento em sua estrutura.
O terraço do hospital revelou-se quando o pálido céu jorrou sua luz no Uchiha e ele percebeu que tremia assustado pelo rumo que a conversava tinha tomado. Iluminado por um cadavérico sol, ele sentou-se no chão, ao lado do Nara, que não fez nenhuma cerimônia e começou a fumar, inalando o máximo possível daquele cigarro. O frio era severo naquela parte da manhã e as rajadas de vento eram ríspidas.
— A Temari odeia quando fumo. — Um sorriso infeliz o acompanhou quando ele ofereceu um cigarro para Sasuke, que aceitou sem pestanejar.
Deixando que as chamas de um isqueiro preto queimassem a ponta daquela porção de toxinas, o estudante de direito ergueu uma sobrancelha quando Shikamaru disparou:
— Eu sei quem você é, Uchiha Sasuke.
Os ombros do Nara se levantaram e ele o direcionou um olhar sem diversão.
— Sou um dos amigos mais antigos do Naruto, então ele me falou de você. Não comentou muito, mas sei o suficiente para saber que você está confuso.
— O que é Huntington? — Sasuke disparou, exausto de joguinhos. Sentia-se como uma criança, assombrada por algum tipo de temor tão excruciante, tão horrível, como se viesse de seus ossos, percorrendo todo seu corpo, ultrapassando sua corrente sanguínea, o perseguindo e sussurrando o pior. Seu corpo inteiro tremia, com medo das suposições que sua mente criava para responder a confusão que mergulhara ao tentar desvendar o que todas aquelas palavras proferidas pelos amigos de Naruto significavam.
O olhar de Shikamaru revelou uma sensibilidade que o Uchiha não esperava encontrar naquela face pincelada por pesadas olheiras. Sem respondê-lo, o homem levou os olhos aos céus, perdendo-se nas nuvens encardidas e pesadas e ele suspirou, inspirando o ar com calma e o libertando com tristeza.
— O Sai diria que você é abençoado por sua ignorância.
— O que é Huntington? — Voltou a questionar, com mais firmeza — Estou pouco me fodendo para ignorância, bênçãos, ou qualquer outra porcaria. Só me diz: o que o Naruto tem?
— Nós não sabemos se ele tem ainda... É complicado, Uchiha Sasuke.
— Todos vocês continuam a repetir isso, mas ninguém me responde, porra!
Abandonando seu cigarro, Shikamaru olhou para o Uchiha.
— Existe um motivo para o Naruto não ter te contato sobre isso. Ele está apavorado, com medo do pior, mas entendo que você queira respostas, inclusive sempre defendi que ele abrisse o jogo... — Pausando, deu tempo para que o estudante se preparasse e, quando Sasuke acenou com a cabeça, indicando que podia continuar, ele descarregou — Huntington é uma doença rara e hereditária que causa a morte das células do corpo. É degenerativa e o avô dele morreu por causa dela, o pai dele morreu por causa dela, o Iruka vai morrer por causa dela e, se o Naruto a herdar — e tem 50% de chances de isso acontecer — ele vai morrer também. É por isso que estamos tão desesperados, pois um médico pode aparecer a qualquer momento e anunciar essa desgraça.
Uma buzina ao longe acompanhou o silêncio chocado de Sasuke. Os gritos de um motorista furioso com algum pedestre preencheram o ar, enquanto o rapaz de olhos negros fitava Shikamaru, sem conseguir articular uma simples silaba. Era muita coisa para processar.
— Hoje em dia o Naruto sabe fingir que não se importa com isso, mas estou com ele desde sempre, Sasuke. Em suas crises, na nossa adolescência, ele se proclamava como uma bomba-relógio, afirmando que só estava esperando alguém tirar o pino, para que pudesse explodir. Ele tem medo, medo real mesmo, não essa coisa vaga de filme de terror, que passa em alguns minutos, mas o medo verdadeiro de descobrir que tem Huntington. E sabe porquê?
Uchiha somente conseguiu negar com a cabeça.
— Veja o Iruka. — Murmurou, tragando o máximo possível das toxinas que seus dedos carregavam — Aquilo é o Huntington em seu estado quase inicial. As células que estão morrendo por enquanto fazem ele perder um pouco de sua coordenação, mas isso vai piorar muito. Haverá um tempo que não irá conseguir mais andar. Depois, não vai conseguir se mexer. Em algum momento, não terá nem forças para mastigar, a demência vai tomar conta de seu cérebro e ele vai olhar para o Naruto e não vai reconhecê-lo. O Iruka vai perder a capacidade de falar, de se movimentar, de pensar e, talvez, até de respirar. Ele pode morrer engasgado também. Sasuke.
— Não há nada que podemos fazer? — Sasuke quis saber e descobriu em sua voz um sussurro emocionado, fraco e falho.
— Não tem cura. Há os remédios para ajudar, é claro, mas são caros.
— Por isso o Naruto trabalha tanto. — Compreendeu subitamente.
— E por isso ele foge de todos que tentam se aproximar. Ele tem muito medo de acabar como o Iruka, Sasuke. Ele está muito traumatizado. Imagine, ter que assistir — sem poder fazer nada — seu próprio pai morrer um pouquinho a cada dia e, quando menos se espera, descobrir que seu tio vai ter o mesmo destino. É uma doença silenciosa, não há sinais antes dela se revelar, por isso que ele tem medo, afinal — mesmo que saiba que não vamos abandoná-lo caso o pior aconteça —, sabe o quão duro é acompanhar quem portar isso. Ele sabe que vamos sofrer e, por isso, já perdi as contas de quantas vezes aquele idiota teimoso já tentou se afastar de mim. Ele não quer dar trabalho, no final das contas.
O Uchiha assentiu, tristemente, entendendo os sentimentos do amigo.
— Não vou abandonar ele, não importa o que aquele idiota faça ou fale. — Shikamaru declarou, libertando um pouco de fumaça por sua boca. Ela vagou, livre pelo ar, até sumir no dia cinzento de outono.
— Nem eu.
— Tem certeza do que diz, Uchiha? — Dessa vez, sua voz não era mais amistosa, mas sim cuidadosa, como uma víbora se esgueirando cautelosamente ao redor do estudante, pronta para dar o bote a qualquer momento — O Huntington é só a ponta de um iceberg que atormenta o Naruto.
— Eu não ligo.
— Assistir a morte do pai e o estado do Iruka deixaram traumas irreparáveis no Naruto — Avisou, as sobrancelhas franzidas e trazendo ao olhar um brilho opressor — Não é todo mundo que consegue lidar com isso.
— Não ligo. — Tornou a responder, focando em seu cigarro — Ele é meu amigo.
Uzumaki Naruto, mesmo o conhecendo tão pouco, jamais desistira de Sasuke e, disso, o Uchiha jamais se esqueceria. Na noite tão sufocante, depois de ser cortado da viagem da Coréia e contado a Itachi a tragédia, fora o Uzumaki a salvá-lo, buscando-o naquele bar tão desprezível. Ele estivera ao seu lado, prestando atenção em seu desabafo, quando o estudante de direito precisara. O funcionário do fast-food era a única pessoa que conhecia que se alegrava em receber bocas-de-leão como presente, sorrindo tanto que poderia ser o próprio sol, iluminando uma cidade inteira com sua alegria tão contagiante. Ele também entendia o amor por cafés e usara suas habilidades na cozinha para agradar unicamente o Uchiha. Sendo tão especial, como Sasuke poderia abandoná-lo?
Não falaria aquilo para Shikamaru, é óbvio. O homem de cabelos presos naquele coque desleixado não precisava saber de detalhes dos seus sentimentos por Naruto. Mas, ao sustentar os olhos negros e duros naqueles castanhos cansados, Sasuke passou toda a firmeza que suas palavras precisavam. Felizmente, o Nara pareceu entender, pois desfez a expressão rude e sorriu, distribuindo um amigável tapinha em seu ombro.
— Seja bem-vindo ao barco, então.
Continuaria com a cruel ironia, se seu telefone não começasse a tocar. O atendendo, permitiu que os olhos se arregalassem, ouvindo o que a voz no aparelho proferia. Sasuke ficou em alerta, quando ele que já estava saindo dali.
— O que foi? — Exigiu saber.
Shikamaru ficou em pé e apagou o resto do cigarro com a sola do sapato.
— É sobre o Naruto. Os médicos têm notícias.
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